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Esta categoria emergiu dos dados quando verifiquei que os relacionamentos são extremamente importantes no cotidiano dos moradores do Cafezal. Conforme já discutido anteriormente, este relacionamento pode ser atribuído à proximidade entre os moradores, pois as casas são construídas muito próximas umas das outras. O fato de em um mesmo terreno, ou

“área”, como os moradores chamam, se instalarem várias famílias pode contribuir para o

aumento da importância dos relacionamentos dos pobres urbanos. Não raramente, muitos namoros e casamentos ocorrem entre integrantes das famílias vizinhas. Dessa forma, é comum que os filhos, após o casamento, passem a residir nas proximidades, o que reforça os laços familiares. Nesse contexto, as relações de vizinhança envolvem conflitos e alianças. Em muitos casos, ocorrem situações desagradáveis por motivos de fofocas e outros problemas relacionados à convivência muito próxima entre as pessoas. Ainda que o básico das redes

sociais construídas esteja embasado nas relações de parentesco, os “parentes”, quase sempre,

são selecionados em um contexto mais amplo de relacionamentos sociais.

Verifiquei, por diversas vezes, situações de ajuda mútua entre as moradoras de casas

próximas, em que as mulheres, sem muita “cerimônia”, se dirigiam à casa da vizinha para pedir “emprestado” alguma panela, algum utensílio a ser utilizado para afazeres domésticos

ou, até mesmo, um pouco de arroz, farinha, açúcar ou tempero que havia faltado para terminar o preparo de alguma refeição. Em outras ocasiões, o empréstimo de roupas entre parentes, principalmente mulheres, é também bastante comum.

Este relacionamento “estreito” parece ter certa influência nas formas de consumo dos

pobres urbanos que pesquisei. Uma questão que emergiu desde a primeira entrevista foi o

“empréstimo” do nome de alguém que tenha acesso ao crédito (que pode ser o patrão, um familiar, um vizinho) para comprar algo. No “vocabulário” dos pobres urbanos essa situação é

chamada de "tirar", que pode ser vista como uma forma de aquisição de produtos por parte dos consumidores de baixa renda que não têm acesso aos sistemas de crédito. O interessante é que este hábito é comum em todas as faixas de idades e conhecido por todos.

Aí, eu fui trabalhar na casa dela e pedi ela pra “tirar” pra mim. E aí eu pagava com serviço. Desse jeito que eu consegui pagar. (Aparecida)

Essa compra, na época, ela foi assim, porque eu ainda não podia “tirar” um som porque eu recebia muito pouco e tal. Aí, então, a minha prima Jaqueline foi comigo e ela tirou pra mim, e eu comprei. Eu que paguei e tal. Ela só tirou. (Beatriz)

Eu “tirei” pra uma ex-sogra minha. Deu certo. Eu tirei pra sogra atual, a que era, a

que eu separei agora. Não deu certo, sujou. (Eliane)

Foi, foi eu que comprei. Pedi o vizinho pra “tirar” pra mim, porque nem o crédito nas lojas eu não tinha. Então, o vizinho que “tirou” pra mim. (Marta)

Eu tenho este armário que foi uma amiga que “tirou” para mim, mas já tem dois

anos. Na época, eu não tava ”fichada”. Então, Cacilda que “tirou” para mim. Mas já paguei ... (Neusa)

Apesar de comum e altamente utilizado, o “procedimento” é visto como arriscado por algumas das entrevistadas, pois envolve a possibilidade de ter o “nome sujo”, que é bastante

mal visto. Por isso, muitas delas tomam cuidados para evitar problemas, embora busquem

negar o “favor” com uma certa dose de cautela.

Já pedi isso, mais tem tantos anos! E na época, eu não trabalhava de carteira assinada ainda, não, sabe? Então não tinha como eu “tirar” realmente. Agora, dependendo de algumas pessoas, eu não “tiraria”, não, porque depois eu ia ter que pagar dívida de uma coisa que não tá comigo. Eu não vou deixar meu nome ficar sujo, que eu posso precisar, de repente, pra poder comprar qualquer uma coisa e meu

nome tá sujo e eu não posso “tirar” mais. Então, depende muito da pessoa. (Helena) Nos últimos anos, com a introdução de cartões de crédito nas camadas mais populares, vários consumidores de baixa renda tiveram acesso a este importante instrumento de crédito utilizado. Alguns comerciantes com quem conversei, relataram que nos últimos anos algumas

“bandeiras” de cartões de crédito têm destinado esforços em aumentar sua base de clientes

com foco no consumidor de baixa renda. A dona da loja de móveis que entrevistei informou que o percentual de utilização de cartão de crédito por parte dos moradores do Cafezal tem aumentado muito e que, atualmente, representa cerca de 20% das vendas. Dessa forma, também verifiquei que é comum o empréstimo do cartão para a compra de produtos para terceiros.

Aí, minha mãe tem, meu irmão tem. Então, assim, pra que eu vou ter? Minha mãe tem dois. Eu estou assim: “Não sei pra que dois”. Aí, usa, né? (Ilma)

Aliada à questão dos relacionamentos, percebi que a vizinhança tem uma influência marcante na vida dos moradores da favela. Muitas entrevistadas não economizam elogios ao se referirem aos vizinhos, chegando a tratá-los como parentes. Também é comum tratar a casa

dos vizinhos como “continuação” das suas moradias.

Ia sempre pra lá. Quando um vinha para minha ou ia pra casa do outro. É assim, sabe, tudo vizinho perto. (Aparecida)

Ótima! Os meus vizinhos são meus parentes chegados, meus irmãos... (Neusa) No caso de doença, ô meu filho, eles chegam até carregando água no balaio pra mim, graças a Deus... (Marta)

É tudo parente. Então, é isso, se eu precisar de alguma coisa... Fica assim, sendo segunda casa. É aquele entra, aquele sai, aquele me empresta, aquele me dá. Então meus vizinhos era tudo parentes... (Eliane)

Os vizinhos são, assim, uma, parentes mesmo... Continuação da minha casa. São muito próximos da gente. (Fátima)

Lá em casa, às vezes, o que acontece, como um mora numa casa, outro mora noutra, apesar de morar no mesmo bairro, aí o que faz: “Ah, não. Vou ver minha mãe no

domingo”. Aquela coisa: vou ver minha mãe, vou ver minha avó, vou na casa de

mãe, casa de vó, aquela coisa. Então, junta o pessoal, um ou outro faz uma carne, faz um churrasco, uma coisa assim. Mas é coisa simples e, às vezes, nem faz. Junta todo mundo e fica conversando. Minha vó faz uma macarronada, e todo almoça junto com ela. Senta ali e conversa, bate papo... (Ilma)

Muitas vezes, a força dos relacionamentos entre os moradores transforma-se em ajuda. A intermitência dos empregos, atrelada à inconstância na renda e ao desemprego, que sempre faz parte da vida cotidiana dos moradores da favela, intensifica a relação de dependência da rede de parentesco e de amizade. É bastante comum a organização de mutirões para auxiliar na construção ou melhoria da casa de algum morador, que passa a contar com a participação de familiares, vizinhos e amigos. A fala de uma coordenadora de creche atuante no Aglomerado da Serra há muitos anos retrata esta realidade.

Elas lutam pra construir um muro. Eles se ajudam, ah... “Na hora que ele chegar do serviço, vai me ajudar a construir o meu muro. Ele vai cobrar tanto. Eu tô pagando

por mês o material”. Isso aí é voz corrente, se vê que nas favelas todos tem depósito

de material, na boca da favela, todos, muito forte, porque eles constroem mesmo. Elas que fazem a massa. Qualquer coisa eles ajudam, eles pegam no pesado. Então tudo deles ali é junto... (Miriam)

A partir dessa situação, verifiquei a influência dessa proximidade entre os moradores na forma de compartilhamento de objetos e espaços, que será discutida na próxima seção. Porém, de interesse é a discussão que pode ser suscitada quanto à forma de que o relacionamento interfere na experiência de consumo dos aparelhos eletrônicos. Cheguei a ouvir de uma jovem de aproximadamente 20 anos uma história interessante. Ela gostava de passar os finais de semana ou, quando era possível, na casa de sua colega, pois lá ela podia ouvir rádio e assistir televisão. Ainda que a casa de sua colega fosse bastante simples e a

televisão não “pegasse tão bem”, ela preferia ficar lá do que na sua própria casa. Contou que

quando chegava na casa da colega passava horas do dia deitada na sala para assistir a televisão, sem se incomodar com os outros moradores da residência. Os trechos das entrevistas destacados abaixo dão uma boa noção do nível de relacionamento existente entre os moradores que pesquisei.

Não, assim, todo mundo assiste junto, né? Quando vão assistir alguma coisa, é tudo junto. (Helena)

Ó, tipo assim, porque o padrinho dele tava sem máquina né, que mora lá perto. Aí, ele tava sem máquina de lavar roupa. Aí, ele trocou. (Beatriz)

Com aquela intenção, vão todo mundo lá para casa com aquela intenção num domingo à tarde. Mais se vão pra almoçar, a gente vai fazer almoço, vai conversar. Aí, depois, sim, a gente vai assistir o filme. Mais não é prioridade, mais que a gente utiliza, utiliza. Eu prefiro ligar o sonzinho lá fora. (Eliane)

Eu acho assim, igual, têm os pontos positivos, que nem quando a gente está em casa ali o seu sonzinho. Você junta todo mundo, a galerinha, ali. Vou juntar os meus amigos, chamar a família mesmo mais pra perto. Tem um pessoal ali que gosta. Aí vai dizer: “Ah, essa música eu estou dedicando pra você”. Eu sempre escuto isso, sabe? (Ilma)

Colocava uma caixa lá no terreiro de um lado e do outro puxava a fiação assim, sabe, do som mesmo. Puxava, deixava o som lá dentro de casa e as caixas lá fora. Nosso Deus! Gente, o que que isso? ... Pra eles e pra mais quem quisesse ouvir, né, os vizinhos. (Aparecida)