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Em geral, na abordagem discursiva da metáfora, os dados são oriundos da língua em uso, ou seja, de eventos discursivos, que são vistos como o desenrolar de um sistema dinâmico complexo. Posto isso, na dinâmica do discurso, haja vista que cada uso feito da língua pode mudá-la, a metáfora linguística é inevitavelmente múltipla e variável, altamente

influenciada pelo seu contexto. Como consequência, a categoria “metáfora linguística” –

unidade que procuramos identificar nos dados – é mais flexível, e não rígida como os modelos objetivistas de categorização. Assim, desacordos quanto ao que pode, ou não, ser identificado como metáfora no discurso são frequentes e nada surpreendentes. Com isso, muitas decisões quanto à metaforicidade de algumas instanciações nos dados dependem do analista45.

Sendo assim, conforme Cameron (2007b), na tarefa de identificar instanciações do fenômeno metafórico em dados reais, deve-se ter em mente, a princípio, uma definição prática da unidade inquirida – uma operacionalização, que sirva como modelo para a determinação de possíveis instanciações do fenômeno metafórico. A unidade operacional que será identificada,

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As decisões acerca do que consideramos como metáforas nos dados deste trabalho foram expostas no capítulo 3 sobre a metodologia desta pesquisa.

portanto, é descrita por meio de duas condições necessárias que delineiam plenamente a

categoria “metáfora”:

(i) a presença de itens lexicais de campos semânticos diferentes – ou incongruentes; e

(ii) o potencial para um significado extra a ser produzido como resultado da união dos dois campos semânticos.

Dito de outro modo, para termos uma unidade denominada metáfora linguística, é imperativo que ela inclua pelo menos um item lexical – o Veículo – referindo-se a uma ideia, entidade, ação, etc. – o Tópico –, e que esse Veículo pertença a um domínio bem diferente, ou incongruente, do domínio do Tópico (CAMERON, 1999a), havendo, assim, uma compreensão de uma coisa em termos de outra (BURKE, 1945) por meio de uma transferência de sentido no contexto em que o fenômeno metafórico acontece. Para ilustrar, vejamos o exemplo a seguir, retirado de Cameron e Maslen (2010, p. 97), o qual é um episódio de fala proveniente de uma discussão em Grupo Focal, que faz parte de um projeto de pesquisa, coordenado por Lynne Cameron, acerca das percepções das pessoas sobre o risco do terrorismo:

Exemplo 1

Terry não é como uma guerra,

Terry … onde você tem dois... lados opostos.

Terry … o terrorismo... é apenas um--

Terry um inimigo invisível.

As palavras sublinhadas, no exemplo acima, são os Veículos metafóricos, os quais se referem ao Tópico em questão, o terrorismo. É válido um comentário parentético acerca do Tópico: como dito na seção 2.1.2.2, o tópico nem sempre estará explícito na presença de um

item lexical, como acontece com o exemplo 1, na terceira linha, “... o terrorismo... é apenas

um--”. É muito mais frequente, no fluxo do discurso, que o tópico fique implícito ao longo dos trechos de fala e seja facilmente inferido pelos participantes do evento discursivo. Voltando à identificação da metáfora, tendo em mente as condições (i) e (ii), tomemos a

palavra “inimigo”, na última linha do exemplo: quando usada para se referir ao tópico “terrorismo”, ela é considerada incongruente, com forte potencial metafórico, posto que “terrorismo” é um conceito abstrato, já o conceito “inimigo” delineia uma pessoa ou grupo

específico e concreto. Ainda, para atender a essa condição de incongruência, conforme Cameron e Maslen (2010), pode-se afirmar que palavras ou expressões têm dois significados: um contextual e outro, completamente diferente, mais básico – no geral mais concreto, físico

–, do que o do contexto em que elas ocorrem (PRAGGLEJAZ, 2007). Logo, se avaliarmos a palavra “inimigo”, veremos que ela tem um significado mais básico, de um individuo, ou

grupo, que tenha declarado guerra ao falante, ou à comunidade do falante, nesse caso Terry, e que é um significado bem diferente daquele sugerido pelo contexto no qual a palavra aparece,

que é algo como ‘a natureza assustadora do terrorismo’. É importante comentar que, além da

incongruência semântica entre Veículo e Tópico no contexto imediato em que aquele aparece referindo-se a este, deve-se haver uma transferência de significado, de modo que uma compreensão outra apareça no contexto do discurso. No caso do exemplo 1, a palavra

“inimigo” pode ser entendida como uma personificação do ‘terrorismo’.

Ainda a respeito da condição da incongruência, Cameron (2003. p. 60) comenta que o potencial para incongruência, além de semântico, pode ser também pragmático, no sentido de o contexto não permitir a ocorrência de um significado literal. Por exemplo, numa aula de

dança, a professora produz o seguinte enunciado: “você merece uma medalha”. Conforme a

autora, se medalhas estivessem sendo atribuídas as alunas, esse seria um enunciado literal. Contudo, segundo os registros dos dados da autora, a aula era um ensaio para uma celebração local, e não para uma competição. Logo, não haveria entrega de medalhas. O enunciado foi considerado metafórico.

Com o exemplo 1, notamos que o registro mais frequente que se tem para a inquirição da metáfora na língua em uso – obviamente que depende da natureza do estudo e da fonte de dados – é a transcrição do evento discursivo. Destarte, uma vez que a transcrição esteja completa e considerando as condições de operacionalização da metáfora linguística, parte-se para a marcação das metáforas na transcrição. Para tanto, o procedimento de identificação proposto por Cameron e Maslen (2010, p.103) compreende quatro passos46: o primeiro é a familiarização do pesquisador com os dados do discurso. Cameron e Maslen (op.

cit.) comentam que a identificação de palavras ou expressões é mais eficiente quando tais

Veículos são contrastados com o contexto do evento discursivo como um todo, posto que esse contraste com o contexto discursivo completo oferece chances melhores de reconhecimento de anomalias e incongruências entre o Tópico do discurso e os termos Veículos.

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Esse procedimento foi adaptado do grupo Praggelejaz (2007), o qual, diferentemente de Cameron (2003, 2007b) Cameron e Maslen (2010), trabalham com a operacionalização de palavras isoladas como metáforas em potencial.

O segundo passo compreende a busca, por parte do pesquisador, por possíveis metáforas nos dados. Posto que o pesquisador já esteja familiarizado com os dados, ele deve conferir cada palavra ou expressão que seja candidata a ser codificada como metáfora. Cameron e Maslen (2010) salientam que, nesse estágio de identificação, procura-se por grupos de palavras ou trechos de fala que possam ser metafóricos. Certamente, segundo a autora, palavras isoladas podem ser usadas metaforicamente, mas com frequência o que acontece é o uso metafórico de grupos de palavras (grupos nominais).

O terceiro passo consiste no uso de três critérios para averiguação das possíveis metáforas: (a) conferir o significado da metáfora em potencial no contexto do discurso, ou seja, para cada item lexical nos dados, deve-se estabelecer seu significado no contexto, isto é, como ele é aplicado ao Tópico em questão; (b) conferir a existência de um significado mais básico; se há um significado mais concreto, que seja mais fácil de imaginar, ver, ouvir, sentir, cheirar, etc., ou relacionado a ações corporais, ou ainda que seja mais preciso, não vago; e (c) uma incongruência ou contraste entre os significados do item lexical e do contexto discursivo, e a transferência de significado do básico para o significado contextual, ou seja, se o sentido concreto do item lexical que contrasta com o sentido contextual permite que este seja compreendido por aquele.

Por fim, o quarto passo é a marcação da metáfora em potencial, sublinhando seu Veículo, se ela satisfizer todos os passos anteriores. É importante ressaltar que a definição operacional adotada na abordagem discursiva da metáfora identifica palavras e expressões potencialmente metafóricas. Isso ocorre em virtude de não haver nenhuma alegação de que os interlocutores interpretarão – ou tenham interpretado – tais palavras e expressões como metáforas, nem de que os falantes tenham intencionado usar as palavras e expressões como metáforas. Ademais, além das metáforas novas, essa operacionalização abarca também metáforas convencionais que, paradoxalmente, não são interpretadas como metáforas, em função de seu alto grau de convenção, mas que ainda têm potencial de serem processadas como tal (CAMERON; MASLEN, 2010).

É importante frisar que Cameron (2008a, p. 202) define metáforas novas em oposição a metáforas convencionais. Estas são aquelas metáforas mais frequentes em comunidades discursivas, que são usadas de maneira automática e são rapidamente

compreendidas pelos interlocutores: “metáforas convencionais [...] são parte dos recursos linguísticos compartilhados pelos interlocutores para falar sobre um tópico particular”

(CAMERON, 2003, p. 101, tradução nossa)47. Metáforas novas, por seu turno, são aquelas que emergem no momento exato da interação, para atender às pressões de negociação do sentido, de modo a auxiliar os interlocutores na compreensão de conceitos um tanto complexos de se definir. Ou seja, metáforas novas são mais frequentes no nível discursivo (superfície linguística) e atendem às demandas contextuais para alcançar propósitos comunicativos específicos em ocasiões discursivas particulares, tendem a ser mais criativas e inovadoras – por isso mesmo são mais raras (CAMERON, 2008a). Cameron (2003, p. 101) afirma que metáforas novas podem ser metáforas deliberadas, no entanto, nem toda metáfora deliberada é nova. Dizer que uma metáfora é deliberada significa dizer que ela é resultado daquilo que o falante achou ser a maneira mais apropriada para expressar uma ideia, ou seja, o falante. Essa ‘maneira mais apropriada’ pode ser bem criativa (metáfora nova), ou menos incongruente com o contexto (metáfora deliberada). Cremos que o contexto, obviamente, exercerá um papel crucial para determinar se uma metáfora linguística será nova e deliberada, ou somente deliberada (em oposição às metáforas convencionais).

A propósito disso, devemos fazer um comentário parentético concernente a esse quarto passo. Cameron (2008a) explica que a convencionalização é um processo dinâmico que acontece dentro da conversa de uma comunidade discursiva e da qual emerge uma metáfora que pode agir como moeda comum em conversações futuras. Isto posto, as expressões metafóricas conectadas criam a sistematicidade da metáfora, que é encontrada localmente num evento discursivo especifico e mais globalmente em comunidades discursivas (CAMERON, 1999). É certamente a sistematicidade das metáforas linguísticas que corrobora muitas das alegações da teoria conceptual da metáfora, na qual metáforas sistemáticas globais

são chamadas de ‘metáforas conceptuais’. Ainda, em seu artigo de 2007, Cameron considera,

como dito na seção 2.1, que o confronto entre a teoria cognitiva da metáfora e sua abordagem discursiva é inevitável. No entanto, a autora pondera que a complementaridade entre as duas pode ser uma opção. Muitos estudos empíricos na língua em uso são motivados pela teoria da metáfora conceptual (e.g.: SWALES, 1994; CORTAZZI; JIN, 1999; SILVA, 2013; GOMES, 2011, 2015; FERREIRA, 2015b), ou seja, partem do uso efetivo da língua em eventos discursivos concretos para, a partir das expressões metafóricas presentes no discurso, investigarem as representações mentais, isto é, as conceptualizações dos sujeitos. Desse modo, pode-se ter a expectativa de encontrar uso sistemático resultante da utilização de metáforas convencionalizadas comum a todos os falantes da língua.

47“Conventionalized metaphors, on the other hand, are part of the participants' shared language resources for talking about

Considerando isso, a questão que levantamos é: certamente, com a evidência empírica, pode-se nomear, ou postular, uma metáfora conceptual; no entanto, a linha divisória que distingue uma metáfora sistemática de uma conceptual torna-se muito tênue. Afinal, ambos os quadros teóricos compartilham do mesmo cerne característico da metáfora – uma coisa em termos de outra. Ainda, ambas são consideradas como ativações mentais de percepção da realidade (SARDINHA, 2007). A impressão, pois, que se tem é que subjazendo as metáforas sistemáticas (no sentido mais estrito defendido por Cameron), haverá uma metáfora conceptual. Em nossa análise dos dados, no capítulo 4, retomaremos essa reflexão.

No tocante à identificação da metonímia, Biernacka (2013 apud LITTLEMORE, 2015) adota os mesmos procedimentos apresentados por Cameron e Maslen (2010), entretanto, o estágio central na identificação da metonímia encontra-se no terceiro passo, critério (c), no qual se confere se a relação entre o sentido contextual e o sentido básico da

expressão é estabelecida por ‘contiguidade’, ou seja, definir-se-á a relação entre os sentidos

como uma relação de adjacência ou proximidade, abarcando relações de causa-efeito, contato espacial, proximidade temporal, etc. O analista, portanto, decidirá se os significados contextual e básico estão intimamente conectados pela situação evocada no texto oral (LITTLEMORE, 2015, p.125).

O resultado final do processo de identificação é uma lista, ou mapa, de metáforas usadas em diferentes momentos do discurso, que serão agrupadas em categorias nas quais se procurará por relações sistemáticas entre os Veículos semanticamente semelhantes e seus respectivos referentes. Cameron e Maslen (2010) alegam que é por causa dessas conexões sistemáticas que conseguimos desvendar as ideias, atitudes e valores das pessoas. Pelas escolhas dos termos Veículo por parte do falante é que o pesquisador consegue delinear uma

“imagem” das ideias, sentimentos e língua do falante.

É interessante salientar que a metáfora no discurso está sujeita, como muitos aspectos da língua, a múltiplas influências de experiências passadas, convenções socioculturais e restrições do próprio processamento da linguagem, todavia com o diferencial de que ela possui uma capacidade reveladora singular. A metáfora está imersa numa densa rede de ideias, associações, padrões conceptuais e afetivos, os quais estão entrelaçados com correlatos oriundos da experiência corpórea (cf. capítulo 1 sobre corporificação). Sobre essas conexões e padrões, Cameron, Low e Maslen (2010, p. 116, tradução nossa) afirmam que elas “não são expressas diretamente – de fato, nem estamos conscientes delas em sua maioria – entretanto

elas são fundamentais para o modo como percebemos, conceptualizamos e interagimos com o

mundo”48 .

Em resumo, na perspectiva da dinâmica do discurso, a identificação e análise da metáfora procura desenvolver padrões de uso metafórico ao longo de uma interação, assim

apresentados: “o desenvolvimento de sistemas de metáforas conectadas que estruturam e

reestruturam ideias chave; o agrupamento de metáforas que sinalizam pontos de atividade interacional intensa; bem como, a apropriação, negação e co-construção de metáforas em

vários momentos do discurso” (CAMERON, DEIGNAN, 2009 [2006], p.165).

Consoante a isso, a metáfora é, portanto, uma forma basilar de uso da língua. É usada para expor e elucidar ideias, e é igualmente utilizada para expressar de forma indireta, embora poderosa, sentimentos e emoções (CAMERON, 2010b). Convictos de que a metáfora pode revelar alguma coisa sobre os pensamentos e sentimentos das pessoas, os pesquisadores em metáfora têm feito dela um instrumento empírico para investigar fenômenos sociais, tais como: relações familiares, pobreza e igualdade social, práticas educacionais e seus resultados, violência, terrorismo, etc. (CAMERON et al., 2009). Tal convicção deve-se ao fato da metáfora ser um fenômeno multifacetado – não somente cognitivo –, por abarcar dimensões linguísticas, corpóreas, cognitivas, afetivas, socioculturais e dinâmicas, sendo imprescindível que seu estudo esteja vinculado ao contexto no qual ela ocorre (CAMERON, 2010b). Desse modo, devido a essas dimensões que motivam e influenciam o uso da metáfora na linguagem e com base no uso que as pessoas fazem dela é que conseguimos compreender como tais pessoas pensam, atribuem sentido ao mundo, bem como se comunicam.

É necessário ressaltar que uma abordagem da metáfora baseada nos princípios da Linguística Aplicada deve investigar o fenômeno tanto no seu aspecto linguístico quanto no seu aspecto conceptual, combinando assim essas duas matizes em teoria e em análise. Em outras palavras, deve-se combinar o social e o cognitivo para tratar do fenômeno metafórico de um modo mais completo e apropriado e evitar uma abordagem unilateral e fragmentada da metáfora. Logo, a metáfora pode ser tanto objeto de investigação quanto instrumento de pesquisa (CAMERON, 2003; CAMERON; LOW, 1999; CAMERON; MASLEN, 2010).

Nessa perspectiva, podemos mencionar, a título de ilustração, os trabalhos de Cameron (2010), Cameron et al (2014) e Feltes, Pelosi e Ferreira (2012), estudos que, por meio da análise do comportamento da metáfora no discurso em interação, investigaram

fenômenos sociais, tais como: ‘terrorismo’ e ‘violência’.

48“[...] are not expressed directly – indeed, we are not for the most part consciously aware of them – but they are fundamental

Em seu estudo, Cameron (2010c) relata alguns resultados obtidos do projeto

“Percepção e Comunicação do risco do Terrorismo”, realizado no Reino Unido. Após o

evento das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, e dos ataques em 7 de julho de 2005 em Londres, envolvendo jovens de um pequeno grupo étnico mulçumano, o assunto

‘terrorismo’ e ‘risco’ tornou-se frequente em várias esferas discursivas. Para lidar com o

problema de como a mídia e o governo poderiam comunicar eficientemente a população sobre os riscos do terrorismo, o projeto foi desenvolvido objetivando investigar como as pessoas conceptualizavam o contexto de risco do terrorismo e explorar o potencial que o conhecimento acerca de tais conceptualizações poderia ter para se fazer comunicados oficiais sobre a ameaça de terrorismo de maneira mais eficiente e sensível a diversidade populacional do Reino Unido. Sendo assim, para ter acesso a essas conceptualizações, Cameron utilizou como ferramenta investigativa a metáfora, de modo a não somente obter as conceptualizações das pessoas, mas também ter acesso às suas emoções, atitudes e valores. A pesquisadora organizou 12 grupos focais – 8 participantes em cada – com 90 minutos de duração, que foram registrados em áudio e vídeo, para posterior transcrição. Depois de identificados os Veículos metafóricos, dentre as muitas metáforas encontradas, a autora percebeu que as

pessoas concebiam o tópico ‘riscos do terrorismo’, principalmente, como TERRORISMO COMO UM JOGO DE AZAR e RESPOSTAS DAS AUTORIDADES AO TEORRISMO COMO TEATRO. Essas metáforas revelaram, no tocante as emoções e atitudes das pessoas em face

ao terrorismo, uma completa falta de controle e agencia das pessoas e sua respectiva incredulidade no governo. Por outras palavras, o uso recorrente de metáforas de JOGOS DE

AZAR mostrou a falta de controle sobre as consequências do terrorismo e como consequência

o sentimento de impotência e desamparo das pessoas. Já as metáforas de TEATRO mostraram a distância sentida entre a população e o governo, o qual carecia de autoridade para lidar com os riscos de terrorismo, bem como de uma ação mais física no combate ao terrorismo. Em suma, a atitude da população era completamente negativa e incrédula frente ao governo.

É válido comentar que, no tocante ao estudo realizado por Cameron (2010c), o governo britânico faria uso dos resultados obtidos para pensar em melhores estratégias de comunicação com a população, nota-se com isso que na abordagem discursiva da metáfora, o pesquisador comprometido com a compreensão dos processos subjacentes da língua em uso, para além de uma mera descrição, pode inclusive pensar em possibilidades de intervenção nos contextos cujas metáforas revelaram pontos interessantes:

“os pesquisadores em linguística aplicada tem comprometimento com as implicações de seus estudos, isto é, reflexividade e/ou intervenção que objetiva pôr em prática ou avaliar implementos na prática para mudanças, bem como para compreensão” (ZANOTTO; CAMERON, CAVALCANTI, 2008, p.2, tradução nossa)49.

Esse princípio de reflexividade da Linguística Aplicada revela-se importantíssimo para estudos realizados nas ciências sociais, posto que a metáfora é utilizada como instrumento de investigação50.

Concernente à violência enquanto fenômeno social, Cameron, Pelosi e Feltes (2014) realizaram um estudo comparativo para averiguar as percepções das pessoas acerca do

‘terrorismo’, no Reino Unido, e da ‘violência urbana’, no Brasil. Usando o mesmo

procedimento metodológico de Grupo Focal, as pesquisadoras inqueriram o uso da metáfora por parte dos sujeitos da pesquisa ao falarem de como o a violência, nas formas de terrorismo e violência urbana, mudou suas percepções sobre risco, as decisões tomadas por eles em sua rotina e suas atitudes em relação aos outros grupos sociais. As autoras constataram diferenças contundentes nas respostas à violência. Como já evidenciado no estudo anterior de Cameron (2010), os participantes ingleses, com suas metáforas de JOGOS DE AZAR (TERRORISMO

COMO UM JOGO DE AZAR), mostram o lado OCULTO das atividades terroristas

(TERRORISMO É UM MOVIMENTO OCULTO), o que lhes causa sentimentos de impotência, desamparo e falta de ação. Já com metáforas de POSTURA CORPORAL (‘curvar-

se’, ‘mole’, etc.), os ingleses mostraram uma avaliação negativa em relação às atitudes do

governo britânico em face à violência sob a forma de terrorismo. Por seu turno, os sujeitos