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Novamente o pensamento “esclarecido” – as “Luzes”, a Ciência de forma geral, como vimos na seção anterior – não parece ser o entendedor mais justo das emoções e, por consequência, do feminino. Vejamos alguns exemplos emblemáticos. Em Émile, ou De l’éducation (1762), entendida pelo próprio Rousseau como “a maior e mais importante” de suas obras, o filósofo iluminista ensina como deve ser educado o cidadão ideal, personificado por meio do fictício Émile, e também por Sophie, a menina criada para se tornar a esposa perfeita deste. Ensina o tutor de Émile que as mulheres são incapazes de sublimar a paixão e são uma fonte de perpétua desordem, então elas têm que “ser submetidas ou a um homem ou a decisões masculinas, e elas nunca podem se colocar acima dessas decisões.” (ROUSSEAU, 1762 apud PATEMAN, 1993, p. 147-148). Argumentando que “o físico inesperadamente nos leva à moral”, Rousseau destaca que as mulheres, diferentemente dos homens, seriam incapazes de controlar seus “desejos insaciáveis” egocêntricos, então seriam também incapazes de desenvolver a moralidade necessária à sociedade civil. Os homens teriam paixões, mas eles conseguiriam utilizar a razão para dominar a sua sexualidade e, assim, se encarregarem da criação e da manutenção da sociedade política, sendo “senhores de si mesmos”. A educação de Sophie, tão “completa”, mas tão diferente da de Émile, visa desenvolver nela o pudor, a
86 Como, por questões de extensão, não pretendemos nos aprofundar nessa importante questão histórica, sugere-
se a leitura do artigo “Bruxaria e Inquisição”, de José Alves de Freitas Neto. Disponível em: http://www.harbra.com.br/HARBRAnews/vernews.php?id=67. Acesso em: 27 jan. 2014.
limpeza e a cordialidade com os homens (ainda que tal educação nunca fosse suficiente para superar a já citada propensão feminina para a desordem). Como marido e chefe de família, Émile pode assumir seu lugar de cidadão, mas Sophie, e todas as outras mulheres, têm que ser rigorosamente excluídas da vida política para que a ordem prevaleça.
Tal entendimento de Rousseau, de que a capacidade civil e política humana seria sexualmente diferenciada, encontra-se também na visão kantiana sobre o contrato de casamento, segundo Pateman (1993, p. 250-251). Kant assevera que as mulheres são criaturas derivadas do sentimento, e não da razão, de modo que seria inútil tentar aumentar a moralidade das mulheres para compatibilizá-las com as regras universais, já que elas não entenderiam “nada de obrigação, de dever, de direito”. Elas, em geral, não teriam personalidade civil87, e sua existência seria “puramente instintiva”; elas só poderiam defender seus anseios por meio de um representante. Segundo Pateman, “A diferença sexual é uma diferença política; a diferença sexual é a diferença entre liberdade e sujeição”. (op. cit., p. 21).
Auguste Comte (1798-1857), filósofo positivista, afirma que a biologia ratifica definitivamente a “hierarquia dos sexos”: sobre o fundo dessa “imutabilidade da natureza” é que o afeto é dado à mulher e o intelecto ao homem. Para Comte, as mulheres se encontrariam em um “estado infantil radical” (lembrando a ideia da tutoria aristotélica), que deveria ser utilizado no trato da vida doméstica, da família, no sentimento maternal. Além disso, elas teriam uma missão a cumprir no advento do positivismo: a de auxiliar o âmbito espiritual (inclusive assumindo papéis na vida religiosa), por serem a fonte dos sentimentos sociais, “o sexo afetivo” (DUBY & PERROT, 1993a, p. 86). No trecho a seguir, Comte sinaliza dois argumentos que seriam insistentemente repetidos, por meio dos séculos, para endossar a inferioridade feminina: a sua menor capacidade intelectual e a sua maior suscetibilidade física e moral, ambos que as abririam mais facilmente aos “arroubos” passionais e justificariam sua inabilidade para cargos de comando na vida pública e de destaque nas ciências.
[...] não se pode, hoje, contestar seriamente a evidência da inferioridade relativa da mulher, muito mais imprópria do que o homem à indispensável continuidade, tanto quanto à alta intensidade, do trabalho mental, seja em virtude da menor força intrínseca de sua inteligência, seja em razão de sua maior suscetibilidade moral e física. [...] Sua característica incapacidade para a abstração e o argumento, a quase completa impossibilidade de deixar de lado inspirações passionais em operações
87 Sobre essa suposta “incapacidade civil” das mulheres, há que se lembrar, inclusive, da própria Revolução
Francesa, que excluiu as mulheres do exercício da política, a começar pelo direito de voto. Eram todas “cidadãs passivas”, como os menores, os estrangeiros, os mais pobres e os loucos.
racionais [é que] devem continuar indefinidamente a impedi-las de alcançar qualquer nível elevado na organização das coisas humanas, não apenas na ciência e na filosofia [...], mas também na vida estética e mesmo na vida prática. [Elas] são radicalmente incapazes de qualquer governo mesmo das questões domésticas, a menos que sejam de natureza secundária. Em nenhuma esfera elas são aptas à direção ou execução; elas são essencialmente capazes apenas de dar conselhos e modificar os planos de outras pessoas. (COMTE apud PERROT, 2007, p. 23). Procurando confirmar anatomicamente essa “incapacidade”, os fisiologistas do final do século XIX, como Paul Broca, por exemplo, afirmavam que o cérebro menor, mais leve, menos denso das mulheres corroboraria sua inferioridade intelectual. É claro que tais argumentos sobre a menor aptidão cognitiva (e, consequentemente, política) das mulheres começariam, progressivamente, a ser refutados por inúmeros pensadores. O filósofo inglês John Stuart Mill (1806-1873), por exemplo, defendeu-as com ardor, pela certeza de que, às mulheres confinadas ao trabalhos domésticos, ao silenciamento e à anulação de si mesmas como sujeitos, não era mesmo possível um desenvolvimento e um alcance público efetivo de suas capacidades intelectuais e civis, mas somente de seu potencial afetivo e doméstico. Entretanto, o percurso de legitimação da diferença por meio da configuração biológica continuaria prosseguindo.