O termo grego λυχνάριον significa lucerna, lucernetta ou para o português no Brasil, simplesmente lamparina, trata-se, na verdade, de um substantivo feminino da palavra λυχνία. Pelo menos desde o fim do século XIX as lamparinas como área dos estudos cerâmicos de iluminação recebem atenção por parte de uma gama de intelectuais. Entretanto, apesar da sumarização dos dados obtidos nos mais distintos catálogos e do conhecimento de alguns centros produtores, ainda hoje não se tem a mesma relação estabelecida para as características gerais das lamparinas que foram produzidas nestes mesmos centros produtores.
Nos últimos quarenta anos o conhecimento sobre as cerâmicas de iluminação avançou de forma significativa e assinalando essa premissa Ángel Cerdan (1990) aponta que “La mayor parte de las Memorias de Excavación recogen este material. La publicación de catálogos de colecciones y museos más importantes se halla en una fase muy avanzada. Los análisis químicos de pastas así como los estudios iconográficos, de producción y comercialización abren nuevas vias de aproximación al tema con prometedores resultados..” (p. 143). É assim que, apesar dos desdobramentos mencionados, a elaboração das tipologias ainda figura como um ponto sensível que
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O garum ou liquamen era um género de condimento feito de sangue, vísceras e de outras partes
seleccionadas do atum ou da cavala misturadas com peixes pequenos, crustáceos e moluscos esmagados; deixado em salmoura e ao sol durante cerca de dois meses ou então aquecido artificialmente.
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carece da integração sistemática dos dados dispersos entre os autores e suas tipologias próprias. Existe um acentuado número de classificações advindas dos mais variados pontos do império romano, sendo que algumas dessas classificações – na verdade boa parte delas – foram realizadas sobre coleções contidas nos museus, o que implica muitas vezes na falta do controle estratigráfico e comprometimento das cronologias propostas. Portanto, para levar a cabo um estudo sobre as cerâmicas de iluminação no contexto atual, como bem observa Cerdan (1990), é necessário enfrentar um acúmulo de classificações morfológicas de origem, estrutura e terminologia muito variada, necessitando um labor prévio de revisão de cada uma delas. A partir desse primeiro passo, então, é possível buscar as equivalências e similaridades, procurando alinhar o conjunto de peças selecionadas ao contexto amplo dos estudos cerâmicos. Essa relação torna-se um árduo, complicado e pouco gratificante trabalho (Cerdan 1990: 144). Por
não haver um “Corpus”, como acontece em outras produções cerâmicas, que sirva de
guia-base, é comum deparar com muitas formas que coincidem em aparência, porém têm nomenclaturas diferenciadas. Além de que, em outros casos, a presença ou ausência de decoração implica na indecisão a respeito de a qual grupo pode a peça pertencer. Essa variabilidade tipológica obedece diametralmente aos critérios de classificação e seleção que cada investigador postulou e empregou como premissa a seguir em seu trabalho. Algumas vezes priorizam-se os aspectos tecnológicos e/ou decorativos e em outros casos a relação da morfologia, cronologia ou a conjugação de ambos que fica em evidência, sendo os catálogos anteriores à década de setenta do século passado7 aqueles que mais se utilizam da prerrogativa da morfologia, considerando-a a mais útil.
O primeiro a propor uma sistematização tipológica baseado nas formas para as cerâmicas de iluminação foi Dressel (1889), seguido por um intervalo de dez anos por Besnier e Blanchet (1900), que estudando a Coleção Forges adotaram como critério tipológico a presença ou ausência da alça nas lamparinas. Dando preferência ao bico e diferenciando quatro formas, Walters (1914) estudou os exemplares do British Museum. Ainda pesquisando as lamparinas do British Museum, Bailey (1980 e 1988) publicou quatro volumes, priorizando a forma e evolução do bico. Os catálogos de Loeshchcke
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(1919) e Broneer (1930) – além do de Dressel (1889) – foram os primeiros a elaborar suas tipologias com base em sítios arqueológicos e escavações com controle estratigráfico, respectivamente Vindonissa e Corinto. Dessa forma, a região centro europeia é mais bem conhecida do que os grandes centros italianos de produção, e suas cronologias melhor ajustadas. O mesmo pode-se dizer em relação ao Norte da África e em algumas cidades como Corinto, Tarso, Olímpia e Atenas, onde se encontram dados seguros.
O que parece ser consensual entre os autores é que as lamparinas romanas derivam de protótipos helenísticos, sendo explicadas as afinidades estilísticas através das relações comerciais entre as cidades helênicas da Campânia e o Lácio (Broneer 1930). Os modelos helênicos8 serviram, portanto, de base para as produções romanas até o período de Augusto, em que um vasto número de produtos gregos foi importado. A partir desse período o indicativo é de que a Península Itálica passou a figurar como principal centro produtor e exportador no Mediterrâneo e outras relações se estabelecem.
Assim, passemos à lista sumária das principais produções do estudo de cerâmicas de iluminação romana:
H. Dressel (1899)
Publicado na secção Instrumentum Domesticum do CIL XV o catálogo é baseado na análise de lamparinas itálicas, este é o primeiro trabalho de sistematização de cerâmicas de iluminação mediante metodologia científica. Dressel classifica trinta e um tipos, aplicando excessiva diversificação e sutis diferenças entre grupos, o que em alguns casos torna difícil sua aplicação. Conforme observa Cerdan (1990), existe um ordenamento cronológico em dissintonia com as formas, sendo que algumas cronologias
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estão erradas, especialmente as relativas às lamparinas de canal (p.145). Entretanto, é um dos mais completos em relação às formas.
H.B. Walter (19l4)
Estudo e classificação das lamparinas romanas do British Museum e considerado um dos melhores. É o primeiro trabalho que atribui cronologias gerais para os grandes grupos, apesar de que alguns desenhos não correspondem exatamente às fotografias das peças. O autor busca salientar as características comuns dos conjuntos e dá prioridade à análise dos bicos caracterizando quatro formas principais e dividindo-as em outras categorizações.
S. Loeschcke (1919)
É o primeiro trabalho baseado em uma estratigrafia de sítio, constituindo-se em modelos para os trabalhos posteriores. O catálogo apresenta uma das mais completas e organizadas tipologias válidas atualmente. O estudo parte da análise das lamparinas imperiais, ficando a parte as do período republicano. Apesar da ausência, o autor propõe a duração temporal das lamparinas com volutas de bico triangular e suas subdivisões, sendo amplamente aceitas suas indicações.
O. Broneer (1930)
Broneer analisou as lamparinas de Corinto, seguindo em certo sentido os critérios estabelecidos por Loeschcke para Vindonissa, entretanto, incorporando produções características do mundo Grego e diferenciando as formas do Mediterrâneo Oriental das importações do Ocidente (Caetano 2001: 43; Pereira 2008). Apresenta uma tipologia muito bem organizada, porém sem a representação gráfica de algumas formas e com muitos subtipos. É o primeiro estudo que particulariza independentemente as lamparinas com volutas e alça plástica, determinando os exemplares constituintes dos séculos II e III d.C. Existe uma pequena diferença de cronologia entre algumas formas
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similares a Loeschcke, e se atribui essa relação a motivos geográficos (Cerdan 1990: 146).
F. Doumergue (1932)
Catálogo que analisa o material do Museu de Oran, atual Argélia, separando as cerâmicas de iluminação em sete grandes grupos cronológicos e culturais, com breve descrição das mesmas. Não pode ser considerada uma inovação na tipologia, embora em alguns casos seja citada como tal. Contém imprecisões cronológicas, sendo a mais evidente aquela em relação às lamparinas com bico redondo sem volutas, que no catálogo datam do século I d.C.
D. Ivanyi (1935)
Adotando o critério da decoração e marcas de assinatura, procura individualizar as formas inspirado principalmente em Loeschke e Broneer. Trata-se, na verdade, da análise de mais de 5.000 fundos de lamparinas romanas advindas da Panonia, atual Hungria, com explicações breves e concisas, e um apurado rigor cronológico.