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A visão marcada pela soberania absoluta dos Estados ainda permanece forte em alguns campos do direito internacional (especialmente na criação de normas jurídicas internacionais, como a formação de acordos e postulação nos tribunais internacionais). A soberania absoluta vai ficando para trás juntamente com a forma de Estado (absoluto) que a criou. Esse tipo de soberania não é compatível com a posição de relevância das Organizações internacionais, nem com a importante atuação da pessoa humana nos espaços internacionais.

A personalidade de DIP das Organizações internacionais começou a ser sedimentada a partir dos posicionamentos do Tribunal Internacional de Justiça acerca das reparações por danos no caso do assassinato do conde Folke Bernadotte, primeiro mediador das Nações Unidas na Palestina, em 17 de setembro de 1948. Questionou-se se a ONU seria detentora de personalidade para demandar reparações pelo assassinato do diplomata sueco. A posição de

Mr. Felleb mostra o discurso contundente da Corte acerca da personalidade das Nações Unidas:

[...] como demonstrado, a personalidade internacional das Nações Unidas está firmemente estabelecida no direito internacional, não somente nos preceitos da Carta como um todo, mas também na prática dos Estados, membros e não membros. Eu devo agora demonstrar que esta personalidade carrega consigo a capacidade necessária para o preenchimento dos seus propósitos e o exercício das suas funções sob o ponto de vista procedimental9.

Outro sujeito cuja personalidade se fortalece na fase do direito internacional pós- Segunda Guerra Mundial é a pessoa humana. Fonseca analisa a geopolítica e o direito internacional e sustenta que os Estados precisam cada vez mais se relacionar com as pessoas, sob a perspectiva física ou jurídica. Franco da Fonseca identifica a relação do Estado com estrangeiros que entram no território, com estrangeiros representantes de Estados, com nacionais que vão a outros Estados, bem como a relação do Estado com seus habitantes e a relação da sociedade internacional de Estados com as pessoas, diante da imputação de deveres a elas (crimes internacionais ou crimes de caráter internacional) (1996, p. 319-320). De objeto a sujeito, a pessoa humana deixa de participar indiretamente da sociedade internacional e passa ser destinatário de direitos e deveres de DIP.

Em 1949, Câmara Filho não descartava a possibilidade do reconhecimento da personalidade internacional da pessoa humana. O autor argumentava que as pessoas somente se veriam “[...] em situação de aparecer como sujeitos de direito internacional, diretamente obrigados ou autorizados pela norma, quando existirem côrtes internacionais, perante as quais possam parecer como queixosos” (1949, p. 102). Sob essa perspectiva, já seria possível visualizar a pessoa humana como sujeito de DIP desde 1907, quando foi criada a Corte de Justiça Centro-Americana. A CJCA, que começou a funcionar em 1908, foi criada num contexto de instabilidade das relações dos países da América Central, em razão da forte intervenção de potências extrarregionais. A conhecida Doutrina Monroe, na prática, representou os esforços norte-americanos para subjugar os Estados centro-americanos em favor dos seus interesses. Um deles era a construção de um canal interoceânico na região.

Nas Conferências de Washington, os Estados centro-americanos assinaram o Tratado

9 “[...] as we have just shown, the international personality of the United Nations is firmly established in

internationa1 law, not only by the Charter provisions as a whole, but also by State practice on the part of those Member and non-member States. I should now like to demonstrate that this personality carries with it the capacity necessary for the fulfilment of its purposes and the exercise of its functions from a procedural standpoint.”

Geral de Paz e de Amizade, a Convenção Adicional ao Tratado Geral, a Convenção criando a Corte de Justiça Centro-Americana e mais seis acordos. De acordo com Sorto, a CJCA foi o primeiro organismo com jurisdição tão ampla quanto a jurisdição dos tribunais domésticos, ao contrário da Corte Internacional de Justiça da Haia (CIJ), cuja competência está cerceada pela vontade dos Estados. (SORTO, 1999, p. 293).

A CJCA trouxe grande avanço à percepção da pessoa humana como sujeito de direito internacional porque permitia, segundo sua competência, demandas de cidadãos centro- americanos contra os governos dos Estados-partes, diante do esgotamento das instâncias internas ou da negativa de justiça pelo governo demandado. Competia também à Corte julgar as demandas não resolvidas pelas chancelarias dos Estados interessados. Ainda que a existência da Corte de Justiça Centro-Americana tenha sido bastante breve, em 1913 a demanda ajuizada pelo nicaraguense Alejandro Bermúdez Núñez contra a Costa Rica tramitou até o fim (SORTO, 1999, p. 308-313). Sem dúvida, a CJCA foi pioneira ao dar acesso jurisdicional à pessoa humana.

A centralidade da pessoa humana na ordem internacional, consubstanciada na atribuição de personalidade jurídica de DIP, foi analisada por Sorto na pesquisa acerca da condição da pessoa humana no Projeto de Código de Direito Internacional Público de Epitácio Pessoa, elaborado em 1911. Para Sorto, o autor do projeto alinhou-se à percepção clássica da posição dos Estados como únicos sujeitos de direito internacional e deixou de lado avanços já percebidos à época. Em 1911, ano da elaboração do projeto, a Corte de Justiça Centro- Americana já operava (1907-1918), e sua jurisprudência reconhecia a pessoa humana como sujeito de direito internacional, permitindo que figurasse como parte nas ações. Ações que poderiam ser ajuizadas por ela contra seu Estado de nacionalidade. (SORTO, 2013, p. 145- 146).

Outro avanço foram as contribuições de doutrinadores como Pasquale Fiore, que considerava sujeito de direito internacional todo ser ou instituição com individualidade criada por seu próprio direito e atuante no mundo (FIORE apud SORTO, 2013, p. 141-142). Outros autores se alinham com Fiore e Sorto, como Alejandro Álvarez, Hildebrando Accioly, Haroldo Valladão e Cançado Trindade. O Estado não deve ser compreendido com um fim em si mesmo, mas uma estrutura criada por pessoas, cuja existência só se legitima na busca pela proteção destas. Logo, a pessoa humana não pode estar submissa à vontade do Estado, e o

direito internacional tampouco deve estar baseado unicamente na vontade dos Estados. Para Francisco de Vitoria, um dos fundadores do direito internacional, em De Indis (capítulos VI e VII), o direito internacional regula uma sociedade internacional composta por seres humanos organizados socialmente em Estados. Além disso, as reparações das violações aos direitos humanos caracterizam uma necessidade internacional alcançada pelo direito internacional com os mesmos princípios de justiça aplicados tanto aos Estados quanto às pessoas. O direito das gentes é direito para todos, pessoas e Estados. (VITORIA apud TRINDADE, 2014, p. 253).

A atuação da pessoa humana é imprescindível para a concretização dos direitos humanos porque configura a essência do conceito comum de direitos humanos, desenvolvido no decorrer desta pesquisa. A criação de tribunais internacionais marca bem esta transformação. Além da experiência da Corte de Justiça Centro-Americana no que toca à participação da pessoa humana, atualmente é possível mencionar a Corte Europeia de Direitos Humanos, a Corte Interamericana de Direitos Humanos e o Tribunal Penal Internacional. Cada um representa, com sua sistemática própria, um espaço de atuação da pessoa humana na ordem internacional, seja na qualidade de demandante (Corte Europeia de Direitos Humanos e – indiretamente – a Corte Interamericana de Direitos Humanos), seja na qualidade de demandado (Tribunal Penal Internacional, nos casos de crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crime de genocídio). Acrescente-se, ainda, a recente prática do Conselho de Segurança, reconhecida pela Corte Internacional de Justiça, de criar obrigações a entidades não-estatais, inclusive indivíduos (PARLETT, 2010, p. 298), bem como o Protocolo Facultativo do Pacto de Direitos Civis e Políticos que viabiliza, por meio do consentimento do Estado demandado, o acesso da pessoa humana vítima de violações de direitos humanos à Corte Internacional de Justiça.

A personalidade jurídica nacional e a internacional são atributos do ser humano, pois o direito internacional tem base na prevalência dos direitos humanos e, consequentemente, apoia-se na centralidade da pessoa humana. Aliás, as “[...] personificações jurídicas de outras realidades que não o homem individual devem a êste a sua existência e só por êste se justificam como metos para a sua realização” (BOSON, 1951, p. 37). Os direitos humanos comuns, a primazia dos direitos humanos e todas as demais normas de ius cogens ultrapassam a figura dos Estados e se lançam diretamente à atuação e à proteção das pessoas. Se argumentos contra a personalidade internacional da pessoa humana ainda são sustentados é

porque ainda há apego retrógrado à soberania absoluta dos Estados. A prática não anda em sincronia com a proteção dos direitos humanos. Isso demanda pesquisa do nível de participação da pessoa humana nos tribunais de direitos humanos em vigor, sob a perspectiva crítica da prevalência dos direitos humanos.