• Sonuç bulunamadı

E. Onurlu Ölme Hakkı ( Ötenazi )

4. Teşhisi Koyan Taraf

Eu vejo essas coisas rodando, sabe, assim... (Daniel)

Relacionada à questão da importância dos relacionamentos entre os pobres urbanos, outra questão que emergiu no meu convívio com o grupo pesquisado foi o compartilhamento de objetos e espaços. Em várias ocasiões, percebi muito claramente que existe o hábito de troca e empréstimo de aparelhos, roupas e objetos tanto entre integrantes de uma família quanto entre pessoas conhecidas e vizinhos. Conforme dito na seção anterior, entre as donas de casa é fácil observar a “troca” de mantimentos e pequenos objetos domésticos. As seguintes transcrições mostram isso.

Meu irmão também. Sempre foi criado com a gente, né. Então tudo o que a gente teve ele sempre teve também. Compra roupa, compra pra todo mundo; compra sapato, compra pra todo mundo. Então, sempre tudo pra todo mundo. (Ilma)

Se eu chegar na casa dos meus antigos vizinhos e tiver um DVD que eu não vi e eu fiquei interessada, aí eu pego emprestado. E se eles chegarem lá em casa também empresto, porque já tem esse convívio. Lá em casa era assim: “ô fulano, você tem

isso aqui, você tem?” “Me empresta isso, me empresta aquilo!” Era assim que a

Além do compartilhamento, é bastante comum a venda de produtos entre os integrantes das famílias, muito em decorrência, conforme já comentado anteriormente, da proximidade entre os moradores, pois muitos precisam passar pela casa do vizinho para ter acesso à sua residência. Outras vezes, da janela de uma das casas o morador vê o que está acontecendo na casa do outro. Além disso, ainda existe um compartilhamento das áreas

comuns entre as casas, como as lajes, os becos e os quintais. A “laje” da casa é valorizada

pelos moradores, pois representa um espaço importante da casa que leva a uma forma de distinção da moradia, uma vez que pode ser utilizada para receber amigos e parentes, bem como pode servir de local de convivência da família. Nesse sentido, a análise do coordenador de uma ONG no bairro Serra sobre esta questão parece ir ao encontro do que é comentado.

[...] eu já vi muita troca assim de “Essa bicicleta era de fulano, eu comprei”, “Essa moto comprei de beltrano, celular”... Existe esse compartilhamento. Acho que as coisas circulam um pouco, até porque muitas vezes como as famílias são grandes, quer dizer, essas famílias são grandes na mesma casa, e vai lá, o filho casa e faz lá um quartinho lá, um puxadinho lá, o outro também, na própria área dele. Então existe esse compartilhamento de produtos, aparelhos, produtos. Acho que é muito forte, né... (Daniel)

Complementarmente, a fala da dona de uma loja de móveis na região do Aglomerado parece ratificar a situação de compartilhamento.

Ele vende. Eles passam pra frente, pro vizinho, pra um irmão, pra quem que for. (Soraia)

Uma história que ouvi e me intrigou logo no início do trabalho de campo também contribui para ilustrar a questão do compartilhamento entre os pobres urbanos que pesquisei. Um morador havia adquirido uma moto no crediário. Mas, depois de apenas três meses, decidiu vendê-la. Ao ser perguntado por que havia ficado tão pouco tempo com o veículo que era seu grande sonho de consumo, ele relatou que esta aquisição havia se tornado um

“pesadelo” para ele, pois todos seus amigos, vizinhos e conhecidos queriam a moto emprestada, seja para fazer algum transporte particular ou simplesmente para “dar uma voltinha”. Este morador chegou a relatar, com certo ar de insatisfação, que, apesar de ter

usado a moto pouco tempo, ela já estava avariada pelo uso imprevidente de seus “amigos”.

Como não queria criar um “mal-estar” com eles, optou por desfazer de seu grande sonho de

No tocante ao uso dos aparelhos eletrônicos, pude observar que o mesmo acontece. Como as famílias são numerosas e as casas são pequenas, o compartilhamento de todos os aparelhos quase funciona como regra geral. Nas conversas informais, sempre as pessoas afirmavam que a televisão, o DVD e o som eram instalados na sala para favorecer a utilização de todos. É interessante enfatizar que também notei a preocupação das mães em mostrar para seus filhos, desde criança, a importância de se compartilhar todos os objetos da casa.

Ah, se eu tiver lá duas ou três televisão e uma estiver desativada, eu emprestaria, até daria. (Eliane)

Compra de aparelho lá em casa, nós tem esse hábito: se eu compro, é nosso; se ele compra, é nosso. Então, em geral, nós compramos. (Luciana)

Ah, só na sala. O som é pra todos. Pra todo mundo... Todo mundo usar. (Eliane) Normalmente, a da sala, porque aí todo mundo junto e porque senão meu quarto fica uma bagunça. (Helena)

Devido ao compartilhamento, muitas vezes, é necessária a intervenção da mãe para conter alguma discussão ou briga que pode ocorrer entre os integrantes da família. Quase sempre a mãe lança mão de sua autoridade para definir critérios de utilização dos aparelhos.

Não, mais aí, não. A gente tem que entrar num acordo. “O, tal fulano de tal assiste tal coisa tal dia. Outro fulano assiste tal outra coisa outro dia”. A gente vai revezando, porque se eu for ligar os dois aparelhos ao mesmo tempo, chega fim do mês eu não consigo pagar conta de luz, meu filho! (Helena)

Uma das questões importantes que também emergiu na pesquisa foi o papel importante que os aparelhos eletrônicos assumem no dia a dia dos consumidores pobres urbanos. A próxima seção tem por objetivo descrever por que esses aparelhos podem ser considerados uma importante forma de lazer para os moradores da favela.