A segunda heurística a ser apresentada é a heurística da disponibilidade, que faz com que julgamentos ocorram com base na disponibilidade da informação na memória dos indivíduos. Segundo TVERSKY & KAHNEMAN (1973, 1974), eventos são julgados mais prováveis de ocorrer se são fáceis de imaginar ou recordar.
Assim, por exemplo, a ocorrência de assaltos em uma determinada cidade pode ser estimada por alguma pessoa de acordo com a lembrança que ela possui sobre ocorrências de assaltos nesta cidade. De maneira semelhante, um gerente de projetos pode avaliar o sucesso ou fracasso da data de entrega de um projeto de acordo com a lembrança de outros projetos em situações semelhantes.
Em muitas ocasiões, a heurística de disponibilidade levará a julgamentos corretos porque, em geral, exemplos de eventos de maior freqüência revelam-se mais rapidamente em nossas mentes do que eventos menos frequentes. É extremamente importante, entretanto, perceber que o uso incorreto da heurística da disponibilidade pode levar a erros sistemáticos, porque a
disponibilidade de informações é afetada por outros fatores como a vividez com que é revelado, a familiaridade e a facilidade com que é imaginado.
Assim como na heurística anterior, Amos Tversky e Daniel Kahneman realizaram uma série de experimentos que identificam vieses cognitivos relacionados à heurística da disponibilidade. Veremos mais detalhadamente a seguir.
A. Facilidade de Lembrança (com base na vividez e na recentidade)
TVERSKY & KAHNEMAN (1974) afirmam que três fatores podem influenciar a facilidade de lembrança: além da freqüência e probabilidade, também a vividez, a familiaridade e a proximidade no tempo com o evento ocorrido. BAZERMAN (2006) apresenta o seguinte problema para ilustrar este viés cognitivo:
“Classifique as seguintes causas de morte nos Estados Unidos entre os anos de 1990 e 2000, colocando 1 na causa que achar a mais comum, 2 na segunda mais comum e assim por diante: ______ cigarro
______ dieta pobre e inatividade física ______ acidentes automobilísticos ______ mortes por armas de fogo ______ uso de drogas
Agora, estime o número de mortes causada por cada uma das cinco causas entre 1990 e 2000.” (p. 18)
De acordo com uma publicação da Associação Médica Americana, o número de mortes das duas primeiras causas, cigarro e dieta/inatividade física, são, respectivamente, 435.000 e 400.000, enquanto que as últimas três causas resultaram em um número muito menor de mortes – 43.000, 29.000 e 17.000 mortes, respectivamente. As mortes causadas por acidentes automobilísticos, mortes por armas de fogo e uso de drogas tendem a ter uma cobertura muito maior da mídia impressa e escrita, influenciando o julgamento dos indivíduos. Assim, a disponibilidade de histórias vívidas nos meios de comunicação cria um viés na nossa percepção da freqüência de ocorrência dos eventos. Com isto, nossa tendência é de superestimar os perigos causados por carros, armas de fogo e drogas.
Outro problema apresentado por TVERSKY & KAHNEMAN (1974) refere-se à vividez da informação, no qual os indivíduos ouviram uma lista de nomes de pessoas famosas de ambos os sexos e em seguida, foram perguntados se a lista possuía mais nomes de homens do que de mulheres. Foram elaboradas diferentes listas que eram apresentadas para diferentes
grupos de pessoas. Em um dos grupos foi feita a leitura de uma lista na qual as mulheres eram relativamente mais famosas do que os nomes dos homens constantes na lista mas, que, no geral, continha um número maior de homens. Para um outro grupo, a questão se inverteu e nesta lista os homens eram mais famosos, mas o número de mulheres era maior. Após ouvir a lista de seu grupo, foi perguntado aos participantes de ambos os grupos se a lista continha mais nomes de mulheres ou de homens. Ambos os grupos concluíram erroneamente seus resultados, pois nos dois o sexo que incluía as personalidades mais famosas era o mais numeroso. Como no estudo apresentado, além da familiaridade, somos suscetíveis à recentidade e a vividez de alguns eventos que ocorrem na nossa vida. TVERSKY & KAHNEMAN (1974) afirmam que somos inclinados a superestimar eventos improváveis. Por exemplo, o impacto de ver uma casa queimando, irá alterar muito mais a nossa probabilidade subjetiva do acontecimento de tais acidentes do que se meramente tivéssemos lido sobre um incêndio em um jornal local. Ou seja, nossa observação direta do evento o tornou mais saliente para nós.
B. Recuperabilidade (baseada em estrutura de memória)
Outro viés cognitivo referente à heurística de disponibilidade diz respeito ao fato de que as pessoas realizam julgamentos baseados na capacidade de recuperar as infomações em sua memória, ou seja, elas avaliam e tomam decisões baseadas na facilidade com que as situações estão disponíveis na memória (TVERSKY & KAHNEMAN, 1973, 1974).
Para testar este viés cognitivo, TVERSKY & KAHNEMAN (1973) propuseram o seguinte problema:
“Considere a letra R. Há mais palavras, na língua inglesa, que começam com a letra R ou que têm R como sua terceira letra?” (p. 167)
Esta mesma pergunta foi feita com outras letras (K, L, N e V), e mesmo assim a maioria das pessoas julgou que as palavras começando com a letra R (ou qualquer uma das outras letras mencionadas) são mais comuns, apesar de na língua inglesa estas cinco letras serem mais comuns na terceira posição. A justificativa para este resultado é que é mais fácil produzir palavras na estrutura de memória que comecem com a letra R, do que com o R na terceira letra.
Outro problema proposto por TVERSKY & KAHNEMAN (1983) solicitou a dois grupos que estimassem, em um trecho de 2000 palavras, o número de palavras de uma determinada
forma gramatical. Para um grupo, a forma era _ _ _ _i n g (sete letras terminado com “ing”) e para o outro grupo, a forma era _ _ _ _ _ n _ (sete letras com o “n” na penúltima letra). Evidentemente, não podia haver mais palavras de sete letras terminando com “ing” do que palavras de sete letras com “n” como penúltima letra, pois todas as palavras de sete letras que terminam com “ing” também têm um “n” como sua sexta letra. Porém, como a disponibilidade na memória de palavras terminadas em “ing” é muito maior, ou seja, são mais facilmente recuperáveis da memória, as estimativas de probabilidade eram duas vezes mais altas para a primeira forma gramatical quando comparadas com a segunda.