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16 N‹SAN 2008 - ‹KK KADIN ÜYELER ÇALIfiMA GRUBU

TANITIM AMAÇLI SUNUMLAR

Pode ocorrer que, em vez de atuar com má-fé e ardil para interferir na vontade de pessoa com quem realiza negócio jurídico, o agente proceda com violência no intuito de obter a declaração de vontade da parte contrária, hipótese em que se configura a coação.

A violência que caracteriza a coação pode ser de dois tipos: física, que implica a ausência total de consentimento (vis absoluta) e, portanto, nulidade total do ato; ou moral (vis

compulsiva), que atua sobre o ânimo do declarante, viciando a declaração por roubar-lhe a liberdade144.

143 Carlos Roberto Gonçalves, Direito..., cit., p. 379.

144 Caio Mário da Silva Pereira, Instituições..., cit., p. 530. Enzo Roppo, O contrato, cit., p. 242. C. Massimo

Bianca, Diritto..., cit., p. 619. Jean Carbonnier, Droit…, cit., p. 1.994. Emilio Betti, Teoria ..., cit., p. 645. Orosimbo Nonato, Da coação como defeito do ato jurídico, Rio de Janeiro: Forense, 1957, pp. 112-113. Luigi Cariota Ferrara, Il negozio..., cit., pp. 522-523.

75 A vis compulsiva não exclui, como faz a vis ablativa, a vontade do ato, mas compromete a liberdade da declaração. Atua com a ameaça de um dano, incutindo medo e criando uma necessidade de escolha entre a celebração do negócio e o risco de sofrer o mal ameaçado, em que a vítima delibera ser preferível sujeitar-se ao negócio, considerado um mal menor145.

A coação pode se concretizar por meio de uma ação ou uma omissão do agente. No primeiro caso há uma conduta ativa de pressão sobre a vítima para que esta manifeste o consentimento, como na ameaça de prender em lugar fechado a pessoa que sofre de claustrofobia. Já a coação consumada por omissão é aquela que se dá através de uma abstenção prejudicial ao declarante, a exemplo da negativa de entrega de um medicamento essencial para a parte num local que não se pode obtê-lo por outros meios146.

Existem elementos que devem estar presentes no caso concreto para a configuração da coação, quais sejam, 1) ameaça verdadeira e grave; 2) violência injusta; 3) temor razoável; 4) nexo de causalidade entre a ameaça e a declaração147. Estes também são citados na

jurisprudência para o reconhecimento do vício em tela148.

Para a ameaça ser verdadeira, deve se lastrear na suposição verossímil de que o mal será, de fato, praticado, no presente ou no futuro. Já ameaça grave é aquela que, se cumprida,

145 Emilio Betti, Teoria..., cit., pp. 644-645.

146 José Abreu, O negócio..., cit., p. 256. No mesmo sentido, Orosimbo Nonato, Da coação..., cit., pp. 113-114. 147 Roberto de Ruggiero, Instituições..., cit., pp. 337-338.

148 TJRS, Recurso Cível Nº 71000964734, 1ª Turma Recursal Cível, Rel. Des. João Pedro Cavalli Junior, J.

19.10.2006. TJMG, Processo 2.0000.00.326233-5/000(1), Rel. Des. Paulo Cézar Dias, p. 21.04.2001. TJMG, Processo 1.0382.06.060182-2/001(1), Rel. Des. Célio César Paduani. TJSC, Apelação Cível 96.002513-8, Rel. Des. Trindade dos Santos, J. 28.06.1999. TJSC, Apelação Cível 1996.000860-8, Rel. Des. Gastaldi Buzzi, J. 27.03.2003. TJSC, Apelação Cível 1999.008174-5, Rel. Des. Trindade dos Santos, J. 21.06.2001. TJMG, Processo 2.0000.00.498716-0/000(1), Rel. Des. José Flávio de Almeida, p. 20.04.2006. TJSP, Apelação 0027360-68.1998.8.26.0554, 19ª Câmara de Direito Privado, Rel. Des. Santo André, j. 17.08.2010.

76 gera um dano, patrimonial ou não, mais prejudicial do que a própria declaração pretendida pelo agente149. Ameaças vagas, indeterminadas ou impossíveis, de efeitos incertos, não

caracterizam coação150.

Sobre o alvo da ameaça que caracteriza a coação, o Código Civil também se pronuncia, em seu art. 151, caput (“A coação, para viciar a declaração da vontade, há de ser tal que incuta ao paciente fundado temor de dano iminente e considerável à sua pessoa, à sua família, ou aos seus bens”) e parágrafo único (“Se disser respeito à pessoa não pertencente à família do paciente, o juiz, com base nas circunstâncias, decidirá se houve coação”), a semelhança do que determina para o caso de estado de perigo, orientação seguida na jurisprudência151.

Na mesma linha do direito brasileiro, o Código Civil paraguaio prescreve, em seu art. 293: “habrá falta de libertad em el agente, cuando se empleare contra el fuerza irresistible.

Se juzgará que hubo intimidación cuando por injustas amenazas alguien causare al agente temor fundado de sufrir cualquier mal inminente y grave em su persona libertad, honra o bienes, o en la de su conjugue, descendientes, ascendientes o parientes colaterales. Si si tratare de otras personas, corresponderá al juez decidir si ha existido intimidación, según las circunstancias”.

Cabe ressaltar que no Código Civil Português, no art. 255, não existe tal restrição, a saber: “1. diz-se feita sob coacção moral a declaração negocial determinada pelo receio de um mal de que o declarante foi ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração. 2. A

149 Roberto de Ruggiero, Instituições..., cit., pp. 337-338. 150 Maria Helena Diniz, Curso..., v. 1..., cit., p. 507. 151 Vide nota 148.

77 ameaça tanto pode respeitar à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro. 3. Não constitui coacção a ameaça do exercício normal de um direito nem o simples temor reverencial”.

Em sentido diametralmente oposto, inclusive em termos mais rigorosos que o Código Civil brasileiro, o Código Civil argentino prescreve, no art. 937: “habrá intimidación, cuando

se inspire a uno de los agentes por injustas amenazas, un temor fundado de sufrir un mal inminente y grave en su persona, libertad, honra o bienes, o de su cónyuge, descendientes o ascendientes, legítimos o ilegítimos”; o Código Civil uruguaio, em seu art. 1.272: “la

violencia es también causa de nulidad y puede ser física o moral. Habrá violencia física cuando para producir el contrato, se empleare una fuerza física irresistible. Habrá violencia moral cuando se inspire a uno de los contrayentes el temor fundado de sufrir un mal inminente y grave en su persona o bienes o de su cónyuge, descendientes o ascendientes legítimos o ilegítimos”; o Código Civil mexicano, no art. 1.819: “hay violencia cuando se

emplea fuerza física o amenazas que importen peligro de perder la vida, la honra, la libertad, la salud o una parte considerable de los bienes del contratante, de su cónyuge, de sus ascendientes, de sus descendientes o de sus parientes colaterales dentro del segundo grado”.

Entendimento análogo se observa no Código Civil francês, que prevê, em seu art. 1.112: “il y a violence, lorsqu'elle est de nature à faire impression sur une personne

raisonnable, et qu'elle peut lui inspirer la crainte d'exposer sa personne ou sa fortune à un mal considérable et présent. On a égard, en cette matière, à l'âge, au sexe et à la condition des personnes”152; e em seu art. 1.113: “ la violence est une cause de nullité du contrat, non

152 Art. 1.112: “há violência, quando ela tem natureza de impressionar uma pessoa razoável, e pode lhe inspirar o

medo de expor sua pessoa ou sua fortuna a um mal considerável e presente. Consideram-se, nessa matéria, a idade, o sexo e a condição das pessoas” (tradução livre).

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seulement lorsqu'elle a été exercée sur la partie contractante, mais encore lorsqu'elle l'a été sur son époux ou sur son épouse, sur ses descendants ou ses ascendants”153.

Neste ponto, pode ocorrer, ainda, a ameaça realizada pelo agente dirigida, fisicamente, a ele mesmo, no intuito de sensibilizar familiar ou pessoa de convivência próxima e, desta forma, obter a declaração de vontade pretendida, circunstância na qual se observa a coação154.

Quanto ao tema da limitação do reconhecimento da coação nos casos de ameaça a terceiro, tem-se regulamentação muito similar com a conferida ao estado de perigo pelo Código Civil, disposição cuja crítica se constitui no cerne do presente estudo.

Por essas razões, embora valha registrar que tal restrição não se coaduna com o novo espírito do direito civil, relegaremos a exposição detalhada da fundamentação de tal opinião para capítulo subsequente, especialmente dedicado ao assunto.

A par disso, o referido Codex, em seu art. 152, oferece alguns parâmetros para que se conclua sobre a gravidade da coação, ao dispor: “no apreciar a coação, ter-se-ão em conta o sexo, a idade, a condição, a saúde, o temperamento do paciente e todas as demais circunstâncias que possam influir na gravidade dela”.

Faz-se mister ressaltar que, na investigação acerca da gravidade da coação, é preciso verificar a sensibilidade da pessoa acuada, não se mostrando suficiente o critério abstrato do

vir medius, pelo qual se compararia a reação da vítima com a do homem médio. Por este

153 Art. 1.113: “a violência é uma causa de nulidade do contrato, não somente quando ela foi exercida sobre a

parte contratante, mas ainda quando ela foi sobre seu marido ou sua esposa, seus descendentes ou seus ascendentes” (tradução livre).

79 parâmetro, por exemplo, se a média dos indivíduos se sentir atemorizada na situação analisada, a coação seria automaticamente considerada grave155.

De acordo com o art. 153, do Código Civil, é necessário levar em conta, ainda, que “não se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito, nem o simples temor reverencial”.

Dessa forma, para a configuração da coação, a violência empregada pelo agente deve se mostrar injusta, ou seja, ilegítima, pela relação existente entre as partes ou pelo fim visado. Dessa forma, se o ato está sob a égide do exercício regular de direito, não se cogita de coação, a exceção dos casos de abuso, inclusive quando se note o excesso nos meios empregados156.

Acresce que o temor afeto à coação deve mostrar-se razoável, requerendo-se que a possibilidade de reação da vítima esteja comprometida, levando-se em conta suas condições pessoais e a conduta razoavelmente exigível no caso157. Exclui-se, assim, o caso de mero

temor reverencial.

Na compreensão doutrinária, configura-se temor reverencial o comportamento oriundo do relacionamento entre determinadas pessoas no qual se apresenta vínculo de dependência ou subordinação hierárquica, observando-se um sentimento de respeito, como no caso de filhos e pais, discípulos e mestres, empregados e patrões 158.

155 Carlos Roberto Gonçalves, Direito..., cit., pp. 381-382.

156 Roberto de Ruggiero, Instituições..., cit., pp. 337-338. Caio Mário da Silva Pereira, Instituições..., cit., pp.

531-532. Emilio Betti, Teoria ..., cit., pp. 647-648.

157 Roberto de Ruggiero, Instituições..., cit., pp. 337-338. C. Massimo Bianca, Diritto..., cit., pp. 622-623. 158 José Abreu, O negócio..., cit., pp. 258- 259. Luigi Cariota Ferrara, Il negozio..., cit., p. 528.

80 Como, nesse caso, não se mostra grave o efeito da desobediência, mas perfeitamente resistível, haja vista causar a recusa em negociar mero desagrado à pessoa a quem se deva subordinação e respeito, simplesmente não se defere ao declarante a anulação159.

No que concerne ao nexo de causalidade entre a ameaça e a declaração, cabe afirmar que a ameaça deve ter sido direta e especificamente no intuito de obter a declaração, ou seja, sem a ameaça não teria o agente possibilidade de obter a declaração desejada. Todavia, se esta teria ocorrido mesmo que não se observasse a intimidação, o ato é válido, pois não se caracteriza o divórcio entre a vontade declarada e a real160.

A análise dos elementos configuradores da coação permitem um paralelo entre esse vício e o dolo, sendo aquela mais grave, na medida em que, além do emprego da grave ameaça, implica um desrespeito à liberdade da vítima, enquanto este atua no âmbito da inteligência do declarante161.

Ao finalizar a disciplina do vício em tela, o Código Civil trata da coação praticada por terceiro, determinando que “vicia o negócio jurídico a coação exercida por terceiro, se dela tivesse ou devesse ter conhecimento a parte a que aproveite, e esta responderá solidariamente com aquele por perdas e danos” (art. 154) e “subsistirá o negócio jurídico, se a coação decorrer de terceiro, sem que a parte a que aproveite dela tivesse ou devesse ter conhecimento; mas o autor da coação responderá por todas as perdas e danos que houver causado ao coacto” (art. 155).

159 Silvio Rodrigues, Direito..., v. I..., cit.,, pp. 205-206.

160 Roberto de Ruggiero, Instituições..., cit., pp. 337-338. Caio Mário da Silva Pereira, Instituições..., cit., p. 533. 161 Carlos Roberto Gonçalves, Direito..., cit., p. 372.

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3.4. LESÃO E POSSIBILIDADE DE INCIDÊNCIA NOS

Benzer Belgeler