A linha de investigação conhecida como Conhecimento Profissional do Professor ou Saberes Profissionais do Professor tem merecido destaque, levantando uma série de interrogações acerca do conjunto de saberes ou conhecimentos, necessários ao exercício da docência. A formação para o ensino toma progressivamente, contudo, uma nova direção, centrada na aprendizagem de competências profissionais.
“A profissionalização requer o envolvimento dos professores, exigindo que eles não sejam receptores passivos, mas agentes de mudanças essenciais e de inovações”. (NÚÑEZ E RAMALHO, 2012.p.237). Os autores colocam bem essa posição, visto que, na atualidade, torna-se indispensável, na prática docente, uma nova postura, de mudança, o novo deve estar inserido na sala de aula, é assumido como meta para melhor desenvolvimento de atividades inovadoras.
É nessa perspectiva de ações inovadoras, capazes de contribuir para a melhoria ensino, que a prática docente deve ser configurada com base em propostas mais atrativas e que possibilitem o professor a inovar em seu planejamento de atividades.
O conhecimento profissional, enquanto elemento da profissionalidade e da identidade profissional, tem sido estudado por diversos autores como Marcelo (2012); Tardif (2007); Ramalho, Núñez e Gauthier (2003); Shulman (1986), entre outros. No caso de ciências naturais, eles têm sido objeto de estudo de especialistas do ensino dessa área de conhecimentos, entre eles, Carvalho e Gil (2012); Pórlan et al (2010); Carvalho e Gil (2011); Carrascosa et al (2008). O conhecimento profissional, na opinião de Pórlan e Rivero (1997), “é uma expressão sui generis, na qual se misturam teorias do campo do saber científico, manifestações peculiares da experiência cotidiana, hábitos, rotinas, reflexões teorias pessoais e crenças”. Os autores consideram, ainda, o conhecimento profissional desejável como conhecimento epistemologicamente diferenciado, que resulta da reelaboração e integração de diferentes saberes, concebido como sistema de ideias em evolução gradativa, do simples ao complexo.
Na visão de Núñez e Ramalho (2014), o conhecimento profissional é ainda um componente da identidade profissional em que a formação inicial exerce um papel preponderante como um primeiro momento de socialização e de construção de saberes profissionais. Ser um professor de Química profissional exige domínio da base de conhecimentos, atitudes, valores que permite o exercício competente da profissão com as finalidades da educação científica na escola básica. Dessa forma, a questão dos saberes passa a ser vinculada à profissionalização docente, visto que cada categoria profissional detém determinados saberes que diferenciam seus profissionais de outra categoria profissional.
Enquanto profissional, o professor de Química precisa acreditar na sua prática, o que exige a mobilização de saberes, valores, atitudes, ética, de um saber fazer. Esses saberes profissionais específicos não são reconhecidos diretamente após um processo de formalização da prática. A questão da autonomia é fundamental para o processo de profissionalização. Os conhecimentos também caracterizam a atividade docente. A seguir, são definidos e caracterizados tipos de saberes, necessários a uma formação docente.
Tipologias
Existem diferentes tipologias de saberes/ conhecimentos docentes relacionados à atividade profissional, como ressalta (NÚÑEZ; RAMALHO, 2009.p.164). As pesquisas têm identificado diferentes tipos de saberes que conformam a complexidade dos saberes docente. Gauthier (1998), Porlán, Rivero e Martín (1997, 1998), Carrascosa et al. (2008), Furió (1996), Shulman (1986), Tardif e Borges (2001) têm proposto tipologias de saberes docente. O presente estudo é focado em três tipos de saberes: disciplinares, curriculares e conhecimento pedagógico do conteúdo (SILVA; NÚÑEZ; RAMALHO, 2001).
Assim, uma análise das propostas dos diferentes autores permite destacar os saberes disciplinares, os saberes curriculares, os conhecimentos pedagógicos do conteúdo com aqueles que melhor se relacionam com o estudo em questão.
Os saberes disciplinares: referem-se aos saberes produzidos pelos pesquisadores e
cientistas nas diversas disciplinas científicas, ao conhecimento produzido a respeito do mundo e legitimado pela academia. Esses saberes disciplinares penetram na cultura do professor; por isso, ele precisa de uma extensa cultura relativa aos conteúdos, procedimentos que constituem recursos para o seu fazer profissional.
De acordo com Marcelo e Vaillant (2009), o conhecimento do conteúdo que se ensina parece ser a marca da identidade e do reconhecimento social, mas ensinar, segundo os referidos, esse conhecimento não é um indicador para ser só da qualidade da formação, mas também o conhecimento do conteúdo, incluindo diferentes elementos, entre os quais, destacam: o substantivo e o sintático. O primeiro diz respeito ao corpo de conhecimentos gerais da disciplina, ou seja, os conceitos específicos, as definições e os procedimentos que determinam o que os professores devem ensinar. O segundo refere-se ao domínio do professor acerca dos paradigmas de pesquisa da disciplina, do conhecimento relacionado com a validez, tendências, perspectivas e pesquisas no campo da disciplina.
A formação inicial precisa discutir o conhecimento da disciplina, da sua estrutura lógica e psicológica, as atualizações e os avanços, além de propiciar reflexões críticas em relação aos conteúdos dos livros didáticos, ou seja, os professores devem ter um bom domínio de conteúdos, para que possam trabalhar os conteúdos escolares dentro de uma proposta da ciência atual. Sendo assim, o saber da leitura compreensiva, enquanto saber disciplinar, é de extrema importância nesse processo.
Os saberes curriculares: são os saberes selecionados e organizados num corpus
considerado nos programas escolares. Compreendem os conteúdos que os professores devem dominar para poder cumprir os currículos e programas da escola, dizem respeito ao domínio dos programas e matérias dos projetos pedagógicos da escola. Enfim, é o programa oficial da disciplina, sintonizado com o projeto pedagógico da escola, com as orientações curriculares, como os PCNEM e os PCNs, constituindo, assim, uma ferramenta essencial para o trabalho docente.
Conhecimento pedagógico: é o conhecimento que, segundo Imbernón (2010), permite
analisar e responder o porquê de uma determinada seleção de conhecimentos, quais são os que se pretende trabalhar com os estudantes, como será feito e porque se reúne a condição de conhecimento relevante e útil no contexto no qual se desenvolve. Permite selecionar qual é a
metodologia didática mais adequada para favorecer a aprendizagem, ou seja, esses conhecimentos se mobilizam como referentes para teorizar, executar e justificar a prática, planejar, sobretudo para refletir de forma crítica sobre ela.