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16 N‹SAN 2008 - ‹KK KADIN ÜYELER ÇALIfiMA GRUBU

TMMOB HAR‹TA VE KADASTRO MÜHEND‹SLER‹ ODASI

2.2.10. SÜREL‹ YAYIN ÇALIfiMALARI Çal›flma dönemimizde Bülten Komisyonumuz

2.2.11.2. Yaz E¤itim Kamplar›

Perquirir sobre a natureza jurídica de um instituto significa, em termos gerais, buscar a sua essência, sua substância, que a ele segue indissoluvelmente atrelada, pelo que se detecta uma afinidade com uma grande categoria jurídica, na qual pode ser incluído, à guisa de classificação206.

Entendemos, que, devido à forte pressão, constrangimento e temor que se observam sobre o declarante no caso de estado de perigo, há, nessas hipóteses, interferência no processo de formação da declaração de vontade deste, cerceando-lhe a liberdade de opção, podendo-se afirmar que a natureza jurídica de tal instituto, ou seja, a categoria jurídica em que se enquadra, é a de vício de consentimento.

A teoria dos vícios do consentimento, conforme analisado anteriormente, dedica-se a analisar os casos de anormalidade no processo de formação da declaração de vontade do agente derivada de fatores externos, ou seja, não intencionais, classificando-os e caracterizando-os conforme as suas peculiaridades.

Como salienta Enzo Roppo207, “uma regra elementar do jogo contratual é esta: aquele

que assume compromissos, no âmbito de uma operação econômica que pretende levar a cabo, deve estar em condições de avaliar as suas conveniências, de modo razoavelmente correto, sem que intervenham elementos tais, que perturbem ou alterem gravemente o processo

206 De Plácido e Silva, Vocabulário..., v. III..., cit., p. 230. Maria Helena Diniz, Dicionário jurídico, 2 ed. rev.,

atual. e aum., São Paulo: Saraiva, v. 3, 2005, p. 381.

207 Enzo Roppo, O contrato, Trad. Ana Coimbra e M. Januário C. Gomes, Coimbra: Almedina, 1988, pp. 226-

99 conducente à decisão de concluir o contrato e de concluir com determinado conteúdo. Se não existem, pelo menos, estes pressupostos de sensatez e de racionalidade das decisões contratuais, não parece oportuno, nem justo, manter o contraente vinculado às mesmas. O mercado, por sua vez, não poderia funcionar eficazmente, se não existisse um mínimo de garantia de que as tomadas de posição dos operadores econômicos não são tomadas de modo arbitrário ou irracional”.

Ressalte-se que a caracterização do estado de perigo enquanto vício do consentimento se faz dentro da perspectiva já afirmada anteriormente, pela qual a inibição de todos os defeitos do negócio jurídico se coaduna com os princípios da socialidade e eticidade, pilares do Código Civil.

Cabe ressaltar, neste tópico, o entendimento de Georges Ripert208 acerca do

fundamento da teoria dos vícios do consentimento, que estaria na ordem moral e não na simples análise psicológica da vontade.

Segundo o referido autor209, “a própria origem da teoria, saída dos delitos pretorianos,

a influência que, seguramente, o direito canônico deve ter tido nesta análise sobre o valor da palavra dada, o caráter legal da nulidade resultante dos vícios estabelecida como nulidade relativa em proveito unicamente da pessoa lesada, a aplicação feita pela jurisprudência desta nulidade em todas as hipóteses em que a supressão do contrato lhe parece ser a melhor reparação, tudo isso leva a pensar que a teoria dos vícios de consentimento não se pode explicar inteiramente pela análise psicológica da vontade criadora do direito. Foi admitida para permitir a proteção dum contratante que luta no contrato com armas inferiores e para

208 Georges Ripert, A regra moral nas obrigações civis, Campinas: Bookseller, 2002, p. 91. 209 Georges Ripert, A regra..., cit., pp. 91-92 e 103.

100 impedir que a outra parte tire vantagem desta inferioridade reconhecida por ela e, muitas vezes, criada por ela. (...) Os tribunais não pesam a força de vontade declarada. Esta ideia é da doutrina. (...) Os tribunais têm simplesmente dois homens a julgar. (...) O juiz não mede cientificamente a força da vontade. Não se trata aqui dum problema de física, mas do respeito pela moral”.

Também demonstrando resistência ao posicionamento de que a teoria dos vícios do consentimento se presta a analisar psicologicamente a vontade do declarante, contrapondo-a à declaração, Emilio Betti210 afirma que, conforme os pandetistas, “os casos de ‘discordância voluntária entre a declaração e a vontade’ configurariam a falta de seriedade, a reserva mental e a simulação; os casos de ‘discordância não querida’, pelo contrário, o erro obstáculo e a falta de consentimento. ‘Vícios da vontade’ seriam, ao contrário, o erro, o dolo e a violência. Acontece, porém, que esta sistematização é baseada na concepção subjetivista e puramente formal, que não vê no negócio jurídico mais que uma fraca e descolorida ‘manifestação de vontade’: ela mantém-se e cai com tal concepção. Uma vez assinalada a insuficiência desta (...), é, por isso mesmo, posta em discussão a suficiência daquela”.

E continua o referido autor211: “já vimos que a declaração não tem uma simples função

instrumental, mas é constitutiva: ela não é mera revelação exterior de uma vontade interior, com uma existência própria e distinta, mas a única entidade socialmente reconhecível e apreciável na vida de relações (...). A vontade das partes só adquire relevância jurídica através da declaração (ou através do comportamento); não pode, portanto, ser colocada no mesmo plano desta, nem assumir um valor próprio, em antítese com esta. Daqui deriva não ter sentido a alternativa sob a qual os pandetistas costumavam apresentar o problema da discrepância

210 Emilio Betti, Teoria..., cit., pp. 589-590. 211 Emilio Betti, Teoria..., cit., pp. 589-590.

101 determinada por erro; isto é, se a ‘vontade interior’ devia prevalecer sobre a declaração, ou a declaração sobre a ‘vontade interior’. O termo de comparação é sempre apenas a declaração e a discrepância só pode existir entre os vários significados a ela atribuíveis, sob o ponto de vista do destinatário ou do ambiente social, ou sob o da consciência individual”.

Renato Scognamiglio212, por sua vez, defende que, para conservar a fórmula tradicional de vício do consentimento, é preciso que se faça uma advertência: não se deve analisar a vontade pura e simplesmente, pois o direito não é psicologia, mas apenas regula a autonomia negocial relativamente aos distúrbios que afetam em concreto a vontade livre e consciente do particular.

Não se pode deixar de reconhecer, no tocante a esse tema, contudo, que, conforme narrado anteriormente, o legislador pátrio, embora optando pela teoria da declaração, fez concessões à teoria da vontade em cinco questões (declarações não sérias, simulação, interpretação, causa ilícita e erro), nas quais se abre espaço para maior ou menor pesquisa da vontade interna, tendo cabido à doutrina e à jurisprudência diminuir tais excessos213.

No mais, sobre a natureza jurídica do estado de perigo, o legislador pátrio parece também tê-la considerado como a de vício do consentimento, ao disciplinar tal instituto no art. 156, do Código Civil, o qual se encontra inserido no capítulo intitulado “Defeitos do negócio jurídico”.

212 Renato Scognamiglio, Contributo alla teoria del negozio giuridico, Nápolis: Casa Editrice Dott. Eugenio

Jovene, 1950, p. 214.

102 A opinião de que o estado de perigo tem natureza jurídica de vício do consentimento, todavia, não é unânime na doutrina, havendo quem considere questionável a aludida caracterização, senão vejamos.

Renan Lotufo214 argui que “para muitos, o estado de perigo não poderia ser considerado um vício da vontade, porque há a intervenção de uma causa exterior, que afeta a declaração de vontade. Mas mesmo que essa vontade seja afetada de forma diferente da dos outros defeitos (uma vez que no primeiro momento o declarante quer aquele negócio, pouco se importando com as consequências futuras), ofende a base do negócio. Assim, afronta a norma ético-jurídica da equidade e da cooperação, tornando anuláveis os negócios formulados nessa situação”.

Nesse sentido, Antônio Junqueira de Azevedo215 pondera que “o estado de perigo é

mais um caso de defeito na formação da declaração negocial que se aplica melhor pela desigualdade real das partes que pelo tradicional vício do consentimento. Até mesmo uma pessoa, na plena posse de seu raciocínio, pode ser levada a contratar, sem sequer passar por arrependimento posterior, e o defeito existirá da mesma forma”.

Na mesma linha, Humberto Theodoro Júnior216 defende que “não se detecta na lesão

ou no estado de perigo um vício de constituição do negócio jurídico como ato de vontade, mas na sua organização econômica. Atende-se mais à proteção dos critérios de justiça e equidade, na prática negocial, que à liberdade de vontade. Embora esta, indiretamente, também se resguarde”.

214 Renan Lotufo, Código..., cit., p. 429.

215 Antônio Junqueira de Azevedo, Negócio jurídico e declaração negocial: noções gerais e formação da

declaração negocial, S. l.: s..n., 1986, p. 201.

103 A concepção ora exposta, que não reconhece vício do consentimento nos casos de estado de perigo, é esposada pelo Código Civil italiano, o qual, conforme detalharemos em capítulo posterior, inclui tal instituto, à semelhança do que ocorre com a lesão, nas disposições que tratam da rescisão contratual.

Benzer Belgeler