BÖLÜM 2: NARSİSİZM VE NARSİSİZM KÜLTÜRÜ
2.5. Sosyal Medyada Narsisizm Kültürünün İzleri
O Conselho Gestor, a priori, teria a atribuição de deliberar apenas sobre o Plano de Urbanização da ZEIS 3, que requer a liberação de áreas para a produção de moradia de interesse social, não tendo atribuição legal nas tomadas de decisões sobre o restante do perímetro do Projeto Nova Luz. Contu- do, muitas das propostas apresentadas pela sociedade civil no Conselho Gestor da ZEIS 3 C 016 (Sé) objetivaram a ampliação do debate para questões além do escopo deinido, seja por estarem de uma forma ou de outra vinculada às questões tratadas pelo PUZEIS, ou por considerar a importância de que canais de gestão participativa como Conselhos Gestores pudessem fomentar sua atuação sobre políticas públicas de maior alcance, já que o objeto de deliberação envolve questões que se relacionam com o restante da cidade, por várias frentes. Por outro lado, as propostas apresentadas não vislum- braram apenas o cenário ideal inerente a um Plano de Urbanização de ZEIS, já que este plano estaria vinculado às diretrizes do Projeto Nova Luz e sua viabilização pela Concessão Urbanística, mas possi- bilidades de minimização de impactos, sobretudo aos moradores e comerciantes locais e a população mais vulnerável, cujas garantias de participação e inclusão no processo de transformação urbana eram altamente remotas. Estas propostas vieram para materializar as Diretrizes aprovadas pelo Conselho Gestor, a im de serem transformadas em políticas públicas efetivas presentes no PUZEIS e, com sorte, transcender ao cenário de sua viabilização pela Concessão Urbanística, tão indesejada.
Algumas propostas importantes para a mitigação dos impactos sobre a população residente foram introduzidas no Plano de Urbanização de ZEIS, aprovado no dia 4 de abril de 2012, porém com res- salvas signiicativas e não na sua plenitude. Das propostas apresentadas ao Conselho Gestor como revisão do Plano de Urbanização da ZEIS 3 C 016 Sé, foram aprovadas proposições referentes ao desenho urbano, porém as garantias de atendimento, as políticas de salvaguarda ao patrimônio e as propostas que demandavam grandes alterações no Projeto Nova Luz não foram acatadas pelo poder público, seja porque a própria lei da Concessão Urbanística, da forma como foi redigida, inviabiliza- ria garantias e direitos aos atuais ocupantes da área (sobretudo os inquilinos, que compõe a grande maioria dos moradores e comerciantes), seja porque alterações que modiicassem a área a ser comer- cializada pelo concessionário vencedor da licitação da Concessão Urbanística poderiam acarretar numa signiicativa diminuição da lucratividade e uma consecutiva perda de interesse do mercado em intervir na área.
A reserva dos térreos dos edifícios habitacionais para atividades comerciais foi aprovada, porém, sem garantias para a permanência do comércio local e para a preferência pela renovação do aluguel pelos inquilinos atuais, icando esta negociação a cargo do concessionário e proprietários de imóveis. Este foi um dos entraves oriundos das limitações da lei da Concessão Urbanística, que não oferecia garantias de permanência aos inquilinos. Apenas a propriedade poderia garantir direitos e ainda com ressalvas no caso dos comerciantes, que não teriam a restituição do fundo de comércio.
O Bar Léo, único comércio representante do patrimônio cultural identiicado inserido no perímetro da ZEIS e inicialmente demarcado para ser demolido, foi retirado das áreas de demolições. Na mes- ma reunião em que a SMDU se colocava imparcial frente à proposta de permanência dos imóveis indicados para preservação, uma nova proposta foi apresentada frente à resistência da sociedade civil em apoiar a demolição do Bar Léo, conforme fala de Luíz Ramos registrada na ata de 5 de outubro de 2011:
Luis Ramos (SMDU): Ele entra na concessão pra que ele possa transferir o potencial construtivo dele, pra que as ediicações que vão ser construídas no entorno, nessa mesma quadra possam fazer uso desse potencial, e atendem a essas unidades habitacionais que poderiam eventualmente ser perdidas. Isso é um impacto, a gente tem que ter isso em mente, se isso simplesmente sai da concessão. Então, a proposta é que ele seja incorporado, mas com uma recomendação de que essa ediicação seja mantida. Isso é possível. E acho que atende a essa preocupação da memória, e acho que isso atende a preocupação da ZEIS, que é de produção de habitação social. Me parece isso muito mais relevante, do que eu, simplesmente, manter a edi- icação... Porque também, se eu tirar ela da concessão, de novo volta, porque eu não tenho uma garantia de que aquela atividade vai estar lá. Pode o atual proprietário falar: “não, eu tenho uma área melhor, do outro lado da rua, que tá mais adequada, porque eu vou ter condições de colocar mais clientes”, e ele se muda. E aí, eu faço o quê com aquela ediicação? (...) É uma regra à parte. É uma regra à parte. A gente tá falando de casos que foram colocados como casos representativos de uma memória que eles possam ser considerados à parte. Ele não entra numa regra geral. (Ata transcrita da reunião extraordinária do Conselho Gestor da ZEIS 3 em 05 de outubro de 2011)
A ediicação do Bar Léo e o uso existente foram mantidos no projeto, porém permaneceu como área de transformação inserida na Concessão Urbanística, incorporado ao projeto arquitetônico do futu- ro empreendimento, de tal forma que o potencial construtivo da área pudesse ser transferido e assim garantidas as unidades habitacionais planejadas originalmente para a área. Contudo, a prerrogativa da permanência do Bar Léo estaria sujeita aos interesses do atual proprietário do imóvel (que não é o proprietário do estabelecimento) e da negociação com o concessionário, cujos interesses econômicos poderiam se sobrepor ao interesse de preservação da memória e da história do bairro e de toda a cidade, prevalecendo assim o valor de mercado.
Os demais estabelecimentos identiicados como patrimônio cultural, por não estarem no períme- tro da ZEIS, portanto, não ser atribuição do Conselho Gestor deliberar sobre eles, entraram como “sugestão” a permanecer, assim como as outras propostas referentes a imóveis localizados fora do perímetro da ZEIS.
A proposta de permanência do prédio da Ocupação Mauá foi acatada pelo Conselho Gestor, com comprometimento da Sehab de que o imóvel não entraria na Concessão Urbanística. Na reunião ordinária do Conselho Gestor do dia 16 de novembro de 2011, o diretor de Habi Centro anunciou a decisão aos conselheiros:
Alonso Lopez (Sehab): (...) E a Camila tá me lembrando aqui, de contar pra vocês, da Mauá, tem uma deinição nossa. Há um consenso dos Conselheiros em concordar com a retirada da Mauá da concessão. Como é um imóvel que tá fora da ZEIS, o caminho é diferente. Eu, como coordenador, vou redigir um ofício, acho que representando a todos vocês, (...) atestando o consenso dos Conselheiros, em concordar com a reivindicação, com a solicitação de remover a Mauá da concessão. (...) Ela sai do projeto, ela ica excluída do Projeto Nova Luz, não vai ser demolida pelo Projeto Nova Luz. Isso vai pra... O coordenador do Conselho atesta o consenso dos Conselheiros e manda pra apreciação do Secretário, que emitirá uma resposta positiva, tá? Então esse é o mecanismo burocrático, pra gente poder opinar referente a um
200 201 imóvel que está fora da ZEIS. (...) É claro que precisa icar claro que uma vez saindo o Mauá do Projeto,
os atendimentos habitacionais daquelas famílias não vêm pelo Projeto, mas sim, qualquer atendimento habitacional pras famílias que moram lá, Nelson, deverá ser realizado mediante os diálogos que vem sempre sendo feitos com a Secretaria, seja em parceria com o COHAB, com o CDHU, Minha Casa Minha Vida, etc. (...) (Ata transcrita da reunião extraordinária do Conselho Gestor da ZEIS 3 em 16 de novembro de 2011)
Contudo, o imóvel da Rua Mauá, a poucos dias da aprovação do PUZEIS e há 5 dias para o quinto aniversário da ocupação (ou seja, pouco antes de se dar o prazo de comprovação do usucapião), foi objeto de uma reintegração de posse. Mesmo tendo sido objeto de intenso debate no Plano de Ur- banização de ZEIS, com comprometimento da Sehab para a permanência do imóvel na área e sua destinação para habitação de interesse social, a PMSP continuou omissa frente à reforma do prédio, alegando falta de recursos para sua viabilização, conforme declaração do Secretário Municipal de Habitação. Os moradores da ocupação Mauá conviveram, durante todo o término da gestão Kassab, sob o risco de serem expulsos sob “arrombamento e uso de força policial”, conforme descrito em uma das liminares emitidas para a reintegração.
As solicitações para a identiicação dos imóveis remanescentes da indústria do cinema, conhecida como “Boca do Lixo”, e dos equipamentos sociais em atividade no perímetro de intervenção não foram consideradas.
Com relação à produção habitacional, que é o ponto central do debate no Conselho Gestor da ZEIS 3 C 016 Sé, mesmo com todas as tentativas de convencimento por parte do poder público de que ha- viam números suicientes de HIS no projeto, o percentual foi ampliado de 50% para 80%, restando 20% para a produção de HMP, do total dos 80% destinados à habitação no perímetro da ZEIS, con- forme número de famílias com renda inferior a 6 s.m. identiicada na pesquisa amostral. Mesmo com a recusa pela extensão do número de empreendimentos de habitação social para fora do perímetro da ZEIS, mantendo-se apenas o exigido pela legislação, a ampliação no número de HIS sobre HMP no perímetro da ZEIS representou uma importante conquista dos movimentos de moradia na luta pela reserva de áreas para a população de baixa renda na região central, já que absorve o maior dé- icit habitacional da cidade e poderia ampliar as possibilidades de manutenção das famílias afetadas diretamente pela intervenção, de oferta habitacional para os moradores impactados pela valorização imobiliária decorrente da reurbanização da área e da destinação de habitação social bem localizada para famílias que vivem em áreas distantes, mas trabalham no centro, contribuindo assim para a redução dos conlitos de mobilidade e a democratização da terra urbana.
Já a Instrução Normativa do cadastro, elaborada para regular o atendimento habitacional e garantir a permanência da população residente, não foi incluída no PUZEIS aprovado. A Instrução Normativa foi preparada em um Grupo de Trabalho paralelo ao Conselho Gestor, por membros da sociedade ci- vil e da Secretaria de Habitação, e deveria ser aprovada no conselho para ser incluída no PUZEIS, fato que não ocorreu. Apenas a prioridade de atendimento deinida foi redigida no plano votado, embora sem ter sido aprovada no Conselho Gestor, excluindo-se importantes direcionamentos pactuados entre poder público e sociedade civil, tais como o compromisso do poder público em substituir o protocolo entregue às famílias por um cartão de atendimento, que funcionaria como a garantia de atendimento habitacional; e as diretrizes para o atendimento às famílias de imigrantes em situação irregular, que representam um alto percentual entre os moradores do perímetro de intervenção. Cabe ressaltar que a apresentação das propostas de revisão do PUZEIS e do Projeto Nova Luz pela sociedade civil no Conselho Gestor se deu através de um árduo debate que envolveu não apenas os
conselheiros titulares e suplentes, mas também a equipe técnica do Consórcio Nova Luz responsável pela elaboração do plano e outros membros da sociedade, como moradores e comerciantes locais, instituições sociais como o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e a Defensoria Pública do Es- tado de São Paulo, professores e estudantes de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas e privadas, jornalistas e interessados em geral, que participaram ativamente das discussões quinzenais acerca do plano, repercutindo o debate para as salas de aula e diversos tipos de mídia e meios de comunicação. A forma simplista e genérica como este debate foi transcrito para o Plano de Urbanização de ZEIS inal, retirado do seu contexto, com grande parte das propostas inseridas como “sugestões” sem nenhuma garantia de efetivação, foram algumas das motivações pela qual a socieda- de civil se absteve em votar o plano. O Anexo 2.5 apresenta o conteúdo do PUZEIS aprovado no dia 04 de Abril e a interpretação das propostas da sociedade civil pela PMSP.
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