É muito doido isso. Muito mesmo. Esse lance de ter de consumir, como é forte! É impressionante! (Soraia)
Uma vez que um dos objetivos específicos do estudo é investigar formas e rituais de compra de produtos eletrônicos por consumidores de baixa renda, achei conveniente inserir na investigação, principalmente nas entrevistas, algumas questões relacionadas à experiência de compra. Cumpre ressaltar, porém, que a categoria de análise discutida nesta seção trata da experiência de compra “tradicional”, realizada em lojas do ramo, ainda que, conforme já apresentado, foi possível constatar que existem diversas outras formas de acesso dos consumidores de baixa renda aos produtos eletrônicos.
Logo no início, percebi alguns traços marcantes que foram sendo confirmados à medida que a pesquisa avançava. Um deles está relacionado à figura do decisor e à do efetivador da compra: quase sempre este papel está reservado à dona de casa, ainda que esta conte com o apoio e auxílio de outros membros da família que participam ativamente tanto do processo de busca de informação quanto da decisão. Verifiquei que não é muito comum nas famílias que pesquisei o homem ou o pai de família se envolver neste tipo de compra, sendo reservado a ele somente o papel de usuário dos produtos. Normalmente, os grandes
influenciadores da compra são os filhos, que “pressionam” os pais a trocarem de aparelhos ou a comprar alguma “novidade”.
Observei que muitas das minhas entrevistadas percebiam a importância de pesquisar preços e juros, uma vez que boa parte das compras é realizada a prazo. Porém, durante toda a pesquisa mantive a impressão de que a preocupação com os juros era mero discurso, pois muitos deles não tinham uma noção real dos cálculos que deveriam ser feitos para se chegar a
Uma questão que emergiu na pesquisa está relacionada à pesquisa que os consumidores de baixa renda fazem no momento de comprarem qualquer aparelho eletrônico. Como eles fazem estas compras no centro da cidade e devido à proximidade destas lojas, ouvi
de alguns moradores que eles chegam a promover uma “via sacra” em cada uma delas, a fim
de conseguir as melhores condições de pagamento, uma vez que os produtos seguem relativamente um mesmo padrão. A percepção do custo-benefício também é bem percebida por estes consumidores.
A gente, sempre qualquer coisa que a gente vai comprar, a gente pesquisa vários preços. A gente vai em várias lojas diferentes. A gente sempre olha juros. (Ilma) Olha, a gente vai muito pela pesquisa, né. Pelo menos assim a gente tem que pesquisar os preços, e tudo pra ver qual que é o preço mais em conta, né, contando também com a qualidade também do aparelho, né. A gente vai pesquisando, né, ver qual loja que tá mais em conta. (Fátima)
A minha mãe sempre olhava e sempre trazia encartes pra gente ver. “Ah não, então a
gente decidiu. Vamos no Ponto Frio”. Aí, a gente foi. Só que a gente foi no Ponto Frio, foi na Ricardo, foi nas Casas Bahia. A gente nunca vai num lugar só. Aí, acabou que, por fim, lá a gente teve a proposta mais tranquila assim, até de pagamento, preço, e a gente comprando de televisão, vinha um outro de DVD
também. Falei: “Ah, então aqui, por enquanto, o preço tá valendo a pena, a forma de
pagamento é viável, é tranquila pra gente. Tem um a mais aí que seria o DVD que tá
vindo junto com a televisão e não tá cobrando”. (Ilma)
Outra constatação da pesquisa está relacionada à participação de vários membros da família na experiência de compra dos produtos eletrônicos, o que reforça o que foi dito anteriormente no tocante à importância da família no uso dos aparelhos eletrônicos e no compartilhamento dos objetos.
Fui lá com eles escolher né, todos eles: o som, o DVD. Todos eles, e escolhi. (Luciana)
E eu fui com minha filha e com minha sogra também na época, né. (Eliane)
Minha filha que foi comigo e minha nora. Que minha filha, ela já sabia, sabia mais ou menos, que ela já tinha comprado lá, no Ricardo Eletro, Ricardo, né. Aí, a minha filha já foi e foi lá direto, e foi nas Casas Bahia, e aí a gente foi lá e tirou lá, rapidinho. Minha filha já estava por dentro. (Neusa)
Quanto aos atributos dos aparelhos, a principal preocupação dos entrevistados guarda relação com a sua durabilidade. Neste caso, parece que esta é a grande percepção de qualidade dos produtos. Porém, no caso do som a percepção da qualidade está relacionada à potência,
pois, como os próprios moradores enfatizam “som tem que ser alto”. Uma das entrevistadas,
comprando um som para ele. Porém, ao ligar o som, ela percebeu a frustração do seu cônjuge, pois o aparelho não tinha uma alta potência, mesmo na última gradação do volume. Em suma,
o que era para ser uma feliz surpresa acabou se transformando numa “briga” na loja, pois o
marido fez questão de levar o som até o estabelecimento onde havia sido comprado e obrigou o gerente a trocá-lo por um mais potente.
A marca dos produtos foi outra relevante questão que surgiu no trabalho de campo. Ainda que vários moradores tenham enfatizado que não dão importância para a marca, todos eles sabiam de cor todas as marcas de eletrônicos existentes nas lojas, bem como as marcas dos produtos de suas casas e as dos aparelhos de seus vizinhos e amigos. Muitos deles afirmaram ter preferência por alguma marca a partir de suas experiências positivas com elas. Observei também certa rejeição à marca CCE, que surgiu espontaneamente em várias entrevistas.
A gente vê tanta gente falar da CCE, sabe? Inclusive, uma vizinha minha comprou uma televisão da CCE, e com prazo de três meses ela estragou. Ela foi lá na casa, e a televisão tá lá encostada lá. Mandou arrumá e tem quase um ano, e eles não deu solução de nada. (Aparecida)
Ela tá até precisando trocar também. Ela tá dando defeito. CCE é um problema. (Luciana)
Como não existe loja de eletrônicos nos arredores da favela do Cafezal, não percebi uma preferência clara por alguma loja específica. Os nomes normalmente citadas foram Casas Bahia, Ricardo Eletro e Ponto Frio, redes tradicionais no segmento de eletrodomésticos e eletrônicos. Muitos consumidores relataram que já compraram em várias destas lojas no centro de Belo Horizonte, utilizando como critérios de seleção o preço, as condições de pagamento e até o atendimento.
Já no tocante às formas de busca de informação para a compra de produtos, os pesquisados ressaltaram o uso da televisão como principal meio de comunicação das empresas com seus clientes. Porém, no dia a dia dos consumidores percebi uma forte influência de comentários e conselhos de amigos, parentes e vizinhos na escolha de compra, tal como já descrito na seção sobre influências sociais.
Pois é, então eu vejo aí, eu comparo o preço: “Esse aqui tá melhor que esse. Eu vou
naquele!” Mais, normalmente, eu vejo pela televisão. Lá eles dão informação; tal
Os entrevistados enfatizaram a importância do atendimento como principal atributo a ser considerado por uma loja de eletrônicos. É interessante comentar que não foi relatado nenhum caso de mau atendimento ou outro tipo de situação indesejada no relacionamento com as lojas.
O pessoal são todos muito educados. Mais, normalmente, os vendedores têm que ser muito educados mesmo, senão eles não vender nada, né? (Helena)
É o atendimento que sempre puxou mais ele e eu. Tem vez que ele entra na loja:
“Não, não gostei daqui, não. Vamos pra outra”. (Luciana)
Eu gosto, assim... Sei lá, eu fico olhando assim na vitrine primeiro pra ver o que é. Mas o atendimento também ajuda demais, porque uma pessoa educada pra poder
atender a gente... “O que a senhora interessa, aí e tal”... “Eu posso fazer isso pra
senhora e tal, etc...” Isso é muito importante também. (Marta)
Por fim, atrelado à experiência de compra dos aparelhos eletrônicos, considerei de interesse relatar algumas informações que obtive ao visitar as casas dos moradores da favela e uma loja de moveis localizada em uma das ruas de acesso à favela. Verifiquei que os consumidores pobres que pesquisei dão preferência aos móveis que contêm espelhos e portas com vidros. Segundo a proprietária da loja de móveis que entrevistei, os racks para acomodarem as televisões, sons e DVDs que têm maior preferência são aqueles que possuem partes com espelhos e portas com vidros.
Normalmente, os moradores do Cafezal optam por móveis com pezinhos, para facilitar a limpeza, pois boa parte das moradoras utiliza água para lavar a casa. Também preferem os que utilizam material de sucupira, uma vez que, devido às constantes mudanças de residências, estes oferecem maior durabilidade. Pude perceber tanto na casa dos consumidores quanto na loja de móveis que as empresas do setor moveleiro, atentas ao perfil destes consumidores, vêm procurando desenvolver modelos de móveis menores que se adaptam mais facilmente às casas pequenas dos moradores de favela. Muitos, por exemplo, têm criado guarda-roupas com portas de correr para economizar espaço.
Além disso, como gostam de enfeites diversos, os consumidores que pesquisei preferem cores mais fortes, como vermelho e vinho, principalmente para os sofás, toalhas de mesa e colchas de cama. No mesmo sentido, têm preferência por destinar espaço aos tapetes e quadros em suas salas.