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Teşhircilik ve Mahremiyet Kültü

BÖLÜM 3: NARSİSİSM KÜLTÜRÜ VE SOSYAL MEDYA İLİŞKİSİ

3.4. Bulgular ve Yorum

3.4.2. Teşhircilik ve Mahremiyet Kültü

acesso à terra

A elaboração do Plano de Urbanização da ZEIS 3 C 016 (Sé) veio arraigada de condicionantes especí- icas, dada sua inclusão dentro do perímetro de um projeto especíico como o Projeto Nova Luz, que não apenas possuía regras próprias, mas seria viabilizado por um instrumento inédito na legislação brasileira, a Concessão Urbanística. Ainda assim, o processo de elaboração do Plano de Urbanização, o primeiro a ser elaborado para uma ZEIS 3, juntamente com a formação do Conselho Gestor, trouxe elementos signiicativos para a análise do desempenho da ZEIS 3 como instrumento de democratiza- ção da terra urbana e, sobretudo, para o recorte que mais no interessa nesta pesquisa, em como este instrumento pode garantir a permanência da população de baixa renda em áreas doadas de infraes- trutura e atraentes para o mercado imobiliário.

A partir da experiência da ZEIS da Nova Luz foi possível avaliar temas como a efetividade da regu- lamentação existente, a importância das condicionantes locais para a deinição das políticas habita- cionais, o peril da demanda por moradia das áreas centrais, as especiicidades de uma ZEIS 3 em relação a outras ZEIS e a experiência da gestão pública para os distintos enfrentamentos locacionais, as disputas pela propriedade, os alcances e limitações do processo participativo, as implicações dos megaprojetos, a justaposição de políticas públicas sobre um mesmo território, entre outros. Este arcabouço de análises estruturou os temas tratados na primeira parte dessa pesquisa, bem como possibilitou a análise do instrumento ZEIS 3 sob um ponto de vista mais amplo sobre as políticas de reestruturação urbana, seus mecanismos de aplicação e os atores sociais envolvidos, que vão além da especíica produção habitacional.

Foi possível constatar uma carência de repertório prático e teórico da gestão pública e da equipe do Consórcio Nova Luz para lidar com o tema da ZEIS 3. A metodologia para a formação do Conselho Gestor, os itens a serem abordados no cadastro e as especiicidades de projeto foram aplicados utili- zando-se da experiência em ZEIS 1 ou reurbanização de favelas, ou então como se tratássemos de um território neutro, sem condicionantes prévias. A necessidade de envolver diferentes tipos de morado- res (locatários e proprietários), comerciantes locais e as camadas mais vulneráveis da população, por se tratar de intervenção em uma área consolidada, foi desconsiderada no processo de formação do Conselho Gestor. Temas como os valores pagos com o condomínio, a necessidade de incluir os imi- grantes em situação irregular e os locatários de cortiços, a necessidade de uma deinição sobre quem teria direito ao atendimento no momento da intervenção (o morador cadastrado, que já se mudou, ou o morador recente, não presente no momento do cadastro?) e o destino dos moradores das ocu- pações irregulares não foram considerados a princípio para a elaboração do cadastro, muito menos incluídos no Plano de Urbanização original. Um perímetro de inluência que sofreria os impactos mais diretos da intervenção, condicionante importante em áreas consolidadas e infra estruturadas, não foi traçado. Os impactos às atividades existentes sejam elas de comércio ou serviços, bem como o planejamento da atividade produtiva local, não foram contemplados em nenhuma das etapas do diagnóstico ou do projeto.

Em relação à regulamentação, as propostas para os itens referentes à gestão participativa da ZEIS 3, apresentadas no capítulo 1 e também no processo de revisão do Plano Diretor, vieram da constatação

2.9

Figura 2.48: Reunião entre os Conselheiros representantes da moradia no Conselho Gestor da ZEIS 3 C 016 (Sé) e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, em fevereiro de 2013: “A reurbanização do Centro na gestão Had- dad se iniciará pela ZEIS da Nova Luz”, afirmou a secretária adjunta Tereza Herling.

210 211 das limitações vivenciadas no ambiente do Conselho Gestor, como a necessidade do conselho tripar-

tite com a inclusão da sociedade civil organizada e a importância de deinições para a formação dos conselhos. A necessidade de ampliação do percentual mínimo de atendimento às famílias com renda inferior a 3 s.m., também veriicadas na avaliação da produção habitacional em ZEIS 3 nos seus 10 anos de implementação, foram conirmadas com o resultado do cadastro do perímetro da ZEIS 3 C 016 (Sé), onde mais de 80% da população estava concentrada na faixa de renda mais vulnerável. A existência de uma população extremamente pobre, sem renda ou com renda inferior a 1 s.m., e as diiculdades de serem incorporadas pelos inanciamentos habitacionais, conirmaram a hipótese já previamente construída da necessidade de serem oferecidas formas alternativas de atendimento habitacional, além do modelo da casa própria, e de serem reservadas respectivas fontes de inan- ciamento para tal, dada a necessidade de subsídios consideráveis. A importância de implementação da modalidade locação social foi conirmada com os dados do cadastro da ZEIS 3 C 016 (Sé), não somente pelo alto índice de locatários no perímetro, mas também pela grande incidência de mobi- lidade residencial, fomentada, sobretudo, pelas condições de transitoriedade do trabalho informal. Vimos que a elaboração de um Plano de Urbanização em ZEIS 3 prescinde uma disputa pelo ter- ritório, daqueles que defendem a manutenção de suas propriedades ou seus pontos de comércio, e os que defendem a produção habitacional, mesmo quando a intervenção sobre perímetros de ZEIS 3 objetiva atuar apenas sobre áreas subutilizadas e que não estejam cumprindo sua função social. A lógica da Concessão Urbanística, que também é a lógica da PPP de habitação do Programa Casa Paulista (da qual falaremos com detalhes no Capítulo 3) foi a de otimizar a liberação de áreas para possibilitar empreendimentos que atendessem o peril do mercado imobiliário, superando a barreira provocada pela fragmentação dos lotes urbanos do centro da cidade, o que tem como resultado os impactos sociais e econômicos no território. Aqui aparece uma notória especiicidade da intervenção em ZEIS 3 em relação às outras ZEIS, pois estamos lidando com partes da cidade que passaram por uma construção histórica, com usos constituídos pela diversidade, característica dos centros urbanos. Como tudo na cidade, é um território mutante, porém com traços de consolidação. Há vida urbana, comércio local e atividades cotidianas signiicativas para os moradores locais. Neste cenário cabe a tábula rasa, o desenho do grande projeto impositivo sobre o vazio? As estratégias de intervenção não deveriam se dar pela costura nas brechas, nos espaços ociosos a dialogarem com o todo existente, ao invés de propor a demolição de 50% do comércio existente e de usos signiicativos para a população local, como no caso do projeto Nova Luz? O coordenador do projeto, Luis Ramos, declarou estar fazendo uma intervenção “do ponto de vista da ediicação, e não do uso”, e que o projeto não tinha caráter de programação cultural e social, ou seja, estava sendo apresentada uma proposta clara de desmantelamento da cidade existente onde a pré-existência de uma ZEIS, ou seja, a construção de HIS, foi o argumento que faltava para legitimar as demolições oriundas da Concessão Urbanística. Outro fator a ser considerado para o planejamento da ZEIS 3, como de qualquer área da cidade que pretende atuar sobre um conjunto de lotes urbanos, é em relação à sobreposição de políticas públicas, por vezes contraditórias. Há sentido na extinção da moradia popular, no caso os cortiços existentes no perímetro do Projeto Nova Luz, sem o oferecimento de condições adequadas de moradia, quando está na pauta um Plano de Urbanização de uma ZEIS dentro do mesmo perímetro? Há sentido em, simpliicadamente falando, tirar um morador pobre para colocar outro no lugar? Há ainda a conli- tuosa relação entre áreas distintas do governo que não dialogam entre si, atuando sobre um mesmo território, como as desastrosas ações sobrepostas sobre a cracolândia durante o período de elabora- ção do Projeto Nova Luz. O Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalém, em resposta aos questionamentos dos conselheiros sobre as intervenções violentas da polícia e o descaso com a problemática do crack, foi categórico em airmar que a cracolândia é um problema de saúde pública, que não seria resolvido por um plano de reurbanização. Contudo, as intervenções recentes

do programa De Braços Abertos32 da gestão Haddad mostraram que políticas uniicadas de interação

social, capacitação, geração de emprego e renda, e moradia, disciplinas da dita “reurbanização” no seu sentido mais amplo, planejadas e executadas por diferentes frentes do governo municipal, podem ser uma alternativa às simplistas “operações de guerra contra a degradação”.

A atual administração, contudo, inicialmente comprometida com a retomada das ações para a po- lítica habitacional do centro, não deu seguimento às promessas realizadas no início da gestão. Os alcances do desenvolvimento do Plano de Urbanização da ZEIS 3 C 016 (Sé), que abriu caminho para a leitura dos parâmetros fundamentais do planejamento de uma ZEIS 3, permaneceram na inércia. A retomada do único Conselho de ZEIS 3 existente poderia ser o instrumento necessário para reini- ciar a requaliicação de um território que foi degradado, não pelo caráter popular de sua ocupação residencial ou comercial, mas pela violenta sequência de demolições, assédio, criação de expectativas e abandono, no qual tanto a gestão que iniciou o processo, como a que o arquivou, possuem igual responsabilidade.

Temos pela frente a barreira do comprometimento da gestão pública, cuja pasta da Habitação ainda não absorveu o compromisso do desenvolvimento dos Planos de Urbanização das ZEIS 3 e da for- mação dos respectivos Conselho Gestores, e tem apostado suas ichas na reurbanização ou produção habitacional por instrumentos que transferem a obrigatoriedade das ações do Estado para a iniciati- va privada, destituídas da regulação necessária para a criação de cidades efetivamente democráticas focadas no interesse coletivo. A criação de novos mercados, onde a habitação social é vista como mercadoria rentável, entregue ao mercado imobiliário para que seja, a curto ou médio prazo, comer- cializada livremente, é o que nos oferece o formato atual de instrumentos urbanísticos em uso como a Concessão Urbanística e as PPPs, onde não cabe o desenho de uma gestão, de fato, participativa.

32 O programa De Braços Abertos foi implementado na gestão do prefeito Fernando Haddad em Janeiro de 2014 en- volvendo as secretarias municipais de Saúde (SMS), Assistência e Desenvolvimento Social, (Smads), Trabalho e Empre- endedorismo (SDTE), Segurança Urbana (SMSU), Desenvolvimento Urbano (SMDU) e Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC). O programa, cuja metodologia foi desenvolvida de forma participativa com os moradores, foi iniciado com os 147 barracos distribuídos entre as Ruas Helvetia e Dino Bueno, na Luz, com o objetivo de oferecer abrigo, tratamento de saúde, alimentação, atividade ocupacional e capacitação proissional.

3

POLÍTICAS HABITACIONAIS PARA