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As críticas mais contundentes à Declaração Universal de Direitos Humanos não retiram o caráter real dos direitos humanos. Aliás, vale deixar claro que os direitos humanos estão longe de serem utopias. Klein parte do conceito de Thomas More de utopia como algo que não contém ideias fixas, um não-lugar aberto para novas experiências, para afirmar o caráter não utópico dos direitos humanos (1999, p. 61). Para ele, os direitos humanos necessitam de ideias fixas e definição da área de extensão. Sem elas seria impossível pensar em qualquer implementação desses direitos. Logo, os direitos humanos são impensáveis como utopia. (BIELEFELDT, 2000, p. 26).

Já que os direitos humanos são estendidos a todos, desconsiderando qualquer traço diferenciador, pode-se observar que a área de extensão equivale ao universal. Se a Declaração fosse o sol, haveria lugar ao sol para absolutamente todos. Nenhum ser humano escaparia à tutela desses direitos, por isso, o clamor pela universalidade baseia-se em uma abstração, ainda que nobremente justificada.

Todos estariam protegidos por estes direitos e, por consequência, eles representariam características essenciais da condição humana. Logo, tais direitos também seriam inerentes. A inerência aparece como consequência ou corolário da universalidade. O alcance dos direitos da DUDH não demorou a ser questionado. Os ataques giram em trono de três pontos principais, da imposição de um modo de vida por Estado teocrático, do desejo de certos grupos de se afastarem da igualdade dos direitos humanos em favor das diferenças de

identidade cultural e dos críticos da proteção da propriedade privada como algo inerente à humanidade, geralmente esteados nos estudos de Marx e dos marxistas. Entretanto, de modo geral, por trás de das essas vertentes, está o ataque ao próprio pensamento ocidental, mas especificamente no empenho do pensamento ocidental de universalizar sua individualidade. A DUDH entraria nesse jogo representando o papel de mais um artifício para o exercício da hegemonia ocidental. (CLARKE, 2010, p. 11).

Para Clarke, as forças da História haveriam matado o universal, porque ele projetou sua própria concepção da natureza do ser humano (2010, p. 17). Embora as vicissitudes da geopolítica já começassem a anunciar a morte do universal, conforme concebido na Declaração, o elevar da cultura como elemento capaz de suspender a abstração universalista também merece atenção. A proteção da cultura, como sinônimo de identidade, ganha força à medida em que a expansão universalista dos direitos humanos começa a apresentar fissuras. A dicotomia não é desejável porque enfraquece o real propósito da DUDH, a primazia da lógica dos direitos humanos, ainda em outras palavras, a garantia do igual exercício da liberdade balizada pela prevalência da humanidade.

É certo que a abstração da universalidade dos direitos humanos pode representar obstáculo ao seu maior objetivo, contudo, esclareça-se que o elevar da cultura como fator imutável aproxima-se dos antigos debates acerca da supremacia racial. Hoje a cultura seria imutável, como antes a raça também o fora. Tome-se como exemplo a mutilação genital feminina considerada rito de passagem da infância para a vida adulta em alguns Estados africanos. A depender do local, essa prática ocorre com meninas com somente dias de idade até quatorze anos. A MGF/E pode ser realizada poucos dias após o nascimento, antes de casar ou após a primeira gestação, nesse caso as mulheres são reinfibuladas depois de cada parto. Esse tipo de prática ocorre há mais de três mil anos, também chamada de excisão faraônica (algumas múmeas foram encontradas circuncidadas).

Após a amputação do clitóris e dos pequenos lábios, os grandes lábios são seccionados, aproximados e suturados com espinhos de acácia, sendo deixada uma minúscula abertura necessária ao escoamento da urina e da menstruação, que é mantida aberta por um fino pedaço de madeira. As mulheres passam entre quinze a quarenta dias com as pernas atadas ou amarradas para que possa ocorrer à cicatrização, tudo isso sem qualquer higienizacão íntima. Não seria espantoso afirmar o óbvio: em razão da falta de higiene e de

cuidados, muitas vezes esse processo resulta em morte. (AMNISTIA INTERNACIONAL, 2014).

Em cada lugar há mitos culturais criados para justificar a mutilação. Na Somália as mulheres não mutiladas são categorizadas como mulheres fáceis e, por isso, podem ser expulsas de suas aldeias. A mutilação livraria a mulher da tentação. Na Etiópia, os genitais femininos não mutilados cresceriam até o tamanho do genital masculino e, portanto, isso deveria ser evitado. No Egito o genital feminino é tido como impuro e a menina não circuncidada recebe o nome de nigsa, ou seja, suja. A MGF/E é praticada em média por vinte e oito Estados da África11 e dois do Oriente Médio, além de Estados europeus e americanos devido à migração. Aproximadamente cento e trinta e cinco milhões de mulheres circuncidadas, chegando ao número de dois milhões de mulheres ao longo de todo o ano. (AMNISTIA INTERNACIONAL, 2014).

As vertentes relativizadoras da extensão universal dos direitos humanos não suplantam a necessidade de balizar as ações, estatais ou não, pela imperativa prevalência de proteção da pessoa humana. A primazia do ser humano apresenta-se como parâmetro para compreender e criticar o mundo. Recorde-se de um exercício de linguagem simples, mas esclarecedor. Quando algum interlocutor inicia a sentença dizendo alto, baixo, gordo, magro, branco, preto e em seguida diz verde e pausa sua fala, o ouvinte tende a ficar inicialmente confuso. O parâmetro estabelecido está nos opostos, e aparentemente o verde não traz antonímia com nenhum outro elemento. Até que o interlocutor retoma a frase e diz “maduro”. O exemplo é simples, mas evidencia como os parâmetros, ao sedimentarem os pressupostos do pensar, podem ajudar ou atrapalhar no instante em que se buscam soluções à realização da efetiva proteção do ser humano. Toda a lógica de superação da dicotomia universalismo/relativismo está na prevalência da igualdade entre os seres humanos, pois somente a igualdade garantida pode promover os meios dignos para o exercício da pluralidade e das diferenças humanas. Os direitos humanos são estes instrumentos de calibragem social e de criação do sentimento de pertença, sendo assim, a prevalência da lógica dos direitos humanos, na qualidade de norma internacional cogente.

11 Benin, Burkina, Camarões, República Central Africana, Chade, Costa do Marfim, República Democrática do

Outro argumento contra a ideia universalizante dos direitos humanos é o que tenta demonstrar a completa degeneração do que se percebe como “mundo ocidental”. O Ocidente, cuja tradição forma-se a partir da Antiguidade Greco-Romana com a delimitação da identidade ocidental (em face à incorporação dos povos “bárbaros”), estaria em declínio juntamente com tudo o que foi criado sob os seus auspícios, por exemplo, os direitos humanos. A ideia de decadência do mundo ocidental permeia questões atuais, destaque-se os discursos de Vladimir Putin contra a atuação de Estados europeus e dos Estados Unidos quanto à crise na península da Crimeia (então localizado no território da Ucrânia, porém de maioria étnica russa) em 2014. É importante compreender a ligação entre este argumento e os direitos humanos.