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KADINLARIN SİYASETE KATILIMI: TÜRKİYE ÖRNEĞİ

3.3 Osmanlı’da Kadın

3.3.2. Tanzimat Sonrası

Fonte: Mapa de excursão da zona adjacente de Porto Alegre: São Leopoldo, Taquara, Canela, São Francisco de Paula, Torres, Tramandaí, Cidreira e Quintão: organizado por W. Regius. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1926.

Aliás, a usina de açúcar em Conceição do Arroio, ao animar a região, teve o reconhecimento da Secretaria de Obras do Estado. Em seu relatório de 1925, lê-se:

Até agora a excelente cana de açúcar aí produzida em grande quantidade era apenas utilizada para o fabrico de álcool, aguardente, melado e rapadura, fazendo alguns agricultores um pouco de açúcar grosso para o consumo próprio, mas neste momento faz-se uma tentativa digna de menção com a instalação de uma usina moderna para fabricação de açúcar.

Como é de esperar, completo sucesso dessa iniciativa feliz, nova era de grande progresso trará para essa região onde a cultura de cana tomará então grande incremento e fatalmente novas usinas surgirão de modo a poder o Rio Grande do Sul produzir, se não todo, ao menos uma grande parte do açúcar necessário ao consumo de sua população.274

A sua capacidade de produção era de 60 mil sacos de açúcar cristal, com o trabalho de cerca de 45 empregados. Ainda durante a construção da fábrica, seus diretores distribuíram

274

RIO GRANDE DO SUL. Relatório da Secretaria de Estado dos Negócios das Obras Públicas. Porto Alegre: A Federação, 28 jul. 1925. p. 261-262. In: SILVA, Marina Raymundo da. Navegação lacustre Osório-Torres, 1985, p. 113.

mudas e ofereceram instruções para a expansão do plantio da cana.275 De fato, foi a primeira tentativa com bom resultado de produção industrial de toda a cana-de-açúcar da região. O seu início promissor se tornou uma referência importante para a história do açúcar no Rio Grande do Sul.

Foi inaugurada pelo presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, em 12 de fevereiro de 1928, quando também compareceram Borges de Medeiros, chefe do Partido Republicano, e outras autoridades estaduais. Eles chegaram ao porto, pelo rio da Pinguela, e puxados a boi pelos trilhos, se dirigiram à Usina. Lá foram homenageados pela diretoria e pelos empregados.276

Fotografia 10 – Visão panorâmica da Usina Santa Marta e seu entorno – [s/d]

Fonte: SILVA, Marina Raymundo da. Navegação lacustre Osório-Torres, 1985. p. 114.

A Usina Santa Marta, no imaginário popular e no das autoridades, viria, em boa hora, para animar a região, marcada pelo atraso e dificuldades, como evoca Guido Muri:

[...] No início deste século [XX], a região nordeste era considerada zona atrasada do Rio Grande do Sul, motivo por que o poder público estadual tratou de melhorar as condições de vida da sua população com medidas concretas, como a ligação hidroviária e ferroviária, através dos serviços de transportes entre Palmares e Torres, e da fabricação de álcool e de açúcar, criando a Usina S. Marta, aproveitando a já adiantada cultura da cana em Conceição do Arroio.

A presença freqüente das maiores autoridades do estado em nosso município dá a idéia do seu interesse pelo progresso da região, que devia ainda contar com uma

275

SILVA, Marina Raymundo da. Op. cit., 1985, p. 114.

276

O intendente municipal de Conceição do Arroio, José Augusto Grundler, convidou o povo para a recepção às autoridades: Getúlio Vargas e Borges de Medeiros. A propósito, examinar: RIBEIRO, Pascoalino L.; MONTEIRO, Ildo T.; MURI, Guido. Datas e fatos de Osório: histórias da nossa história. Osório: [s.n.], 2003. p. 16-17. RIBEIRO, Pascoalino L. Engenhos de açúcar. In: _____; MONTEIRO, Ildo T.; MURI, Guido. Histórias de Osório: histórias da nossa História. Osório: [s.n.], 2004. p. 61-63.

estrada de ferro entre Porto Alegre e Torres, servindo os municípios de Gravataí, Santo Antônio e Conceição do Arroio, como o desejava em memorial dirigido ao governo estadual, pelos intendentes desses municípios, por ocasião do Congresso das Municipalidades.277

Eis que plantar cana foi a ordem dada, então, pelo governo. Assim, toda a costa foi cultivada. Da antiga Estação Experimental de Cana-de-Açúcar, em Osório, saía cana que era transportada por carreta, por locomotiva e após via Porto Lacustre. As chatas carregadas entravam pelo rio da Pinguela e, depois da carga depositada no trapiche, ela subia por um carro sobre trilhos. Juraci Pasquoto ofereceu mais detalhes:

As vagonetas eram pequenos containers que circulavam nos trilhos, empurrados muitas vezes por pessoas ou puxados por cabos movidos a motor. Então, era levada a cana à usina mediante essas vagonetas, porque as carretas e os barcos não chegavam até ela. Aí todo o trabalho era feito mecanicamente, através de locomóveis. E a lenha era para aquecer as caldeiras. [...] O locomóvel era abastecido com lenha ou com óleo, emitindo um fogo que aquecia as caldeiras. [...] As máquinas eram movimentadas sob pressão das caldeiras. E a usina então funcionava através dessas caldeiras. Mecanicamente fazia funcionar as moendas. O deslocamento do líquido da cana, da garapa, esse trabalho era feito mecanicamente; não manual. [...] Mas foi um pólo de emprego. Falavam em 40 a 50 pessoas. E a cana vinha dessas encostas dos morros. A maioria transportava a cana nos barcos através das lagoas.278

Guido Muri expõe outros dados interessantes a partir do depoimento colhido de Sílvio Martins. Este plantou cana para fornecer à usina e vendeu lenha dos seus matos, até o fechamento da empresa, lá por 1937.279 O plantador recorda :

Era um prédio de quatro pavimentos, de tijolos. Tudo lá era movido a vapor. Por meio de um encanamento, a bomba puxava a garapa que subia para os tanques, a fim de ali ser feito o açúcar. Produziu-se na Usina muito açúcar e álcool. A Estação Experimental fornecia as mudas de cana, que eram entregues aos cultivadores da costa da serra. Cada gomo de dois “olhos” era uma muda. E vinha da estação em carretas até os trilhos na Rua dos Trilhos, e dali a cana era levada por locomotiva ao Porto Lacustre. Do Porto em chatas, seguia pelas lagoas até a da Pinguela, e lá entrava por um canal dragado e descarregava num trapiche, e deste era levada, numa caçamba, puxado a boi, sobre trilhos, subindo até à Usina. Álcool e açúcar, prontos faziam o trajeto inverso, com o rebocador puxando as chatas carregadas até a Lacustre, e dali, por trem, até Palmares, e deste porto até a capital. O álcool ia em tambores.280

277

MURI, Guido. Remembranças de Conceição do Arroio. Porto Alegre: Jollo, 1992. v. 3, p. 87.

278

Depoimento de Juraci J. Pasquoto concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 29 jan. 2003.

279

Cláudio Leal Domingos questiona essa data, visto Fernandes Bastos, quando escreveu seu trabalho, datado de 12/02/1938, não ter mencionado a falência da Usina Santa Marta. Examinar: DOMINGOS, Cláudio Leal. Osório: Litoral Norte/RS: a economia canavieira. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (Org.). Raízes de Osório. Porto Alegre: EST, 2004. p. 336-344.

280

A respeito, examinar a série de artigos do autor, a contar dessa edição. MURI, Guido. A Usina Santa Marta: remembranças de Conceição do Arroio. Folha do Litoral, Osório, a. VIII, n. 490, p. 2, 30 jul. 1985.

As mudas eram inicialmente enviadas de Conceição do Arroio. Depois, Torres passou também a produzir e abastecer a usina que fabricava o açúcar branco e o amarelinho, o álcool e a cachaça.

José da Silva Neto trabalhou na usina de 1928 a 1931, no setor da garapa. Em depoimento a Guido Muri, recorda-se do chefe, o Dr. Dautrelepont, um francês que falava meio mal o português. E o alambiqueiro chamava-se Torquato. Do andar de cima, diz ele, é que saíam o açúcar, a cachaça e o álcool, que depois desciam pelo carro e tomavam as chatas para o destino comercial.

Ao oferecer suas remembranças, Guido Muri amplia o cenário da Usina:

Perto da Santa Marta situava-se o bodegão que vendia comestíveis e bebidas aos empregados da Usina, mediante vales emitidos por ela. O empregado apresentava ao caixeiro um impresso assinado: “Vale tantos mil réis” e assim podia retirar a mercadoria que desejasse, dentro do valor estipulado na autorização.281

A Arsenílio Pedro de Souza, que trabalhou na empresa de 1925 a 1933, como turbineiro, refere o mesmo autor, que lhe dá a palavra:

[...] a produção diária era de 56 sacos de açúcar branco e a tonelagem moída em um dia era de cerca de 60. O álcool fabricado derivava-se do açúcar “ligeiro”, embora a Usina adquirisse cachaça de Torres para dela fazer o álcool. Primeiro se fazia a cachaça para dela tirar o álcool. Este dava mais lucro que o açúcar e tinha comprador certo, a firma dos Pinto, em Porto Alegre, na rua Voluntários da Pátria (Pinto & Cia). [...] A sobra da indústria cachaceira – o vinhoto – era largada num valo que escorria para a Lagoa da Pinguela. A capacidade da Usina, na safra, era de 45 toneladas de açúcar e na entressafra, de 6 toneladas. O técnico do açúcar era de São Paulo, Alcindo Machado, de nome, e depois dele veio um de Bagé, chamado José Farias Gomes. [...] Uma tonelada de cana produzia 55 quilos de açúcar ‘cristal’, aproximadamente, sendo a cana plantada na encosta dos morros e representada por algumas variedades. [...] As variedades de cana plantadas em Conceição do Arroio e Torres eram: Java, Argentina, Imandu e Taquara, esta também conhecida como “cana-ripa”. Variedade de muita produção era a “cana oca”, que chegava a produzir 115 litros de aguardente por tonelada. Já a Argentina dava um pouco menos. Havia também a variedade chamada “barba-de-índio”, isto por causa dos fiapos que saíam de cada nó. A cana-rosa era também plantada, mas por fim não mais crescia, não se sabendo porquê. Quanto ao açúcar “amarelinho”, era ele adquirido em Torres, para a usina fazer álcool e vinha em chatas pelas lagoas, várias delas puxadas pelo rebocador “Torres”. Acontecia, às vezes, que apenas duas chatas traziam 1300 ou 1400 sacos do dito açúcar (também chamado “mascavo” ou “ligeiro”). Para essas compras, foi por um tempo comissionado o senhor Filhinho Fernandes, isto na época já do último arrendatário.282

281

MURI, Guido. A Usina Santa Marta: remembranças de Conceição do Arroio. Folha do Litoral, Osório, a. VIII, n. 490, p. 2, 30 jul. 1985

282

Durante a safra, a usina funcionava dia e noite, movimentando-se ininterruptamente, assim como as chatas e a viação férrea da Lacustre, que transportavam os derivados da cana para a capital. As dificuldades não eram poucas. Afinal, a conexão entre carretas, barcos e trem tinha custo, além de difíceis e às vezes demoradas serem as baldeações, sem contar as pipas de aguardente que estouravam expostas ao sol.

Muri ainda nomina os carreteiros que seguiam pela areenta estrada da costa. Lá iam Bento Militão, João Viegas, os irmãos Ricardo e Germano Borba, Serafim Nunes, João Colombo e o Batista, nomes que a memória preservou. Leontina, esposa do Alcebíades, o

Bida da Fausta, capataz geral das plantações de cana da usina, fornecia almoço e janta aos

empregados, ainda que não residissem muito longe da Santa Marta, informa o historiador.283 Mas, logo que começou a produzir, o IAA limitou a cota à soma insignificante de 6 mil sacas por safra, acabando por inviabilizá-la. Apesar de o presidente ser um gaúcho, os insistentes apelos locais não se fizeram ouvir, levando ao colapso o empreendimento canavieiro. Paulo Dapper, ex-dirigente da AGASA, assim a refere: “Foi a Santa Morta!”284

Affonso Penna Kury oferece detalhes a respeito:

Vencida a fase experimental de produção de álcool, Bernardo Dreher partiu para a fabricação de açúcar cristal, tendo, para tanto, contratado um técnico nordestino. Depois de muitos contratempos e enormes despesas, o especialista fracassou em suas inúmeras tentativas de produzir açúcar cristal, tendo, por fim, desistido sob a alegação de que a cana cultivada na região não se prestava ao fabrico de açúcar cristal.

Mas Bernardo Dreher não se deu por vencido. Contratou um especialista europeu que logo encontrou o ponto de cristalização do açúcar, nascendo, daí a crença de que o técnico nordestino era cobra mandada dos produtores de Pernambuco que não viam com bons olhos um concorrente no sul.

O equipamento importado da Europa era desconhecido dos técnicos nacionais. A usina, face à qualquer desajuste, ficava parada durante longo tempo. Viu-se, portanto, Bernardo Dreher obrigado a contratar um engenheiro francês – Dautrelepont, o que veio onerar, ainda mais, a incipiente indústria da Lagoa da Pinguela.285

Além das dificuldades de desempenho da equipe técnica, a Usina Santa Marta enfrentou também problemas de transporte, mesmo com a cana conduzida, por via lacustre, dos distritos de Maquiné, Três Forquilhas e Colônia São Pedro.

Para completar, aos efeitos da recessão imposta pela conjuntura mundial decorrente da queda da Bolsa de Nova York, em 1929, somou-se a política vigorante de protecionismo ao Nordeste, com restrições à fabricação do açúcar no Rio Grande do Sul. A esses fatores

283

MURI, Guido. Remembranças de Conceição do Arroio. Porto Alegre: Jollo, v. 3, 1992. 14-15.

284

Depoimento de Paulo Dapper concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 17 fev. 2000.

285

KURY, Affonso Penna. Santo Antônio da Patrulha: uma visão apressada. Santo Antônio da Patrulha: Moenda da Canção Nativa, 1987. p. 141-142.

adiciona-se o rígido contingenciamento de produção que acabaram por liquidar a pequena fábrica, fechada em 1938.

Se a crise de 1929,286 com a diminuição do poder aquisitivo no país e o fechamento dos mercados externos, levou os produtores nordestinos a uma situação extrema, imagine-se a situação do Rio Grande do Sul. Acresce também o desafio imposto com a abundância de canas e de açúcar naquela conjuntura. Uma saída para o excesso de açúcar foi canalizar a cana para a produção de álcool a ser usado como carburante, na mistura com a gasolina importada. A partir daí começaram a atuar as destilarias centrais. Foi então que a Santa Marta acabou também por produzir álcool, em tempo de sua popularização.

Barbosa Lima Sobrinho chamou a atenção para os problemas desse momento. Afirma ele que a crise mundial de superprodução de açúcar se refletiu no Brasil, agravada pela ocorrência de uma grande safra nacional em 1929. Conseqüentemente, os preços caíram ao nível da ruína. Então, a calamidade que atingia a usina não poupava o fornecedor. Para fugir à ruína, ou para reduzir a crise, o fornecedor procurou o remédio imediato de tabelas mais favoráveis. Daí o movimento, em Pernambuco, para a obtenção de preços melhores.

Enfatiza Barbosa Sobrinho que em Pernambuco foi deflagrada uma verdadeira batalha, forçando o Estado a tomar posição em defesa e proteção do açúcar pernambucano. Aliás, a intervenção do Estado na economia açucareira não é um fenômeno brasileiro.287 No Brasil, em 1931, diante do mercado perturbado com o excesso de açúcar (resultante mais do subconsumo do que da superprodução), se impôs a limitação da produção, considerada, então, uma medida de equilíbrio.288

A expressão desta conduta intervencionista do Estado é o IAA, criado também com a missão de resolver os conflitos de interesses entre o Nordeste e o Sudeste, além de assegurar o equilíbrio interno entre as safras anuais de cana e o consumo de açúcar, mediante aplicação obrigatória de uma quantidade de matéria-prima na fabricação de álcool. Esse fabrico deveria ser fomentado com a instalação de destilarias centrais de álcool anidro ou com o auxílio aos

286

A grave crise de 1929-1930 veio mostrar a necessidade de disciplinar a produção e equilibrá-la em relação ao consumo. Ver: BRASIL/AÇÚCAR. Rio de Janeiro: IAA; MIC, 1972. p. 67.

287

Cf. Wilcox, em 1936, cerca de 26 países, entre eles os Estados Unidos, que tinham cerca de um quarto da população total do globo e anualmente produziam e consumiam ou exportavam cerca da metade do açúcar do mundo, aplicaram planos de limitar a produção açucareira, através da distribuição de cotas aos representantes qualificados da respectiva indústria. Idêntico processo ocorreria no Brasil, com a criação das cotas para os estados. A propósito, ver: BRASIL/AÇÚCAR. Rio de Janeiro: IAA; MIC, 1972, p. 69.

288

O governo já havia iniciado sua intervenção na economia açucareira em fevereiro de 1931, com vigor a contar de 01/07/1931, através do Decreto 19.717, tornando obrigatória a aquisição, pelos importadores de gasolina, de álcool, na proporção de 5%. Em setembro do mesmo ano, foi baixado outro decreto em defesa da indústria e do comércio do açúcar. No mês de dezembro daquele ano foi criada a Comissão de Defesa da Produção do Açúcar. Enfim, no ano de 1933, foi criado o IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool). BRASIL/AÇÚCAR. Rio de Janeiro: IAA/ MIC, 1972. p. 74-75.

particulares que o desejassem fazer. Mas todos estavam subordinados ao Estado, cujo poder era absoluto.289 Inevitavelmente, o cenário nacional é forte ingrediente na explicação da realidade e dos rumos dos espaços regionais, do que se depreende seus resultados sobre o Rio Grande do Sul.290

Diante da falência de Bernardo Dreher, com prejuízos acumulados na usina e nos transportes lacustre e ferroviário, fortalecia-se, um velho tabu que prevaleceu por muitos anos: o Rio Grande do Sul não poderia produzir açúcar.

Seria impensável aos que vivenciaram a inauguração da Santa Marta, vivamente festejada com o prestígio da presença do presidente de Estado, Getúlio Vargas, que ele induziria logo depois, através do IAA, como presidente do Brasil, o seu fechamento e a conseqüente dificuldade de manutenção do sistema de transporte da Lacustre.

A esse respeito Artur Ferreira Filho, em texto alusivo ao depoimento de Cordeiro de Farias, interventor do Rio Grande do Sul, dado a Aspásio Camargo do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) no Rio de Janeiro, faz algumas observações esclarecedoras. Foi ele testemunha do fato relatado, como chefe de gabinete do secretário de Agricultura Viriato Dutra, quando ele prometera apoio ao cultivo da cana e à fabricação de açúcar no estado, em março de 1938. Ocorre que, logo depois, um decreto do governo federal proibiu a produção de açúcar no Rio Grande do Sul, para não causar prejuízo aos usineiros do Nordeste. Diz então Ferreira Filho:

Alarmado com a estranha entrevista do Governo, Viriato, em reunião do secretariado, presidida por Maurício Cardoso, e presentes Oscar Fontoura, Walter Jobim e Coelho de Souza, titulares da Fazenda, Obras Públicas e da Educação, respectivamente, pediu apoio a seus colegas, no sentido de tentar convencer o Interventor, general Cordeiro de Farias, a pleitear junto ao governo federal a revogação do malsinado decreto, ao menos em relação ao Rio Grande do Sul, onde havia grandes plantações de cana e investimentos de certo vulto na fabricação do açúcar.291

289

Cf. Carvalho, no período de existência do IAA, a intervenção governamental pode ser dividida em duas etapas quanto ao desempenho sucroalcooleiro: (a) entre 1933 e 1960, período de crescimento regular, quando foram criados os mecanismos de regulação e de defesa permanentes; (b) entre 1960 e 1990, período de crescimento acelerado, quando se dá o processo de modernização agrícola-industrial, induzido pelo Estado. CARVALHO, Cícero Péricles de Oliveira. Novas estratégias competitivas para o novo ambiente institucional: o caso do setor sucroalcooleiro em Alagoas – 1990/2001. In: SHIKIDA, Pery Francisco Assis; MORAES, Márcia Azanha Ferraz Dias de. (Org.). Agroindústria canavieira no Brasil: evolução, desenvolvimento e desafios. São Paulo: Atlas, 2002. p. 267.

290

Examinar, a propósito: LIMA SOBRINHO, Barbosa. Problemas econômicos e sociais da lavoura canavieira: exposição de motivos e texto do Estatuto da Lavoura Canavieira. Rio de Janeiro: IAA; Pimenta de Mello, 1941. p. 17-18.

291

FERREIRA FILHO, Artur. Para uma história do açúcar no Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre, 14 ago. 1982. Letras & Livros, a. II, n. 50, p. 13.

Somente Maurício Cardoso chegou a interessar-se pela retomada da usina, mas morreu logo depois, em acidente aéreo. Os outros três secretários se negaram ao intento, achando inoportuna a reclamação, o que fez Viriato pedir demissão do cargo. Lembra o historiador que Viriato dissera jamais poder servir a um regime que negava ao Rio Grande do Sul o aproveitamento de seu potencial econômico. Cordeiro de Farias tentou demovê-lo de sua saída, mantendo-se ele irredutível à causa.292 Caíra assim um secretário de Estado na defesa

do açúcar gaúcho. Os números evidenciam que, a partir de 1936, principiou a queda da produção de cana do Rio Grande do Sul, indício do que estava ocorrendo com a Usina Santa Marta, como se observa:

Tabela 9 – Produção de cana no Rio Grande do Sul e Brasil/t – 1934/1938 Ano

Local 1934 1935 1936 1937 1938

RS 1.217.440 983.000 540.000 550.500 550.500 Brasil 17.793.500 16.680.570 18.496.420 15.736.580 16.409.371

Fonte: MATTOS, Aníbal R. Açúcar e álcool no Brasil. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942. p. 31.