O esquizofrênico acredita piamente naquilo que pensa.116
Neste capítulo vou discorrer sobre a esquizofrenia e a sexualidade na contemporaneidade, e para isto, vou recorrer ao pensamento de vários autores contemporâneos. O que me chamou atenção logo no início foi a forte influência freudiana no pensamento dos autores que escrevem sobre sexualidade.
Já que vou apresentar a sexualidade na contemporaneidade, achei que seria desnecessário, mas não resisti à tentação e procurei em três dicionários o que eles dizem a respeito da sexualidade. De acordo com Aurélio,117 sexualidade é o conjunto de fenômenos da vida sexual e o termo em si é a junção de dois termos: sexual + (i)dade. O termo ―sexual‖ é derivado de ―sexo‖, e ―(i)dade‖ vem do latim itate; é um sufixo ―formado por substantivos a partir de adjetivos: qualidade, caráter, o que é próprio de, atributo, modo de ser‖.
Pesquisando no Dicionário Etimológico Nova Fronteira,118 observa-se que o
termo sexualidade começou a ser utilizado em 1874 e tem como sinônimos: qualidade do que é sexual; conjunto de caracteres especiais, externos ou internos, determinado pelo sexo do sujeito. Já o Dicionário Houaiss119 nos apresenta a sexualidade como característica daquilo que é sexual.
116 MAIA, E. A psiquiatria nossa de cada dia. São Paulo: Almed,1977, p. 85.
117 AURÉLIO, B. H. F. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 2005. Verbete sexualidade.
118 CUNHA, A. G. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1986. Verbete sexualidade.
119 HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
Entretanto, para Laplanche e Pontalis,
a sexualidade não designa apenas as atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital, mas toda uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância que proporcionam um prazer irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental e que se encontram a título de componentes na chamada forma normal do amor sexual. 120
A relação entre a sexualidade e a esquizofrenia, em sua dimensão emocional, se torna mais nítida, quando se transfere sua avaliação do contexto teórico impessoal para o individual.
Não se pode negar que Freud foi o primeiro a dar dimensão cientifica tratando o sexo, a sexualidade e o genital como convém distinguir com a profundidade que o rigor científico exige. Até o advento do criador da psicanálise, seus estudos, sexo e suas implicações eram como se sabe tratado em termos de moral, de preocupação em razão de um preconceito religioso. Em nome de um moralismo Freud foi atacado, além de falarem muito mal procuraram desmoralizá-lo e ridicularizá-lo.121
Mas, é certo que, sexo não é tudo em psicanálise, está presente em todas as suas análises, como, aliás, se revela em todas as manifestações da vida, já a sexualidade acompanha o humano desde os primeiros instantes até o fim da vida.122
Freud descobriu que a sexualidade é infantil, assim um sujeito não importa a sua idade pode ser seduzido, mas também pode seduzir.123 Uma das armas preferidas nas relações é a sedução. Pode se dizer que desde o nascimento a criança com seu sorriso põe em atividade um processo sedutor ―obriga‖ as pessoas
120 LAPLANCHE & PONTALIS. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes,
2000, p. 476.
121 AFFONSO, P. Sexo e psicanálise. Evolução: São Paulo, 1969, p. 8. 122 Idem.
123 ALBERTI, S. A sexualidade na aurora do século XXI. Rio de Janeiro: Cia. de Freud,
à sua volta à ternura.124 Aqui se entende por sedução um jeito de ser, de se expressar, como, um sorriso, carinho, etc.
Quando se fala em sexualidade, para Debergé,125 os comentários mais arcaicos da sexualidade sobrevêm sempre com uma sacralização da sexualidade. Elas correspondem a um mundo cultural em que a sexualidade, a fecundidade e a procriação eram cheios de mistérios e segredos. Entretanto, Carotenuto,126 diz que a experiência sexual é verdadeiramente a expressão mais forte que a pessoa tem, é também o modo mais dramático da pessoa se aproximar da outra, porque o âmbito do sexo, sempre foi limitado por proibições e restrições, todas as pessoas de uma forma ou de outra são portadoras dessa interdição, talvez inconscientemente.
Já para Vasconcelos127 pensar a sexualidade é pensar com a sexualidade, pois não se pode esquecer que cada sujeito já possui a sexualidade desde a infância. Uma sexualidade feita de desejos e de frustrações, de ideias e de fantasias, de experiências e de interrogações. Entretanto, as opiniões a respeito do sexo serão sempre comprometidas por essas vivências. Enquanto isso Avanti,128 lembra que é indispensável uma visão séria e o mais autentica possível da sexualidade, sobretudo por causa de suas implicações comportamentais. Pois, quando se estuda um tema interessante como a sexualidade, corre se o risco da repetição, entretanto este é um limite a ser aceito.
124 CAROTENUTO, A. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo: Paulus, 1994, p. 71. 125 DEBERGÉ, P. O amor e a sexualidade na bíblia. Aparecida: Editora Santuário, 2003, p.
16.
126 CAROTENUTO, A. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo: Paulus, 1994, p. 103. 127 VASCONCELOS, N. Sexo: questão de método. São Paulo: Moderna, 1994, p. 10. 128 AVANTI, G. Sexualidade e amor. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 10-11.
No entanto, neste capítulo assim como no anterior, vou tratar da sexualidade na esquizofrenia, assim depois de ter discorrido brevemente sobre sexualidade passo a falar um pouco sobre a esquizofrenia.
Quando penso na esquizofrenia não posso deixar de concordar com Ménéchal,129 que lembra que a esquizofrenia é a doença mental mais complexa, na
medida em que as interrogações que levanta são múltiplas, desde a etiologia à terapêutica ela é simultaneamente a mais popular e a mais enigmática do campo da psicopatologia. A diferença do esquizofrênico, a sua discordância, exprimem-se através de quatro características principais: a estranheza, a ambivalência, a impenetrabilidade e o desapego.
É importante sublinhar que a esquizofrenia é uma doença complicada, e sabe-se que não existe apenas uma causa, mas possivelmente várias que concorrem para o seu aparecimento. Não foram poucas as tentativas para explicar a sua origem, mas é certo que a esquizofrenia sempre carregou em sua bagagem certo mistério se tornando um alvo fácil para varias especulações.130
Entretanto, quando se fala em esquizofrenia não se pode deixar de lado o movimento ―antipsiquiatrico‖ que de acordo com a historia ficou associado à esquizofrenia. O movimento foi iniciado nos anos 1950, tendo como principais interlocutores David Cooper e Ronald Laing na Inglaterra, Franco Basaglia na Itália, Thomas Szasz nos Estados Unidos. Embora não houvesse um consenso entre os seus protagonistas, o movimento lutava pelo fechamento dos grandes hospitais psiquiátricos que proliferavam naquela época e que eram considerados, sobretudo
129 MÉNÉCHAL, J. Introdução à psicopatologia. Lisboa: Climepsi, 2002, p. 65-66. 130 AFONSO, P. Esquizofrenia: conhecer a doença. Lisboa: Climepsi, 2002, p. 23.
pelos autores citados, verdadeiras prisões.131 Mas não vamos aprofundar o tema, pois está é uma longa história.
O que não deixa de chamar a atenção na clínica da esquizofrenia é a estranheza do esquizofrênico que é por natureza, impossível de codificar. É a inadequação entre a atitude e a situação, entre o afeto e a expressão, entre o início e o fim da frase, que revela.132 A esquizofrenia se exprime por alterações maiores da percepção da realidade e do autocontrole, como as alucinações, os delírios e os comportamentos extravagantes.133
Segundo algumas teorias, será se o esquizofrênico não se constituiu como sujeito, assim não existe o outro nas suas relações?
Mas é certo que, a esquizofrenia independente daquilo que se pensa dela e de como ela pode ser explicada ela existe e não deixa de ser uma experiência radical para o próprio esquizofrênico e para as pessoas que convivem no seu meio. Para o esquizofrênico é uma experiência que pode trazer para sua vida muitas incompreensões e dificuldades, pois o esquizofrênico experimenta a realidade de forma diferente e assim acaba gerando alguns conflitos nas suas relações.
Para o esquizofrênico os delírios e as alucinações muitas vezes são experiências assustadoras difíceis de serem compartilhadas. Para Simanke,134 o esquizofrênico do qual Freud se refere é mais bem representado como um ―sujeito virado do avesso‖, devido a sua dificuldade de se relacionar com o mundo. Entretanto, não está completamente alheio à realidade externa.
131 AFONSO, P. Esquizofrenia: conhecer a doença. Lisboa: Climepsi, 2002, p.21-22. 132 MÉNÉCHAL, J. Introdução à psicopatologia. Lisboa: Climepsi, 2002, p. 66.
133 BRACONNIER, A. et al. Manual de Psicopatologia. Lisboa: Climepsi, 2007, p. 284. 134 SIMANKE, R. T. A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola, 2009,
Pode se dizer que o esquizofrênico é um sujeito perturbado, desajeitado, apresentando assim grandes dificuldades nas suas relações, gera conflitos e torna- se incompreendido.
De acordo com Corso,135 a clínica da esquizofrenia é uma clínica de muitas frustrações, pois os resultados na maioria das vezes não são empolgantes. A clínica da esquizofrenia é mais pública que qualquer outra. Pois se faz necessário a convivência com familiares o que nem sempre é tão fácil como às vezes se pode imaginar.
É certo que às vezes os profissionais têm que ―rebolar‖ para não se abaterem por suas frustrações e chegar à clínica todos os dias como se fosse o primeiro dia e atender cada paciente como se fosse o único e se estivesse ali pela primeira vez. Falo primeira vez porque é comum encontrar pacientes na sua décima quinta internação.
Aqui lembro um paciente (na quinta internação) que fugiu da clínica pelas nove horas da manhã, chegando à casa da mãe almoçou e em seguida foi levado novamente para a clínica. Quando questionei se tinha sido válido o sacrifício da fuga, ele responde prontamente: “foi válido sim... almocei o franguinho gostoso que a mamãe fez”. São momentos como este que as palavras desaparecem e a emoção aflora repentinamente.
Talvez por isso que Corso136 lembra que quem escolhe a clínica da esquizofrenia não consegue ficar de fora de uma carga a mais. Pois, o encontro com a subjetividade do esquizofrênico é cheio de percalço, lembra também que são
135 CORSO, M. Reflexos sociais na análise da psicose. In: Boletim. Psicose. Porto Alegre:
APPA, ano IV, n° 9, 1993, p. 44-49.
poucos os clínicos que se dispõe a suportar os reveses que a clínica da esquizofrenia impõe.
Faz lembra o caso de Isaque:
Isaque, 44 anos, se relacionou com duas mulheres, mas conta que não deu certo, pois ambas ―tinham um gênio muito difícil‖. Hoje se tivesse que pedir alguma coisa para Deus “pediria uma namorada para ter uma estabilidade na vida, uma moça bonita, de bom status social e que tenha estudo”.
Gostaria muito de encontrar uma esposa, uma namorada, mas tem medo, pois as vozes já avisaram que se isso acontecer irá matar os dois e Isaque não quer o mal de ninguém. Ouvindo o relato é como se Isaque não tivesse nascido para se entregar ao prazer com uma mulher.
Ainda sente muito medo das vozes. Relembra algumas frases com que estas o atormentam: ―temos que tomar uma atitude com esse homem; temos que dá um jeito nesse cara qualquer hora dessas e se ele encontra a mulher a gente mata‖.
Para Isaque as vozes são agressivas e invejosas. Elas são invejosas porque “eu trabalho no tribunal de justiça e elas (vozes) não têm competência para entrar lá, então ficam falando isso comigo, ficam me perseguindo querendo me matar”. Isaque não responde verbalmente as vozes, tem medo e foge.
Quando chega em casa sente vontade de fazer sexo, muito sexo. Um dia chegou em casa e tinha uma mulher, mas quando foi para beijá-la ela sumiu.
Diz que gosta da clínica psiquiátrica porque é um lugar seguro.
Observando o fragmento clínico, parece que Isaque vive entre o medo das vozes que o perseguem e o querem matar e o desejo de ter uma mulher. Uma mulher para satisfazer sua vontade de fazer sexo quando chega em casa.
A noção de desejo é crucial na analise da sexualidade e diz respeito à força das impressões deixadas em um sujeito pelas suas primeiras vivências de satisfação. A sexualidade, desde Freud, tornou-se uma verdade referente a desejos sepultados numa infância remota que recusamos a reconhecer, mas que retorna em forma de sintomas. O desejo encobre uma verdade, e a obrigação de dizê-lo não vem mais da salvação divina, mas, das normas da saúde mental, e a autoridade em que ela se fundamenta já não é mais uma teologia da carne, mas uma ―ciência da sexualidade‖.137
No mesmo sentido, Garcia-Roza138 lembra que o desejo é indestrutível porque jamais poderá ser plenamente satisfeito, e jamais poderá ser plenamente satisfeito porque não há um objeto específico que o satisfaça, sua satisfação será sempre parcial, o que implica o seu infindável retorno. O importante é não esquecer que esse retorno não é o retorno do ―mesmo‖, não é a repetição continuada de algo que se apresenta sempre como idêntico a si mesmo, mas se o eterno retorno agrada, é fundamental ter em mente que se trata de um eterno retorno da diferença.
Já para Carotenuto,139 desejar é como uma condição em que o sujeito não consegue mais interpretar a realidade com critérios comuns, é uma subversão dos
137 RAHCHMAN, J. Eros e a Verdade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
138 GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana 2: a interpretação dos
sonhos. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
sinais, uma perda dos pontos de referência e da orientação no real. A pessoa experimenta uma situação que tem a característica de ser sempre nova, eros cria movimento psíquico, estabelece novas conexões e insere em novos e desconhecidos projetos.
Aquele que é desejado pode se dizer que é o privilegiado e aquele que deseja sem ser correspondido pode se dizer que é o mal afortunado, aquele que tem que procurar artifícios para melhorar a sua performances e fisgar o desejado.140
Retomando o fragmento, Isaque no seu delírio acredita ser um grande homem do Tribunal de Justiça, mas é ―perseguido pelas vozes‖ e tudo por inveja do seu status social. Entretanto, deseja uma mulher de um bom status social para fazer ―sexo, muito sexo‖. Faz pensar, como será a sensação genital de um esquizofrênico? As sensações genitais do esquizofrênico são muito perturbadoras, por que ele não pode nem identificá-las nem localizá-las? O órgão genital pode inclusive parecer estar fora do corpo? São muitas as perguntas a cerca do esquizofrênico, mas como se trata se um sujeito enigmático as respostas dificilmente surgem com clareza.
Pois, o pensamento ―louco‖ não se define apenas pelos seus conteúdos estranhos, pela sua incoerência lógica ou pela sua falsidade perante a realidade (a crença delirante), mas por anomalias dos próprios mecanismos do pensamento. A esquizofrenia pode desempenhar um papel relevante na compreensão do funcionamento psíquico através da ciência contemporânea, porque conduz à conjugação dessas abordagens e à confrontação desses diferentes pontos de vista sobre o psiquismo. A esquizofrenia se expressa de forma muito variável. O comportamento do sujeito, dos atos estanhos e incoerentes que comete,
dependendo do caso conduz o sujeito a uma internação psiquiátrica para tratamento141. Como é o caso de Isaque, mas parece que Isaque gosta da
internação até porque acredita que a clínica psiquiátrica é um lugar seguro, assim vive sem ser atormentado pelas vozes que o perseguem.
Partindo da clínica, o delírio e as alucinações são dois sintomas que também aparecem na esquizofrenia. O delírio pode ser definido aqui por uma crença absoluta e inabalável do sujeito na ―realidade‖ de conteúdos de pensamento imaginários, crença difícil de ser partilhada com os outros. O delírio esquizofrênico coloca o sujeito no centro do mundo face aos acontecimentos que, para ele, adquirem sentido, que o envolvem, e já não parecem aleatórios, mas exprimem necessariamente uma lógica oculta.142
No fragmento clínico observa-se que Isaque gostaria muito de ter uma mulher, uma esposa, mas tem medo que as vozes façam algum mal a sua mulher, talvez por medo da dor da perda Isaque prefere ficar sozinho no seu mundo, com seus delírios, com suas alucinações.
As alucinações do esquizofrênico geralmente ocorrem na percepção de ―vozes‖ que se conduzem ao sujeito, o ofendem e lhe dão ordens, fazem comentários sobre seus atos, etc. No entanto, o próprio pensamento do sujeito pode ser atingido pelas alucinações, o sujeito pode ficar impressionado a tal ponto que acha que seus pensamentos já não lhe pertencem mais. Entretanto, esses sintomas se inscrevem quando o esquizofrênico tem uma alteração do contato ou na relação com a realidade. A alteração do contato com o outro é característico. A relação com o paciente suscita um sentimento de distância e estranheza em parte devido à
141 GEORGIEFF, N. A esquizofrenia. Lisboa: Biblioteca Básica de Ciência e Cultura, 1998, p.
9.
desorganização do discurso e atitudes inadequadas, a uma dificuldade em entender o paciente e em fazer com que ele represente os seus próprios pensamentos.143
Entretanto, esse sentimento de estranheza e de falta de confiança constitui o humor delirante. O sujeito está indefeso, entregue a influências externas. Forças estranhas influenciam o seu pensamento, outros lêem o seu pensamento, dirigem as suas ações. Alguns esquizofrênicos acreditam viver o que ouvem em outras pessoas. Ou, então, acreditam que outros experienciam ou fazem o que na realidade sentem, ou realizam eles próprios.144
No entanto, às vezes pode parecer que o paciente esteja delirando e não seja verdade. Um exemplo: um paciente internado em um hospital psiquiátrico da Ordem Hospitaleira de São João de Deus em Guadalajara no México queixou-se a seu médico que não tinha conseguido dormir durante a noite por que sentiu muito medo de um leão que passou a noite a urgir. Por vezes pensava que o leão estava dentro das dependências do hospital. O médico era novato no hospital, era seu segundo dia de trabalho. Nas suas anotações escreveu que o paciente estava delirando. Entretanto, o enfermeiro confirmou que o relato do paciente correspondia com a verdade, pois ao lado do hospital tem um zoológico e realmente um leão passou a noite a urgir.
Porém, observa se que o caso de Isaque é diferente, o delírio determina a sua realidade, a sua vida. Para Scharfetter,145 para o sujeito, o delírio pode ser a realidade mais importante, por ser a que mais sobressai, sem que a realidade comum ―interpessoal‖ fique completamente comprometida.
143 GEORGIEFF, N. A esquizofrenia. Lisboa: Biblioteca Básica de Ciência e Cultura, 1998, p.
17
144 SCHARFETTER, C. Introdução à psicopatologia geral. Lisboa: Climepsi, 2005, p. 247. 145 Idem.
Acredita-se que bem ou mal o delírio do esquizofrênico é uma produção que visa à estabilização, então o caminho da cura passa por ai. Contudo, nem todos os profissionais pensam o mesmo, pelo contrário, muitos acreditam que o delírio é patógeno e não há sinais de esperança a não ser que o esquizofrênico abra mão do recurso delirante.146
Assim, não se pode negar que para muitos pacientes o sofrimento encontra- se no centro da psiquiatria, pode-se até dizer que é ele quem determina os limites. O esquizofrênico expressa esse sofrimento através da ansiedade, das perturbações, dos delírios.147
Talvez por isso que Georgieff,148 diz que o discurso e o pensamento do
esquizofrênico revelam associações incompreensíveis, ilógicas, que podem ser comparáveis às do sonho. Em alguns casos, o pensamento e o discurso reduzem- se, permanecendo o sujeito mudo, inacessível, ou então o discurso perde toda a forma inteligível e transforma-se numa coisa sem sentido. Pois, o delírio e as alucinações manifestam uma alteração no comportamento do sujeito. Na esquizofrenia a experiência subjetiva do pensamento está perturbada. É como se o sujeito sentisse seu pensamento como um fenômeno automático, incontrolável e se entusiasmando com associações insensatas de palavras ou de ideias.
O fragmento clínico me faz pensar se Isaque tivesse uma mulher como deseja como seria essa relação. Será se Isaque não iria ficar mais perturbado pela proximidade com essa mulher?
146 CORSO, M. Reflexos sociais na análise da psicose. In: Boletim. Psicose. Porto Alegre:
APPA, ano IV, n° 9, 1993, p. 44-49.
147 SPADONE, C. A doença mental: pesquisa e teoria. Lisboa: BBCC, 1998, p. 84.
148 GEORGIEFF, N. A esquizofrenia. Lisboa: Biblioteca Básica de Ciência e Cultura, 1998, p.
A experiência parece dizer que é a proximidade que provoca a perturbação, alguém ou alguma coisa para o qual se olha é cativante. Mas é certo que o amor vive e se alimenta daquilo que acontece em cada pessoa. O estado de namoro põe a pessoa diante de algo incompreensível. O outro é inclassificável, porque a sua dimensão implicaria também o seu conhecimento. Entretanto, ao mesmo tempo, embora procurando compreender, ―rasgar um véu‖, não se deseja jamais abandonar aquela ilusão que deslumbra e excita os enamorados.149
Além disso, é importante sublinhar que do ponto de vista das funções do eu, a esquizofrenia revela uma insuficiência ou uma fragilidade do eu, um defeito dos seus limites. A noção de fragmentação esquizofrênica do eu não designa, portanto, a clivagem do eu em diferentes unidades ou personalidades, mas antes eu unificado e diferente. Diante de cada paciente, o clínico deve abandonar as poucas certezas