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SAĞLIK ALANINDA KÖO MODELİ

Tudo começou quando João de Deus (1495-1550),77 teve uma crise, foi internado em hospital psiquiátrico78 e passou por tudo que a internação psiquiátrica

podia oferecer. Imagine como eram tratados os doentes mentais em 1.520. João de Deus ficou chocado com tudo que viu durante a sua internação no Hospital Real; quando deixou o hospital a primeira coisa que veio à sua cabeça foi tentar oferecer

75 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 103. 76 Idem, p. 104.

77 CASTRO, F. História da vida e obras de São João de Deus. Évora: Editora Hospitalidade,

1980.

78 Foi internado no Hospital Real da cidade de Granada que fica localizada no sul da

Espanha. Este hospital hoje é uma universidade da Cidade de Granada, mas o local onde João de Deus ficou amarrado e por muitas vezes maltratado com todos os tipos de agressões, ainda existe, e a cela onde ficou preso pode ser visitada.

algo diferente para os doentes mentais. No entanto, mesmo com suas limitações e as dificuldades impostas pela falta de recursos, João de Deus aluga um espaço e começa a atender os doentes mentais, sobretudo aqueles que ficavam abandonados nas praças. Não demorou muito e seu ―primeiro hospital‖ já contava com mais de 120 (cento e vinte) doentes.

Transformou-se em um hospital modelo com separação dos doentes por patologias e, ao contrário da prática corrente até o século XVIII, que em Paris ainda deixavam quatro ou mais por cama, cada doente tinha a sua, havendo ainda unidades para os homens, e outras para as mulheres e crianças.

Entretanto, um fato curioso na história de João de Deus que acredito que tem muito a ver com este trabalho que estou desenvolvendo sobre a sexualidade na esquizofrenia, era a forma como João de Deus recebia os pacientes em seu hospital. João de Deus sempre que chegava um doente a primeira coisa que ele fazia era ele mesmo lavar os pés do doente, acreditando ser este o próprio Cristo Jesus, não só lavava-lhe os pés, mas ficava contemplando Cristo, no doente. Seguidamente os pacientes recebiam alimentação e outros cuidados de saúde.

Nos hospitais da Ordem, séculos após a morte do fundador João de Deus, mas não nos dias atuais, Boléo-Tome79 nos diz que era por vezes necessário usar meios de contenção quando os esquizofrênicos estavam em fase de agitação e de fúria, imobilizando-os, quando a terapêutica ocupacional mais ativa não era suficiente. Foi igualmente a época, para esses doentes, do chamado abscesso de fixação, provocado por injeção intramuscular de leite. Entretanto, por volta de 1933, começaram a ser utilizados nestes doentes mentais, os convulsivos, que exigiam

79 BOLÉO-TOMÉ, J. P. Medicina e assistência hospitalar. In: Museu São João de Deus:

cuidados especiais, dada à violência que as convulsões poderiam atingir. Nos esquizofrênicos foi sempre preferida a terapêutica ocupacional, o ar livre, os jogos, tipo de terapêutica que foi sempre a base da atitude da Ordem Hospitaleira. Na paralisia geral, que constitui a forma quaternária da sífilis, e que constituía nessa época ainda um verdadeiro flagelo, foi ensaiada, em 1935, a malarioterapia. Os doentes eram infestados com o parasita da malária, com mosquitos vindos em gaiolas das estações antipalúdicas, com o objetivo de provocar uma febre. Os resultados obtidos eram considerados aceitáveis. Nesta mesma década foram dados novos passos que iriam revolucionar a psiquiatria, até a entrada dos neurolepticos e psicotrópicos. Foram eles: a insulinoterapia, o eletrochoque e a leucotomia. A insulinoterapia, foi introduzida em 1936 e destinava-se a doentes psicóticos ou com ―delirium tremens‖, forma neurológica grave da intoxicação alcoólica. O eletrochoque,80 iniciado em Roma em 1936, foi aplicado nos hospitais da Ordem Hospitaleira em 1937. Quanto à leucotomia ou lobotomia pré-frontal, foi desenvolvida por Egas Moniz e por ele aplicada nos hospitais da Ordem hospitaleira como já mencionamos anteriormente neste trabalho.

Entretanto, hoje os doentes continuam a ser tratados com hospitalidade e humanização em todos os hospitais da Ordem Hospitaleira de São João de Deus. Assim, uma das grandes lutas da Ordem é sem dúvidas a luta contra o estigma, ―que doente mental é perigoso e que deve ficar internado e afastado da sociedade‖. Acredita-se que o estigma está enraizado na cultura e é reforçado com a

80 A eletroconvulsoterapia (ECT), conhecido como eletrochoque, é um procedimento que

consiste na indução de convulsões generalizadas com duração de 20 a 150 segundos pela passagem de corrente elétrica através do cérebro. Hoje, a ECT está indicado para pacientes que não toleram as medicações ou não respondem a elas, ou preferem a ECT. Nesses casos, realiza-se uma sessão de ECT, uma vez por semana, inicialmente com a diminuição progressiva até uma vez por mês (Cf. KAPCZINSKI, F. et al. Emergências psiquiátricas. Porto Alegre: Artemed, 2001, p. 239.)

transmissão de cenas de filmes que apresentam o ―louco‖ como um sujeito violento e agressivo. Com isso, a visão que a sociedade tem dos doentes mentais é reforçada negativamente.

A Ordem procura lutar contra o estigma através de campanhas; através de congressos e simpósios; através de contato pessoal e projetos envolvendo a sociedade e demonstrando pacientes já reabilitados.

A luta a favor da humanização na psiquiatria passa sem sobra de dúvidas pela motivação. Os profissionais devem empenhar-se e comprometer o paciente e seus familiares com o tratamento. Quando necessário, fazer visitas domiciliares; conscientizar os familiares que o ―louco‖ é um ser humano e não um mostro que necessite viver em uma gaiola. A Instituição deve promover formação permanente para os profissionais, pois, estes devem oferecer diariamente um cuidado adequado e humanizado ao paciente.

Com a Ordem Hospitaleira de São João de Deus no mundo, às vezes interroga-se sobre o futuro que a Ordem será capaz de construir neste século XXI a serviço do doente mental.

Em alguns casos, ao projetar o futuro, pode-se cometer o erro de deixar de lado o passado, não por má vontade, mas simplesmente por descuido, por escassa ponderação, pelo desejo de incorporar realidades novas. Em outros casos, a necessidade de fazer mudanças profundas e de enfrentar situações de ruptura, exige deixar de lado acertos do passado, pois os tempos novos exigem respostas novas, e considera-se oportuno libertarmo-nos dos laços com o passado, para que haja mais liberdade para construir criativamente o futuro. É necessário projetar o futuro a partir do presente, tendo em conta toda a tradição positiva do passado: penso que seja esta a situação em que se encontra a Ordem Hospitaleira, que quer projetar o seu futuro com uma reflexão atualizada dos seus princípios e valores. Provavelmente haverá lugares e formas de atuação por parte da Ordem que exijam uma mudança e poderá acontecer que em alguns casos essa mudança deva ser radical, se queremos está presente neste século prestando um serviço à população e transmitindo uma mensagem que seja atual. Por isso,

não há dúvida nenhuma de que toda a Ordem Hospitaleira de São João de Deus deverá fundamentar-se nos valores que tem caracterizado esta organização ao longo dos séculos81.

Os valores da Ordem devem ser promovidos pelos religiosos e pelos colaboradores da instituição.