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Hekimin Sır Saklama Yükümlülüğünün Đstisnaları

D. Hekimin Sır Saklama Yükümlülüğü

4. Hekimin Sır Saklama Yükümlülüğünün Đstisnaları

Inicialmente, vale ressaltar, conforme já discutido na seção 7.6, que uma das formas de aquisição de aparelhos eletrônicos por parte dos consumidores de baixa renda é por meio

do “empréstimo” do nome, ou “tirar”, no vocabulário utilizado por eles. Com a introdução do

uso do cartão de crédito nas camadas mais populares, os pobres urbanos tiveram acesso ao crédito, e com isso houve aumento na compra de aparelhos novos nas lojas. Mesmo com a emergência dos cartões de débito e crédito, o hábito de “empréstimo” do nome manteve-se, pois passou a ser utilizado o empréstimo do cartão, principalmente de crédito. Contudo, foi possível verificar algumas outras formas de aquisição que foram surgindo nos relatos que obtive dos meus pesquisados. Entre as formas, podem-se destacar: compra em bazares existentes no próprio bairro, compra de aparelhos usados de vizinhos, parentes e amigos, e

compra de aparelhos de procedência “duvidosa”.

Notei que uma modalidade de obtenção de produtos “não tradicional” por parte dos moradores do Cafezal é por meio de bazares, sejam beneficentes ou não. O curioso a notar é que vários objetos são comprados neste tipo de comércio. Sua ocorrência é bastante comum em áreas pobres e se constitui em uma oportunidade para os consumidores terem acesso a produtos de melhor qualidade e com preços mais baixos.

Um sonzinho, pequenininho assim, comprei aqui no bazar, também da creche... Como eles estavam vendendo, né, e eu teria que comprar, eu fui e comprei na mão deles. E eles tava vendendo ela baratinha. Ela é imagem muito boa. (Celina) Minha mãe frequenta bazar. Então, então eu acho que vale a pena comprar lá ... (Jeane)

Aqui no bazar? Aqui mesmo eu já comprei uma televisão... Eu já comprei. Mas só que eles está precisando de consertar, consertar a televisão... Se precisar, eu compro. Se precisar de um colchão, cama, né, porque sempre é caro. A cama dos meninos estão quebrando, de madeirazinha... Então, se chegar aqui e estiver no meu alcance, eu compro. (Marta)

Meu filho ... o bazar é tudo de bom!... (risos) Às vezes, é uma alegria só! É oportunidade prá nós pobres conseguir comprar coisas bonitas e baratas! (Eliane)

A partir da emergência desta categoria de análise, passei a pesquisar e constatei a existência de bazares em alguns pontos do bairro e nos arredores. Um deles, de caráter beneficente, visitei-o algumas vezes, conforme pode ser verificado na descrição abaixo constante no meu diário de campo datado de 12/10/2008.

“Cheguei na Associação4

naquele dia cedo e logo notei um grande movimento de pessoas, pois além de estar acontecendo o bazar, era um domingo especial, em virtude da comemoração do Dia das Crianças. Achei interessante observar e acompanhar o comportamento das pessoas em um bazar beneficente, porque muitas das entrevistadas citaram que compram diversos produtos (roupas, sapatos, móveis e até alguns aparelhos eletrônicos) nesse tipo de comércio, que é bastante comum em áreas pobres. É importante frisar que esses bazares beneficentes são promovidos quase sempre por entidades de caridade, igrejas, organizações não governamentais, com o intuito de angariar recursos para as obras assistenciais. Os produtos vendidos são, em sua maioria, oriundos de doações de voluntários e obtidos por meio de campanhas. No caso desse bazar, que acontece sempre no segundo domingo de cada mês, o objetivo é levantar recursos para a manutenção de uma creche que abriga quase 100 crianças oriundas do Aglomerado da Serra em horário integral. Ainda que a creche tenha o apoio da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, a Associação arca com quase todas as despesas de alimentação e material escolar das crianças.

Na entrada da Associação, desde cedo, foi possível observar uma pequena fila, que começa a se formar, basicamente, com donas de casa da região mais pobre do bairro Santa Efigênia e Aglomerado da Serra. Eram pessoas muito simples, que pareciam não ter muitos

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Trata-se de uma associação espírita localizada no bairro Santa Efigênia, chamada “Associação Espírita Chistopher Smith”. Por estar muito próxima geograficamente da favela do Cafezal, muitos dos trabalhos

assistenciais são focados para os moradores da favela. Para fins dessa descrição, achei melhor utilizar a

recursos para comprar produtos em lojas tradicionais. Elas faziam questão de esperar na fila para serem as primeiras a ter acesso aos produtos, na esperança de conseguir comprar algo de melhor qualidade.

Aproximadamente às 9 horas, o portão foi aberto, e todas elas tiveram acesso a um salão no qual os produtos estão expostos. Trabalhavam no bazar cerca de 20 voluntários, que

se distribuiram nas várias “seções”: roupas mais baratas, sapatos, bijouterias, brinquedos,

livros, material escolar, artigos de casa, móveis e até um local mais isolado, chamado pelos

voluntários de “butique”, onde eram vendidas roupas de melhor qualidade e em melhor estado

de conservação. Observei que os preços eram extremamente baixos. Podia-se encontrar roupas (camisas, calças, blusas) de R$ 1,00 a R$ 5,00. Brinquedos podiam ser comprados a R$1,00 ou R$ 2,00. Os preços maiores eram cobrados nos produtos da “boutique”, que foram fixados por volta de R$ 10,00.

Algumas mercadorias, como brinquedos, bijouteiras, livros, material escolar e artigos de casa, estavam expostos em grandes mesas. Algumas roupas estavam acomodadas em mesas e outras eram penduradas em “araras”, para facilitar o manuseio dos consumidores. Os

sapatos eram colocados no chão e quase todas as roupas da “boutique” estavam expostas em “araras”.

Naquele domingo, não havia muitos móveis para venda, mas já foram vendidos em outras datas armários, camas, sofás e até aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos, como som, televisão, videocassete, geladeira, máquina de lavar e computadores. Ao perguntar para alguns voluntários, vários me disseram que uma cama simples mas em bom estado pode ser vendida por volta de R$ 50,00 e que, dependendo do estado de conservação de uma televisão, podia-se chegar ao valor de até R$ 80,00. Vários voluntários me informaram que existe uma demanda considerável por móveis e eletrônicos por parte dos compradores do bazar. Quando aparece alguma mercadoria desse tipo, ela é vendida rapidamente e pode, inclusive, até causar briga entre os pretendentes à compra. É muito comum também a ocorrência de certa negociação e ferrenha pechincha por parte dos compradores de produtos desse tipo.

Na saída, foi instalado um “caixa”, no qual um voluntário controlava o pagamento das

compras. Todos os pagamentos eram feitos em dinheiro e muitos compradores, que são serventes da Associação, pediam para parcelar os valores devidos das compras, o que era plenamente atendido. Muitas delas pagavam as compras com cédulas muito amassadas. Verifiquei que a maioria das compras é de roupas para crianças. Também notei que boa parte das compras não ultrapassava R$ 10,00. Foi possível observar que existe certa informalidade

nas compras, pois algumas compradores se dirigiam aos voluntários pedindo que se aparecesse algum produto de seu interesse o avisasse rapidamente. Presenciei uma dessas situações: uma senhora simples insistiu, por diversas vezes, que se aparecesse uma televisão ela tinha muito interesse na aquisição.

Perguntei informalmente a uma das compradoras por qual motivo ela frequentava um bazar daquele tipo, e ela me disse que sempre visitava o bazar em busca de roupas para seus filhos. Na visão dela, como não adiantava comprar roupas de boa qualidade para as crianças, pois eles as estragavam rapidamente, ela optava por comprar peças mais simples, para economizar. Me disse que sempre quando tinha oportunidade também frequentava outros bazares da região.

No início, o fluxo de pessoas era bastante alto, o que forçava os voluntários a ter bastante trabalho no controle do fluxo e na apresentação das mercadorias. Notei que duas ou três senhoras apresentavam comportamento diferente das demais, pois estavam comprando diversos produtos em grande quantidade. Fiquei sabendo depois que se tratava de

“sacoleiras”, pessoas que compram produtos em bazares para revender mais caro em outros estabelecimentos. Fui informado também que uma dessas “sacoleiras” mantinha um pequeno

comércio de roupas próximo à favela.

Por volta das 11 horas, como o movimento tinha diminuído sensivelmente, foi decidido que o portão seria fechado para finalizar o bazar daquele domingo. Depois desse horário, os voluntários iniciaram o desmonte das mesas e “araras”, e a acomodação das mercadorias não vendidas que seriam utilizadas no bazar do próximo mês. Ao final, todos os voluntários estavam satisfeitos, pois naquele domingo o bazar havia rendido a quantia de R$ 700,00.

Também percebi que muitos dos moradores da favela „montavam‟ sua casa por meio de doações de móveis, aparelhos e utensílios domésticos feitas por patrões, familiares, amigos ou pessoas conhecidas que se sensibilizam com a situação na qual alguns moradores vivem. É importante ressaltar que existe entre os moradores certo costume de solicitar ajuda das pessoas. Por diversas vezes, fui abordado e solicitado a contribuir com dinheiro, roupa, material de construção ou algum outro tipo de auxílio por parte de alguns moradores”.

Meu pai, ele no serviço, ele ganhou uma televisão lá. Tá até hoje lá em casa essa televisão. Tá em bom estado, e tudo mais. (Jeane)

A pequena que fica no quarto do meu filho foi a minha filha que me deu, quando eu cheguei de Pedro Leopoldo, e a outra foi a Selma, irmã da Dalina. (Neusa)

Desde quando eu casei, porque foi ganhado. Foi ganhado. (Aparecida)

Não. O computador foi ganhado. Foi uma das minhas patroas que me deu. (Eliane) Eu tenho uma televisão e um radinho, daquele radinho, sabe, toca fita, mais tá estragado. O moço que me deu... (Gisele)

É digno de nota a constatação de que os moradores não veem com maus olhos a doação de aparelhos ou a compra de aparelhos usados em bazares.

Teja funcionando, uê, beleza! Não tem problema nenhum. (Helena)

Sim, comprei de alguém. Não sei. Foi minha mãe que tava olhando isso, e ela falou: Ah, não, vamos dá uma olhada e tal. Eu falei... Ela me deu os dados e eu falei: Não, então tá ok. Eu fui fazendo as perguntas pra ela lá. Acho que ela fez e eu falei: Não, pode comprar então, que isso aí tá tranquilo. Uma procedência tranqüila. Então comprou, e funciona bem até hoje. (Ilma)

É interessante ressaltar que os consumidores da favela com quem conversei mostraram certa resistência em consertar os aparelhos eletrônicos. Muitos disseram não compensar, pois o valor cobrado do conserto ficava próximo do valor de um novo. Pude confirmar esta questão ao conversar com o dono de uma loja especializada em conserto de aparelhos eletrônicos que atualmente está localizada na Rua do Ouro, no bairro Serra, mas já teve oficinas de conserto em vários pontos do Aglomerado da Serra. Com experiência de vinte anos de atuação e morador do bairro, ele relatou que seu movimento vem caindo gradualmente nos últimos anos, pois a maioria dos consumidores não gosta de consertar aparelhos, preferindo, muitas vezes, adquirir um novo ou usado que esteja em bom funcionamento.

Porém, todos os moradores da favela conhecem uma forma de aquisição de aparelhos que parece fazer parte da rotina: o comércio de aparelhos roubados ou obtidos de forma irregular ou ilegal. Ainda que muitos moradores evitem se estender na discussão quando perguntados sobre a questão, ouvi depoimentos que provam que esta é uma forma importante de acesso dos moradores, principalmente a aparelhos mais novos e atualizados tecnologicamente.

Tem um moço que trabalhou pra gente. Ele que fazia as entregas pra gente, né, que a gente terceirizava isso a quem precisasse de um CD, aquele CD de carro. Pergunta: Que modelo que cê quer? É! (Soraia)

Eu fico com medo deles comprar e criar um problema. E aqui você sabe que a gente não pode confiar em ninguém. Tem ficar sempre atento. Ppor exemplo, se alguém

falar: “Tô vendendo som”, eu não deixo eles comprar. Não deixo porque não deixo, não. Só compro se for em bazar daqui. (Neusa)

Além das formas de aquisição dos produtos eletrônicos, de importância para esta tese é a experiência de compra dos consumidores de baixa renda, questão que será discutida na próxima seção.