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A histeria, na tradição clássica (hystera, útero, em grego), foi um termo inicialmente usado pelo grego Hipócrates para se referir a perturbações do útero, que causariam movimentos irregulares no fluxo de sangue desse órgão para o cérebro das mulheres. No final do século XIX, a histeria foi resgatada pela Psicanálise, a partir dos estudos de Charcot e Freud, como uma neurose complexa causada pela instabilidade emocional. Nela, os conflitos interiores se manifestariam nas pacientes por meio de sintomas físicos. Legitimada pela ciência, a histeria contribuiu sobremaneira para aproximar o descontrole e o passional do que seria exclusivamente feminino88: “A histérica é a mulher doente do seu sexo, sujeita a furores uterinos que a tornam quase louca, objeto da clínica dos psiquiatras.” (PERROT, 2007, p. 66). Novas feiticeiras, as chamadas “convulsionárias” deveriam ser exorcizadas, não do diabo,

88 E para a consolidação linguística do adjetivo “histérica”, no senso comum, como pertencente ao campo

semântico do que é próprio da mulher descontrolada e passional. Vale também lembrar que, contemporaneamente, as representações discursivas acerca da “mulher de TPM” parecem trazer novas roupagens à ideia da mulher histérica, conforme relembra Swain (2001, p. 70): como se poderia confiar no julgamento, na palavra e no raciocínio de um ser subjugado periodicamente por nervosismos ou calores? O assujeitamento das mulheres a esse tipo de discurso revelaria a força de autoridade do discurso médico, divulgado e reafirmado pela mídia.

mas de seus próprios úteros, que atingiria o cérebro feminino e o tornaria “nervoso”: abria-se caminho para as “doenças das mulheres”, ao menos na psiquiatria e na psicanálise. Para a pesquisadora francesa, no que concerne à saúde das mulheres, a loucura foi, por muito tempo, atribuída ao feminino como o simétrico da violência para o masculino: “as mulheres são loucas e os homens criminosos” (op. cit., p. 165), o que seria uma forma de, mais uma vez, reduzir a mulher a seu corpo e a sua suposta irresponsabilidade e, consequentemente, colocá- la em posições inferiores nas lógicas de poder.

Se, para Aristóteles, a mulher é um homem mal-acabado, um ser incompleto, uma forma malcozida, de forma similar, na Psicanálise dos séculos XIX e XX, Freud faz da “inveja do pênis”89 o núcleo explicativo básico da sexualidade feminina (ao menos no início de seus estudos): a mulher é um ser esburacado, em concavidade, marcado pela falta – palavra com frequência presente nas definições da mulher90 –, para a possessão, para a passividade. O simbólico, o fálico, é essencialmente masculino. Apesar de, no final de seus escritos, Freud – talvez em uma retratação tardia, ou em um convite à releitura de toda sua obra – negar-se a definir as categorias da masculinidade e da feminilidade, sabemos que um dos principais legados históricos da Psicanálise freudiana, em relação ao gênero, é o de que o sexo feminino se define negativamente em relação ao masculino: fazer-se mulher é aceitar não ser homem. Em seu ensaio “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925), por exemplo, Freud argumenta que as diferentes experiências que os meninos e as meninas têm por causa do Complexo de Édipo indicam que o superego das mulheres não é tão “independente de suas origens emocionais” quanto o de homens, o que as faria apresentar um menor senso de justiça e serem mais influenciadas por seus sentimentos:

Nas meninas está faltando o motivo para a demolição do complexo de Édipo. A castração já teve seu efeito, que consistiu em forçar a criança à situação do complexo de Édipo. Assim, esse complexo foge ao destino que encontra nos meninos: ele pode ser lentamente abandonado ou lidado mediante a repressão, ou seus efeitos podem persistir com bastante ênfase na vida mental normal das mulheres. Não posso fugir à noção (embora hesite em lhe dar expressão) de que, para as mulheres, o nível daquilo que é eticamente normal é diferente do que ele é nos homens. Seu superego nunca é tão inexorável, tão impessoal, tão independente

89 É interessante perceber que, como a ideia da falta do pênis (real e simbólica) é fundante para entender a

constituição psíquica da mulher em Freud, o autor vienense, em certo aspecto, reforça a perspectiva biologizante de que falamos neste capítulo – apesar de alguns estudiosos da Psicanálise, especialmente os franceses, recusarem essa leitura, como aponta Rubin (1986, p. 121). Assim, sob nosso ponto de vista, a psicanálise freudiana não parece colaborar de forma sensível para a dissolução das dicotomias e simplificações sexuais que nos circundam.

90 Bourdieu (1999, p. 111) sinaliza que, qualquer que seja sua posição no espaço social, as mulheres têm em

de suas origens emocionais como exigimos que o seja nos homens. Os traços de caráter que críticos de todas as épocas erigiram contra as mulheres – que demonstram menor senso de justiça que os homens, que estão menos aptas a submeter-se às grandes exigências da vida, que são mais amiúde influenciadas em seus julgamentos por sentimentos de afeição ou hostilidade – todos eles seriam amplamente explicados pela modificação na formação de seu superego que acima inferimos. Não devemos nos permitir ser desviados de tais conclusões pelas negações dos feministas, que estão ansiosos por nos forçar a encarar os dois sexos como completamente iguais em posição e valor [...]. (op. cit., s.p.).

É importante relembrar que, posteriormente, vários outros teóricos da Psicanálise, como o próprio Lacan, acabam por esfumar o privilégio do masculino sobre o feminino em seus estudos91. A psicoanalista Karen Horney (1885-1952), por exemplo, insiste com grande ênfase nas características socioculturais da formação sexuada, acrescentando que a inveja do pênis é, na verdade, a inveja de participar das tarefas e das responsabilidades que só eram, então, permitidas ao homem na sociedade. Essa exclusão só faria restar a elas o refúgio no sentimento, portanto (DUBY & PERROT, 1993b, p. 330).

2.3.5 Rumo à progressiva desconstrução da metafísica dos sexos: o entendimento das