Cobo (2011) defende que, nas três últimas décadas, tem-se podido detectar uma nova reação do patriarcado como forma de “revide” à força das mudanças conquistadas pelas mulheres a partir do ressurgimento do feminismo dos anos 70:
[...] es plausible sostener que la conquista de derechos de muchas mujeres em distintas partes del mundo, la ampliación de sus esferas de libertad y el aumento de su conciencia de subordinación han alertado las antenas patriarcales. El miedo a la pérdida de privilegios y el temor a compartir recursos y poder han inquietado al mundo masculino y han favorecido el rearme ideológico del patriarcado. (op. cit., p. 185).104
Esse movimento de repatriarcalismo, segundo a autora, tem apregoado, sob novas e diversas roupagens105, o resgate do contrato sexual106 e um retorno silencioso ao antigo lugar da mulher – este que vinha sendo pouco a pouco desconstruído no século XX. Uma das formas, segundo Cobo, de se promover esse retorno seria, mais uma vez, renaturalizar a desigualdade de gêneros, justificando tal hierarquia sexual por meio de novos discursos que a relegitimem, inclusive no tocante à racionalidade feminina:
En el caso de las mujeres, la renaturalización es la columna vertebral del nuevo pensamento patriarcal y misógino. Estas producciones discursivas y materiales tienen como efecto que contemplemos la inferioridad social de las mujeres como si formase parte de un orden natural de las cosas. El patriarcado promueve la idea de que la inferioridad es inherente a la naturaleza femenina, caracterizada por el déficit de fuerza y de racionalidad. [...] (op. cit., p. 180).107
104 Tradução livre da autora: “[...] É possível sustentar que a conquista de direitos de muitas mulheres em
distintas partes do mundo, a ampliação de suas esferas de liberdade e o aumento de sua consciência de subordinação têm alertado as antenas patriarcais. O medo da perda de privilégios e o temor de compartilhar recursos e poder têm inquietado o mundo masculino e têm favorecido o rearme ideológico do patriarcado.”.
105 Inclusive por meio de argumentos falaciosos, como o de que as mulheres já conquistaram a igualdade “tão
sonhada” frente aos homens, que já têm o mesmo poder que eles, ou que, agora, têm de arcar com as inevitáveis consequências negativas advindas dessa pretensa igualdade (op. cit., 2011, p. 16). Os livros de autoajuda de nosso corpus, como produtos midiáticos contemporâneos que são, parecem endossar tais argumentos, como veremos no capítulo de análise.
106 Em O contrato sexual (PATEMAN, 1993), a autora argumenta que a situação de subordinação social das
mulheres contemporâneas se explica a partir de um pacto fundacional histórico (tal qual o contrato social, mas camuflado na história oficial) por meio do qual aos varões eram concedidos a propriedade das mulheres e o acesso sexual a seus corpos, especialmente através do casamento e da interdição das instâncias civis e políticas. A sólida herança desse pacto se observaria, de forma diversa, na desigualdade de gêneros de todas as sociedades humanas. Pateman, nesse sentido, rejeita o mito do matriarcado original na história da humanidade.
107 Tradução livre da autora: “No caso das mulheres, a renaturalização é a coluna vertebral do novo pensamento
patriarcal e misógino. Essas produções discursivas e materiais têm como efeito que contemplemos a inferioridade social das mulheres como se formasse parte de uma ordem natural das coisas. O patriarcado promove a ideia de que a inferioridade é inerente à natureza feminina, caracterizada pelo déficit de força e racionalidade.”.
Cobo acrescenta que, enquanto a tese das diferenças irredutíveis entre os sexos não é empiricamente demonstrável, a desigualdade entre os gêneros se pode mostrar e verificar claramente. Apesar da dificuldade de se comprovar irredutivelmente habilidades ou inaptidões de determinado gênero para determinada característica ou ação, o discurso científico (ou mesmo o pseudocientífico) contemporâneo tem se valido das modernas tecnologias e da grande circulação de dados de pesquisa para tentar trazer à tona, novamente, uma tentativa de “verdade” quanto às diferenças homem/mulher. Inúmeras pesquisas de neurocientistas, por exemplo, são desenvolvidas atualmente no intuito de comprovar que homens e mulheres são biologicamente diferentes em essência108, à parte de seu estar-no-mundo.
À medida que as barreiras de uma sociedade sexista continuam a ruir, parece haver um número cada vez menor de bodes expiatórios sociais aos quais apelar para explicar as persistentes desigualdades de gênero e de segregação profissional. Quando não conseguimos atribuir a culpa a forças externas, todos os olhos se voltam para o interior – as diferenças na estrutura ou no funcionamento dos cérebros masculino e feminino. (FINE, 2013, p. 15-16).
Como seria de se esperar, tais pesquisas acabam se configurando como discursos que visam a resgatar a violência simbólica patriarcal e são amplamente divulgadas apesar de sua incompletude ou de problemas metodológicos grosseiros em seu desenvolvimento. Em adendo, a mídia assume um papel muito importante na divulgação desses precários resultados (e em sua consolidação no senso comum), alardeando-os como “certezas” científicas e, muitas vezes, lucrando com uma abordagem hiperdimensionada e apressada desses dados.
Até agora, os itens da lista de diferenças que supostavam explicavam o status quo do gêneros sempre acabaram sendo removidos. Mas, antes que isso aconteça, a especulação se eleva à condição de fato, especialmente na mão de alguns autores populares. Uma vez que chegam ao domínio público, esses supostos fatos a respeito do cérebro masculino e feminino se tornam parte da cultura, não raro subsistindo bem além de sua data de vencimento. Aqui, eles reforçam e legitimam os estereótipos de gênero que interagem com a nossa mente, ajudando a criar as próprias desigualdades de gênero que as afirmações neurocientíficas procuram explicar. (FINE, 2013, p. 240).
Esse é o caso, por exemplo, do filão de obras de autoajuda “pseudocientíficas” que descrevemos no capítulo anterior: livros como Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus
108 Perrot (2007, p. 97) cita, como exemplo dessas pesquisas, o recente livro Cerveau, sexe et pouvoir (VIDAL &
BENOIST-BROWAEYS, 2005), em que se recusam às mulheres, de forma geral, as qualidades de abstração (as ciências matemáticas lhes seriam particularmente inacessíveis), de invenção, de síntese. Reconhecem para elas outras qualidades: intuição, sensibilidade, paciência – segundo as autoras, baseando-se em investigações científicas.
(GRAY, 1992), ou Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? (PEASE & PEASE, 2000), com frequência, valem-se inapropriadamente de pesquisas científicas inconclusivas ou já superadas para procurar trazer credibilidade à sua abordagem naturalista da diferença entre os sexos.
Toda essa é a defesa de Fine (2013), em sua recente obra Homens não são de Marte e Mulheres não são de Vênus: como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos. Por meio de um resgate exaustivo de inúmeras pesquisas cerebrais sobre a diferença entre os sexos, a psicóloga acaba por demonstrar que a grande maioria delas ainda se desenvolve sob um terreno movediço e perigoso – não minimizado nem pelas novas tecnologias de mapeamento cerebral, incapazes de dar conta dessas diferenças –, o que faz com que sejam frequentemente derrubadas por constatações contrárias ou mesmo que acabem por se esquecer da influência, sobre o cérebro, do aprendizado social do gênero de que já tanto tratamos109. Fine ainda nos incita ao questionamento: será que as perspectivas neurossexistas não estariam invertendo o elo causal, quando tentam defender que a desigualdade de gênero é produto da diferença de gênero? Não seria o contrário? (op. cit., p. 295). Não seria hora de pensarmos no que pode esconder o termo natural-mente110?
Quanto mais eu era tratada como mulher, mais eu me tornava uma mulher. Eu me adaptei a contragosto. Se partiam do princípio de que eu era incompetente em inverter a marcha do carro ou abrir garrafas, eu dava comigo me tornando extraordinariamente incompetente. Se uma caixa era considerada pesada demais para mim, inexplicavelmente eu mesma a considerava pesada. (Jan Morris, transexual que mudou seu corpo de homem para mulher, descrevendo as suas experiências posteriores à transição em sua autobiografia, Conundrum, de 1987, apud FINE, 2013, p. 27).
Por fim, a autora ressalva que podem existir, de fato, diferenças sexuais a serem investigadas no cérebro, mas argumenta que a sedução da ciência também pode nos conduzir a equívocos, tal qual nossos antepassados (op. cit., p. 23). Há séculos, “especialistas imparciais” nos ofereceram constatações incisivas sobre o fato de as mulheres serem perturbadas emocionalmente por seu útero e hormônios e sobre terem a cérebro pequeno demais para
109 Apesar de complexa e extremamente pertinente à discussão efetuada neste capítulo, não poderemos, por
questões de extensão, aprofundarmo-nos na tese desenvolvida por Fine (2013). Sugere-se a leitura de sua obra completa, inclusive para que se tome conhecimento de como a autora derruba o mito neurológico/hormonal de mulheres emotivas e homens racionais – associando-o às influências culturais da sociedade sobre as estruturas plásticas do cérebro – por meio de inúmeros exemplos bastante esclarecedores e da apresentação das controvérsias das pesquisas.
110 Duby & Perrot (1993b, p. 352), originalmente, efetuam esse jogo de palavras a partir do termo francês:
racionalizar, através do que havia de mais moderno na época. De forma semelhante, não seria possível que as constatações atuais da neurociência sobre as diferenças entre homem e mulher também estejam destinadas, daqui a séculos, a se juntarem ao monte de “sucata” das medidas do volume do crânio, do peso do cérebro e da configuração uterina e menstrual? É aguardar o curso da história para sabermos.
Além das pesquisas científicas, também a mídia tem oferecido contribuições notórias a tais reconfigurações contemporâneas do patriarcado. Tânia Navarro Swain, ao analisar representações de mulheres em revistas femininas ditas “modernas”, reforça a ideia de como a mídia age de maneira paradoxal: apesar de esta decretar o “fim do feminismo”, por disseminar que as mulheres alcançaram as metas que tanto buscavam, já assumindo outros papéis sociais, essa mesma mídia acaba por reforçar os locais tradicionalmente atribuídos à mulher (como a emotiva, a esposa, a mãe, a delicada, a frágil, a constituída para o olhar do outro), reforçando as divisões binárias e o naturalismo de que tanto falamos.
A análise dos mecanismos de condensação discursiva e representacional da carne em corpos sexuados permite detectar agentes estratégicos na reprodução, reatualização, ressemantização de formas, valores e normas definidoras de um certo feminino naturalizado, travestido em slogans modernos, em imagens de “liberação”, cujos sentidos, constituídos em redes significativas, são expressão de um assujeitamento à norma instituída. [...] se o discurso da mídia em seu dialogismo com o rumor social decreta o fim do feminismo, o campo conotativo do que é dito e do dizível indica a recuperação e/ou atualização de representações binárias, excludentes e hierarquizadas sob novas roupagens. Mulheres e homens continuam a ocupar lugares tradicionalmente traçados segundo sua “natureza” feminina ou masculina, esta mesma “natureza” desconstruída pelo feminismo contemporâneo. Essas imagens do feminino ancoradas na memória discursiva se incorporam às representações de mulheres atuais, transformadas, mas guardando as nuanças que fazem das práticas sociais um espaço binário assimétrico, cujas polarizações reforçam e justificam a divisão generizada do mundo. Ao feminino, o mundo do sentimento, da intuição, da domesticidade, da inaptidão, do particular; ao masculino, a racionalidade, a praticidade, a gerência do universo e do universal. (SWAIN, 2001, p. 68-69.).
Assim, a enorme gama de manifestações midiáticas que nos circunda parece ser um espaço frutífero para que se observem quais são as representações sócio-discursivas associadas ao feminino, ao ser mulher e, consequentemente, quais são os mecanismos de poder subjacentes a essas representações. Muitos produtos culturais destinados ao público feminino – tais como certas revistas, livros, músicas ou filmes –, mesmo na contemporaneidade, parecem restringir o universo de interesse das mulheres a alguns poucos âmbitos, geralmente ligados à esfera do privado, do doméstico, das relações afetivas, como se ainda não lhes pertencessem
efetivamente outros universos, tal como o do mundo do trabalho ou do conhecimento científico.
Os produtos culturais destinados ao público feminino desenham, em sua construção, o perfil de suas receptoras em torno de assuntos relacionados à sua esfera específica: sedução e sexo, família, casamento, maternidade e futilidades. (SWAIN, 2001, p. 69-70.).
Conforme Swain pontua, a pauta desses produtos não vai muito além dos temas relações homem-mulher (afetos, sexo, paquera, namoro, casamento, divórcio), maternidade, família e beleza física. De forma geral, é possível ainda se afirmar que a grande maioria das publicações, em pleno século XXI, ainda gira em torno das dificuldades de a mulher conseguir um bom parceiro e um relacionamento dito saudável e feliz, que culmine no casamento ou o mantenha, reafirmando a percepção já tratada por nós de que, também nesses impressos, a figura da mulher se constitui claramente a partir do olhar de aceitação do outro, no caso, o seu companheiro. É, mais uma vez, o patriarcado dando sinais de que não está adormecido.
2.4 Mulheres poderosas e mulheres que agem como damas, mas pensam como homens: