Quanto a passagem pelo ensino fundamental, de forma bem geral, temos, a partir de duas perguntas, as Tabelas 12 a 15, voltadas para o tempo de estudo e tipo de escola no ensino fundamental.
Percebe-se que a maioria dos alunos (cerca de 70% a 80%) de ambos os grupos levou de 8 a 9 anos para o término do ensino fundamental. Ou seja, dentro do esperado, tendo em vista que hoje o Ensino Fundamental é de 9 anos. No entanto, quando comparados os dois grupos especificamente, percebemos, nos três anos, que os alunos das EEEPs declaram ter terminado o ensino fundamental em menos tempo do que seus pares das escolas regulares.
Tabela 12 – Tempo em anos de conclusão do Ensino Fundamental (%)
Tempo em anos 2012 2013 2014
EEEPs Regulares EEEPs Regulares EEEPs Regulares
Menos de 8 anos 4,00 3,79 4,20 4,21 2,86 2,89 8 anos 70,27 60,23 49,48 44,03 36,63 34,69 9 anos 16,10 22,74 31,63 33,59 47,94 47,93 10 anos 3,18 5,94 6,03 8,32 6,55 8,17 11 anos 1,54 2,35 3,13 3,28 2,71 2,85 Outros 4,88 4,92 5,49 6,53 3,31 3,46 Total 100 100 100 100 100 100
Fonte: Tabela elaborada a partir do Questionário Socioeconômico do ENEM 2012, 2013 e 2014.
Em 2012, 70,27% dos alunos das EEEPs declaram ter terminado o ensino fundamental em 8 anos contra 60,23% dos alunos das escolas regulares, uma diferença de 10,04%. Essa diferença apresenta-se menor no questionário de 2013, 5,45%; e 1,94% na edição de 2014, mas ainda positiva para o grupo das EEEPs. Nos três anos (Ver Tabela 12) a proporção de alunos das escolas regulares que terminaram o ensino fundamental com 10 e 11 anos é maior em relação aos seus pares das EEEPs.
Quando perguntados sobre o tipo de escola frequentada durante o ensino fundamental, temos um quadro (Tabela 13, 14 e 15) que mostra que a maioria cursou, de ambos os grupos, o ensino fundamental em escola pública.
Tabela 13 – Proporção por tipo de escola no Ensino Fundamental, ENEM 2012
Tipo de escola no ensino fundamental EEEPs Regulares
Somente em escola pública 70,16 88,28
Maior parte em escola pública 14,70 6,34
Somente em escola particular 7,48 2,56
Maior parte em escola particular 7,64 2,78
Somente em escola indígena 0 0,007
Maior parte em escola indígena 0 0,007
Somente em escola de comunidade quilombola 0 0,005 Maior parte em escola de comunidade quilombola 0 0,008
Total 100 100
Mas quando comparados os dois grupos, percebe-se que há uma proporção maior de alunos das EEEPs que estudaram em escola particular, tanto em parte do ensino fundamental, como durante todo o ensino fundamental. 7,48% dos alunos das EEEPs declararam ter estudado somente em escola particular, contra 2,56% no caso dos alunos das escolas regulares, em 2012. Em 2013, a diferença aumenta, 9,02% para 2,66%. Em 2014 a diferença diminui de 6,88% para 2,57%.
Tabela 14 – Proporção por tipo de escola no Ensino Fundamental, ENEM 2013
Tipo de escola no ensino fundamental EEEPs Regulares
Somente em escola pública 72,17 88,86
Maior parte em escola pública 12,01 5,72
Somente em escola particular 9,02 2,66
Maior parte em escola particular 6,73 2,63
Somente em escola indígena 0,01 0,02
Maior parte em escola indígena 0,01 0,01
Somente em escola de comunidade quilombola 0,02 0,01 Maior parte em escola de comunidade quilombola 0,01 0,06
Total 100 100
Fonte: Tabela elaborada a partir do Questionário Socioeconômico do ENEM 2013.
É importante lembrar que existe cota para alunos das escolas particulares nas EEEPs, o que justificaria, em parte, essa diferença. No entanto, tais dados mostram que há um grupo de alunos ligeiramente diferenciado nas EEEPs, indicando haver uma estrutura familiar mais favorável para agenciamentos em prol da educação de seus filhos, indicando ser famílias com maiores capitais econômicos, culturais e sociais. Nogueira (2013b) fala da crença na escola particular, mesmo aquelas ditas ‘escolas de bairros’ ou não centrais, que figuram como uma melhor alternativa aos pais que querem uma ‘melhor educação’ aos filhos, mesmo que objetivamente o fato de ser particular não signifique melhor qualidade educacional. Simbolicamente, no entanto, colocar filhos em escolas particulares mostra-se como uma atitude de desprendimento e de até grandes esforços financeiros em alguns casos.
Tabela 15 – Proporção por tipo de escola no Ensino Fundamental, ENEM 2014
Tipo de escola no ensino fundamental EEEPs Regulares
Somente em escola pública 75,07 88,55
Maior parte em escola pública 13,09 6,14
Somente em escola particular 6,88 2,57
Maior parte em escola particular 4,97 2,73
Somente em escola indígena - -
Maior parte em escola indígena - -
Somente em escola de comunidade quilombola - - Maior parte em escola de comunidade quilombola - 0,01
Total 100 100
Fonte: Tabela elaborada a partir do Questionário Socioeconômico do ENEM 2014.
Boudon (1981, 1995) lembra que existe uma racionalidade diferente sobre o uso dos recursos por parte dos indivíduos, que é influenciada tanto pelo histórico quanto pela quantidade de informações disponíveis e reconhecíveis, e também pela própria capacidade de reflexividade dos indivíduos. Lahire (2002) fala da complexa formação disposicional que flexibiliza a relação entre os capitais econômicos, culturais e sociais. As Tabelas 06, 07 e 08 mostram um padrão de comportamento diferente quanto ao consumo de bens mais duráveis e relacionados à informação. Por sua vez, a Tabela 16 mostra que mesmos as famílias de baixa renda das EEEPs tiveram mais empenho em colocar seus filhos nas escolas particulares, mesmo que em escolas particulares não centrais, não significando necessariamente mais qualidade, mas que permite a hipótese de que tais pais apresentam um comportamento diferenciado e voltado para a educação dos filhos e práticas mais racionalizadas de economia da vida cotidiana que os pais das escolas regulares, em geral. O fato de serem das EEEPs não explica essa diferenciação de comportamento, mesmo em situação de baixa renda, mas indica a existência de uma característica ou padrão de ação que pode ter contribuído para uma melhor educação dos filhos e assim em mais capacidade de entrada no modelo das EEEP, que possui seleção para ingressos. A escolaridade e a renda diferenciada, e, um possível padrão de consumo mais racionalizado são algumas das disposições a serem reconhecidas como elementos importantes na compreensão da configuração familiar das EEEPs, e, por conseguinte, na compreensão do nível de realização escolar desse modelo. Nogueira (2011), ao contextualizar a categoria família na tradição de pesquisa da sociologia da educação, faz referência ao conceito de famílias
educógenas, que fala sobre as famílias que de alguma forma conseguem garantir um ambiente favorável à educação dos filhos. Sejam pelas atitudes, hábitos de vida, estilo de cuidado, ou modo de pensar – características não necessariamente dependentes das condições econômicas –, essas famílias são capazes de garantir um ambiente social-familiar que contribui para a educação dos filhos. Esse conceito e outras reflexões sobre o ambiente familiar45 ajudam a traçar uma análise mais complexa sobre a relação família-escola e sobre os tipos de influência familiar sobre a realização escolar.
Tabela 16 – Cruzamento entre renda e tipo de escola no ensino fundamental, nos três anos, dados percentuais por linha
2012
Faixa de renda EEEPs Regulares
Pública Privada Total Pública Privada Total
Muito baixa 92,9 7,1 100 97,6 2,4 100 Baixa 79 21 100 90,7 9,3 100 Média-baixa 66,3 33,7 100 82,3 17,7 100 Média 58,1 41,9 100 73,8 26,2 100 Média-alta e Alta 42 58 100 61,7 38,3 100 2013
Faixa de renda EEEPs Regulares
Pública Privada Total Pública Privada Total
Muito baixa 91,3 8,7 100 97,4 2,6 100 Baixa 77 23 100 90,3 9,7 100 Média-baixa 64,3 35,7 100 81,2 18,8 100 Média 57,4 42,6 100 72,8 27,2 100 Média-alta e Alta 48,6 51,4 100 56,8 43,2 100 2014
Faixa de renda EEEPs Regulares
Pública Privada Total Pública Privada Total
Muito baixa 93 7 100 97,1 2,9 100
Baixa 84 16 100 91,6 8,4 100
Média-baixa 72,5 27,5 100 83,1 16,9 100
Média 46,7 53,3 100 73,8 26,2 100
Média-alta e Alta 28,6 71,4 100 63 37 100
Fonte: Tabela elaborada a partir do Questionário Socioeconômico do ENEM 2012, 2013 e 2014.
45 cf Lahire (1997), que indica os hábitos e disposições das famílias de baixa condição econômica que possuem