1.2. ULUS DEVLET KAVRAMI
1.2.1. Devlet Kavramı ve Devletin Tanımı
No Brasil, a cidadania e a democracia são princípios fundamentais da República (artigo 1º, I, parágrafo único, CF), que não apenas garantem, como incentivam a participação popular no processo decisório político do país e, em sentido amplo, traduzem o maior e mais eficaz instrumento de reivindicação social à disposição da sociedade brasileira para consecução dos objetivos traçados pela Constituição Federal (artigo 3°, CF).293
No tocante à política urbana, o Estatuto da Cidade estabelece a gestão democrática da cidade como diretriz geral da política urbana brasileira, conforme expressa previsão no artigo 2º, inciso II, através dos instrumentos de participação disciplinados no artigo 43, do mesmo Estatuto.
Entretanto, em abordagem simples do problema, pode-se afirmar que a maior parcela da população brasileira – que não por acaso é destituída dos direitos mais básicos em razão de um movimento circular de opressão social – não possui conhecimento sobre a existência, conteúdo e abrangência dos direitos humanos e as respectivas formas de participação social na coisa pública, para reivindicação desses mesmos direitos, sem contar a aparente letargia que atinge a cultura popular brasileira (e aqui não se faz qualquer diferenciação em razão de posição social) quando se trata de reivindicação de direitos humanos em face do Estado.
293 Sobre a postura participativa da sociedade civil, Luis Roberto Barroso afirma que ―Sem embargo do seu caráter
metajurídico, esse tipo de atuação desempenha um papel imprescindível. Não há efetividade possível da Constituição, sobretudo quanto a sua parte dogmática, sem uma cidadania participativa. Veja-se que a ordem jurídica, como já afirmamos em outro estudo, na generalidade das situações, é instrumento de estabilização, e não de transformação. Sem deixar de reconhecer-lhes um ocasional caráter educativo, as leis, usualmente, refletem – e não promovem – conquistas sociais longamente amadurecidas no dia-dia das reivindicações populares. Na lição sempre límpida de Cappelletti, as instituições jurídicas tendem, necessariamente, a adequar-se às mutáveis exigências da vida prática, às vezes, na verdade, com defasagens de excessiva antecipação ou, mais freqüentemente, de excessivo atraso em relação ao envolver daquelas exigências. Esta contemporaneidade entre os fenômenos sociais e a sua expansão jurídica, quando não resulta de intuição própria dos órgãos estatais competentes, deve ser buscada pelo conjunto da sociedade civil‖. (BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas normas – limites e possibilidades da Constituição brasileira. 9ª edição – Rio de Janeiro: Renovar, 2009, p. 127).
Por essas razões, é imprescindível que haja um processo de difusão da cidadania apto a transferir conhecimento e a incentivar a participação popular nos processos decisórios, eis que apenas dessa forma os cidadãos terão contemplados seus direitos no contexto político- social. É nesse ponto que a Defensoria Pública, enquanto instituição vocacionada como expressão e instrumento do regime democrático, deve exercer o papel de propulsora do conhecimento aos cidadãos (considerados individualmente) e de parceira dos movimentos sociais organizados através da formulação de projetos sociais de conscientização em direitos humanos e cidadania.
Como paradigma voltado ao objeto do estudo, cita-se a iniciativa da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, em conjunto com a Associação dos Notários e Registradores do Brasil – Anoreg, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, do Centro de Apoio a Iniciativas Comunitárias – Caicó, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, do Escritório Modelo ―Dom Paulo Evaristo Arns‖ – PUC/SP, do Grupo de Articulacão para Moradia do Idoso da Capital – GARMIC, do Instituto Pólis, da Pastoral da Moradia – Região Episcopal do Ipiranga, Servico de Assessoria Jurídica Universitária da Universidade de São Paulo – SAJU, da União dos Movimentos de Moradia da Grande São Paulo e Interior – UMM/SP e da Uninove, por meio do Núcleo Especializado de Habitação e Urbanismo, em promover a 1ª Jornada da Moradia Digna na cidade de São Paulo, em 2007. O evento foi precedido de Pré-Jornadas nas comunidades e oficinas de trabalho, onde foram eleitos os temas para debate com a população no evento principal.
As palavras do Grupo Executivo da Jornada demonstram, com mais precisão, os objetivos dessa empreitada, que, ao final, foi considerada extremamente positiva e inovadora em termos de acesso à justiça:294
(...) é consenso que a habitação reflete, seja qual for a sua forma, o grau de cidadania alcançado ou permitido àquele que a ocupa. O conceito da moradia digna foi proposto com o objetivo de pautar a discussão
294―A pergunta que devemos nos fazer nesta 1a Jornada pela Moradia Digna é se há algo de novo ou se estamos diante de
mais uma das muitas manifestações dos movimentos sociais e entidades defensoras dos direitos humanos. A resposta é sim! Há algo de novo. A maior parte das entidades promotoras dessa 1a Jornada foram criadas durante o processo de redemocratização do país, na década de 1980, com exceção da Defensoria Pública. Tivemos de aguardar muitos anos pela criação da Defensoria Pública e finalmente ela foi criada em 2006. Sua existência faz a diferença. E por quê? No Brasil, a aplicação da lei se faz de forma arbitrária como mostram diversos estudiosos. A lei obedece a uma lógica de classe. Há leis que ―pegam‖ e leis que não ―pegam‖. Depende das circunstâncias e dos interesses envolvidos. Há até mesmo um certo desconhecimento da legislação urbanística e ambiental no judiciário. O sistema prisional mostra que as prisões discriminam renda e etnia. Contar com defesa jurídica em tais circunstâncias é fundamental. Em seu pouco tempo de vida, a Defensoria Pública está mostrando a que veio. Temos o que comemorar nesta 1a Jornada em Defesa da Moradia Digna‖. (MARICATO, Ermínia. 1ª Jornada em Defesa da Moradia Digna: Temos que comemorar. I Jornada em Defesa da Moradia Digna/Defensoria Pública do Estado de São Paulo. – 1. ed. – São Paulo: Defensoria Pública do Estado de São Paulo, 2008, p. 20) - http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio/28/Documentos/Outros/publicacao.pdf.
habitacional pela questão do acesso à cidadania. Ou seja, a moradia digna amplia a discussão sobre quais são as premissas que formulam os padrões mínimos de habitabilidade necessários a uma habitação para que a conquista dessa seja também a conquista da cidadania. Sendo assim, a moradia digna busca conferir à habitação de interesse social um caráter universal, imprimindo, em cada diferente manifestação dessa moradia, saúde e educação, salubridade e conforto, segurança jurídica, serviços básicos (como água, luz, esgoto e coleta de lixo), transporte, trabalho, lazer e cultura. Nesse sentido, a 1a Jornada em Defesa da Moradia Digna foi um evento que teve como objetivo o atendimento à população excluída do acesso a moradia adequada. A proposta foi realizar um ―mutirão da cidadania‖, reunindo em um mesmo espaço instituições e organizações comprometidas em contribuir para o encontro de soluções para a questão habitacional na cidade de São Paulo.295
Em 2009, após as Pré-Jornadas e oficinas, foi realizada a 2ª Jornada da Moradia Digna com a participação das mesmas entidades de defesa do direito à cidade e à moradia, cujo tema principal foi “Equilibrar os direitos e conquistar cidadania‖ 296, em que foram efetuados cerca de 2200 atendimentos.297
A III Jornada Da Moradia Digna foi realizada em 2011 e contou com a participação de 1500 pessoas. Desta vez, o tema abordado e discutido foram os impactos causados pelos megaprojetos na área de habitação e urbanismo, e como eles podem representar uma oportunidade que efetiva o direito à cidade e à moradia dos grupos menos favorecidos.298
A realização de audiências públicas pela Defensoria, para orientar a atuação estratégica da instituição nos casos em que haja violação de direitos humanos, é outro importante instrumento de participação popular na definição de prioridades e justiciabilidade do direito à cidade, conferido à Defensoria Pública por força do artigo 4º, inciso XXII, da Lei Complementar Federal nº 80/94, acrescentado pela Lei Complementar nº 132/09.299
A realização das Jornadas da Moradia Digna e a iniciativa constante de diálogo com os movimentos da sociedade civil pela Defensoria Pública de São Paulo são instrumentos típicos do novo enfoque de acesso à Justiça, e propiciam a ampliação do escopo de proteção do
295 O caminho da 1ª Jornada em defesa da moradia digna. 1ª Jornada em Defesa da Moradia Digna/Defensoria Pública do
Estado de São Paulo. – 1. ed. – São Paulo: Defensoria Pública do Estado de São Paulo, 2008, p. 9.
296 http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Default.aspx?idPagina=3234 – Acesso em 28/02/2011.
297http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Conteudos/Noticias/NoticiaMostra.aspx?idItem=3972&idPagina=3086 – Acesso
em 28/02/2011.
298 http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Conteudos/Noticias/NoticiaMostra.aspx?idItem=32077&idPagina=3086 – Acesso
em 28/02/2011.
299 Defensoria Pública realizada Audiência Pública na cidade de São Luiz do Paraitinga - Data: 05/03/2010 - 19:30 Fonte:
DPE/SP - A Defensoria Pública do Estado de São Paulo, por sua Regional de Taubaté, realizou na noite de ontem (04/03) Audiência Pública na cidade de São Luiz do Paraitinga para esclarecer as dúvidas da população acerca dos procedimentos a serem tomados quando da reconstrução do município, devastado por uma enchente no início do ano. Hoje 308 famílias de baixa renda permanecem sem moradia e 170 imóveis que fazem parte do patrimônio histórico da cidade estão destruídos ou interditados – Acesso em 28/02/2011.
direito à cidade aos grupos sociais mais vulneráveis, o que vai de encontro à postura da ONU ao recomendar a criação e o fortalecimento institucional da Defensoria Pública como instrumento de reivindicação de direitos perante o Estado.
Essas iniciativas se contrapõem à omissão do Estado de São Paulo na proteção do direito à cidade e da inobservância do princípio da gestão democrática da cidade como forma de participação popular na formulação de políticas publicas urbanas. Como exemplo, cita-se trecho do ―Relatório da Missão Conjunta da Relatoria Nacional e da ONU 29 de maio a 12 de junho de 2004 – Violações, Práticas positivas e Recomendações ao Governo Brasileiro”300 que constatou a seguinte violação do direito à cidade nas visitas efetuadas às ocupações na Cidade de São Paulo:
Violação do Direito à Cidade (art. 2º, inc. I, da Lei Federal no 10.257/01): pelo governo do Estado de São Paulo, que não dialoga com os movimentos populares e inviabiliza a participação deste setor na gestão democrática da política habitacional e de projetos habitacionais de interesse social. Desrespeito ao padrão cultural, na produção de moradias populares; e à função social da cidade, pela implantação de habitação popular em áreas periféricas, longe dos serviços de infra-estrutura, lazer, cultura, trabalho e transporte.
Por todo o exposto, pode-se afirmar que os projetos em educação em direitos para difusão da cidadania no processo urbano são tão importantes, ou mais eficazes, em virtude da participação popular direta, quanto qualquer outro meio de justiciabilidade do direito à cidade, ante a apropriação de valores e reivindicações sociais e políticas pelos cidadãos na forma pensada pelo constituinte originário.