O sexo, a sexualidade vem de muito antes. Vem da fala dos genitores, vem inscrito no corpo sob a forma de órgãos. Órgãos que nem sempre bastam para determinar o futuro. Há todo um caminho cultural a ser trilhado para que o portador do órgão se complete com uma estrutura psíquica e uma função cultural correspondente a seu sexo. 85
Neste capítulo pretendo apresentar a esquizofrenia e a sexualidade levando em consideração o pensamento freudiano. Dois fragmentos clínicos serão apresentados, o primeiro é do caso ―João‖, um esquizofrênico que é ―louco para ser livre e amar uma mulher direita‖, o pai e a mãe de João foram entrevistados e alguns trechos dessas entrevistas serão apresentados nas próximas páginas. O segundo fragmento é do paciente que chamarei Carlos.
Quando o assunto é sexualidade concordo com Freud quando diz que o humano apresenta interesse muito precoce pelo seu órgão genital e apresenta nele sinais de excitação.86
Nas palavras de Freud:
(a) A vida sexual não começa apenas na puberdade, mas inicia-se, com manifestações claras, logo após o nascimento.
(b) É necessário fazer uma distinção nítida entre os conceitos de ―sexual‖ e ―genital‖. O primeiro é o conceito mais amplo e inclui muitas atividades que nada têm que ver com os órgãos genitais. (c) A vida sexual inclui a função de obter prazer das zonas do corpo, função que, subseqüentemente, é colocada a serviço da reprodução. As duas funções muitas vezes falham em coincidir completamente.87
85 GRANDINO, A; NOGUEIRA, D. Sexo ou sexualidade: a visão da psicanálise. Porto
Alegre: L&PM, 1987, p. 36.
86 FREUD, S. (1940). O desenvolvimento da função sexual. In: Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v.XXIII, 177.
Para Freud88 o sujeito se reconhece pertencente à ―vida sexual‖ e todas as suas formas que tem os impulsos sexuais como fonte. É preferível falar em psicossexualidade, destacando assim que o fator mental na vida sexual não pode ser desdenhado ou subestimado. Freud acrescenta:
Usamos a palavra ‗sexualidade‘ no mesmo sentido compreensivo que aquele em que a língua alemã usa a palavra lieben [‗amar‘]. Temos desde muito sabido também que a ausência mental de satisfação, com todas as suas conseqüências, pode existir quando não há falta de relações sexuais normais; e, como terapeutas sempre têm em mente que as tendências sexuais insatisfeitas (cujas satisfações substitutivas na forma de sintomas nervosos nós combatemos) podem amiúde encontrar apenas uma derivação muito inadequada no coito ou em outros atos sexuais.89
Com efeito, a sexualidade no humano se manifesta no corpo, e abrange um conjunto de vivências, emoções e sentimentos que emergem do corpo vivente em toda a sua trajetória.
Como já mencionado a sexualidade não se reduz ao genital, já que este último não passa de uma das suas modalidades relacionais, ela não se esgota, portanto nas relações sexuais, é muito mais, constitui a base da maioria das atividades do humano. Ao descobrir o funcionamento da pulsão sexual, Freud não privilegiou o sexo, porque este exigiria satisfações que não devem ser contrariadas, mas porque queria mostrar que a sexualidade está na origem de tudo. Cabe à sexualidade qualificar e enriquecer a intensidade do prazer da relação ligada ao sexo.
Entretanto, não se pode esquecer a sexualidade na esquizofrenia que é o que me proponho a discutir, mas, como escutar o corpo esquizofrênico que pode tentar
88 FREUD, S. (1910). Psicanálise ‗silvestre‘. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v.XI, p. 209.
se comunicar, mas que muitas vezes não fala nenhuma língua conhecida?
Em relação à esquizofrenia, Freud foi levado a supor que, após o processo de repressão, a libido que foi retirada não procura um novo objeto e refugia-se no ego.
No esquizofrênico pode-se observar um determinado número de transformações na fala, algumas merecem até ser analisadas de um ponto de vista particular.90
Nas palavras de Freud:
Uma paciente de Tausk, uma moça levada à clínica após uma discussão com o amante, queixou-se de que seus olhos não estavam direitos, estavam tortos. Ela mesma explicou o fato, apresentando, em linguagem coerente, uma série de acusações contra o amante. ‗De forma alguma ela conseguia compreendê-lo, a cada vez ele parecia diferente; era hipócrita, um entortador de olhos, ele tinha entortado os olhos dela; agora ela tinha olhos tortos; não eram mais os olhos dela; agora via o mundo com olhos diferentes.‘
Os comentários da paciente sobre sua observação ininteligível têm o valor de uma análise, pois contêm o equivalente à observação expressa numa forma geralmente compreensível. Lançam luz ao mesmo tempo sobre o significado e sobre a gênese da formação de palavras esquizofrênicas. Concordo com Tausk quando ressalta nesse exemplo que a relação da paciente com o órgão corporal (o olho) arrogou-se a si a representação de todo o conteúdo [dos pensamentos dela]. Aqui a manifestação oral esquizofrênica exibe uma característica hipocondríaca: tornou-se „fala do órgão‟.91
É interessante buscar entender o que dá ao esquizofrênico o caráter de estranheza.92 Talvez por isso que se torna tão difícil para muitos pesquisadores entenderem que na esquizofrenia é possível sentir prazer. Acredito que na esquizofrenia os órgãos tornam-se, antes de tudo lugares de prazer para o
90 FREUD, S. (1915). Avaliação do inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v.XIV, p. 224-233.
91 Idem, p. 226. 92 Idem, p. 224-233.
esquizofrênico, além do mais, o esquizofrênico é estranho e sua sexualidade é infantil.
Para Freud ―necessidades sexuais nada significam senão a necessidade do coito ou de atos análogos produtores de orgasmo e emissão das substâncias sexuais‖. 93 Em psicanálise necessidade sexual abrange bem mais que o sentido
dado popularmente.
Entretanto, para tratar do desejo, Freud distancia-se da teoria da sexualidade, construída pelos saberes e discursos do século XIX, construindo a teoria da sexualidade infantil e a teoria da pulsão. A crítica feita por Freud aos discursos do século XIX, relativos à concepção da sexualidade, é abordada em seu trabalho sobre os três ensaios sobre a sexualidade.
Todavia, ao analisar os desvios com relação à norma, ou à normalidade, Freud observa que os desvios ocorrem tanto em relação ao objeto quanto em relação ao objetivo. No primeiro, os desvios são chamados de inversão e, no segundo, de perversões. Recorre à teoria exposta por Aristófanes, no Banquete de Platão, para ilustrar o espanto que causa, em nossa cultura, a busca de objeto sexual, homólogo ao próprio sexo. Popularmente, acredita Freud, essa forma poética explicaria a busca humana de reencontrar sua parte perdida e, ao mesmo tempo, denegaria a inversão.94
As inversões, entretanto, podem ser descritas em três tipos: invertidos absolutos, para os quais seus objetos sexuais são exclusivamente de seu próprio sexo; invertidos anfigênicos, que consideram como objeto sexual tanto o seu próprio
93 FREUD, S. (1910). Psicanálise ‗silvestre‘. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v.XI, p. 208.
94 FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. VII, p. 123-252.
sexo como o sexo oposto; e invertidos ocasionais, isto é, pela influência de ocasiões fortuitas, como a ausência de um objeto sexual considerado normal.
Na inversão, existem, de acordo com Freud, os que consideram sua escolha legítima e os que a repudiam, bem como, os que apresentam essa condição bem antes da puberdade, e os que a apresentam só depois, e, ainda, os que transferem o seu interesse para um objeto sexual invertido, como resultado de uma experiência desastrosa com um objeto normal. Freud amplia a noção de sexualidade, incluindo a fantasia como uma das fontes da pulsão sexual. O caráter de erogeneidade da pulsão sexual possibilita, a qualquer parte do corpo, adquirir a suscetibilidade ao estímulo, que é próprio dos órgãos genitais, sendo necessário que uma satisfação tenha sido experimentada anteriormente a fim de ter deixado, como marca, a necessidade de repetição.
Agora, entretanto, depois de tudo que foi abordado sobre sexualidade e esquizofrenia, passo a apresentar nas próximas páginas fragmentos do caso clínico de João e trechos da entrevista com seus pais, como já mencionei antes. Vou respeitar a singularidade dos sujeitos envolvidos. Nestes fragmentos chamarei o paciente de João, seu pai de Antônio e sua mãe de Mônica.95
João foi internado em clínica psiquiátrica depois de uma forte crise de agressividade com os familiares. Posso dizer que João não suportava mais sua loucura, sua angústia, sua errância. João chega à clínica psiquiátrica marcado pela loucura, pela esquizofrenia...
João foi uma criança calada, isolada e retraída. Tem cinco irmãos, três biológicos e dois adotivos. Estudou até o segundo ano do colegial. Foi internado na C.S.S.J.D. para tratamento especializado, ou seja, depois de uma crise os pais recorreram à internação psiquiátrica, numa tentativa de buscar uma ―cura‖ para o filho. Essa foi sua segunda internação. A primeira internação aconteceu quando ele tinha 21 anos, mas os sintomas surgiram muito antes, aos 17 anos. Depois da primeira internação João não retornou mais para a escola e para seus amigos.
Com sua fala desorganizada de difícil compreensão, agora falava de medo e dor de barriga. - ―Quando a pessoa tem medo, tem dor de barriga‖.
João às vezes briga com sua família: - “Nunca derrubei nada dentro de casa, porque quem derruba as coisas dentro de casa tem doença incurável ou é mágico. Eu acredito muito em magia, sabe‖. - Ainda sobre sua família, acredita ser amado pelos seus pais e pelos seus irmãos, mas não pode sair de casa porque todos ficam preocupados, - ―...Quando saio de casa meus irmãos ficam preocupados e quando chego, eles querem me bater‖.
Em relação a sua vida afetiva João relata: - ―...coloco de frente com a justiça divina‖. - Conta que já namorou pela internet, mas hoje pensa duas vezes para falar com alguém pela internet. Para João - ―...essas pessoas tem outro destino‖. - Ainda sobre a internet, fala que as pessoas que teclavam com ele tinham bons pensamentos, mas um dia falou para uma delas: - ―Pára com isso, eu não sou disso não‖. - Quando questionado se teclava com homem ou mulher, João
acredita que teclava com ―potestades‖. ―Potestades‖96 para ele são
duas pessoas juntas, mas às vezes apareciam no ―singular‖. Quando pergunto se chegou a conhecer e sair com ―alguém da internet‖, conta que só saiu com o ―Eduardo”, para ele era um policial servo de Abraão.
Já namorou com uma ―menina‖ que tinha o nome parecido com Giorgiane (Giorgiane é o nome da sua médica psiquiátrica) ou Paola, mas acredita que seja Paola. João queria mudar o nome da ―Paola‖, pois acreditava que: - “o nome já era bastante judiado, era uma menina (esboçando um sorriso) bastante saliente, uma pessoa muito brincalhona, mas com o tempo deixou de ser o que era‖. - Pedi para que falasse mais sobre Paola, - ―...Agora é uma pessoa no singular, malvada. Desculpa porque a palavra “malvada” é um pecado. Entrego tudo para a justiça divina‖. Ainda falando sobre a Paola: ―[...] se eu pudesse voltar atrás... namorada é como comida a gente coloca no prato, mas não sabe o que tá comendo‖. Contou que a menina que ele namorou saiu da sua “vista” tão rápido que ele nem percebeu quem era ela. Seguidamente fala: ―Às vezes a gente erra no compasso, mas tentamos inverter as coisas porque errado é satanás‖.
João conta que tem uma filha, mas não tem certeza se essa ―menina‖ é mesmo sua filha. A mãe se chama ―Maria Madalena‖. Conta que a suposta filha foi feita no sexo, mas na hora do prazer diz não se lembrar de nada, só lembra da hora do sexo. Perguntei a diferença entre sexo e prazer. João responde: ―no prazer a pessoa “tá” com a mulher e dizer que não quer mais sexo e o marido “tá” do
96 Termo bíblico Cristão que se refere a seres celestiais, espeficamente anjos e hostes de
demônios (anjos caídos). Potestades celestiais: Deus, os anjos e os santos; Potestades infernais: os demônios.
lado. Aí a criança vai dizer que o sexo não foi bom. O sexo não é bom porque se fosse bom, não se dava, porque a justiça do homem é suja‖.
Não gosta que fale de sexo perto de crianças, pois - “na justiça divina, falar de sexo perto de criança é uma pouca vergonha. É melhor falar de pão e água‖. - Esboçando um sorriso conta: - “fui pego numa pegadinha por uma mulher”, sorrindo diz que foi a maior pegadinha da sua vida, - “A mulher falava: por que você liga para minha casa? Não sabe que eu tava dormindo? Agora deixa o telefone fora do gancho para evitar cair em outras pegadinhas”. Conta que beijou poucas meninas, acha que umas quatro. Pergunto se fez sexo com alguma delas. João responde: - ―Uma vez fui na casa de uma sogra minha, uma das melhores que tive, mas eu não podia fazer a proposta, ela tinha a posse da menina e seria uma falta de justiça‖. - Seguidamente volta a falar da sua filha que às vezes coloca roupa curta e vai “vadiar‖ um pouco.
João conta que nunca fez sexo com homem, mas já pegou na mão do professor, ficou com medo, pois as pessoas poderiam lhe chamar de ―mão sexual‖.
Às vezes saía para dormir em acampamento ―com a molecada, na maior folia‖, ficavam abarracado a noite toda. As meninas dormiam de um lado e os meninos do outro. Conta que um dia foi paquerar uma menina, mas veio um cara e tomou a sua frente, diz que ficou com raiva dele mesmo: -―Ela disse que gostava mais da pessoa exata‖. - João acredita que seu pai é mais esperto que ele: - “passou a mão na minha menina e levou para o mato”, para João, - ―Do jeito que ele é, podia até matar a menina‖.
Tem medo de perder sua ―menina‖ para seu pai, mas não sabe falar sobre esse medo. Não quer falar sobre sua mãe, mas acredita que seja um tanto “esquisita e quero dá um ponto final nela”.
Não gosta do seu irmão e gostaria muito de saber por que ele o internou na clínica, - ―...ele não gosta de mim, mas é uma pouca vergonha, tem dias de terrorista, nem parece que veio de uma família de Igreja Cristã‖. Na sua última licença para visitar a família, quando retornou ao hospital acompanhado pelo irmão, não queria ficar. Ficou muito agressivo, chegando ao ponto de chutar os carros no estacionamento da clínica.
João teve um sonho bíblico no qual Deus dizia: ―Estudar e vencer‖. João acredita ser ―um homem liberto, mas não livre‖, pois não pode ficar nervoso (começou a chorar). Volta a falar do seu irmão com uma certa ―mágoa‖ por tê-lo deixado internado. Diz que ficou preso na ―legenda‖. Para ele ―legenda‖ é um passaporte, um documento que não pode ficar sem ele para nada.
Conta que quando está em casa, passa a maior parte do seu tempo procurando seus óculos, depois olha para o clínico e sugere que passe a usar óculos: - “você poderia usar óculos, assim poderia enxergar melhor e não ficaria com a vista embaralhada”.
Estando internado, quando algumas enfermeiras passavam por perto, ele tocava no cabelo delas e esboçava um sorriso. Ás vezes ficava em frente o posto de enfermagem olhando para as enfermeiras através do vidro. Uma enfermeira um dia comentou: ―Seu paciente é uma gracinha, às vezes fica me paquerando, me observando‖. Mas João nunca falou da enfermeira durante o atendimento.
João conta o que se passou de mais traumático em sua vida. Também eram notórias a educação e a cordialidade de João. Além disso, parece interessante pensar em como alguém que passou por uma vivência de perdas pudesse narrá-la, às vezes, com certa indiferença. Claro que isso ocorria em um discurso desorganizado e fragmentado.
No tratamento, ainda que diante de uma situação trágica, minha intenção era escutá-lo em sua singularidade. Com isso, logo João pôde falar sobre a garota perfeita que idealizava (Karla), suas aspirações profissionais, etc. Contudo, percebia a ausência de uma organização, na medida em que, assim como o relato frio e impreciso sobre Karla, também outros ―pedaços‖ da vida de João encontravam-se discursivamente dispersos, desconexos e, por vezes, contraditórios. De uma sessão à outra, João ia do amor ao ódio pela garota que amava, sem que houvesse ligação entre uma enunciação e outra. Mesmo que contasse uma mesma história, na sua repetição, a impressão que eu tinha era que estava contando ou relatando pela primeira vez.
Como dito, João contou que tem uma filha, mas não tinha certeza se essa ―menina‖ era mesmo sua filha. A mãe se chama ―Maria Madalena‖.
Maria Madalena é uma personagem bíblica que provoca curiosidade, admiração e polêmica. É símbolo de liderança e conta-se que possuía uma beleza rara o que atraia muitos homens. Era uma mulher que nunca deixou o medo falar mais alto que sua missão e intercedeu a favor de Jesus Cristo em momentos fundamentais. O poderoso Pôncio Pilatos foi um dos que escutou fascinado as palavras da discípula de Jesus.97
Foi a mulher que testemunhou a ressurreição de Jesus Cristo, sendo a escolhida para dar a notícia aos apóstolos.
João no seu delírio, fascinado pela beleza da mulher amada misturava amor e religião, a mulher real com a personagem bíblica. Parece que assim como os homens ficavam fascinados por ―Maria Madalena‖ João era fascinado pela mulher que amava (Karla), tanto que no seu pensamento tinha uma filha.
Além disso, acredita que a suposta filha ―foi feita no sexo, mas na hora do prazer diz não se lembrar de nada, só lembra-se da hora do sexo‖. Quando perguntei a diferença entre sexo e prazer, João respondeu: ―No prazer a pessoa “tá” com a mulher e dizer que não quer mais sexo e o marido “tá” do lado. Aí a criança vai dizer que o sexo não foi bom. O sexo não é bom porque se fosse bom, não se dava, porque a justiça do homem é suja‖.
Prazer e sexo não podem ser confundidos com amor. Entretanto, quando se fala em amor, sexo e prazer, lembra-se da expressão popular ―fazer amor‖. Mas João não fala em amor, e frisa muito bem a palavra sexo.
João contou também que um dia teve um sonho bíblico no qual Deus dizia ―Estudar e vencer‖. O pensamento e o discurso de João evocam o sonho. Eles estão sob o domínio mais ou menos forte de um modo de pensamento específico, que não se inscreve numa temporalidade, que não conhece nem negação nem contradição e que desconhece a realidade.
Entretanto, a compreensão freudiana do sonho não é um trabalho hermenêutico, pois a singularidade do sujeito só pode ser estabelecida em suas próprias associações, e não, em um conteúdo universal. Freud é incansável na busca da singularidade subjetiva nas formações do inconsciente, como: sonhos, chistes, atos falhos e sintomas.
Os pensamentos oníricos e o conteúdo onírico nos são apresentados como duas versões do mesmo assunto, em duas linguagens diferentes. Ou, mais apropriadamente, o conteúdo onírico parece uma transcrição dos pensamentos oníricos em outro modo de expressão, cujos caracteres e leis sintáticas é nossa tarefa descobrir, comparando o original e a tradução. Os pensamentos oníricos são imediatamente compreensíveis, logo que os tenhamos aprendido. O conteúdo onírico, por outro lado, é expresso, por assim dizer, num roteiro pictográfico, cujos caracteres têm que ser transpostos individualmente para a linguagem dos pensamentos oníricos. Se tentássemos ler esses caracteres de acordo com o seu valor pictórico, em vez de em conformidade com sua relação simbólica, seríamos nitidamente induzidos a erro.98
Outro fato interessante, e que na minha percepção merece ênfase, é que João pareceu não gostar do irmão e gostaria muito de saber o porquê o internou numa clínica psiquiátrica: ―Ele não gosta de mim, mas é uma pouca vergonha. Tem dias de terrorista, nem parece que veio de uma família de Igreja Cristã‖. Na sua última licença para visitar a família, quando retornou à clínica acompanhado pelo irmão, não queria continuar a internação, ficou muito agressivo, chegando ao ponto