Fırat 87 Şakar Çağıl Ort Çeşit Doz
4.1.4. Tane Verimi (g/m 2 )
Uma outra razão para não desistir precipitadamente da abordagem transcendental do conhecimento é que, ainda que as restrições à universalidade e à necessidade dos princípios transcendentais a priori conduzam a algum tipo de naturalização desses princípios, isso não precisa ser feito nos termos sugeridos por Quine. Existem maneiras de reconhecer o que há de
205 “Since standards of “validity” and “correctness” are thus relative to the choice of linguistic framework, it
makes no sense to ask whether any such choice of framework is itself “valid” or “correct.” For the logical rules
relative to which alone these notions can be well-defined are not yet in place. Such rules are constitutive of the
concepts of “validity” and “correctness”— relative to one or another choice of linguistic framework, of course — and are in this sense a priori rather than empirical”.
contingente ou relativo nas condições epistêmicas do conhecimento sem que isso implique no
abandono da missão avaliativa, normativa ou crítica da Epistemologia. Trata-se, portanto, de saber que tipo de naturalização da Epistemologia é compatível com a perspectiva transcendental. Isso equivale a determinar em que medida as condições especificamente
epistêmicas do conhecimento podem ser também tratadas como condições empíricas
(biológicas, fisiológicas, psicológicas, linguísticas, sociais, etc.) do conhecimento.
É certo que intérpretes filiados às mais variadas tradições filosóficas dedicaram-se a expurgar da obra de Kant todos os indícios de psicologismo, acreditando assim aproximar-se
mais do “espírito” da filosofia transcendental, mesmo que esporadicamente afastando-se da “letra” dos textos. Boa parte do esforço desses intérpretes – a despeito de tudo o mais que os
distancia em suas leituras do texto kantiano – consistiu em separar meticulosamente as condições transcendentais a priori do conhecimento de outros tipos de condicionantes – psicológicos, fisiológicos, etc. Para autores como Hermann Cohen, Martin Heidegger e, mais recentemente, Peter Strawson, por exemplo, qualquer tentativa de naturalização do método transcendental, ainda que atenuada, seria de antemão equivocada. O próprio Kant parece corroborar essa interpretação quando recusa explicitamente os argumentos que tentam provar a validade objetiva das categorias apelando para uma afinidade qualquer (pré-estabelecida por Deus) entre elas e as leis da natureza. Segundo ele, se as categorias fossem
“disposições subjectivas para pensar, implantadas em nós conjuntamente com a
nossa existência, de tal modo dispostas pelo nosso Criador que o seu uso coincidiria, rigorosamente, com as leis da natureza, segundo as quais se vai desenvolvendo a experiência (uma espécie de sistema de preformação da razão pura), é fácil refutar esse sistema: [...] faltaria às categorias a necessidade, que essencialmente pertence ao seu conceito. Assim, por exemplo, o conceito de causa, que afirma a necessidade de uma consequência para uma condição pressuposta seria falso, se assentasse apenas sobre a necessidade arbitrária subjetiva, em nós implantada, de ligar certas
representações empíricas de acordo com tal regra de relação” (KANT, 2001, B 167-
8).
No entanto, o que Kant rejeita nesse argumento não é exatamente a premissa de que as categorias foram inoculadas de alguma maneira em nossas mentes – por Deus ou como resultado do processo biológico de seleção natural das espécies (uma premissa, aliás, bastante
semelhante àquela usada por Peirce para defender a ideia de um instinto racional abdutivo). O que ele critica é o uso dessa premissa para explicar a objetividade das categorias. Em outras palavras, assim como Hume, ele parece não acreditar que premissas sobre questões de fato possam nos conduzir a conclusões sobre questões de direito.
Por naturalização das condições transcendentais do conhecimento entende-se, geralmente, a interpretação daquilo que Kant chamava de sensibilidade e entendimento em termos neurofisiológicos, biológicos ou psicológicos. Numa acepção mais fraca,
Uma epistemologia transcendental naturalizada está comprometida com a tese de que uma investigação apropriada das condições transcendentais necessárias deve apoiar-se de modo relevante nos resultados da ciência (CASSAM, 2003, p. 181, tradução nossa)206.
Assim, uma análise completa da sensibilidade dependeria de pesquisas empíricas sobre as propriedades dos nossos órgãos sensoriais e das partes do nosso sistema nervoso responsáveis por responder a estímulos. Do mesmo modo, investigar a faculdade do entendimento envolveria estudos sobre as variáveis psicológicas e neurológicas que influenciam na manipulação de representações por meio das associações de ideias, da memória, etc. Compreendida nesses termos, a naturalização das condições transcendentais ganha muitas vezes a forma de um projeto fisicalista, cuja pretensão é interpretar todos os aspectos da vida humana (incluindo suas dimensões normativas) de um ponto de vista empírico. Ora, é fácil encontrar passagens da obra de Kant nas quais pretensões semelhantes a essa são veementemente rechaçadas. Ele provavelmente a qualificaria como a expressão de um empirismo dogmático, cujos excessos ainda não teriam sido devidamente corrigidos por uma crítica da razão. Sem dúvida, tentar naturalizar as formas puras do espaço e do tempo e as categorias do entendimento dessa maneira seria afastar-se completamente do que Kant entendia por condições transcendentais, mesmo que se possa debater sobre a eficácia ou não
206“a naturalized transcendental epistemology is one which is committed to the thesis that a proper investigation
dos seus argumentos para distinguir a sua filosofia transcendental desse tipo de naturalismo207.
Todavia, se retornarmos mais uma vez à própria definição que a Crítica da Razão Pura nos oferece do ponto de vista transcendental, será possível delinear a partir dela um outro tipo de naturalização das condições de possibilidade do conhecimento. Kant chama de
transcendental “todo conhecimento que em geral se ocupa menos dos objetos, que do nosso
modo de os conhecer, na medida em que este deve ser possível a priori” (KANT, 2001, B 25). O caminho para se encontrar um tipo de naturalismo compatível com a filosofia transcendental está, portanto, em esclarecer quais coisas devem constar como relevantes para o nosso modo de conhecer os objetos a priori. E se quisermos exemplos que possam ajudar nessa tarefa, parece razoável procurá-los inicialmente nos procedimentos de disciplinas como a Matemática (especialmente a Geometria) e a Física (especialmente a mecânica clássica newtoniana), visto ser nelas que Kant descobre o método a imitar e a aplicar na solução dos
conflitos metafísicos, “tanto quanto o permite a sua analogia, como conhecimentos racionais”
(KANT, 2001, B XVI).
A metáfora do cientista natural como um inquisidor que dirige perguntas à natureza ao invés de ser passivamente ensinado por esta, a interpretação dos próprios experimentos científicos a partir dessa metáfora, ou seja, como perguntas elaboradas no discurso e na prática pelos cientistas, a teoria do método matemático como construção de conceitos na intuição – tudo isso indica que o nosso modo de conhecer os objetos inclui, para Kant, as
ações, operações ou procedimentos que executamos para investigar a realidade. Sob esse
ponto de vista, uma prova transcendental da validade objetiva de categorias como a de causa e efeito deve nos remeter à função que tais conceitos desempenham “nas nossas atividades de
aquisição de conhecimento” (HINTIKKA, 1992, p. 342, tradução nossa)208
. Concedemos que
207
Para um exame desses argumentos, cf. Cassam (2003, p. 181-203).
tais atividades, enquanto acontecimentos no mundo, podem eventualmente ser encaradas como fenômenos naturais. Mas elas também podem ser vistas como condições que tornam possível a investigação de outros fenômenos da realidade, uma vez que é através delas que
“nós ‘colocamos coisas nos objetos’ e assim ‘produzimos’ os objetos do nosso conhecimento”
(HINTIKKA, 1992, p. 343, tradução nossa)209. Nesse sentido, se o nosso objetivo é compreender como a Matemática e a Física produzem conhecimento, o método transcendental recomenda que os procedimentos e ações mobilizadas na investigação da realidade não sejam confundidos com a própria realidade investigada. E essa é mais uma razão para não aceitar o tipo de naturalização fisicalista mencionada acima como estratégia de renovação da filosofia transcendental.
A ênfase nas atividades de pesquisa e na elaboração de experimentos convida então à seguinte reformulação do que seria um postulado fundamental da perspectiva transcendental kantiana: não é possível compreender a natureza do nosso conhecimento (inclusive científico)
sobre os objetos sem compreender as ações ou as práticas humanas por meio das quais se constrói esse conhecimento. Essa fórmula sugere, em primeiro lugar, que as condições
transcendentais do conhecimento em geral e do conhecimento científico, em especial, devem ser buscadas no âmbito das ações e interações entre seres humanos. As atividades humanas voltadas para a produção de conhecimento – entre as quais se destacam os experimentos científicos – possuem um caráter transcendental na medida em que são guiadas por regras, ideias ou conceitos não derivados indutivamente da experiência (WARTENBERG, 1992, p. 243). Nesse sentido, elas “antecipam” ou pressupõem certas características da própria realidade que elas visam investigar.
Se, porém, a função transcendental de certas proposições depende do fato delas servirem como prescrições fundamentais sobre o modo como devemos agir no âmbito de um
determinado jogo de linguagem, não há mais lugar para o aspecto passivo das intuições sensíveis, diversas vezes evocado por Kant como um elemento fundamental do conhecimento humano. Já vimos, na primeira seção deste capítulo, que a intuição possuía um papel crucial na concepção kantiana do método matemático de construção de conceitos, na medida em que ela designava o uso de representações singulares nos procedimentos geométricos de prova e demonstração de teoremas, mas que hoje em dia esse mesmo papel pode ser perfeitamente desempenhado pelas relações de dependência entre quantificadores existenciais e universais do cálculo quantificacional de primeira ordem. Desse modo, os símbolos não-lógicos (variáveis ligadas a quantificadores e constantes individuais) dos sistemas lógicos contemporâneos seriam os substitutos satisfatórios das intuições sensíveis enquanto representações singulares. Se Kant julgou a imediaticidade e a passividade características essenciais das intuições sensíveis, foi por assumir tacitamente o pressuposto de que a percepção sensível é o modo principal de reconhecer a existência de objetos singulares. Jaakko Hintikka propõe, no lugar deste pressuposto (que ele identifica com uma certa herança aristotélica imbutida no pensamento kantiano), a tese de que o nosso modo de conhecer objetos particulares deve ser descrito como uma família de jogos de linguagem usados para procurar, encontrar e identificar objetos. Nesse caso, uma investigação transcendental do nosso modo de conhecer a realidade poderia então prescindir de referências a uma faculdade produtora de representações imediatas e passivas. Intuições seriam perfeitamente substituídas pelos métodos formais de instanciação universal e existencial e esses métodos, por sua vez, poderiam ser interpretados semanticamente como a expressão linguística das regras que governam nossas práticas de procurar e encontrar objetos210.
210“Language-games of seeking and finding [...] are thus much better candidates for the role of general activities
by means of which we come to know particulars than perception.” (HINTIKKA, 1992, p. 346). A ideia de substituir as intuições sensíveis pelas atividades experimentais na função de procurar e identificar objetos no espaço-tempo mostra-se, aliás, compatível com uma interpretação transcendental da mecânica quântica. Cf. Bitbol (1998, p. 3).