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5. I. KILIÇ ARSLAN’IN ÇOCUKLARI

5.4. MESUD

A comunidade onde vivem as famílias que participaram da pesquisa é cercada por grandes plantações de fruticultura irrigada, nas quais se utiliza um enorme volume de produtos químicos, principalmente agrotóxicos e fertilizantes. Todos (as) os (as) entrevistados (as) relataram algum nível de exposição ambiental aos agrotóxicos, tanto na comunidade de Tomé, como em residências localizadas em outras regiões nas quais viveram no passado. Reconhecemos que estes produtos pulverizados nos arredores dos domicílios podem contaminar diversos ecossistemas, como o solo, o ar, as águas (superficiais e profundas), os

alimentos, e, também, os (as) moradores (as) que vivem cercados por estas plantações, mesmo aqueles (as) que nunca trabalharam em contato direto ou indireto com estes produtos.

Conforme discorremos no início do trabalho, partimos de uma compreensão de que o agronegócio constitui-se como um modelo de produção que engloba setores diversificados da economia, e, nos últimos anos, o fortalecimento e imposição desse modelo produtivo às várias regiões do território nacional transformou as relações construídas historicamente dos (as) agricultores (as) com a terra, pois, há algumas décadas, as políticas governamentais incentivam, e, em determinados casos, impõem, a adoção de técnicas e o uso de produtos outrora desconhecidos na agricultura familiar. Desta forma, não nos surpreende o fato de as famílias entrevistadas afirmarem que os cultivos existentes em seus domicílios, nos períodos correspondentes à infância e adolescência dos pais das crianças adoecidas, não eram pulverizados por agrotóxicos, enquanto, na atualidade, mesmo nas plantações mantidas de forma autônoma por estes (as) agricultores (as), suas famílias ou por associações de pequenos agricultores (as), são utilizados agrotóxicos. Devemos lembrar que, além dos incentivos fiscais ao uso destes produtos, ao longo dos anos, o esgotamento dos bens naturais e a resistência dos seres vivos à aplicação dessas substâncias tornou a utilização intensiva dos agrotóxicos e o uso cada vez mais corriqueiro de substâncias com alto grau de toxicidade uma prática imposta aos (às) pequenos (as) agricultores (as).

Ao visitarmos os domicílios das famílias e caminharmos pela comunidade de Tomé, constatamos que existe uma contiguidade alarmante entre as residências e as plantações da fruticultura. Diante deste cenário, podemos afirmar que todas as comunidades e famílias que vivem nesta região estão expostas ambientalmente aos agrotóxicos. Pesquisas realizadas ao longo dos últimos anos têm demonstrado a contaminação das fontes de água (superficiais e profundas) e do ar por agrotóxicos. Assim, também é recorrente entre as famílias os relatos de que, desde o início das denúncias a respeito da contaminação por agrotóxicos da água utilizada para consumo humano, por volta do ano de 2010, a maioria dos (as) moradores (as) começaram a comprar recipientes de água (mineral ou adicionada de sais) para ingestão das famílias.

Fonte: Acervo da pesquisa do Núcleo TRAMAS

Fonte: Acervo da pesquisa do Núcleo TRAMAS

Precisamos lembrar que o fornecimento de água para as famílias da região acontece pelo mesmo canal que atravessa as grandes plantações de fruticultura irrigada, o qual percorre aproximadamente catorze quilômetros a céu aberto da sua origem até as comunidades. Em relação à contaminação da água para consumo humano, existem dois estudos principais realizados na Chapada do Apodi (CE) que corroboram a presença de princípios ativos de agrotóxicos nos reservatórios de água (superficiais e profundos) que abastecem as comunidades. O primeiro estudo, realizado em 2008, pela Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (COGERH), após coleta de dez amostras de água oriundas de poços da região, constatou a presença de ingredientes ativos de agrotóxicos em cinco amostras de água. O segundo estudo, realizado pelo Núcleo Tramas, no ano de 2009, a partir da coleta de 24 amostras de água dos canais que abastecem as comunidades, das caixas d’água e de poços profundos, revelaram a presença de princípios ativos de agrotóxicos em todas as amostras analisadas (entre 3 e 12 produtos) (MARINHO; CARNEIRO; ALMEIDA, 2011).

Especificamente sobre a comunidade de Tomé, nessa mesma investigação realizada pelo Núcleo Tramas, no ano de 2009, foram identificados 12 princípios ativos de agrotóxicos em um poço profundo do distrito, sendo o local onde a variedade de produtos foi maior em comparação às outras amostras analisadas. Dentre os venenos, Abamectina, Difenoconazol, Tepraloxidym pertencem à Classe Toxicológica I (Extremamente Tóxico); Cletodim, Carbofurano, Carbaril e Fenitrotiona (Classe II- Altamente Tóxico) e Procimidona, Tebuconazol, Glifosato e Ciromazina (Classe IV- Pouco Tóxico). A interpretação dos resultados sobre a totalidade das amostras de água coletadas para investigação de princípios ativos de agrotóxicos na região nos revela que as substâncias mais presentes nas análises foram Carbaril, Procimidona, Carbofurano, Fenitrotiona, Tebuconazol, Cletodim, Tepraloxydim, Glifosato, Abamectina, Difenoconazol, Flumuioxazina, Fosetil, Ciromazina, Imidacloprido, Azoxistrobina e Endosulfan (MARINHO; CARNEIRO; ALMEIDA, 2011).

Ainda sobre a exposição ambiental aos agrotóxicos, um item que merece uma reflexão à parte é a pulverização aérea dos agrotóxicos, prática agrícola utilizada na região, principalmente a partir dos anos 2000, após a implantação das grandes empresas de fruticultura irrigada. Estudos comprovam que a aplicação de agrotóxicos por meio da pulverização aérea ocasiona a contaminação do ambiente e das populações nos arredores das plantações, por meio da denominada deriva técnica, pois já se constatou apenas 32% das substâncias aplicadas permanecem nas plantas, 19% se disseminam pelo ar, atingindo as áreas que estão ao redor das plantações, e 49% ficam retidas no solo, informações disponibilizadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA (PIGNATI; MACHADO; CABRAL, 2007), ou, a depender das características climáticas da região, se disseminam para localidades distantes da origem onde foi aplicada o produto, contaminando as pessoas, cisternas, plantações e demais componentes dos lugares de vida comunitária.

Em relação à região da Chapada do Apodi (CE), especificamente, entre os anos 2000 e 2010, foram pulverizados um volume correspondente a 4 milhões de litros de calda extremamente tóxica ou muito tóxica, altamente persistente no meio ambiente e muito perigosa, somente por meio da pulverização aérea, sendo os principais princípios ativos utilizados nesta atividade: Difenoconazol, Piraclostrobina + Epoxiconazol, Trifloxistrobina + Tebuconazol, Propiconazol e Tebuconazol (TEIXEIRA, 2011). Além desse volume considerável de agrotóxicos, principalmente se analisarmos este número a partir de uma perspectiva territorial, compreendendo que as comunidades da Chapada do Apodi (CE) são numericamente pequenas, ou seja, todo esse volume de agrotóxicos concentra-se em alguns milhares de habitantes, é importante também ressaltarmos que os produtos utilizados na

pulverização aérea de agrotóxicos foram encontrados nas análises dos reservatórios de água da região, e, alguns desses ingredientes ativos são considerados altamente tóxicos, potencialmente teratogênicos e desencadeadores de desregulações endócrinas.

Ainda sobre a contaminação ambiental por agrotóxicos na região, Sousa (2015) realizou estudo para verificar e quantificar a presença do ingrediente ativo Glifosato, um dos herbicidas mais comercializados e utilizados no Brasil e no mundo. A autora analisou a presença de Glifosato tanto associado às Partículas Totais em Suspensão (PTS, µg/m³), como em sua fase gás. Os resultados da pesquisa evidenciaram que, na zona rural, o glifosato associado ao PTS apresentou níveis entre 0,002 e 0,144 µg/m³ (média de 0,055 µg/m³) e na fase gás entre 0,313 µg/m³ e 2,939 µg/m³ (média de 1,218 µg/m³). Na zona urbana, o glifosato associado ao PTS variou entre 0,009 µg/m³ e 2,576 µg/m³ (média de 1,006 µg/m³). De acordo com a autora, estes valores devem ser considerados relevantes e preocupantes em termos de saúde humana e ambiental (SOUSA, 2015).

As fontes de exposição aos agrotóxicos na região são múltiplas, desta forma, além das plantações que circundam os domicílios, destaca-se também a ingestão de água e alimentos contaminados, além da exposição a produtos utilizados nas campanhas de saúde pública para combate aos vetores que transmitem arboviroses. Em relação a esta última via de exposição, durante as entrevistas, algumas mulheres destacaram que a pulverização de agrotóxicos por veículos automotores não somente se constitui como uma prática comum utilizada pela secretaria de saúde do município, como destacaram a relação entre esta prática e a manifestação de sintomas típicos de intoxicação aguda por agrotóxicos nelas, os quais levaram estas moradoras a recorrerem aos serviços hospitalares de emergência, inclusive nos períodos gestacionais. Outro relato recorrente nas falas das mulheres foi o hábito de os maridos que trabalham nas plantações em contato com os agrotóxicos levarem as suas vestimentas para serem lavadas nas suas respectivas residências, na grande maioria das vezes, por suas esposas, ocasionando uma exposição de todos os membros daquele núcleo familiar aos produtos com os quais o trabalhador entrou em contato. De acordo com Teixeira et al. (2011), que estudaram a exposição ocupacional dos trabalhadores da região aos agrotóxicos, 94,7% dos trabalhadores do agronegócio, 96,2% dos agricultores familiares e 96,0% dos agricultores agroecológicos/assentados relataram que suas roupas utilizadas durante o trabalho eram lavadas em casa.

Ao analisarmos as características físico-químicas dos agrotóxicos, podemos verificar que, enquanto alguns produtos são rapidamente degradados no ambiente, outros possuem a capacidade de se acumular nos ecossistemas durante um longo período de tempo.

Como os seres humanos estão no topo da cadeia alimentar, esses produtos com capacidade de permanecer no ambiente de forma duradoura, em geral, concentram-se com maior intensidade nas pessoas, último nível da cadeia trófica, em um processo denominado magnificação trófica ou bioacumulação. Por isso, mesmo que alguns produtos não estejam mais sendo utilizados na região há bastante tempo, os mesmos ainda podem estar presentes no ambiente e nos tecidos corporais humanos e são potencialmente desencadeadores de efeitos crônicos.

Ainda sobre as inter-relações entre a exposição ambiental aos agrotóxicos e o surgimento de efeitos crônicos, pesquisa realizada por Barbosa (2016), ao analisar as taxas de mortalidade por câncer infantojuvenil no estado do Ceará, entre os anos de 2000 e 2011, constatou que nas regiões de Camocim/Acaraú, Baixo Jaguaribe e Cariri houve uma elevação na média anual desses agravos no período estudado. Foi verificado que as maiores concentrações de casos de câncer infantojuvenil estão nas microrregiões que apresentam polos de irrigação. Na região do Baixo Jaguaribe, especificamente, constatou-se que o fator de risco mais relevante para o desencadeamento dos casos de câncer entre crianças e adolescentes foi a exposição aos agrotóxicos.