Piera Aulagnier (1923 - 1990) foi médica e psicanalista. Nasceu na Itália, onde graduou-se em medicina e conheceu a psicanálise após seus estudos psiquiátricos. Em 1950, mudou-se para França, onde casou-se por duas vezes e trabalhou como psiquiatra no atendimento a psicóticos. Entre 1955 e 1961 fez análise com Lacan; posteriormente, analisou-se com Serge Viderman. Fez sua formação na Sociedade Francesa de Psicanálise – S.F.P., tendo rompido com Lacan no início de 1969.
Durante trinta anos, Aulagnier publicou quatro livros e inúmeros artigos. Seus livros são: A violência da interpretação – do pictograma ao enunciado (1975), Os destinos do prazer (1979), O aprendiz de historiador e o mestre-feiticeiro – do discurso identificante ao discurso delirante (1984) e Um intérprete em busca de sentido I e II (1986).
Na obra de Aulagnier, os conceitos de desejo e de identificação ocupam lugar central. E, embora não tenha trabalhado com crianças, construiu sua metapsicologia a partir do trabalho com a análise de psicóticos, o que a fez conceder um lugar de destaque no que se refere ao desejo dos pais entre si e ao desejo do casal parental para com o filho. O lugar do desejo dos pais a que Aulagnier se refere está na base da constituição psíquica de todo sujeito e, consequentemente, na construção masculina. A contribuição de Aulagnier à compreensão da construção masculina se faz, especialmente, no que se refere ao desejo e pré-investimento dos pais, que
ocorrem antes do nascimento. Por estas razões, pretendo expor algumas contribuições da referida autora. Mas antes de abordar a questão do desejo dos pais, pretendo expor as contribuições de Aulagnier acerca da constituição psíquica, a partir dos modos de funcionamento psíquicos, assim como o processo de identificação.
2.1) Os Modos de Funcionamento Psíquico
Considerando a posição materna diante do bebê que está por vir, ela antecede não apenas ao nascimento biológico, mas também psíquico do bebê. A esse respeito, Aulagnier fala da necessidade de um pré-investimento, uma historização que antecipe o Eu104 da criança. Assim como Freud, Aulagnier postula que o Eu não existe desde o princípio, sendo antecedido pelo processo primário do funcionamento psíquico. A novidade de sua metapsicologia é o modo originário do funcionamento psíquico, que é ainda mais primitivo do que o primário, estando presente desde o nascimento. Assim, para Aulagnier,
[...] no momento em que a boca encontra o seio, ela encontra e absorve um primeiro gole do mundo. Afeto, sentido, cultura estão co- presentes e são responsáveis pelo gosto das primeiras gotas de leite que o infans toma. A oferta alimentar se acompanha sempre da absorção de uma oferta de sentido. Assistiremos perplexos à metamorfose que sobre ela operará o originário.105
A psique do bebê recém-nascido é inaugurada pela experiência de prazer proporcionada pelo encontro com o seio materno e o prazer decorrente desse encontro. Então, como essa vivência se inscreve na psique do bebê, uma vez que o Eu ainda não está presente? É por meio do processo originário do funcionamento
psíquico que encontraremos resposta a essa questão.
Conforme interpreta Violante, ―A partir da clínica das psicoses, com um aporte mais dinâmico do que econômico, Aulagnier (VI) propõe um modelo de aparelho psíquico diferente do legado por Freud.‖106. A fim de destacar tais diferenças, e
prosseguir a investigação em torno da constituição psíquica desenvolvida por
104 Utilizarei o conceito de Eu de Aulagnier em maiúsculo, pois não há consenso nas traduções de língua portuguesa.
105 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado. Tradução de Maria Clara Pellegrino. Rio de Janeiro: Imago, 1979, p. 40.
106 VIOLANTE, M. L. V. Piera Aulagnier: Uma Contribuição Contemporânea à Obra de Freud. São Paulo: Via Lettera, 2001, p. 19.
Aulagnier, segue um quadro que demonstra os modos de funcionamento psíquico, suas definições, representações e respectivos postulados – que é a atribuição de causalidade ao vivido:
Modos de Funcionamento Definição Representação Postulado
Psíquico
Originário Pictográfica Autoengendramento
Primário Fantasmática Onipotência do desejo
do Outro
Secundário Ideativa Causalidade
inteligível Único modo de funcionamento psíquico presente no
nascimento. Inscreve na psique uma imagem da coisa corporal. O Eu jamais terá acesso ao originário.
Há um paralelo com o conceito freudiano de primário, entretanto, Aulagnier postula a presença do princípio de realidade, de maneira rudimentar (presença x ausência).
O Eu é constituído por duas dimensões: a identificada (provida pelo discurso materno) e a identificante (que não é produto passivo do discurso do Outro). As funções do Eu são: pensar e investir.
Tabela 1_ construída a partir da interpretação de Violante a respeito da metapsicologia de Aulagnier107.
Aulagnier postula que o modo originário do funcionamento psíquico antecede o processo primário e a constituição do Eu do bebê. O originário é uma atividade pulsional e inscreve na psique a imagem da coisa corporal108. O pictograma é a representação resultante deste modo de funcionamento psíquico originário; e este, por sua vez, de acordo com Aulagnier (1975) é o único modo de funcionamento presente no nascimento.
Acerca da representação pictográfica do encontro entre o corpo do bebê e a psique materna, Aulagnier postula: ―Neste estágio, a única qualidade desses espaços [corporal e psíquico], do qual o processo originário quer e pode ser informado, concerne à qualidade prazer e desprazer do afeto, presente no momento deste encontro.‖109.
A atividade psíquica do modo originário de funcionamento psíquico é organizada por alguns fatores assim identificados por Aulagnier:110
1) a psique deve efetuar um trabalho de metabolização acerca dos estímulos sensoriais, que consiste na atividade pictográfica; diante de um sofrimento, lança mão da única ação que lhe é possível: a alucinação. Para Aulagnier, essa
107 VIOLANTE, M. L. V. Piera Aulagnier: Uma Contribuição Contemporânea à Obra de Freud, pp. 23-42. 108 Ibid., p. 63.
109 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 33. 110 Ibid., p. 42.
alucinação pretende ―[...] uma modificação na situação de encontro, que vem negar seu estado de falta (manque)‖111;
2) a psique deve metabolizar a informação que vem de um espaço que lhe é heterogêneo, em um material que possa assimilar a sua estrutura, com o objetivo de ―permitir à psique de se representar o que ela quer reencontrar de sua própria vivência‖112;
3) a representação pictográfica está associada a um afeto e vice-versa, ambos sendo indissociáveis para o originário;
4) ―O afeto é coextensivo à representação, e a representação pode ser ou não conforme à realidade da vivência corporal.‖113. A representação pictográfica
expressa a dupla presença de uma ligação e de uma heterogeneidade entre a vivência corporal e o afeto, podendo se mostrar a um terceiro em conformidade ou contradição. Aulagnier ilustra essa conformidade entre afeto e experiência por meio da representação da união boca–seio acompanhada pela experiência de amamentação; enquanto a contradição pode ser expressa por uma representação alucinatória da união boca–seio com a finalidade de calar momentaneamente o estado real de necessidade;
5) ―A representação pictográfica do fenômeno é uma condição necessária para sua existência psíquica [...]‖114; para que o originário possa forjar uma
representação de determinado encontro, este precisa obedecer às condições de representabilidade.
Aulagnier ressalta ainda que ―a representação pictográfica deste encontro tem a particularidade de ignorar a dualidade que a compõe‖115. Assim, entendo que
o originário é incapaz de representar boca–seio como entidades separadas.
111 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 42. 112 Ibid., loc. cit.
113 Ibid., loc. cit. 114 Ibid., loc. cit. 115 Ibid., p. 43.
Ainda no modo originário do funcionamento psíquico, a atribuição de causalidade ao vivido se dá segundo o postulado do autoengendramento, e a representação é pictográfica, conforme postula Aulagnier:
O pictograma é a representação que a psique se dá de si própria, como atividade representante; ela se representa como fonte que engendra o prazer erógeno das partes corporais e ela contempla sua própria imagem e seu próprio poder no seu engendrado, ou seja, neste ‗visto‘, ‗escutado‘ ou ‗percebido‘, que se apresenta como auto- engendrado por sua atividade.‖116
Muito cedo entra em ação o modo primário do funcionamento psíquico, no qual a atribuição de causalidade ao vivido se dá segundo o postulado da onipotência do desejo do Outro. O primário é acionado porque a criança precisa representar a intermitência da presença e ausência da mãe, o que lhe impõe o reconhecimento da separação dos corpos. À pessoa externa, que invariavelmente é representada pelos pais, é atribuído o desejo, acompanhado de poder, podendo ser, inclusive, o desejo da própria criança projetado em um dos pais. Segundo Aulagnier, a onipotência do desejo do outro é fundamental para a representação fantasmática:
A existência do desejo do Outro é, para a psique, o que o conceito de Deus é para o sistema teológico: ponto modal e postulado a partir do qual pode-se construir o conjunto do sistema, seja ele fantasmático ou metafísico. A certeza da existência e do poder dos desejos é, para a atividade fantasmática, uma necessidade lógica e o único caminho que lhe permite situar a existência de um Outro e, mais tarde, outros e, conseqüentemente, a existência de uma realidade. A partir daí poderá se elaborar uma reciprocidade entre dois desejos, que permitem à psique se reconhecer, por sua vez, como fonte de uma atividade desejante e não mais como efeito passivo de uma resposta.117
Assim, pensar a fantasia como chave de acesso à realidade e, sobretudo, ao desejo, se mostra um instigante paradoxo. Ainda mais se considerarmos que a percepção da separação pressupõe também o reconhecimento de afetos no exterior que podem ser diferentes daqueles vivenciados pelo fantasiante.
Aulagnier identificou ainda no modo primário do funcionamento psíquico um ―terreno fértil‖ para várias situações prototípicas do desenvolvimento psicossexual: identificação, Édipo e castração. Esse constructo teórico mostra-nos a precocidade
116 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 63. 117 Ibid., pp. 75-76.
com que entra em cena o desejo dos pais, o qual representa parte fundamental na constituição psíquica do sujeito.
Não há superação dos modos do funcionamento psíquicos, mas sim uma coexistência entre eles: ―A imagem de coisa é a precursora necessária que permitirá a inclusão da imagem de palavra: o primário cênico sucede o pictográfico e prepara o dizível, que vai sucedê-lo.‖118
A atividade do modo primário do funcionamento psíquico reconhece a presença de um não-Eu. Aulagnier considera que os princípios de prazer e de realidade estão presentes no primário; e o princípio de realidade entra em cena especificamente a partir desta conquista do primário acerca da separação: ―[...] este princípio [de realidade] está em ação desde uma fase extremamente precoce do primário‖119.
Aulagnier observou, ainda no modo primário do funcionamento psíquico, protótipos do complexo de Édipo e do complexo de castração expressos respectivamente pela percepção do desejo da mãe por um ―outro espaço‖, ou seja, o bebê reconhece não ser fonte exclusiva do desejo da mãe, vivenciando assim uma angústia de amputação que incide sobre sua autonomia120. Para Aulagnier o
primário é:
Molde da configuração edipiana e precursor da fantasia de castração, o primário já é instaurador de uma lógica do desejo, que se relaciona com a atividade secundária da psique materna e que preanuncia à psique o acesso ao tipo de representação que ela deverá fazer sua.121
O Eu proposto na metapsicologia de Aulagnier requer um espaço no qual possa se constituir. E este lugar vai sendo construído, entre outras coisas, a partir de um porta-voz e sua ação repressora, da ambiguidade da relação da mãe ao ‗saber-
118 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 83. 119 Ibid., p. 108.
120 Ibid., p. 82. 121 Ibid., p. 83.
poder-pensar‘ da criança, do desejo do pai de ter filhos, etc.122. Aulagnier define o
conceito de porta-voz como sendo:
[...] a função atribuída ao discurso da mãe, na estruturação da psique: porta-voz no sentido literal do termo, pois é a esta voz que o
infans deve, desde seu nascimento, o fato de ter sido incluído num
discurso que, sucessivamente, comenta, prediz, acalenta o conjunto de suas manifestações, mas porta-voz, também no sentido de delegado, de representante de uma ordem exterior cujo discurso enuncia ao infans suas leis e exigências. 123
O desejo e o discurso da mãe, que antecipa e interpreta as manifestações da criança, decorrem da sua estruturação psíquica. Para designar o desejo e o pré- investimento da mãe com relação à criança, Aulagnier definiu o conceito de ―sombra falada‖:
O que chamamos de sombra é, portanto, constituído de uma série de enunciados que testemunham o desejo materno referente à criança; eles constituem uma imagem identificatória que antecipa o que será enunciado pela voz deste corpo, ainda ausente.124
Essa sombra comporta a ―estória edipiana da mãe‖ e seu reprimido, o que induz por antecipação o reprimido da criança, favorecendo a transmissão de uma instância repressora. O desejo e o discurso da mãe, que antecipa e interpreta o conjunto das manifestações da criança, constituem, segundo Aulagnier uma
violência primária – o termo violência é usado no sentido de violar a psique do bebê – e se mostra como um movimento fundamental para que haja constituição psíquica:125
O discurso materno é, portanto, o agente e responsável pelo efeito de antecipação imposto àquele de quem se espera uma resposta que ele é incapaz de fornecer. É também este discurso que ilustra de maneira exemplar o que designamos como conceito de violência primária. 126
No entanto, o excesso nessas interpretações veiculadas pelo discurso materno representam o que Aulagnier define como violência secundária, que pode significar a apropriação pela mãe da atividade de pensar da criança; esta violência é
122 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, pp. 105-106. 123 Ibid., p. 106.
124 Ibid., p. 113. 125 Ibid., p. 122. 126 Ibid., p. 35.
desnecessária e muito nociva ao desenvolvimento psíquico da criança. A ação identificatória da linguagem permitirá à criança transformar afeto em sentimento:
A entrada em cena da compreensão e da apropriação da linguagem, obriga o sujeito a levar em consideração um modelo, que transfere para este registro e deste para o processo secundário, uma causa do afeto que, enquanto afeto, seria incognoscível para o Eu.127
O ‗ter que falar‘ exerce uma ―violência‖ sobre a psique, uma vez que as palavras que designam os sentimentos podem não ter a mesma equivalência para todos.
A transformação do afeto em sentimento é o resultado deste ato de linguagem, o qual impõe um corte radical entre o registro pictográfico e o registro da atribuição de sentido: este corte é independente da voz e das vozes às quais o sujeito deve o aporte lingüístico.128
Estamos assim diante de uma das condições necessárias para que o Eu possa se constituir: a enunciação de um sentimento implica também a enunciação da capacidade de ―autonominação do Eu‖129. A linguagem permite ao sujeito
demandar e solicitar ao outro uma resposta.
A capacidade de projetar-se no futuro é fundamental para a existência do Eu, uma vez que sua entrada em cena promove o acesso à temporalidade e à historicidade, que são inseparáveis; sendo as principais funções do Eu justamente pensar e investir.
O pré-investimento que antecede a constituição do Eu está relacionado ainda a outros dois conceitos que estão na base da constituição psíquica e que, de alguma maneira, envolvem a intervenção das figuras parentais: o prazer necessário e o
prazer suficiente.
O prazer necessário é fundamental para que a vida do Eu seja possível, e decorre de quatro condições: 1) bom funcionamento do corpo; 2) antecipação e pré- investimento do Eu pelo Eu do porta-voz; 3) investimento de um mínimo de referências identificatórias; 4) constância de um Eu que se mantém como apoio na realidade exterior: ―É necessário que na cena da realidade exterior ao menos um
127 AULAGNIER, P. (1975). A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 133. 128 Ibid., p. 131.
outro Eu continue a ser ponto de apoio e suporte de investimentos‖130. Aulagnier
reitera que, na prática, um só Eu é insuficiente para satisfazer esta condição.
O prazer suficiente é fundamental para que o Eu escolha viver como uma possibilidade; é o prazer que experimenta através de seus investimentos. A autora coloca uma condição para que o prazer suficiente possa ser acrescido ao prazer necessário:
(...) é preciso que o Eu tenha a convicção de que não é amado simplesmente por obrigação ou necessidade, mas porque foi escolhido e porque escolheu, mesmo quando se torna bastante lúcido para reconhecer o que há de relativo e de limitado na sua escolha. 131
Para Aulagnier, o Eu se constitui por duas dimensões: a identificada e a identificante. Estas dimensões são interpretadas por Violante da seguinte maneira: 1) a identificada – ―formada pelos pensamentos pelos quais a mãe pensa o Eu do bebê, chegando mesmo a antecipá-lo, e que deverá preservar no seu espaço certos pontos de certeza”132; 2) a identificante – ―o ‗agente da ação psíquica‘, investe na
identificada e no futuro‖133. A dimensão identificante confere certa autonomia ao
pensamento da criança, que poderá aceitar, recusar ou transformar o que se diz e o que se pensa sobre ela.
O processo secundário do funcionamento psíquico entra em cena a partir da constituição do Eu. A atribuição de causalidade ao vivido feita pelo Eu se dá segundo o postulado da causalidade inteligível, imposta pela exigência de sentido própria do Eu. As ideias ou representações ideativas e os enunciados são os produtos desse modo de funcionamento.
130 AULAGNIER, P. (1979). Os Destinos do Prazer: Alienação – Amor – Paixão. Tradução de Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau e Maria Clara Pellegrino. Rio de Janeiro: Imago, 1985, p. 140.
131 Ibid., loc.cit.
132 VIOLANTE, M. L. V. Piera Aulagnier: Uma Contribuição Contemporânea à Obra de Freud, p. 51. 133 Ibid., loc. cit.
2.2) A Identificação
O processo da dialética identificatória na constituição do Eu compreende três tempos sucessivos, conforme propostos por Aulagnier134: os dois primeiros tempos referem-se à identificação primária e à identificação especular – por ocasião do advento do Eu. O terceiro tempo refere-se à identificação pós-edípica – que vai do tempo para compreender ao tempo de concluir.
1) Identificação primária – a resposta da mãe à demanda de libido do bebê resulta numa identificação primária. É a ―manifestação inaugural da atividade psíquica”135. A interpretação da mãe para
com as manifestações de vida da criança (choro, grito, expressões faciais, etc.) molda-se ao desejo materno. A criança não espera saber falar para demandar ou desejar. A seguinte construção representa a dialética da identificação primária: ―A mãe deseja que o infans demande e o infans demanda que a mãe deseje.‖136. Assim,
demanda primária é demanda de libido, é o desejo que a criança espera da mãe. O desejo do outro, representado pela mãe, responderá propondo um objeto, mais precisamente, o seio, que é objeto de demanda do bebê e objeto de oferta da mãe.
2) Identificação secundária, especular ou imaginária – o termo especular advém do conceito de estádio do espelho, definido por Lacan e mantido por Aulagnier para compreender a maneira como o Eu ideal se constitui entre os seis e dezoito meses. Assim, o registro imaginário entra em cena a partir do encontro entre sujeito e Eu especular, oferecendo-lhe uma ―aparente‖ autonomia nesse registro. A satisfação das demandas pré-genitais – demanda de objetos que inicialmente são equivalentes fálicos – é condição necessária para que a identificação especular seja possível. A identificação especular é um processo no qual o Eu se aliena na imagem refletida pelo outro em uma relação dual/especular. Segundo interpretação
134 AULAGNIER, P. (1986) Um Intérprete em busca de sentido – I. Tradução de Regina Steffen. São Paulo: Escuta, 1990.
135 Ibid., p. 196. 136 Ibid., p. 197.
de Violante ―ao serem assimilados (os equivalentes fálicos) como dom materno, vão instrumentalizar o desejo.‖137. Essa demanda é
prioritariamente dirigida à mãe e vem impedir a alienação do bebê no campo do outro, possibilitando-lhe uma assunção jubilosa de si e a consequente diferenciação do Eu materno;
3) Identificação ao projeto – esse momento compreende dois pontos fundamentais: a castração, como tempo para compreender – compreender que não ocupa o lugar de exclusividade que julgava ocupar no desejo materno – e o projeto identificatório. O período que vai do advento do Eu à castração simbólica representa, como foi dito anteriormente, o tempo para compreender, e o período que se estende entre este último e o que Aulagnier chama de tempo
para concluir – concluir ou definir a posição identificatória – refere-se à identificação ao projeto, que, na teoria freudiana, corresponde ao ideal do ego. Assim, ―O projeto pressupõe acesso ao registro da temporalidade[...]‖138 à medida que promove uma imagem ideal do
Eu projetada no futuro. A demanda pós-edípica, diferentemente das demandas primária e pré-genital, é endereçada a si mesmo, ou seja, trata-se da demanda de ideais.
Segundo Aulagnier, a lógica do desejo apresenta-se ao bebê em contato com