A associação entre estudos de gêneros discursivos e estudos de letramento ocorre na medida em que desconheço os efeitos do processo de escolarização nas vidas das mulheres. Reconheço que a educação transforma a vida de um coletivo, como afirma Freire (1967), e reconheço que as transformações nas vidas das mulheres podem resultar em significativas transformações sociais ainda pouco exploradas.
Em resumo, considerei três aspectos como relevantes:
a) os gêneros discursivos estão disponíveis na sociedade e podem ser acessados por qualquer gênero social;
b) o acesso ao gênero discursivo está relacionado com disputa de poder;
c) o letramento acadêmico de mulheres (brancas e negras) tem relação com duas questões de poder. A primeira é a de que as mulheres passam a ter a possibilidade de ser reconhecidas como sujeitos de inteligência (atributo específico de homens na sociedade tradicional; às mulheres cabia a astúcia). A segunda é de ascensão e empoderamento, em especial, das mulheres negras.
A pesquisa que realizo sobre gênero social, utilizando a Análise de Discurso Crítica como teoria e método tem o intuito de se colocar como apenas mais um
elemento colaborador para a reflexão do gênero social e o acesso à educação de ensino superior.
As categorias textuais analíticas se limitaram apenas no significado ideacional, à modalidade e avaliação. Optei por essas duas categorias para, no resgate do estilo das entrevistadas, elaborar uma análise das identidades reveladas em seus coletivos. Aliás, interessa mais que as marcas confluam para identidades de grupos do que a busca por idiossincrasias.
Trato de três gerações de mulheres que passaram pelo processo de letramento, contudo, apenas as mulheres brancas que foram entrevistadas tiveram a oportunidade de vivenciar essa experiência. Neste caso, trabalho com grupos de gerações: a geração 1 (G1), das avós; a geração 2 (G2), das mães; e a geração 3 (G3) das filhas. E relação às mulheres negras, estou trabalhando num agrupamento de classe social.
No quarto capítulo, tratarei do conceito de letramento e de letramento crítico, a partir de Street (2012), bem como trago uma reflexão sobre os gêneros discursivos a partir de Bakthin ([1953], 2011) e Fairclough ([1992] 2001).
4 LETRAMENTOS E GÊNEROS DISCURSIVOS
“A linguagem considerada como discurso ou prática social constitui as identidades sociais, inclusive as identidades de gênero. Todavia, não se trata de identidades fixas, [...] é preciso investigar a linguagem em processos históricos, dinâmicos, por um lado, sua relação com a prática social passada e, por outro, o papel que exerce na transformação social”
(MAGALHÃES) Minha experiência como professora de produção textual e pesquisa acadêmica em instituições de ensino superior pública e privada por mais de quatorze anos me permite dizer que a maior dificuldade que tenho encontrado na comunidade acadêmica52 é a insegurança dos/as alunos/as em realizar a leitura de textos acadêmicos.
Acostumados ao estudo das escolas literárias no Ensino Fundamental e Médio, e mais recentemente de um ou outro gênero textual presente em seu cotidiano, o/a aluno/a entra na universidade desconhecedor/a de estratégias de leitura para o texto científico/acadêmico, como comenta Astromélia, em seu depoimento:
[Entrevista 1 – fragmento 3 – Astromélia]
No Direito são aulas extremamente impositivas, são aulas, que não têm//que têm pouquíssimos recursos, né? De visual e:: isso acaba prejudicando por quê? Porque são conteúdos BASTANTE DISTANTE do nosso cotidiano. Então, assim, eu PRINCIPALMENTE tive ALGUMAS dificuldades. Eu tranquei um semestre, pra poder estudar, pra poder me adaptar ao Direito, pra poder conseguir vencer no Direito, pra entender o que o professor diz. Porque é distante da realidade. O professor fala milhares de termos que não fazem o mínimo sentido pra você, que uma pessoa comum, no dia a dia, não vai saber.
Há ainda um outro percentual de alunos que desconhece a prática da pesquisa e espera que a formação se limite a uma preparação técnica para o mercado de trabalho. Sem reflexão teórica, sem leitura, sem produção de textos acadêmicos. Se as
52 Os termos “comunidade acadêmica” e “comunidade discursiva” serão, assim como em MOTTA- ROTH (1998, p. 94) “sem definição rígida de seu conceito, mas unicamente para fazer referência às normas e convenções de um grupo em relação ao discurso escrito [...]”
universidades privadas (não responsáveis pela realização de pesquisa) se limitarem a ser uma versão melhorada das antigas escolas técnicas, certamente o ensino superior brasileiro pode caminha para o fracasso absoluto, uma vez que mais de dois terços das IES brasileiras são particulares.
A LDB é um documento que ao mesmo tempo que apresenta diretrizes para o Ensino Superior no Brasil, também defende a pesquisa nessas mesmas instituições, “Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano[...]” (BRASIL/LDB, 1996). Se a pesquisa é uma prática no cotidiano do/a professor/a universitário/a, e se também são criadas as condições adequadas para que também seja uma prática no cotidiano dos/as alunos/as, então o fluxo de gêneros acadêmicos que têm grande volume de informação e que solicitam de seu produtor também será intenso e necessário. Como ter acesso a esses gêneros? Basta estar na faculdade? E tendo acesso a eles, como saber retirar – da melhor forma possível – a informação que ele apresenta? Como o ensino superior se coloca como mediador nos processos de letramento? E dominando esse letramento essas mulheres se colocam em posição de disputa dentro do espaço acadêmico?
No item 4.1, trato do conceito de letramento e no item 4.2 do conceito de gênero, mas antes vale apresentar que a pesquisa trabalha com os conceitos de letramento acadêmico e de gênero discursivo acadêmico. Essa especificação é necessária porque entendo que nem todos os processos de letramento que ocorrem na academia são acadêmicos, e, da mesma forma, nem todos os textos produzidos na academia são acadêmicos. Como veremos na Parte C da pesquisa, algumas mulheres passaram a dominar o gênero seminário e o gênero artigo não pela mediação de professores/as, mas pelas experiências paralelas que tiveram nos centros acadêmicos, em grupos de leitura, como ocorre com Rosa G2 e Tulipa G2 (ver Tabela 4).
A academia, em decorrência da política de financiamento de bolsas, impõe a lógica do “publique ou pereça”. Segundo Motta-Roth (2001, p.11), é a quantidade de publicação que qualifica a produtividade intelectual, “Embora pesquisadores de diferentes áreas questionem o valor de uma política de publicação pautada na quantidade em detrimento de uma análise mais atenta da qualidade”. Isso abre um questionamento não só sobre a qualidade dos trabalhos escritos pelos pesquisadores, mas um questionamento sobre que gêneros são estudados no espaço acadêmico e como os alunos e alunas se apropriam desse saber.
Souza e Bassetto (2014), a partir de sua pesquisa realizada com 22 alunos do 4 ano do curso de Licenciatura em Letras, de uma faculdade pública de um estado da região Sudeste, apresentaram uma tabela com os gêneros textuais mais lidos e mais produzidos (ver Tabela 3).
Tabela 3 – Pesquisa comparativa sobre gêneros lidos e gêneros escritos por alunos de Letras TABELA 1 - Gêneros textuais lidos e produzidos pelos alunos durante
o curso de graduação em Letras
Gêneros textuais lidos pelos alunos no Gêneros textuais escritos pelos
alunos no
1 Resenhas 22 Fichamentos 22
2 Livros Teóricos 22 Resenhas 21
3 Artigos Científicos 19 Resumos 20
4 Resumos 17 Monografias 17
5 Fichamentos 16 Projetos de Iniciação Científica (IC) 10
6 Monografias 14 Artigos Científicos 06
7 Dissertação [sic] 11
8 Projeto de IC 10
9 Tese 08
Fonte: SOUSA; BASSETTO, 2014, p. 91
A pesquisa indica a relação com um considerável número de gêneros próprios da comunidade acadêmica. No entanto, como a pesquisa constata, apesar de um grande número de alunos ter a possibilidade de realizar a leitura de artigos científicos, apenas um número muito pequeno é produtor do mesmo gênero. Isso implica que ter acesso por meio da leitura não cria as condições para que os alunos produzam pesquisa.
[…] no contexto de ensino e pesquisa em terceiro grau, o entendimento dos gêneros, categorias e valores com os quais as várias disciplinas trabalham em torno do seu objeto de estudo é condição para se saber o que pode ou deve ser dito na disciplina (Kuhn, 1970). Nesse caso, a produção textual tem o papel primordial de formular representação de uma dada “realidade” significante para o conjunto da área, ou seja, o papel de possibilitar a formulação de um conjunto de significados socialmente compartilhados pelos membros de disciplinas específicas (Lopes & Dulac, 1998: 35). Assim, é no processo dialógico entre os pares da disciplina que se produz o processo cognitivo, que vem a ser legitimado quando posto publicamente na forma da sua escrita (MOTTA-ROTH, 1998, p. 95).
A publicação é uma forma de diálogo entre pares, uma forma de interação entre membros da comunidade acadêmica, respeitando regras e convenções, isto está posto, mas a interação reativa não tem gerado motivação suficiente para que alunos/as-
pesquisadores/as escrevam esse tipo de texto.
Estou diante de três questões: a) a universidade tem um conjunto de gêneros próprios da sua prática social e o aluno pode ou não vir a conhece-los; b) a universidade possibilita o acesso ao gênero, mas não cria estratégias de letramento capazes de motivar a leitura e a produção de textos; c) o tratamento dado a homens e mulheres em relação aos gêneros acadêmicos é diferenciado (e esse aspecto merece atenção em uma nova pesquisa onde se passa comparar dados de homens e mulheres, brancos e negros). Dessas questões, não é possível tratar do processo de diferenciação de tratamento, uma vez que só levantei dados em relação ao coletivo de mulheres, mas é possível descrever, a partir das narrativas dessas mulheres, como elas percebem esse estímulo.
Faço um parêntese, contudo, para observar que estudos complexos, como os desenvolvidos por Moss (2007), dedicam-se a compreender a relação entre letramento e gênero social. Pesquisadora, em resposta ao baixo desempenho que alunos do sexo masculino apresentavam no Reino Unido, EUA, Canadá e Austrália, desenvolveu uma pesquisa que relaciona gênero (social), letramento e sucesso escolar. Ela compreende que gênero e letramento se entrelaçam quando meninos e meninas estão em processo de aprendizagem, e esses saberes apresentam-se como significativos nas disputas de micropoder que definem as posições sociais com base na evidência das hierarquias das habilidades. O fracasso dos meninos ocorreria pelo distanciamento do currículo das escolas à sua forma de perceber, de pensar o mundo, quando valoriza mais textos literários, que seriam mais significativos (considerando seu contexto de análise) para as meninas. Ela pergunta: “[...] é inclusiva a compreensão do desenvolvimento das práticas de letramento na escola?” (MOSS, 2007, p. 60). Dada a relevância de seu questionamento, trago essa mesma questão a esta pesquisa: “é inclusiva a compreensão do desenvolvimento das práticas de letramento” nas instituições de ensino superior?
Entendo que a relação entre letramentos e gêneros discursivos, assim como se apresenta, parece ser indissociável. Assim, ao mesmo tempo que valorizo o trabalho desenvolvido por Moss (2007), reforço a necessidade de realizar este estudo numa perspectiva feminista, analisado as experiências das mulheres. Segundo Jane Felipe (2007, p. 78),
Nas três últimas décadas, o conceito de gênero ganhou considerável visibilidade no meio acadêmico, bem como nos movimentos sociais, nas organizações não governamentais, na militância político-partidária, ocupando um espaço importante nas políticas públicas. Várias iniciativas têm sido tomadas no sentido de promover a igualdade de gênero e os direitos sexuais das chamadas minorias.
Os estudos feministas sobre gênero social têm colaborado de forma significativa para a ampliação de estudos que relacionam linguagem e gênero social ou discurso e gênero social, ampliando o debate em diferentes esferas sociais. A presente pesquisa relaciona gênero social, letramento, gênero discursivo e análise de discurso crítica. Demonstrando, assim, que a academia dialoga de forma interdisciplinar e integrada, porque – por exemplo, neste estudo – está preocupada em as questões de gênero, de letramento, de gênero discursivo, quando ao mesmo tempo dialoga para fora da universidade: com Ongs e com o movimento de mulheres. Essas vozes também precisam ser ouvidas.
Neste capítulo, tratarei do conceito de letramento e do conceito de gênero discursivo, para abordar sobre o letramento acadêmico como um processo de empoderamento das mulheres.