As Escolas Estaduais de Educação profissional no Ceará seguem uma série de diretrizes que caracterizam o modelo de ensino médio integrado no Brasil. A principal característica desse modelo é a integração entre o ensino médio regular e a educação profissional, garantindo dupla certificação ao final dos três anos de estudo.
É importante ressaltar que a LDB já previa a integração do ensino técnico ao ensino médio regular, mas não de forma obrigatória e nem de maneira incentivada. No entanto, sob a regulamentação do Decreto 5.154/2004 a educação profissional de nível médio passou a ser incentivada e possível de três formas: concomitante, integrada ou subsequente ao ensino médio regular. A Lei 11.741 de 2008 seguiu o espírito desse decreto, alterando a LDB e passando determinar que o ensino profissional e tecnológico deveria ser integrado aos diferentes níveis e modalidades da educação. No caso específico do ensino profissional de nível médio, deveria ser esse integrado, agora, de forma articulada ou subsequente. Incentivando e abrindo espaços para uma prática mais concreta de educação profissional de nível médio, inclusive para a
educação de jovens e adultos, sobretudo para jovens que necessitam ter uma perspectiva real de emprego. Essa proposta de integração é vista, pela Resolução nº 6/2012 do CNE/CBE, como um princípio, conforme expressa o seu 6º artigo:
São princípios da Educação Profissional Técnica de Nível Médio:
I - relação e articulação entre a formação desenvolvida no Ensino Médio e a preparação para o exercício das profissões técnicas, visando à formação integral do estudante;
[...]
A experiência das EEEPs segue essa proposta de integração, que carrega uma noção maior que a de articulação ou de cursos subsequentes. Essa proposta integrativa demanda tanto mudanças operacionais básicas, como a adequação do horário29, como requer uma concepção curricular e pedagógica diferenciada (CEARÁ, 2014). Essas escolas no intuito de abrigar o modelo de ensino médio integrado têm seu funcionamento caracterizado pelo tempo de aula integral (manhã e tarde), por uma infraestrutura diferenciada e por um corpo docente ampliado. No Ceará, especificamente, essas escolas ainda contam com seleção diferenciada de professores e grupo gestor30, e com seleção de alunos, além do estágio remunerado obrigatório.
No intuito de garantir o cumprimento da carga horária, as EEEPs funcionam em dois turnos. Em geral as aulas acontecem de 7h às 17h, com intervalo para o almoço e outros dois intervalos para lanche, um em cada turno, além de um momento reservado para o estudo individual. O cardápio do almoço possui acompanhamento nutricional e há inúmeras restrições quanto à entrada de alimentos outros na escola31. O tempo integral aparece como um elemento crucial na adaptação dos ingressos. Muitos alunos acabam por sair da escola, por meio de transferência, por não se adaptarem ao turno extenso32. Além disso, o turno integral impede que alguns alunos comecem a trabalhar durante o ensino médio.
Uma das características marcantes na política das EEEPs é a seleção que existe tanto para professores, núcleo gestor, como para alunos. O processo seletivo dos professores do
29 Parecer CNE/CES 436/2001, Parecer CNE/CP 29/2002 e a Resolução CNE/CP 03/2002, regulamentam uma
carga horário mínima, inclusive para os cursos básicos e técnicos, além dos tecnológicos superiores.
30 Conferir as Leis Estaduais 14.272/2008, 14.273/2008 e mais especificamente a Lei Estadual 15.181/2012 que
passa a exigir seleção pública simplificada para o corpo docente e seleção específica para o núcleo gestor.
31 Em escolas acompanhadas, sabe-se que há opções para alunos vegetarianos, bem como outras opções quando
sob orientações médicas.
32 Não foi possível obter as taxas de transferência junto às escolas pesquisadas e a SEDUC também não
disponibiliza essa informação em sua base de dados (cf. http://www.seduc.ce.gov.br/index.php/avaliacao- educacional/177-avaliacao-educacional/8864-estatistica-da-educacao-no-ceara). Segundo dados do INEP de 2014 (http://download.inep.gov.br/informacoes_estatisticas/indicadores_educacionais/2014/taxa_rendimento/tx_rendi mento_escolas_2014.zip) a taxa de abandono da EEEP Inglês de Sousa foi 0% e da EEEP Waldemar Henrique foi de 1,4%. Informações obtidas junto a gestão dessas escolas indica que os alunos que não se adaptam são transferidos, casos de abandono são extremamente raros.
currículo regular se dá via seleção pública simplificada e podem participar dessas chamadas professores efetivos, em estágio probatório ou não, e professores contratados como temporários. Os professores das disciplinas técnicas são selecionados via Instituto Centro de Ensino Tecnológico (CENTEC), capitaneado pela SEDUC. A seleção dos alunos se dá em cada escola, ao final do ano, a partir da média aritmética das notas obtidas no ensino fundamental II33. A SEDUC já financiou propagandas na televisão entre outubro e dezembro, mas em geral, a difusão de informação se dá entre os pretendentes. Há também indicação das escolas de ensino fundamental aos seus alunos concluintes. As EEEPs fazem uma (I) pré-inscrição, (II) fazem a avaliação dos boletins e (III) algumas fazem uma entrevista com as famílias dos alunos selecionadas. Já houve anos, a partir de relatos das duas escolas pesquisadas, em que foi ministrada palestra explicativa sobre a dinâmica da escola, explicando aos alunos sobre a “rotina que é puxada”.
Os relatos, sobretudo nas duas escolas pesquisadas, mostram que existe uma concorrência diferenciada entre os cursos, sobretudo os da área de tecnologia e saúde, e há muitas vezes formação de filas de espera para a matrícula34.
As EEEPs possuem um regime disciplinar diferenciado, pelo menos mais latente que nas escolas regulares em geral, segundo uma percepção inicial. Há um intenso acompanhamento de horários, comportamentos e um contínuo contato com pais e responsáveis, além do uso corrente do Controle Pedagógico35. O uniforme é obrigatório e precisa estar sempre limpo e com o mínimo de adereços possíveis. O uso do smartphone e de outros equipamentos é estritamente regulado e os professores não hesitam em acionar os mecanismos de disciplina da escola. Entre os pais, há uma clara percepção de que essas escolas são mais disciplinadas e organizadas e de que tal organização é um dos elementos de distinção e valorização dessas escolas em relação as escolas pares da rede pública estadual. As observações nas EEEP Inglês de Sousa e na EEEP Waldemar Henrique confirmam essa percepção, além de outros relatos que asseveram a noção de que as EEEPs são em geral mais disciplinadas que as demais escolas públicas estaduais36.
33 Essas informações, aqui aglutinadas e gerais, são oriundas das conversas, visitas e das leituras sobre as EEEPs.
Assume-se a fala das(os) coordenadoras(es) em alguns aspectos, questionam-se outras falas e coloca-se sempre o benefício da dúvida sobre todas.
34Não se obteve, nem por relatórios oficiais da SEDUC, nem pela secretaria das escolas pesquisadas, os números da concorrência dos cursos.
35 Livro de ocorrências e controle disciplinar.
36 Haguette e Pessoa (2015) constatam que a disciplina escolar é uma característica geral de escolas com melhor
Sobre a infraestrutura, pode-se dizer que, em geral, as EEEPs dispõem de uma estrutura física mais elaborada, contando com diversos laboratórios, oficinas, refeitórios, por exemplo, além de melhor estrutura para banho, convivência, prática de esporte, incluindo um melhor serviço de internet, secretaria, almoxarifado, biblioteca, entre outros. As duas escolas estudadas nessa pesquisa são ‘escolas adaptadas’, ou seja, que se tornaram profissionalizantes em 2009. A infraestrutura delas foi melhorada, sofrendo adaptações, mas ainda são bem diferentes das escolas cujo modelo arquitetônico segue o chamado ‘Padrão MEC’.
As escolas possuem coordenadores de curso e de estágio. Os coordenadores de curso são responsáveis pela parte técnica dos cursos, auxiliando os instrutores técnicos. Já os coordenadores de estágio, atuam como mediadores e tutores, acompanhando os alunos e alunas no estágio, na relação aluno-empresa. O estágio é de meio expediente e em geral acontece no último semestre do terceiro ano, o mesmo é de caráter obrigatório. Os coordenadores de estágio também são responsáveis por “captar vagas de estágio” e de organizar a distribuição dos mesmos entre os alunos. Para os cursos técnicos em geral, são exigidas 400h/a de estágio prático. Já para os cursos na área de saúde, são exigidas 600h/a. Os alunos são remunerados ao longo do estágio. Parte dessa remuneração é financiada pelo Estado e outra pela empresa, e as vezes o Estado arca com todo o valor37. Apesar de incomum, acontece de alunos não conseguirem estagiar no último semestre do terceiro ano, postergando a conclusão da parte técnica do ensino, mas a certificação final sai integrada.
Esse levantamento geral sobre o contexto histórico de surgimento das escolas profissionalizantes no Brasil e no Ceará, os processos de mudança de concepção, bem como uma descrição específica da dinâmica das EEEPs, servem como elementos importantes para se entender a configuração desse modelo de escola, bem como alguns pressupostos em termos de política pública que as envolve. Essa configuração precisa ser compreendida, no entanto, a partir dos atores que fazem essa escola, em torno de como se dá a mobilização familiar quando se tem essa configuração escolar como uma oportunidade e escolha singular em termos de oferta educacional. No contexto dessa pesquisa, os atores mais focados são os alunos e pais e/ou responsáveis. Assim, é preciso, antes, entender essas mobilizações dentro do contexto disposicional em que estão inseridos esses atores.
37 O Decreto Estadual nº30.933 (29/06/2012) regulamentou os valores e formas de convênio. Nesse ano (2012) o
valor total (bolsa + transporte + descanso remunerado) para os estágios de 400h/a foi de R$ 1.154,67, ou seja, R$ 2,88 por hora de estágio. Para os estágios de 600h/a (os na área de saúde), total de R$ 2.321,50, ou seja, R$ 3,86 por cada hora de estágio. Ou seja, os educandos recebem em torno de meio salário mínimo por 100h de estágio.