OLGUNLAġ(TIRIL)MASI, MUHTIRA VE SĠYASÎ YENĠDEN BĠÇĠMLENĠġ
C. Refahyol’un Kurulması ve Muhtıra Ġçin Hazırlanan Olaylar
3. TSK’dan Zinde Kuvvetlere Çağrı: “Bu Defa İşi Silahsız Kuvvetler Halletsin”
A relação entre os missionários e os Yanomami expressa-se frequentemente nas narrativas indígenas pelo verbo noamaɨ, proteger ou defender. Este verbo aparece, em contextos referentes às agressões sofridas pelos Yanomami em seu território, como a penetração de trabalhadores durante a construção da estrada Perimetral Norte e a invasão de garimpeiros, indicando uma forma de “proteção” que a Missão exercitara frente a outros não indígenas, extrativistas e expansionistas. Davi Kopenawa (2015), com a consciência de seu envolvimento nas lutas do movimento indígena, fala nos sguintes termos da Missão:
100 Diálogo com Pedro, na Missão Catrimani, no dia 10 jan. 2014, e com Fatima e André na comunidade de
Kuremapi, no dia 02 de jan. 2015, registrada no diário pessoal. Witi naha napë thëpë thakematha? Winaha napëpë kuaamatha? Hweha pë pɨrɨo, pë yai pɨrɨoimi:
O que os napë [padres] fizeram? Permanecendo aqui [na Missão], eles não se estabeleceram [para tomar nossa terra].
Yanomae wamarekɨ he ruamaɨ pihioma yarohe. Wamarekɨ noamaɨ pihioma yarohe thëpë yahipë thamokema: yahi a thakemahe pë miowi, pë kiaɨwi.
Ɨhɨ thë thaɨhe tëhë o padre missão Catrimaniha a kiaaɨ tëhë yamakɨ pairipoma. Pairimaɨ tëhë totihi. Ai napë pë mohotiowi, pe kua yaro, o Governo pata maki, Yanomae thëpë urihipë hamë, Governo a patamuwi, Brasil urihi pouwi, urihi në utupë pou puo. Pei urihi yai pouimi! Ɨhɨ thëpë, kama ihurupë e pë huu tëhë e pë mohoti: hiya thëpë mohotimou.
Ɨnaha, Missão Catrimani hamë, padre a pihi kuma yaro, Missão a thaprarema. Witi thë ria thanɨ, Missão a thaprarema tha? Hwei yamakɨ pairipu. Yamakɨ pairipu. Yamakɨ tɨrɨmɨpu. Yamakɨ noamaɨ pihio yaro. Wamarekɨ noamaɨ pihio yaro a pairia. Ɨnaha kami riha, thë kua. “A pɨria puo, yamakɨ pairipoimi”: kami ya kuuimi, kami riha thë waoto.
Hapa ya oxeo tëhë, ya pihi kuma: “Oh, padre, witi pi thaɨ tha?” Ya pihi kuma maki, urihi noamatima thëãha, ɨhɨ tëhë ya pihi moyamɨrayoma. Totihi, padrepë pihi mohotiimi. Wamarekɨ wayamaimi.
Kama mori a kupëpëha, kama yahi a thakema. Yahiha thakɨnɨ, kama pë kiaɨwi thë thaɨ xoaowi: Yanomae yamakɨ kuapëhenaha thëpë taaɨ, mamo xatio: “Witinaha yanomae thëpë kuaɨ tha? Wɨnaha yanomae thëpë pɨrɨaɨ thë kuaɨ?”
Mas para cuidar de nós Yanomami. Os napë [missionários] queriam nos defender. Por isso construiram a casa deles para dormir, para trabalhar.
Fazendo isso, com seu trabalho nos ajudaram na missão Catrimani É bom que nos ajudem. Existem napëpë irresponsáveis (maus). O Governo [afirma] que a Terra Yanomami está sob o seu controle, que ele se responsabiliza por ela, mas apenas tem este controle no papel [nos mapas]. Não tem poder efetivo sobre esta Terra. Por isso, seus funcionários agem de forma irresponsável: [como] agem os jovens. Pensando isso, os padres constituíram a Missão Catrimani. Com que objetivo decidiram fundar a Missão Catrimani? Para nos ajudar, para cuidar de nós, pois querem nos defender. Nos acompanham para nos defender. Para mim é assim. Eu não penso: “Eles moram sem razão, não nos ajudam”, para mim está claro.
Anteriormente, quando era criança, eu pensei: “Oh, o que os padres fazem?” Eu pensava assim, mas compreendi durante a luta pela defesa de nossa terra. Foi bom, os padres não foram despreocupados, eles não agiram contra nós.
Logo que chegaram construiram sua casa e começaram com seu trabalho: observaram como vivíamos nós Yanomami, prestaram atenção [interrogando-se]: “Como fazem os Yanomami? Como vivem?”
Verificamos que o termo noamaɨ é usado por Kopenawa (2015) no sentido de proteger e garantir a preservação do território contra a presença de invasores. Isso resulta claro quando – preocupado com a cobiça que o Governo e as empresas de mineração demonstram para com os recursos da terra/floresta que consideram ser “suas mercadorias” –, falando em português, deixa seu recado político acentuando que a Missão Catrimani desempenhou função importante, “protegendo este lugar, para não deixar entrar outro pessoal estranho, para ficar no lugar da missão”.
Além do verbo noamaɨ, aparecem aqui outros verbos com um sentido parecido: he ruamai e thɨrɨmɨpu. O primeiro indica proteger alguém, bem como apoderar-se de algo (LIZOT, 2004, p. 75), podendo, portanto, aproximar esta expressão à de pou, com os dois significados de posse/controle e de responsabilidade/cuidado. O segundo verbo expressa a ação de cuidado e atenção dos pais para com os filhos (PERRI FERREIRA, 2011, p. 122).
Outro verbo presente neste texto e usado comumente para qualificar a relação com algumas pessoas e entidades indigenistas é o termo paɨrio. Entre os Yanomami, ouvi as pessoas usarem este verbo para pedir ajuda no trabalho, convidar a uma caçada coletiva, acompanhar uma circunstância particular, solicitar intervenção para revidar quem tivesse oferecido quantidade muito grande de mingau durante o consumo ritual no reahu, ou apenas procurar cumplicidade.
Conjugado em suas mais diversas formas e referido a uma entidade indigenista – como pode ser uma agência missionária –, este verbo expressa, de modo geral, a ação de ajudar, acompanhar, assessorar e tomar o partido do povo indígena. Frequentemente, as entidades indigenistas e seus membros são denominadas paɨrimatima (ou paɨriotima) significando, no campo interétnico, aliados ou parceiros. Os discursos de Davi Kopenawa, de Alexandre Yanomami (Membro do Conselho Distrital de Saúde Yanomami) e de algumas lideranças que acompanham questões referentes à educação escolar, frisam a divisão das instituições e organizações da sociedade não indígena entre os parceiros e os que não são aliados. As comunicações ressaltam a dicotomia entre o cuidado para com os Yanomami, demonstrado pelos primeiros, e o descuido pelo serviço realizado pelos outros.101
101 Os missionários, com base em uma classificação resultante das experiências de relacionamentos mantidas há
várias décadas com diversas agências da sociedade envolvente – servidores da Funai, militares, exploradores de recursos da terra e da floresta, agentes do serviço de assistência médica etc. – são considerados como aliados e parceiros. Nesta categoria de classificação muito ampla, que visa identificar alguns agentes que atuam no palco interétnico, os missionários são colocados ao lado do pessoal do órgão indigenista oficial e do pessoal de saúde, destacando suas práticas de ação em relação aos indígenas; a contribuição na defesa de algumas reivindicações como a demarcação do território e a assistência sanitária e sua atitude no relacionamento interpessoal; a