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Este procedimento inicia o trabalho com um texto propriamente dito. Por se tratar da primeira experiência, utilizei Diálogo de todo dia49,

49 Diálogo de todo dia: 1- Alô, quem fala?

2- Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala. 1- Mas eu preciso saber com quem estou falando.

2- E eu preciso saber antes a quem estou respondendo. 1- Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala? 2- Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.

1- Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.

2- Ah, sim. No aparelho não está ninguém. 1- Como não está, se você está me respondendo?

2- Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém. 1- Engraçadinho. Então, quem está AO aparelho?

2- Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.

1- Não parece. Se fosse para me servir já teria dito quem está falando.

2- Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro. 1- Se eu conhecesse não estava perguntando.

2- Você é muito perguntador. Note que eu não lhe perguntei nada. 1- Claro, pois se fui eu que telefonei.

2- Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas. 1- Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.

2- Estou respondendo.

de Carlos Drummond de Andrade. Essa escolha está baseada no fato de que, apesar de não se tratar de literatura dramática, é um texto construído na forma de diálogo e apresenta dois personagens genéricos, designados somente pelos números 1 e 2. Tive contato com esse texto, pela primeira vez, quando era aluno de Myrian Muniz. Ainda como aprendiz, percebi as possibilidades que o material oferecia para ser trabalhado em um processo de formação do ator e, em diversas vezes que coordenei cursos e oficinas, utilizei este texto com bastante sucesso. O procedimento foi iniciado com uma leitura, em roda, do texto. Depois disso a instrução foi a de que os aprendizes deveriam dividir-se em duplas e criar personagens possíveis para aquele diálogo. As duplas deveriam escolher quem seriam esses personagens de número 1 e 2 e ensaiar, separadamente, a leitura da cena, que seria apresentada após trinta minutos. As cenas foram apresentadas e apreciadas, uma a uma. Para balizar a apreciação das cenas, eu propus que as opiniões sobre cada cena sempre fossem iniciadas com uma das seguintes frases: EU GOSTO ou EU CRITICO ou EU PROPONHO. Esta proposta tinha como objetivo que os aprendizes fizessem suas análises das cenas de maneira mais aprofundada, evitando assim o uso de expressões vazias, como por exemplo: “Achei a cena legal!”, ou “Você estava muito bem na cena”, ou ainda “Como você interpreta bem!”. Entrei em contato com essa forma de análise em uma oficina ministrada pela Professora Doutora Maria Lúcia Pupo, quando era coordenador de equipe de

1- Pela última vez, e em nome de Deus: quem fala?

2- Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?

1- Bolas!

2- Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar? Silêncio.

2- Vamos, diga: com quem deseja falar?

teatro do Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo. Durante a apreciação das cenas, algumas questões relevantes foram levantadas pelos alunos atores e por mim. A primeira delas estava relacionada com o fato de que a maioria das propostas apresentadas para a cena resultaram muito diversas, umas das outras, e que isso se deve ao fato não só do texto ser aberto, mas também ao fato de que cada um imprimiu sua individualidade na elaboração da cena, juntamente com seu parceiro. A segunda questão abordada apontou que a construção desse primeiro esboço da cena e dos personagens foi muito além da construção vocal. Alguns aprendizes relataram que tiveram vontade de incluir a ação física na apresentação. Explicitei então que a presença de um impulso físico, ao interpretar um personagem que parte da voz, é absolutamente natural e orgânico, uma vez que corpo e voz são indissociáveis. Por fim, foi abordada a questão do ritmo das falas apresentadas nas cenas. O uso de volumes diversos, velocidades diferentes e várias qualidades de tons possibilitaram a criação de dinâmicas diversas para as cenas.

As impressões dos alunos atores sobre esse procedimento estão apontadas a seguir. Neste primeiro grupo, os depoimentos ressaltam a importância da relação e sintonia entre os aprendizes na realização da cena.

TEXTO: relação, intenção, entonação, expressão, sentimento, encenação... É em cima do texto que vamos criar, trazer elementos e nos relacionar! (B. C.)

Hoje percebi o quanto realmente é importante estar em sintonia com o outro no palco. (M. Z.)

Problematizar uma coisa simples... Questionar o óbvio, o feito, o pronto. Encontrar alternativas, opções, problemas. (G. P.)

Já nesse próximo grupo, a diversidade que o texto propicia foi o ponto principal da apreciação.

Descoberta de possibilidades. Me diverti vendo como é possível que um diálogo possa ser interpretado de diversas formas. (F. S.) O exercício com o texto foi interessante porque não apareceram personagens iguais. Todos tinham diversas referências. (J. P.) É muito legal ver como um mesmo texto pode formar várias cenas e pode ter várias leituras diferentes. (M R.)

É impressionante como um único texto diz tantas coisas. E como velocidade, entonação e etc... mudam seu sentido. (E. M.)

Neste último grupo, as questões envolvendo a criação do personagem utilizando corpo e voz é que ganharam destaque. Descobrir e criar personagem e cena são coisas contagiantes. (K. R.) Um corpo para as falas. (W. M.)

É hora de unir corpo e voz. (J. V.)

Estimular a observação crítica. Auto-observação. Como iniciar a construção de um personagem partindo de um estímulo? (I. M.)

3.5.2. Segundo semestre: relação com o outro (ator,

personagem e consigo mesmo)

Iniciei o trabalho desse semestre com o trecho de um texto de Federico Garcia Lorca, apresentado a mim por Myrian Muniz, chamado Escritos sobre Teatro:

O teatro é uma escola de pranto e de riso e uma tribuna livre onde os homens podem pôr em evidência morais

velhas ou equivocadas e explicar com exemplos vivos normas eternas do coração e do sentimento humano. Um povo que não ajuda e nem fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo. (GARCIA LORCA apud CASTRO FILHO, 2007, pg. 20)

A leitura desse trecho suscitou uma primeira discussão sobre a função do teatro e do artista na sociedade contemporânea. Ressaltei a capacidade que o teatro tem de transformação, a partir de um fenômeno de espelhamento entre o ator e a plateia, durante a representação de uma peça. A possibilidade de ver seu reflexo no palco estabelece, muitas vezes, um impulso de mudança nos espectadores.

Após essa discussão inicial, fiz um breve relato pessoal da experiência do semestre anterior, que teve como foco o autoconhecimento, e apresentei a proposta do segundo semestre. Tal proposição estava fortemente apoiada na relação que deve se estabelecer com o outro durante um processo de criação teatral, ou seja, a relação entre atores, a relação entre personagens e, por fim, as relações entre ator e personagem e do ator consigo mesmo. Depois disso, abordei as questões relativas à assiduidade, dedicação e realização das atividades propostas pelo professor encenador. Destaquei que a regra fundamental para a realização de um trabalho em grupo, no âmbito do teatro, requer de seus participantes dedicação, comprometimento e respeito ao ofício do ator. A seguir, apresento os procedimentos utilizados no segundo semestre de trabalho.