• Sonuç bulunamadı

Şöhret Arzusu

BÖLÜM 3: NARSİSİSM KÜLTÜRÜ VE SOSYAL MEDYA İLİŞKİSİ

3.4. Bulgular ve Yorum

3.4.5. Şöhret Arzusu

O debate sobre locação social no Brasil ainda enfrenta uma série de entraves para se consolidar como política habitacional efetiva. Uma pesquisa realizada pelo Centro Gaspar Garcia de Direitos Huma- nos (2012) apontou como principais diiculdades o histórico da propriedade privada como forma de renda, a insegurança em relação à previdência social que transforma a propriedade da moradia em garantia e a ideologia da casa própria reforçada no período do regime militar.

Embora alguns debates tenham sido iniciados nas décadas de 1980 e 1990 em São Paulo, somente a partir de 2001, na gestão da prefeita Marta Suplicy, foi iniciado o Programa Locação Social, oi- cializado com a Resolução nº 23 de 12 de julho de 2012 do Conselho Municipal de Habitação, jun- tamente com a utilização da modalidade de inanciamento federal do Programa de Arrendamento Residencial e a criação do Bolsa Aluguel, que oferecia um valor em dinheiro por tempo determinado para famílias alugarem unidades habitacionais no mercado. Ambos os programas faziam parte do Programa Morar no Centro12, cujos objetivos principais eram: (i) melhorar as condições de moradia

no centro, (ii) viabilizar moradia adequada para moradores e trabalhadores da região e (iii) combater a expulsão da população mais pobre residente na área. Os objetivos seriam atingidos a partir de três diretrizes: priorizar a reforma de prédios vazios, combinar soluções habitacionais com iniciativas de geração de renda e incentivar a diversidade social nos bairros centrais (D’OTTAVIANO, 2004). Para- lelamente foi criado o Conselho Municipal de Habitação (CMH), (lei nº 1.425 de 02 de setembro de 2002), e a COHAB-SP foi consolidada como agente responsável pela operacionalização da política habitacional elaborada pela Sehab e aprovada pelo CMH.

O Programa Locação Social foi iniciado com a viabilização de cinco empreendimentos, totalizando 853 unidades habitacionais, alguns entregues na própria gestão da prefeita Marta Suplicy (2002-2005) e outros entregues nas gestões seguintes. Foram construídos três empreendimentos novos: Parque do Gato e Olarias, entregues em 2004, e Vila dos Idosos, entregue na gestão do prefeito José Serra (2007). 12 O Programa morar no Centro fazia parte do Programa Ação Centro, que contou com inanciamento do BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, estimado em 100 milhões de dólares, dos quais 15% foram destinados à produção de HIS (D’Ottaviano, 2004).

235 234

Os outros dois conjuntos foram viabilizados com a reforma de edifícios existentes: Asdrúbal do Nas- cimento e Senador Feijó, entregues na primeira administração do prefeito Gilberto Kassab (2009). A produção dos primeiros empreendimentos se deu através de inanciamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), junto com a Caixa Econômica Federal (CEF), o Ministério das Cidades, através do seu Programa Especial de Habitação Popular (PEHP) e o Fundo Municipal de Habitação (FMH). Já a aquisição dos imóveis dos empreendimentos reformados, para sua posterior destinação à locação social, se deu principalmente com recursos do PEHP (CANTERO; GHOUBAR, 2008).

Os projetos dos novos empreendimentos, coordenados pela COHAB-SP, buscaram oferecer diversi- dade de tipologias, desde quitinetes a apartamentos com dois dormitórios, dispondo de elevadores, unidades adaptadas a portadores de necessidades especiais e áreas condominiais de uso coletivo, to- dos com medição individualizada de água, gás e energia elétrica. O Residencial Parque do Gato está localizado na Avenida Castelo Branco, nº 5.200, na conluência com os Rios Tietê e Tamanduatehy, no bairro do Bom Retiro. Foi implantado em uma área pública, remanescente da construção da Mar- ginal do Tietê, ocupada parcialmente pela antiga Favela do Gato, cujos moradores foram demanda prioritária para ocupação do conjunto. O residencial abriga 486 famílias em 81 quitinetes, 243 apar- tamentos de um dormitório e 162 de dois dormitórios. O projeto foi concebido pela COHAB-SP e pela assessoria técnica Peabiru. O Residencial Olarias está localizado na Rua Araguaia, nº 207, na esquina da Rua Olarias, bairro do Canindé. É constituído por 137 unidades habitacionais, sendo 21 quitinetes, 24 apartamentos de um dormitório e 92 de dois dormitórios. O projeto foi desenvolvido pelo escritório Fábrica Urbana e teve como demanda a população moradora de rua (especialmente catadores de material reciclável), população moradora em áreas de risco, idosos e portadores de necessidades especiais, muitos deles de movimentos de moradia Fórum de Cortiços, União de Lutas no Centro (ULC) e Movimento de Moradia no Centro (MMC). A Vila dos Idosos está localizada na Avenida Carlos de Campos nº 840, próximo à Praça Ollo Otani, bairro Pari. A Vila foi destinada para a demanda especíica de idosos do Grupo de Articulação para a Conquista de Moradia para o Idoso da Capital (GARMIC) e para moradores dos Edifícios demolidos São Vito e Mercúrio. Possui 145 unidades habitacionais, sendo 88 quitinetes e 57 apartamentos de 1 dormitório. O edifício Asdrúbal

de Nascimento está localizado na Rua Asdrúbal do Nascimento, nº 282, na Sé, bairro central de São Paulo. A reforma possibilitou a disponibilização de 40 unidades habitacionais, sendo 7 quitinetes, 29 apartamentos de um dormitório e 4 apartamentos de dois dormitórios. E o edifício Senador Feijó localiza-se na Rua Senador Feijó, nº 126, também na Sé. Foi reformado para oferecer 45 unidades habitacionais. São 15 quitinetes e 30 apartamentos de um dormitório.

Quadro 3.01: Empreendimentos de Locação Social viabilizados em São Paulo

Empreendimento Ano de Lançamento Nº de unidades Valor médio Condomínio

Residencial Parque do Gato 2004 486 R$ 22,00

Residencial Olarias 2004 137 R$ 35,00

Vila dos Idosos 2007 145 R$ 35,00

Asdrúbal do Nascimento 2009 40 R$ 40,00

Senador Feijó 2009 45 R$ 40,00

Fonte: Sehab, COHAB-SP

Nas gestões subseqüentes à da Prefeita Martha Suplicy, e do Secretário de Habitação Paulo Teixeira, não havia sido realizada nenhuma outra iniciativa para a continuidade do programa e a ampliação do parque público de Locação Social. Um novo empreendimento, contudo, foi lançado em dezem-

bro de 2014, na gestão do Prefeito Fernando Haddad, no edifício onde funcionava o antigo Hotel Cineasta. O edifício Palacete dos Artistas está localizado na Avenida São João, a poucos metros do cruzamento com a Avenida Ipiranga, e foi reformado para abrigar 50 artistas com idade acima de 60 anos e renda familiar de 1 s.m. a 3 s.m. Os moradores estavam desde 2008, quando foram cadastra- dos, recebendo o auxílio aluguel do programa Parceria Social da PMSP. Outro edifício, o Mário de Andrade, ao lado do Asdrúbal do Nascimento, está em reforma para compor o parque público do Programa Locação Social.

Apresento o registro das visitas técnicas realizadas nos dois mais emblemáticos empreendimentos do Programa Locação Social: a Vila dos Idosos, considerada a melhor experiência do programa, e o Parque do Gato, comprovadamente o mais problemático dos conjuntos.

Uma visita à Vila dos Idosos São Paulo, 19 de abril de 2013

O caminho até a Vila dos Idosos no bairro do Pari é curto, ainda mais quando se tem ao lado a agradável presença de Dona Olga, chilena, senhora de 76 anos, que passa o caminho a contar sobre sua vinda ao Bra- sil na década de 1950, após sair de casa dos pais depois de ter se iliado a um partido radical de esquerda. Dona Olga é uma das coordenadoras do Garmic, o Grupo de Articulação para Conquista de Moradia dos Idosos da Capital, responsável pela reivindicação do projeto da Vila dos Idosos junto à Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo. Após descer na estação Tiradentes do Metrô e pegar o ônibus até a Avenida Carlos de Campos, a distância de aproximadamente 200 metros até a Vila é percorrida entre abraços e cumprimentos. Todos os idosos da rua parecem conhecer Dona Olga. Acenam felizes por rever a pessoa responsável pela mudança para a nova residência.

Próximo à entrada da Vila avistamos alguns moradores sentados no banco junto à portaria, tomando sol e conversando. A primeira impressão é de contraste, entre a ordem vinda da arquitetura construída e o abandono do jardim, há meses sem manutenção. A grama alta era motivo de descontentamento de muitos moradores que encontrei ao longo da visita. Mas coincidentemente era o dia da poda. O funcio- nário da prefeitura já estava no local iniciando a manutenção paralisada desde o mês de dezembro de 2012. Segundo a prefeitura, os contratos não foram renovados no inal da última gestão e só agora pu- deram realizar as novas contratações. Enim, após quatro meses, a grama seria cortada na Vila dos Ido- sos. Pena que minhas fotos não puderam registrar o gramado bem cuidado ocupado pelos moradores. Chegamos e subimos de elevador, diretamente para o apartamento da Dona Itulina da Costa, uma jovem senhora de 65 anos, bonita e vaidosa. Dona Itulina vive em uma quitinete, onde organiza o espaço único em quarto, sala e cozinha.

Fomos recebidas com muita satisfação, acomodadas no pequeno sofá de frente à cama de solteiro, servidas ininitas vezes com bolinho de chuva, chá e queijo feito em casa, fresquinho. Dona Itulina contou viver na Vila dos Idosos há apenas nove meses, mas já era conhecida da Dona Olga a tempos. Estava na lista da demanda inicial do GARMIC a ocupar os apartamentos na Vila dos Idosos, quan- do metade das vagas foram direcionadas aos moradores idosos oriundos dos Edifícios São Vito e Mercúrio. Das 145 unidades entregues na gestão Kassab pelo Secretário Orlando de Almeida Júnior, somente 73 vieram da listagem original, demanda do GARMIC, conforme acordado no período de

237 236

concepção e desenvolvimento do projeto. Segundo Dona Olga, a então superintendente de Habi, Eli- sabete França, não quis negociar a demanda de acordo com a necessidade dos moradores, e concedeu a vaga aos primeiros da lista, sem critério de seleção. Hoje, as vagas (quando surgem no caso de al- gum falecimento) estão sendo indicadas pelo GARMIC, a pedido da Secretaria de Habitação. Foi as- sim que Dona Itulina foi chamada, dando seqüência à listagem não atendida na inauguração da Vila. Dona Itulina morava antes no Capão Redondo e gastava R$ 280,00 mensais com aluguel. Na Vila dos Idosos, ela paga à prefeitura R$ 97,00 (R$ 62,00 de aluguel – correspondente a 10% da sua renda, e R$ 35,00 de condomínio). Além disso, ainda arca com as despesas de gás e luz, bem baixas devido ao cadastro na tarifa social. Dona Itulina não possui renda comprovada, pois trabalha na produção de artesanato (faz peças em crochê e arranjos de lores), mas recebe o benefício de prestação continuada da Lei Orgânica de Assistência Social do município (LOAS). Esta é a situação de aproximadamente 20 moradores da vila, onde do total quase 90% possuem renda inferior a 1 salário mínimo. O fato dos moradores receberem o benefício da LOAS, ou aposentadoria, faz com que o percentual de inadim- plência da Vila dos Idosos seja quase zero.

A vida de Dona Itulina melhorou muito desde a mudança para a Vila dos Idosos, pois economiza muito com o aluguel, mora perto do centro da cidade e em melhores condições de moradia, com um apar- tamento só dela, iluminado, com jardim na porta de casa e os amigos para conversar. Embora pareça pouco utilizado pelos moradores, um dos grandes diferenciais do projeto da Vila é a implantação do edifício, em formato de dois “Ls” justapostos, circundados por um amplo jardim, que possui até espelho d´água com chafariz. Dizem que foi projetado para ser uma piscina, e por razões de diiculdade de ma- nutenção, foi transformado em espelho d’água. Ainda há o benefício da horta comunitária que, além se servir como terapia ocupacional, reduz as despesas das compras. Da janela do quarto do apartamento de Dona Itulina é possível avistar a horta. Há milho, alface, tomate, salsa e coentro. Cada morador cul- tiva uma pequena parte da horta, e há ainda os que se apropriam do cultivo alheio, segundo a inquilina. Dona Olga observa o fato dos canteiros serem baixos, o que diiculta o cultivo pelos moradores mais debilitados, e que deveriam ser planejados canteiros elevados. Da janela, Dona Itulina reconheceu um amigo na limpeza da quadra de bocha, outro elemento de lazer pensado exclusivamente para os idosos. Ele também se dedica ao cultivo da horta, ajudando muitos moradores que não conseguem realizar o plantio. Este voluntariado acontece também com a limpeza das áreas comuns. Já que não há um res- ponsável por parte da prefeitura, alguém se dispõe a colaborar.

Dona Itulina ressaltou os gastos que teve na mudança, cerca de R$ 1.600,00, pois na época da inaugu- ração da Vila as unidades foram entregues sem acabamento, ou seja, sem piso e sem pintura, como é o padrão nos empreendimentos de habitação social da COHAB. Mesmo ela recebendo o apartamen- to seis anos depois, teve que arcar com as despesas, já que as benfeitorias não haviam sido feitas pelo antigo morador, fato comum quando se trata de vulnerabilidade social muito alta.

Sobre o trabalho de acompanhamento social da prefeitura na Vila dos Idosos, os moradores conir- maram que há uma presença frequente de funcionários da Secretaria da Saúde, que ministram cursos e aulas aos moradores, e também a presença de uma pedagoga e uma assistente social (provavelmente funcionárias da Diagonal, empresa contratada pela Sehab para realizar a gestão social do empreen- dimento). Elas passam com frequência pelas unidades conversando com os moradores e mantêm um escritório em uma das salas de uso comum, planejadas para o convívio dos idosos, localizada no segundo andar. Dona Itulina não conseguiu me informar com exatidão as atividades que a pedagoga e a assistente social desenvolvem com os moradores. Também não consegui encontrá-las para uma conversa, estavam entretidas com as providências a tomar por conta da morte de uma senhora, que foi encontrada após os vizinhos terem sentido um cheiro forte vindo do apartamento. A moradora parecia já estar morta há dois ou três dias.

Figuras 3.01 e 3.02: Área comum do térreo e horta comunitária Crédito: fotos da autora.

À esquerda, Figura 3.03: Área de circulação do quarto piso. À direita, Figura 3.04: Hall de entrada de uma das unidades. Crédito: fotos da autora.

À esquerda, Figura 3.05: Unidade de um dormitório. À direita, Figura 3.06: espelho d’água na área comum. Crédito: fotos da autora.

239 238

À esquerda, Figura 3.07: Vista do jardim central com espelho d’água. À direita Figura 3.08: Detalhe de adorno nas janelas. Crédito: fotos da autora.

À esquerda, Figura 3.09: Área de uso comum: sala de reuniões. À direita Figura 3.10: Área de uso comum: salão de festas Crédito: fotos da autora.

À esquerda, Figura 3.11: Dona Olga e morador da Vila dos Idosos. À direita, Figura 3.12: Dona Olga e morador. Crédito: fotos da autora.

Saindo para passear pelo jardim, encontramos outros moradores, a Sra. Ylidia, de 79 anos, falante e sorridente, feliz da vida ao encontrar Dona Olga, e outros dois senhores, um deles o morador mais idoso da Vila, ambos satisfeitos com a visita da velha amiga ao conjunto. A conversa comum foi o falecimento da companheira, e a preocupação com os moradores que não possuem família e icam sujeitos a morrerem ou adoecerem sem a assistência de amigos ou familiares.

Após os cumprimentos e um pouco de prosa, saímos para olhar os espaços de uso comum. As salas comunitárias em cada um dos andares, planejadas para que os moradores não tivessem que realizar grandes deslocamentos, pareciam pouco usadas, com exceção da sala do 2º andar ocupada pelas funcionárias da prefeitura. Mas no salão de festas do prédio, localizado no térreo, havia sinais de uso contínuo, com mobiliário arrumado para receber as frequentes reuniões de moradores, cursos e encontros. No jardim foram instalados equipamentos de ginástica para idosos. Não estavam sendo muito utilizados nos últimos dias devido à grama alta que rodeava todo o jardim, mas ao im do dia já estariam livres novamente, após a poda realizada pelo funcionário da prefeitura.

Passamos por mais duas casas, o apartamento das companheiras Neide e Dóris e a quitinete de outra senhorinha muito animada que vive na Vila desde a inauguração. Morava antes em um quarto alu- gado em uma pensão no Brás, onde pagava R$ 300,00 de aluguel. Morar na Vila dos Idosos permitiu a ela não só uma economia de R$ 215 ,00 por mês, mas permanecer na região central da cidade, ter um apartamento só dela, onde não precisa dividir cozinha e banheiro, e ainda compartilhar da com- panhia dos amigos da Vila. Já Neide e Dóris são iguras ímpares no contexto dos demais idosos, pois são engajadas aos movimentos de moradia e estão à frente das tomadas de decisões para que as coisas funcionem bem dentro do condomínio. Elas questionam as críticas e as fofocas dos moradores, e exaltam os benefícios que a Vila trouxe a cada um que conseguiu ali se estabelecer. Após esta injeção de ânimo e otimismo da Neide e da Dóris, percorri o caminho de volta ao lado de Dona Olga, que continuou a receber cumprimentos dos moradores da Vila que caminhavam pela região. Apesar da idade, muitos fazem tudo a pé, vão ao banco pagar contas, fazem compras e passeiam pelo bairro, com aquele ar de serenidade típico de quem tem muita história para contar.

À esquerda, Figura 3.13: Jardim e área de circulação externa. À direita, Figura 3.14: Dona Olga e os moradores da Vila dos Idosos. Crédito: fotos da autora.

241 240

Figuras 3.15 e 3.16: Projeto arquitetônico da Vila dos Idosos. Croquis das unidades Studio e 1 dormitório. Fonte: Vigliecca e Associados

Figuras 3.17 e 3.18: Projeto arquitetônico da Vila dos Idosos. Planta das unidades Studio e 1 dormitório. Fonte: Vigliecca e Associados

Figura 3.20: Projeto arquitetônico da Vila dos Idosos. Implantação do edifício e planta do térreo. Fonte: Vigliecca e Associados

Figura 3.19: Projeto arquitetônico da Vila dos Idosos. Pavimento tipo. Fonte: Vigliecca e Associados

243 242

Uma visita ao Parque do Gato São Paulo, 6 de maio de 2013

Na visita ao Parque do Gato cheguei sozinha. Havia combinado com Dona Olga, que novamente se dispôs a me acompanhar em mais uma visita, que nos encontraríamos em uma das entradas do condomínio. Para chegar até lá alguns quarteirões foram percorridos a pé. Atravessei a marginal e contornei as laterais do conjunto, um caminho ocupado por poucas pessoas e algumas barracas de comidas e bebidas instaladas ao redor das grades que envolvem os prédios, duas delas construídas com placas de compensados, uma delas instalada sobre um trailer. Elas representavam uma necessi- dade de espaços de comércio comuns em processos de reurbanização de favelas, como o Parque do Gato. Precisava-se dar um jeito para comercializar o que antes era vendido na soleira da porta. Fui abordada por alguns moradores quando tirava fotos dos pequenos comércios. Perguntavam quem eu era, porque estava ali, o que queria, se conhecia algum morador. Respondi que estava fazendo uma pesquisa sobre habitação para o meu doutorado. Estas abordagens podiam ser indícios do que já haviam me falado sobre o Parque do Gato e que depois foi reforçado com o depoimento dos mo- radores e as avaliações do empreendimento pela prefeitura, de que ali havia certo “controle” sobre os inquilinos por grupos ligados pelo tráico de drogas ou outras “organizações sociais” remanescentes da antiga favela que existia no local, antes da reurbanização.

Dona Olga, sempre gentil e sorridente, me esperava do lado de dentro da única portaria em funcio- namento, cuja guarita estava vazia e aparentemente sem uso há tempos. O dia quente de sol fazia com que os pequenos jardins parecessem ainda mais secos do que estavam e os pátios de cimento ainda mais áridos. Mas havia áreas de estar e lazer, parquinho, mesas e bancos. Estavam vazias, mas pro- vavelmente pelo dia quente e pelo horário, por volta das 11 da manhã, quando muitas das crianças deveriam estar na escola.

Subimos um lance de escada para encontrar Dona Alice, uma senhorinha de aspecto frágil, meio ado- entada, olhar triste. Ela dividia um apartamento de 1 dormitório com alguns gatos, provavelmente remanescentes da época da favela, que não por acaso se chamava Favela do Gato. Sentamos à mesa da cozinha, Dona Olga me apresentou e Dona Alice começou a contar a sua história. Morava ali desde a inauguração do prédio. Veio de São João da Boa Vista. Morava antes no Sítio das Alamedas, no Canindé. Fugiu de casa por causa dos maus tratos e foi parar no Albergue do Glicério, onde viveu alguns longos anos. Foi então que conseguiu documentação para ter direito à Lei Orgânica de Assistência Social e foi cadastrada na demanda do GARMIC, que intermediou sua mudança para o Parque do Gato.

Dona Alice disse gostar muito de onde mora por causa do espaço. “Nenhuma COHAB é assim”, dizia ela, “o único problema é que demoram muito pra consertar as coisas, mas no geral é bom”. Outra reclamação foi o preço do aluguel: sabe que não é caro, mas diz que seu contrato foi feito errado e por isso paga o dobro do que a maioria dos moradores, R$ 107,00 ao invés de R$ 55,00. Tem alguns