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Duby & Perrot (1993b, p. 320) assinalam que o percurso histórico da metafísica dos sexos, que também pode ser qualificado de essencialista, é este que afirma uma diferença essencial, inclusive natural, entre as mulheres e os homens, definindo suas especificidades respectivas – ou mais precisamente as das mulheres, pois as dos homens costumariam ser associadas, implícita ou explicitamente, à generalidade. Segundo os autores, tal tradição percorreu toda a história do pensamento (como procuramos mostrar, ainda que saibamos da inesgotabilidade das fontes), mas começou a perder forças, sobretudo, a partir da metade do século XX.

Dentre os inúmeros teóricos que contribuíram, no século XX, para reverter esse essencialismo, podemos destacar, a princípio, Foucault. Em sua História da Sexualidade (1976 [2012]), por exemplo, a sexualidade em estado puro não existiria: sempre se deve considerá-la por meio de dispositivos históricos que a organizam segundo modalidades diversas e, até hoje, em relação com dispositivos de aliança na forma da família. Dessa forma, o filósofo francês, quando trata de relações homens-mulheres, parece pôr em xeque qualquer

91 Infelizmente, mais uma vez por questões de extensão, não poderemos adentrar essas diversas perspectivas. A

esse respeito, sugere-se a leitura do capítulo “Diferencia e diferendo: la cuéstion de las mujeres en filosofía”, da obra citada, Historia de las mujeres – 5. El siglo XX (1993b).

análise reducionista e pretensiosamente verdadeira sobre definições: da mesma forma que não há sociedade sem poder, mas somente deslocamentos de poder, não haveria uma “essência” da sexualidade, mas somente modalidades flutuantes no decorrer da história. Ainda que os papéis sexuais não existam em estado puro, em A ordem do discurso (1970 [2005]), Foucault pontua que há um discurso de verdade, apoiado na tradição, na ciência e na religião, que constrói a naturalização desses papéis de forma arbitrária. Em Microfísica do poder (1988 [2012], p. 180), o filósofo francês assevera que “[...] Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder.”.

Retomando a ideia de uma naturalização arbitrária dos papéis sexuais, não podemos deixar de nos remeter a Pierre Bourdieu, em sua obra A Dominação Masculina (1998 [1999]). Nela, de forma similar ao proposto por Foucault, Bourdieu pontua a existência de um fenômeno de des-historicização de estruturas de divisão sexual. Segundo o sociólogo, haveria, nas relações de poder construídas sócio-culturalmente entre os gêneros, a tentativa de naturalização e de eternização – por instituições fundantes como a Família, a Igreja e a Escola – das supostas diferenças “essenciais” entre homens e mulheres, biológicas ou psicanalíticas. Bourdieu defende que ações políticas como as do feminismo deveriam se opor a essas tentativas de mascaramento das tensões, devolvendo à história o que seria fruto dela, devolvendo à doxa seu caráter paradoxal, devolvendo à diferenciação masculino/feminino seu caráter contingente, arbitrário:

[...] é preciso realmente perguntar-se quais são os mecanismos históricos que são responsáveis pela des-historicização e pela eternização das estruturas da divisão sexual e dos princípios de divisão correspondentes. [...] Lembrar que aquilo que, na história, aparece como eterno não é mais que o produto de um trabalho de eternização que compete a instituições interligadas como a família, a igreja, a escola [...] é reinserir na história e, portanto, devolver à ação histórica, a relação entre os sexos que a visão naturalista e essencialista dela arranca [...] É contra estas forças históricas de des-historicização que deve orientar-se, prioritariamente, uma iniciativa de mobilização visando repor em marcha a história, neutralizando os mecanismos de neutralização da história. Esta mobilização marcadamente política, que abriria às mulheres a possibilidade de uma ação coletiva de resistência, orientada no sentido de reformas jurídicas e políticas, opõe-se tanto à resignação a que encorajam as visões essencialistas (biologistas e psicanalíticas) da diferença entre os sexos quanto à resistência reduzida a atos individuais [...]. (BOURDIEU, 1999, p. 5.).

Bourdieu acrescenta que, sustentando a silenciosa dominação masculina, forma de violência simbólica, estaria uma divisão sexualizante do mundo – vista como inevitável e até

incorporada pelas mulheres, de tão naturalizada –, que separaria masculino e feminino em dicotomias representacionais referentes a suas posições sociais e a suas constituições como sujeitos:

Arbitrária em estado isolado, a divisão das coisas e das atividades (sexuais e outras) segundo a oposição entre o masculino e o feminino recebe sua necessidade objetiva e subjetiva de sua inserção em um sistema de oposições homólogas, alto/baixo, em cima/embaixo, na frente/atrás, direita/esquerda, reto/curvo (e falso), seco/úmido, duro/mole, temperado/insosso, claro/escuro, fora (público) /dentro (privado) etc. [...]. A divisão entre os sexos parece estar “na ordem das coisas”, como se diz por vezes para falar do que é normal, natural, a ponto de ser inevitável [...]. Essa experiência apreende o mundo social e suas arbitrárias divisões, a começar pela divisão socialmente construída entre os sexos, como naturais, evidentes, e adquire, assim, todo um reconhecimento de legitimação. (op. cit., 1999, p. 16-17).

A partir desse trecho, é interessante perceber como os traços associados ao feminino, a exemplo de embaixo, atrás, esquerda, falso, curvo, mole, escuro, dentro, são sempre a metade negativa do sistema de oposições homólogas, o que acaba por se estender ao papel social e cultural a ser desempenhado pelas mulheres. Dessa maneira, elas são aquelas que se localizam, frequentemente, em posições subalternas, à margem, obscurecidas, assim como são associadas, historicamente, ao que é falso, sinistro, torto. Como não poderia deixar de ser, oposições tradicionais retratadas por nós neste capítulo, como doméstico/público, interior/exterior, sensibilidade/razão, passividade/atividade também compõem esse quadro de uma divisão sexualizante do mundo, dando um aspecto natural ao que seria, em verdade, construído.

A respeito da manifestação dos afetos pelas mulheres, Bourdieu também os enxerga como uma forma de resposta à opressão masculina. Algumas emoções manifestadas pelas mulheres poderiam contribuir, sem que soubessem ou contra sua vontade, para o reforço da violência simbólica que as subjuga:

Os atos de reconhecimento e de reconhecimento práticos da fronteira mágica entre os dominantes e os dominados, que a magia do poder simbólico desencadeia, e pelos quais os dominados contribuem, muitas vezes à sua revelia, ou até contra sua vontade, para sua própria dominação, aceitando tacitamente os limites impostos, assumem muitas vezes a forma de emoções corporais – vergonha, humilhação, timidez, ansiedade, culpa – ou de paixões e de sentimentos – amor, admiração, respeito –; emoções que se mostram ainda mais dolorosas, por vezes, por se traírem em manifestações visíveis, como o enrubescer, o gaguejar, o desajeitamento, o tremor, a cólera ou a raiva onipotente, e outras tantas maneiras de se submeter, mesmo de má vontade ou até contra a vontade, ao juízo dominante [...]. (BOURDIEU, 1999, p. 51).

Bourdieu argumenta, portanto, que é possível verificar, nas sociedades, um longo trabalho produzido nos corpos e nas mentes a fim de se inverter a relação entre as causas e os efeitos desse esquema dóxico, fazendo-nos ver uma construção social naturalizada (os “gêneros” como habitus92 sexuados), na verdade, como o fundamento in natura da arbitrária divisão de

mundo que está no princípio da realidade e da representação da realidade. Assim, a socialização do biológico e a biologização do social (op. cit., p. 9-10) inverteriam-se para produzir tal percepção a-histórica das características de homens e mulheres.