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Fransız İhtilali ve Sanayi Devrimi Sonrası Kadınların Toplumsal ve Siyasal Durumu

SİYASETTE KADIN FAKTÖRÜ 2.1 Kadın ve Siyaset

2.1.3. Kadınların Eşitlik ve Özgürlük Mücadelelerinin Tarihsel Gelişim Sürec

2.1.3.3. Fransız İhtilali ve Sanayi Devrimi Sonrası Kadınların Toplumsal ve Siyasal Durumu

Quando os primeiros colonizadores lusitanos aportaram em terras brasileiras, no início do século XVI, trazendo mudas de cana-de-açúcar79 da Ilha da Madeira, dificilmente se imaginaria que, cinco séculos depois, o Brasil seria o maior produtor mundial de açúcar de cana.

A denominação açúcar, que passou a identificar não apenas o adoçante, mas, igualmente, a gramínea de onde ele era obtido, tem sua origem na voz arábica sukhar. Sobre o açúcar (português); schakar (persa); suicar (assírio-fenício); sukhar (árabe); saccharon (grego); saccharum (latim); azucar (espanhol); zucchero (italiano); sucre (francês), zucker (alemão); sugar (inglês); sachar (russo); suikar (holandês), assim se expressou o filólogo Manuel Said Ali:

[...] a mãe da criança é a Índia, mas a criança não tinha nome. Tomaram-na os sarracenos e trataram de batizá-la. Foram à Grécia e acharam que lhe servisse de madrinha (Sákcharon). Depois passaram-na às mãos dos cruzados, os quais lhe fizeram conhecer novos sóis, novos climas, indo finalmente parar no continente

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Pertence à família das Gramíneas, gênero SACCHARUM. A palavra açúcar é originária do árabe, que adulterou do sânscrito brahamânico, falado outrora na Índia, o substantivo SARKARA (açúcar branco), precedido do artigo “al” assimilado.

descoberto por Colombo, onde medrou às mil maravilhas e onde agora ostenta a sua incomparável pujança.80

Essa gramínea (ou Poaceae, sua família botânica)81 é uma espécie perene, de excelente suco, que alcança até três metros e meio de altura. Ela revolucionou a economia mundial, quando de sua expansão para o ocidente. Para Alberto Vieira, ela é “[...] de todas as plantas domesticadas pelo homem, a que mais implicações teve na História da Humanidade. O seu percurso multissecular, desde a descoberta remota na Papua (Nova Guiné) há 12.000 anos, evidencia esta realidade.”82 Dela derivam: garapa, melado, açúcar mascavo (amarelo), açúcar

branco,83 rapadura,84 aguardente (cachaça)85 e álcool anidro (aditivo para a gasolina) e álcool hidratado, além de ração para animais, papel, cera, etc. É excelente alimento para os animais, uma forrageira encontrada nos mais diferentes espaços do Brasil.

80

Apud DUARTE, Artur César. Cultura da cana-de-açúcar. Brasil Açucareiro, Rio de Janeiro: IAA. a. XXVIII, v. LV, 175-176, n. 3, mar. 1960, p. 176. O massapé é o chão canavieiro por excelência. Trata-se de terra argilosa, muito fértil e composta por gnaisses do arqueano, encontrada no litoral do nordeste brasileiro e em outras regiões do Brasil. Ver: BRASIL/HISTÓRIA. Rio de Janeiro: IAA; Divisão Administrativa-Serviço de Documentação do MIC, 1972. p. 27.

81

JOLY, Aylthon Brandão. Botânica: introdução à taxionomia vegetal. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1998. p. 699. Segundo Joly, essa família é a de maior importância econômica para o homem.

82

VIEIRA, Alberto. A Madeira, a expansão e a história da tecnologia do açúcar. In: VIEIRA, Alberto. (Coord.). História e tecnologia do açúcar. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura; Centro de Estudos de História do Atlântico, 2000. p. 7. O Prof. Dr. Alberto Vieira é Investigador-Coordenador e Vice-Presidente do Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA). Já foram realizados quatro seminários internacionais em Funchal, reunindo os especialistas sobre o tema, cujos resultados estão todos publicados. São obras imprescindíveis para quem aborda a cana-de-açúcar. No Seminário de outubro de 2001, o presente trabalho, em fase inicial, foi apresentado. Ver: BARROSO, Véra Lucia Maciel. A expansão da lavoura canavieira no sul do Brasil – Rio Grande do Sul (séc. XVIII-XX). In: VIEIRA, Alberto. (Coord.). História do açúcar: rotas e mercados. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura; Centro de Estudos de História do Atlântico, 2002, p. 433-445. Alberto Vieira tem realizado, paralelamente, um arrolamento da produção historiográfica acerca do açúcar no cenário internacional, com um número expressivo de textos em obras e revistas especializadas, constantes em 304 p. Ver site do CEHA: http://www.avieira.net

83

Antonil, em sua clássica obra, diz do açúcar: “[...] é doce no comer e amargo no fazer.” O que, aliás, também vale para a rapadura. Ver: ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos; Brasília: INL, 1976. p. 144. Na Biblioteca da AGASA, sobre a indústria açucareira, foi encontrada, dentre outras, a obra editada um ano antes de sua inauguração: BRIEGER, Franz. Noções básicas e métodos analíticos para a indústria açucareira. 3. ed. rev. São Paulo: Cooperativa dos Usineiros do Oeste de São Paulo, 1964.

84

Sobre a rapadura se pode examinar RABELLO, Sylvio. Cana-de-açúcar e região: aspectos socioculturais dos engenhos de rapadura nordestinos. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais; MEC, 1969.

85

“Agoardente é o espírito fabricado nos engenhos, de mel e cachaças resultantes da manufatura do açúcar: nunca é feita do próprio açúcar, mas do mel que dele sai durante o processo de purgar; ainda que em Calcutá e outros muitos lugares, haja um espírito fabricado de mel e de açúcar mau & c., que algumas vezes se chama agoardente.” Apud: WRAY, Leonardo. O lavrador prático da cana-de-açúcar. Salvador: Typ. de Camillo de Lellis Masson & C., 1858. p. 441. Existe uma vasta bibliografia sobre aguardente de cana. Examinar, por exemplo, o interessante texto monográfico publicado de Octávio Valsechi, intitulado Aguardente de cana-de- açúcar, com 120 p. [s.n.].

Mas, a causa fundamental da difusão da cana é a sua utilização na fabricação do açúcar.86 Como afirma Willcox, não há país em que o açúcar não seja artigo de comércio e de consumo diário.87 Supõe-se que a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum Linn)88 tenha-se originado da hibridação das espécies silvestres: Saccharum spontaneum e Saccharum

robustum, no continente asiático, mais precisamente na China e na Insulíndia.89

Da sua área de origem, foi levada para o Oriente Próximo. Na Ásia Menor, a Pérsia inicialmente produziu a cana, sendo, após, introduzida entre os árabes, que a difundiram no Mediterrâneo, da Europa à África do Norte (Egito), no tempo das Cruzadas. A cana-de-açúcar chegou à Sicília, a contar de 827, e ali permaneceu tão bem adaptada que seu açúcar passou a ser consumido no continente africano. Para Java e Filipinas, os chineses a transportaram. No reinado de Abd-ur-Râhman III (912-961), toda a costa meridional da Andaluzia estava coberta de canaviais, sendo grande o consumo de açúcar na fabricação de xaropes e conservas de frutas. No século X, a cana era bastante cultivada na África, já existindo também muitas lavouras na Síria e em Marrocos. Quando Marco Pólo chegou à China, lá encontrou muitos homens fabricando o açúcar extraído da cana. Na Ilha da Madeira,90 ela ingressou no século XV, de onde penetrou em Portugal Continental e em suas colônias.

Na Europa, a propagação do açúcar teve início pelo seu valor como insumo na elaboração dos medicamentos. Além de medicinal, essa especiaria-condimento era usada como material decorativo, adoçante e conservante. E fazia parte dos testamentos dos reis europeus e do dote das princesas. E só a partir do século XV é que sua valorização no mercado ganhou dimensão. Seu preço era proibitivo à maioria dos europeus,91 visto sua ínfima produção; só aos soberanos era dado consumir açúcar em vez do mel, cuja aplicação era mais como droga de grande poder curativo, do que guloseima ou alimento. A lavoura canavieira figura como uma das mais antigas da América, instalando-se já na segunda viagem de Colombo, em 1493. Deve-se a Nicolas de Ovanda a implantação do primeiro engenho de

86

Alberto Vieira na conferência de abertura do I Seminário de História do Açúcar, realizado em Itu/SP, em 28/11/2005, destacou: “A afirmação da cana é fruto da afirmação e expansão do budismo e do islamismo. Por exemplo, o caldo da cana é usado no ritual budista. Já a afirmação da vinha está ligada à expansão do cristianismo.” “O doce é fator de aproximação entre as pessoas e os povos”, completou. Anotações de Véra Lucia Maciel Barroso como participante do evento.

87

WILLCOX, O. W. A economia dirigida na indústria açucareira. Rio de Janeiro: IAA, 1941. p. 29.

88

BRASIL/AÇÚCAR. Rio de Janeiro: IAA; Divisão Administrativa-Serviço de Documentação do MIC, 1972. p. 13.

89

Conforme Willcox, 1941, p. 48, a Índia sempre teve indústria açucareira, mas muito primitiva: um par de rolos de madeira ou de ferro, um búfalo, uma caldeira sobre um fogão rústico e três hindus constituíam e em grande parte constituem uma usina açucareira na Índia, para a produção do “gur”.

90

Ilha de Portugal, no Atlântico, onde o Infante D. Henrique, o Navegador, animou a produção canavieira.

91

As crescentes produções de cana nas ilhas atlânticas forçaram a baixa do seu preço, determinando a destruição das lavouras do Mediterrâneo e o desequilíbrio no comércio.

açúcar em terras americanas, na América Espanhola, na Ilha do Haiti.92 A partir de São Domingos, em 1494, a cana-de-açúcar foi levada para Cuba, Antilhas e continente americano e, a contar de 1750, para Louisiana nos Estados Unidos. A propósito, para Lorenzo Sebastián e Rio Moreno:

La producción de azúcar constituyó uno de los principales elementos de intercambio comercial tanto entre la Península y los archipiélagos atlánticos, como entre el Viejo y el Nuevo Mundo, y no solamente por el transporte material del producto final, sino también por el trasiego contínuo de los factores de producción – capital y trabajo –, por los intercambios tecnológicos realizados, por los procesos de adaptación y cambios ambientales que se produjeron, especificamente en las Antillas, y la escala o dimensión que se alcanzó a uno y otro lado del Atlántico.93

Em Portugal, a expressão canavieira é insular. A propósito, diz Alberto Vieira:

Não há notícia de engenhos de açúcar no Continente (Portugal). Nos Açores só temos notícias de engenhos no século XVI, desaparecendo depois. Apenas na Madeira persistiu a cana e os engenhos desde o século XV até a atualidade. Sucede que no século XVIII, na altura da ocupação do Sul do Brasil a cana era uma cultura residual na Madeira e só funcionava um engenho nos Socorridos. A cultura só volta a ter importância na ilha no último quartel do século XIX.94

É indiscutível o papel proeminente da Madeira como o portal difusor da cana-de-açúcar no Ocidente, na medida em que a Ilha foi a principal escala da rota do açúcar na sua transmigração do Mediterrâneo para o Atlântico. E a história do açúcar na Madeira confunde- se com a conjuntura da expansão européia, quando o arquipélago atingiu o seu momento áureo, o que destaca o mesmo historiador madeirense:

[...] a Madeira manteve uma posição relevante, por ter sido a primeira área do espaço atlântico a receber a nova cultura. E por isso mesmo, aqui se definiram os primeiros contornos desta realidade, que teve plena afirmação nas Antilhas e Brasil. Foi na Madeira que a cana-de-açúcar iniciou a diáspora atlântica. Aqui surgiram os primeiros contornos sociais (a escravatura), técnicos (engenho de água) e políticos-econômicos (trilogia rural) que materializaram a civilização do açúcar.95

92

Cf. a obra, O AÇÚCAR sob o governo Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: DNP, 1939. p. 9.

93

SEBASTIÁN, Lorenzo E. Lopez; MORENO, Justo L. Del Rio. El azúcar em Canarias y La Española: sistemas de explotación y efectos en el comercio del siglo XVI. In: VIEIRA, Alberto. (Coord.). História das Ilhas Atlânticas: arte, comércio, demografia, literatura. Funchal: Governo Regional da Madeira,1997. v. I, p. 433.

94

VIEIRA, Alberto. Engenhos em Portugal. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por [email protected] em 30 dez. 2003.

95

VIEIRA, Alberto. Escravos com e sem açúcar na Madeira. In: VIEIRA, Alberto. (Coord.). Escravos com e sem açúcar. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura; Centro de Estudos de História do Atlântico, 1996. p. 93. (Grifo nosso). Para o autor, a Madeira exerceu a função de porta-estandarte do Atlântico, além de ter sido farol, guia orientador e apoio para as incursões oceânicas. Sobre a introdução da cana-de-açúcar no Brasil falou o botânico Freire Alemão: “A cana-de-açúcar partiu da península indiana, chegou às praias do Oriente, seguindo pelas linhas e beiras do Mediterrâneo, saiu pelo estreito de Gibraltar, derramou-se pelas ilhas da Madeira, Canárias e do Cabo Verde, e daqui saltou para o Brasil, pouco depois do seu descobrimento.” SERÀ viável a lavoura canavieira em Uruguaiana? Correio do Povo, Porto Alegre, 19 jun. 1964. Suplemento Rural, p. 4.

Efetivamente, foram da Madeira as primeiras mudas plantadas na Capitania de São Vicente, trazidas por Martim Afonso de Souza96 e seu irmão Pero Lopes de Souza, na expedição de reconhecimento litorâneo. Aliás, Vieira, não silencia sobre a importância da Madeira para a formação dos primeiros canaviais no Brasil. Teriam sido mestres madeirenses os construtores dos primeiros engenhos açucareiros na nova terra. Seriam os carpinteiros Antonio e Pedro Leme, vindos da Madeira. Vieira completa:

[...] Madeirenses são lavradores, mestres e carpinteiros de engenhos, mas também proprietários dos mesmos ou comerciantes. Além disso algumas famílias de mercadores, estrangeiros estabelecidos na ilha, flamengos e genoveses, aproveitam a oportunidade para estender os negócios até este novo porto. A cana-de-açúcar abriu assim as portas para uma forte presença nos inícios da formação da sociedade em terras da Vera Cruz, nunca mais se perdendo o vínculo com a ilha. [...] Madeirenses de diversas idades e origens sociais, sulcaram o Atlântico para lançar a cultura da cana-de-açúcar, construir os primeiros engenhos [...].97

Assim, com o portal atlântico aberto, em 1532, foi montado o primeiro engenho em terras brasileiras – São Jorge dos Erasmos –, seguido por outros, nas imediações, em 1533 e 1534.

Em Pernambuco, anos depois, não foi diferente. Nas margens úmidas, próximas ao rio Capiberibe, com clima quente, estação seca e chuvosa bem definida, ainda no séc. XVI, se irradiou a cana-de-açúcar no nordeste. Também da Madeira,98 o donatário Duarte Coelho providenciou a vinda de mudas, promovendo o início efetivo da cultura canavieira, base da colonização brasileira, alavancada com o sistema de Capitanias Hereditárias, a partir de 1534.99 Com terras de massapé, boa rede hidrográfica e regime de ventos favorável, além da

96

Segundo De Carli, “[...] com a intenção de quem queria criar um mundo diferente.” DE CARLI, Gileno. Gênese e evolução da indústria açucareira de São Paulo. Rio de Janeiro: Pongetti, 1943. p. 5. Sobre a expansão da lavoura canavieira em São Paulo podem ser examinados, dentre outros trabalhos, PETRONE, Maria Theresa Schorer. A lavoura canavieira em São Paulo. São Paulo: Difel, 1969. FERLINI, Vera Lucia Amaral. Açúcar e escravos no Brasil Colonial: as Capitanias do Sul (notas para uma discussão). In: VIEIRA, Alberto. (Coord.). Escravos com e sem açúcar. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura; Centro de Estudos de História do Atlântico, 1996. SAMARA, Eni de Mesquita. Lavoura canavieira, trabalho livre e cotidiano: Itu, 1780-1830. São Paulo: EDUSP, 2005.

97

VIEIRA, Alberto. Da Madeira ao Brasil: um percurso de ida e volta. In: VIEIRA, Alberto. (Coord.). A Madeira e o Brasil: coletânea de estudos. Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura; Centro de Estudos de História do Atlântico, 2004. p. 15-17. Ao todo a obra tem 354 p., com trabalhos interessantes sobre as relações da Madeira com o Brasil. Destaque-se que o CEHA tem publicado também obras importantes que vêm difundindo o conhecimento sobre as ilhas portuguesas no Atlântico.

98

A historiografia canavieira tem apresentado uma polêmica quanto à procedência da cana introduzida inicialmente no Brasil. Contudo, tem prevalecido a origem madeirense, inclusive nos Açores, depois de 1460. Manoelito de Ornellas reforça a idéia de que a origem da cana no litoral paulista é da Madeira. Ver: ORNELLAS, Manoelito de. Um bandeirante da Toscana: Pedro Morganti na lavoura e na indústria açucareira de São Paulo. São Paulo: EDART, 1967. p. 18.

99

Presumivelmente antes, em 1520, teria sido introduzida a cana em Pernambuco. Mas há que investigar-se ainda para confirmar essa tese. Ver: LIPPMANN, Edmund O. Von. História do açúcar: desde a época mais remota até o começo da fabricação do açúcar de beterraba. Rio de Janeiro: IAA, 1942. t. II, p. 31.

maior proximidade com a metrópole, Pernambuco podia transformar-se na Capitania brasileira do açúcar.100

A partir desses dois focos iniciais, as demais áreas da colônia portuguesa passaram a implantar a cana-de-açúcar. Na Paraíba, os engenhos foram instalados a contar de 1536, ano em que a Bahia também iniciou a produção de cana.101 Em 1539, Pero Góis plantou, em sítio aberto na Vila da Rainha, as primeiras mudas de cana no município de Campos, estado do Rio de Janeiro.102 Em 1545, o Espírito Santo exportava açúcar, e a lavoura canavieira prosperava no Recôncavo Baiano e na região de Ilhéus.103

A partir de 1560, o crescimento da produção açucareira do Brasil consolidou a posição de Portugal no mercado mundial. Segundo Aníbal R. Mattos, em fins do século XVI, havia em funcionamento 66 engenhos em Pernambuco, 36 na Baía, 6 em São Paulo e vários outros nos demais pontos da colônia.104

Pelas instruções de D. Manuel, conforme o alvará de 1516, está evidente a sua preocupação em incrementar a produção canavieira na nova terra; ao lado dos canaviais surgiam sempre as manufaturas com os engenhos logo instalados. Frei Vicente do Salvador aponta 40 engenhos na Capitania do Rio de Janeiro, no início do século XVII, enquanto Antonil, para o final do mesmo século, registra 186 fábricas que produziam açúcar branco, mascavo e outros inferiores, além da aguardente.105 No século XVIII, a mineração estimulou a cultura canavieira em Minas Gerais, visto a aguardente ser o principal elemento de troca no tráfico negreiro. Desde o início já havia engenhos na região, erguendo-se a primeira moenda em 1706, às margens do Rio das Velhas.106 Em Mato Grosso, também resultante da mineração, multiplicaram-se engenhos para a produção de aguardente e rapadura.

100

A historiografia da cana-de-açúcar no Brasil é muito rica. Cultura e Opulência do Brasil, de André Antonil, é um exemplo da importância dos cronistas coloniais para o conhecimento da manufatura açucareira. E clássicos trabalhos, resultantes da pesquisa acadêmica, demarcam a produção do conhecimento, sobretudo acerca do açúcar em Pernambuco e na Bahia, como FERLINI, Vera Lucia Amaral. Terra, trabalho e poder: o mundo dos engenhos no Nordeste Colonial. São Paulo: Brasiliense, 1988. SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

101

Interessante obra sobre o açúcar na Bahia, venceu concurso do Instituto Nacional do Açúcar e do Álcool: PINHO, Wanderley. História de um engenho do Recôncavo. São Paulo: Ed. Nacional; Brasília: INL; Fundação Pró-Memória, 1983.

102

BRASIL: 1943-1944. Recursos e possibilidades. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1945. p. 184.

103

ORNELLAS, Manoelito de, 1967, p. 49. Teriam sido quatro os núcleos iniciais da cana-de-açúcar no Brasil: São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro e Bahia, conforme a obra, O AÇÚCAR sob o governo Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: DNP, 1939. p. 12-20.

104

MATTOS, Aníbal R. Açúcar e álcool no Brasil. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. p. 18.

105

Apud BRASIL/AÇÚCAR. Rio de Janeiro: MIC; IAA, 1972. p. 39.

106

Para o desenho da geografia açucareira do sul do Brasil, Vera Ferlini mostra como o açúcar foi imprimindo em São Paulo as bases de uma sociedade de senhores e escravos que o café se encarregou de consolidar nos 1800. A autora inventariou, relativamente ao final do século XVIII, os números estimados de estabelecimentos de cana, a partir dos dados de Caio Prado Júnior e Heitor Ferreira Lima, e assim os apresenta: para o Norte, 806 engenhos, distribuídos pela Paraíba (37), Pernambuco (196), Alagoas (73), Sergipe (140) e Bahia (260).

No Sul, destaca ainda Ferlini que havia mais de 1000 unidades produtoras de açúcar e centenas de engenhocas de aguardente, concentrando-se a maioria na área do Rio de Janeiro. Espalhavam-se nas imediações da Guanabara (228), Angra dos Reis e Ilha Grande (390), Cabo Frio (25) e Campos dos Goitacases (324). Produziam quantidades consideráveis de açúcar, fazendo do Rio de Janeiro o maior porto exportador do produto na Colônia, frisa a mesma autora.107 Para os primeiros séculos da história brasileira, Manuel Correia de Andrade assim sintetiza o desempenho da cana-de-açúcar:

No período colonial foi mantido o sistema patriarcal e não houve grandes transformações tecnológicas, dominando, na agricultura, uma mesma variedade de cana, a crioula; do ponto de vista industrial, o bangüê movido a água ou a tração animal – bois e éguas – produziria o açúcar mascavo para exportação. O processo de beneficiamento, para aclará-lo e torná-lo menos sujo, era feito de forma artesanal e transformava o açúcar mascavo em açúcar somenos.

Pequenas modificações surgiriam no início do século XIX, com a introdução dos engenhos a vapor e a importação da cana caiana (em substituição à cana crioula), cujo rendimento era bem superior.

A expansão da área ocupada pela cana-de-açúcar se faria vagarosamente, não só devido à lentidão do aumento da demanda do produto como também à dificuldade de transporte até os portos do litoral, uma vez que os rios da área canavieira só eram