O primeiro aspecto diz respeito à forma de (inter) agir em eventos sociais. Para Fairclough (2003), os gêneros discursivos são definidos pelas práticas sociais e pela maneira em que elas estão socialmente enredadas, relacionadas.
[...] as sociedades modernas desenvolveram práticas que são altamente complexas em suas formas e relações sociais de produção e nas redes de práticas que elas adentram e que atraem cada vez mais teorias especializadas em sua reflexividade. Elas são frequentemente organizadas cruzando grandes distâncias de tempo e espaço – globalizado – e dependem de sofisticadas tecnologias de mediação. Práticas cotidianas face-a-face são cada vez mais dependentes (ou deveríamos dizer “cada vez mais colonizadas por”) dessas essas práticas complexas, ao mesmo tempo em que se apropriam delas (CHOULIARACHI; FAIRCLOUGH, [1999] 2007, p. 41 – 42)65
65 In Chaper 2 we claimed that modern societies have developed pratices which are highly complex in
their forms and social relations of production, and in the networks of pratices they enter into, and which draw increasingly upon specialised theories in their reflexivity. They are often organised across great distances of time and space – ‘globalised’ – and depend upon sophisticated Technologies of
As relações entre discurso e poder sempre existiram, mas para Chouliarachi e Fairclough ([1999] 2007) elas se apresentam de outra forma com as significativas mudanças nas práticas sociais ocorridas com a modernidade. Especificamente em relação à alfabetização, Chouliarachi e Fairclough apresentam quatro diferenças nas relações com uso de textos orais (que chamam de “discurso face-a-face”) e textos escritos.
Primeiro, a escrita é a espacialização do discurso falado que transforma o desenrolar da interação no tempo: o “meio” ou o “fim” de uma conversa é um ponto no tempo, o “meio” ou o “fim” de uma carta é uma posição no espaço. Com o escrever, a categoria “texto” entra no discurso. Segundo, textos tais como uma troca de cartas podem ser mantidos como um registro permanente, enquanto nos tempos pré-eletrônicos não havia meios de preservar uma conversação. Terceiro, escrever (e ler) requer capacidades especiais que são difíceis de adquirir, produzindo uma divisão entre aqueles que são literatos e os que não são. Quarto, escrever torna possível um aumento no distanciamento tempo-espaço (CHOULIARACHI; FAIRCLOUGH, [1999] 2007), p. 42)66
Quando esse livro foi escrito, ainda não existiam os aplicativos eletrônicos de voz, similares aos e-mails, que permitiam o envio de mensagens em formato de áudio. Entendo que o termo texto pode se referir a registros orais ou escritos. Considerado isso, é possível repensar a primeira diferença, não da mesma forma que um texto, mas é possível espaço-temporalizar um áudio. Usando a tecnologia adequada o meio ou o fim também será uma posição no espaço-tempo.
A relação entre textos orais e textos escritos relaciona-se com o conceito de gênero primário proposto por Bakhtin ([1929] 2006; [1953] 2011), que diferencia os gêneros primários e secundários da seguinte forma:
mediation. Ordinary face-to-face pratices are increasingly dependente upon (we might say ‘colonised by’) these complex modern practices, as well as appropriating them.
66 First, writing is a spatialisation of spoken discourse which transforms the unfolding of interaction in
time: the ‘middle’ or ‘end’ of a letter is a position in space. With writing, the category of ‘text’ enters discours. Second, texts such as na Exchange of letters can be kept as permanent record, whereas in pre-eletronic times there was no way of preserving a conversation. Third, writing (and reading) requires special skills which are difficult to acquire, producing a division between those who are literate and those qho are not. Fourth, writing makes possible na increase in time-space distantiation
Aqui é de especial importância atentar para a diferença essencial entre os gêneros primários (simples) e secundários (complexos) – Não se trata de uma diferença funcional. Os gêneros discursivos secundários (complexos – romances, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicísticos [sic], etc.) surgem em condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) – artístico, científico, sociopolítico. No processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples) que se formam nas condições de comunicação discursiva imediata (BAKTHIN, [1953] 2011, p.263).
Entendo que todo o conjunto de realizações linguísticas relativamente estáveis e socialmente negociadas passa também por definições de práticas sociais, regras de polidez, aspectos culturais tanto em textos orais quanto em textos escritos. Os/as atores/atoras sociais que produzem esses textos não são, para Fairclough (2003), livres, mas apesar de haver limites sociais as suas ações não estão previamente determinadas.
A distinção entre gêneros primários e secundários proposta por Bakhtin ([1953] 2011) aproxima-se da percepção de letramento autônomo, que privilegia o texto escrito em detrimento ao oral. Ou seja, textos orais, de comunicação imediata, não teriam sob esse olhar a capacidade de desenvolver graus elevados de complexidade. Por outro lado, os gêneros secundários se valeriam da fragilidade desses gêneros primários para a formação de novas estruturas, como se o processo de hibridização, hoje cada vez mais frequente, não dispusesse de toda ordem de associações entre gêneros. Entretanto, cabe notar que a ordem do discurso controla o processo de hibridização, assim como a hierarquia entre os gêneros discursivos (FAIRCLOUGH, 2010).
Nesse momento que tratamos das formas como os gêneros se relacionam entre si, é importante fazer a distinção do conceito de cadeia proposto por Bakhtin ([1953] 2011) e o conceito de cadeia proposto por Swales (2004). No primeiro autor, os enunciados estão naturalmente interligados. Essas conexões podem ocorrer como respostas diretas e imediatas ou como respostas indiretas. Por exemplo, uma peça publicitária direcionada para o seu público alvo pode ter uma resposta imediata do seu público com o aceite ou a recusa. É nesse sentido que Bakhtin o termo com cadeia de comunicação verbal numa perspectiva dialógica, de responsividade.
Swales (2004) considera uma relação de conexão, de dependência até da produção de um texto para o outro, como ocorre nas produções de: a) um email convidando para a publicação de um artigo no jornal; b) um email resposta concordando; c) o envio do texto para quem fez o convite; d) a publicação do artigo de opinião. Se uma etapa for suprimida, é possível que o texto que está em negociação (o artigo de
opinião) não venha a ser publicado no jornal). Assim, quando trato de cadeia, comparo a perspectiva de Swales (2004) com a de Fairclough ([1992] 20001).
Estou tratando, sim, de uma relação de um conjunto de formas usuais comuns a uma comunidade que, mesmo de esferas discursivas diferentes, compõem uma constelação de rede de gêneros67. O que entendendo da proposta de Fairclough (2003) é
que uma comunidade de mulheres rendeiras pode, por exemplo, em um encontro fazer uso de cantigas, relatos pessoais, avaliações coletivas, registros escritos. Esses gêneros podem compor o encontro de um mesmo tema, mas eles podem variar no gênero. Esses textos não são solicitados por outros, mas qualquer integrante da comunidade consegue perceber a relação temática existente entre eles, a isso chamo constelação.
Reconheço, assim como Fairclough ([1999] 2001), não ser possível definir de um modo rígido a quantidade e os aspectos linguísticos e sociais dos gêneros. Essa flexibilidade impõe a qualquer apresentação de definições uma postura cautelosa para que não criemos um sistema fechado de identificação do que é ou não um gênero ou uma cadeia de gênero. Essa amplitude no olhar faz-se necessária para conseguir dialogar com a complexidade e a diversidade do tema. É com essa postura que recupero os conceitos de “cadeias intertextuais” ([1992] 2001) e “cadeia de gênero” (2003) na obra de Fairclough .
Fairclough ([1992] 2001, p.166) atribui como primeiro nome “cadeias intertextuais” particulares que seriam “séries de tipos de textos que são transformacionalmente relacionados umas às outras no sentido de que cada membro das séries é transformado em um outro ou mais, de forma regular e previsível”. Para o teórico, “essas cadeias são sequenciais ou sintagmáticas, em contraste com as relações intertextuais paradigmáticas” (idem). Os elementos das relações paradigmáticas, compreendidos por ele como da ordem do discurso, são muito diversos, sendo uma difícil tarefa a identificação de qual deles está em questão no momento da análise (discurso, estilo, gênero, etc) (idem, p.160). Para fora do texto, é estabelecida a relação sintagmática, um texto funcionando como um elo numa cadeia em que são consideradas a produção, a distribuição e o consumo de textos.
Fairclough acredita que seja limitada a quantidade de cadeias reais. A relação entre as práticas sociais e as instituições têm regras específicas, o que limitaria a possibilidade de formação de novas cadeias. Por outro lado, defende a sua
67 Explicarei adiante como compreendo constelação de rede de gêneros e constelação de cadeia de gêneros.
complexidade:
[...] os diferentes tipos de textos variam radicalmente quanto ao tipo de redes de distribuição e cadeias intertextuais em que eles entram, e, portanto, quanto aos tipos de transformação que eles sofrem ([1999] 2001, p.167).
São fluxos complexos os desenvolvidos por atividades mais elaboradas que envolvem diferentes campos da comunicação. Um texto produzido por um político de grande importância, por exemplo, pode gerar a criação de uma cadeia discursiva com a formulação de diferentes gêneros no jornal, no teatro, no cotidiano das pessoas (comunicação oral).
Em estudo posterior, Fairclough (2003) abandona o termo “cadeia intertextual” e opta pelo termo “cadeia de gênero”:
Cadeias de gênero são particularmente importantes: elas são diferentes gêneros que são regularmente relacionados a outros, envolvendo transformações sistemáticas de gênero para gênero. Cadeias de gênero contribuem para a possibilidade de ações que transcendam diferenças de espaço e de tempo, relacionando eventos sociais em diferentes práticas sociais, diferentes países e diferentes tempos, facilitando o aumento na capacidade de 'ações à distância', o que é tomado como um aspecto definidor da 'globalização' contemporânea e facilitando assim o exercício do poder (FAIRCLOUGH, 2003, p. 31).68
As mudanças conceituais que identifico podem ser resumidas à substituição de “texto”, por “gênero”, quando afirma na primeira definição que “os diferentes tipos de textos variam radicalmente” ([1992] 2001, p. 167) e na segunda “diferentes gêneros que são regularmente relacionados a outros” (2003, p. 31). A sua segunda classificação opta por valorizar a cadeia em si, mencionando o tempo e o espaço, não apenas o processo de distribuição.
Outro aspecto relevante apresentado em Fairclough (2003, p.127) é o de que textos que fazem parte de uma mesma cadeia – de uma mesma prática social – podem diferir em relação aos discursos.
Entendo que a diferença fundamental entre cadeia e constelação é que a cadeia solicita etapas ou sequência, portanto previsíveis, mas a constelação se apresenta de
68 'Genre chains' are of particular significance: these are different genres which are regularly linked together, involving systematic transformations from genre to genre [grifo nosso]. Genre Chains contribute to the possibility of actions which trascend differences in space and time, linking together social events in different social practices, different countries, and different times, facilitating the enhanced capacity for 'action at a distance' white has been taken to be defining feature of contemporary 'globalization', and there facilitating the exercise of power.
forma aleatória sendo conectada pela interdiscursividade ou pelo propósito comunicativo.
Um exemplo de uma constelação elaborada pelas mulheres entrevistadas nessa pesquisa por de ser elaborado a partir do tema descolonização. Podemos constelar o diálogo que Glicínia estabeleceu com o seu professor, com o evento organizado por Consolida G3b, com as falas políticas de Bromélia, no movimento estudantil. Em diferentes espaços, de diferentes formas essas disputas estão sendo realizadas pelas mulheres por meio de gêneros diferentes, mas todos eles incidem num mesmo propósito: repensar a relação colonizadora de educação de uma instituição de ensino pública com suas alunas negras.
O agrupamento de textos de uma constelação é mais amplo e mais complexo do que o agrupamento de textos de uma determinada cadeia. Estou usando o termo texto, porque me limito, nesse momento, ao material linguístico, rastro/produto da interação. Entendo que os textos de uma constelação, pela amplitude dos gêneros envolvidos, tornam mais ampla a possibilidade de organização constelar do que o agrupamento de textos por meio de uma cadeia de gêneros.