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A primeira geração nasceu no final da primeira fase histórica do feminismo “das lutas pela igualdade”, entre as décadas de 1930 e 1940 (Lírio 85; Orquídea 70; Rosa 75 anos e Tulipa 64 anos). Suas filhas nasceram na segunda fase do feminismo, a “fase das diferenças”, entre os anos 1960 e 1970 (Lírio 55; Orquídea 45; Rosa 54; e Tulipa 41 anos ). As netas, por sua vez, nasceram entre o final da segunda fase e o início da terceira, a chamada “fase da pós-modernidade” (Lírio 28; Orquídea 19; Rosa 25 anos e Tulipa 19 anos).

Três tempos históricos muito significativos para a história das mulheres brasileiras. No primeiro, a privação. O início ao acesso aos direitos mais elementares, como votar. A tímida entrada no ensino superior, tanto que considerei famílias cujas avós tivessem feito o Normal ou Pedagógico, mesmo que a busca fosse prioritariamente por núcleos familiares em que as três gerações tivessem acesso a instituições de ensino superior.

Realizei conversas não gravadas com algumas das mulheres desses segmentos: Lírio G3, Rosa G3, Rosa G2 e Orquídea G2. Depois de algumas trocas de informações e de certa familiaridade com a pesquisa, solicitei a permissão para entrar em contato com as demais familiares, para a entrevista coletiva. A primeira entrevista realizada foi com a da família da Rosa, ocorrendo depois com os outros GF.

A conversa com as três mulheres da família Lírio foi a mais fácil de ser agendada e realizada. Tão logo solicitei a entrevista, elas aceitaram e marcaram na casa da senhora Lírio G2, logo depois do almoço. Assim, pude conversar informalmente com as três gerações de mulheres. Era uma tarde quente de um dia de semana. A jovem Lírio G3 estava envolvida entre trabalho e atividades da faculdade e a Sra. Lírio G2, apesar das responsabilidades, foi muito afável. Em um condomínio fechado, as três moravam muito perto uma da outra. Mãe e neta demonstravam, antes mesmo da entrevista, uma admiração muito grande pela avó que, como descreviam, não parava de querer aprender. Ela realiza atividades chamada de “ginástica cerebral”, além das atividades físicas regulares.

Ao narrar a história das filhas, ela demonstrava não querer tratar do tempo perdido. Parecia ser natural o processo de letramento familiar, as crianças aprendiam a ler com a família – ou com uma professora particular - ainda antes mesmo de ir para a escola.

[Entrevista 2 – fragmento 1 – Lírio G1]

Não, não precisou nãoporque// as minhas filhas// o meu esposo era juiz e a gente passou um tempo no interior[modalidade epistêmica - declaração afirmativa]// e elas começaram a

estudar com sete anos[modalidade epistêmica - declaração afirmativa], porque ele disse que não queria

botar elas [pra estudar] no interior [avaliação]. Mas a G2a e a G2b foram para o Colégio

7 de Setembro e no primeiro ano o doutor Edilson me chamou e queria botar a G2a e a G2b em outro grau... eeemmm […] ai eu disse não, bote só a mais velha e a outra fica [...]

Como Lírio G1 citou, a educação formal (escolar) só começou aos sete anos, mas as filhas já estavam familiarizadas com outras experiências de letramento. Assim como Vasconcelos (2007) descreve sobre “educação doméstica”, o primeiro contato com o texto ocorria dentro da própria casa, com a mãe ou com a professora contratada. Como o marido de Lírio G1 era juiz, naquela época, não havia o desejo, expresso pelo verbo “querer” na sentença avaliativa (destaque em cinza), de que as filhas saíssem de casa cedo. É possível inferir que um juiz, estando temporariamente num município do interior, não desejasse que a educação de suas filhas fosse afetada pelo contato com outras crianças de outras classes sociais.

No segmento destacado “o meu esposo era juiz e a gente passou um tempo no interior”, ao mesmo tempo em que há a descrição do cargo do marido e da situação de transitoriedade de estada de famílias de juízes, há também a possibilidade de indicar que no interior não é necessário (ou não seria o local mais adequado para) ter acesso ao saber. A informação subsequente, de que matriculou as filhas no Colégio 7 de Setembro83 e de que a direção sugeriu que avançassem uma turma, sugere que buscava

ensino de qualidade e que suas filhas, filhas de um juiz, estavam à altura desse ensino. Lírio G1 não fez o ensino superior, fez o normal com muita alegria e orgulho:

[Entrevista 2 – fragmento 2 – Lírio G1]

Aí eu fiz a Escola Doméstica São Rafael84[modalidade epistêmica]... Não sei se você conhece...

83 O Colégio 7 de Setembro está entre as cinco escolas particulares mais importantes da cidade de

Fortaleza, sendo considerada uma escola tradicional.

84 A Escola Doméstica São Rafael foi, baseada nos preceitos cristãos, uma escola somente para o ensino de mulheres. Lá, as moças aprendiam a coser, a cozinhar, além de boas maneiras.

e tinha muita...// gostava muito daquele//daquelas irmãs... ”[modalidade epistêmica – avaliação explícita]// papai me chamava “barata de sacristia”[modalidade epistêmica – avaliação implícita] [riso]

porque eu comungava sexta, sábado e domingo... E eu tinha a intenção de ser freira, mas depois a vida vai passando[modalidade epistêmica] e a gente... MAS com meus estudos,

toda vida eu tinha muito boa vontade [avaliação explícita]. É tanto que o meu professor dizia:

“Você vai vencer na vida sem precisar da ajuda de ninguém[avaliação implícita]”

Apesar de estar tratando do seu processo de educação, o tema principal parece ser a sua relação com a igreja, até porque as escolas eram cristãs, ou católicas, e as jovens eram educadas respeitando os princípios do catolicismo. O seu processo de escolarização ocorreu entre os anos 1960 e 1970, mas já se distingue de outras experiências. Como Silva (2014) afirma, a relação entre educação e religião está presente na história da educação das mulheres da elite brasileira. As mulheres eram preparadas para serem rainhas do lar e nesta concepção, bastava-lhes saber as “prendas” do lar e ser uma boa católica.

As narrativas da educação e da religiosidade se interconectam. O pai a avalia como “barata de sacristia” (Ex.: papai me chamava “barata de sacristia”[modalidade epistêmica – avaliação implícita]) dada a intensidade de sua frequência à igreja. Mais do que

católica, mais do que beata, ele a considerava uma “barata de sacristia”, como uma “velha carola”, aquela que tem intensa paixão por uma ideia, sentimento ou religião, um fanático. Essa avaliação é percebida por ela como um elogio, ela ri e acolhe as palavras do pai. Até porque, àquela época, não queria ser professora, médica ou engenheira, queria ser freira. No enunciado “eu tinha a intenção de ser freira, mas depois a vida vai passando[modalidade epistêmica]” a ausência de objetividade na oração coordenada adversativa

demonstra baixo grau de comprometimento com o enunciado, como um desejo não explicitado de revelar o motivo que a afastou de tanta devoção.

Lírio G1 valorizava a relação que tinha com os estudos, sua dedicação é expressa por meio do advérbio “muita” e do adjetivo “boa” com meus estudos, toda vida, eu tinha muito boa vontade [avaliação explícita]. Ela demonstra interesse em ter uma formação

de ensino superior:

[Entrevista 2 – fragmento 3 – Lírio G1]

Eu fiz o segundo grau [modalidade epistêmica – declaração], queria me formar. Ainda pensei em

As três declarações “Eu fiz o segundo grau”, “[Eu] queria me formar” e “Eu pensei em fazer faculdade” são apresentadas na ordem da realização, do desejo. O que ela fez foi o que desejava fazer [o normal], o que ele não fez [a graduação] só ficou no plano das ideias, como uma possibilidade de realização.

Segundo Lírio G2, Lírio G1 recomeçara os estudos há seis anos, com professora particular em casa, para terminar o Ensino Médio por meio de Supletivo. Mas os relatos de valorização de estudos estão por toda a nossa conversa.

[Entrevista 2 – fragmento 4 – Lírio G1]

“Não tenho do que me arrepender da vida[modalidade epistêmica - declaração] […] Eu faço um

bocado de cursos, não sei se você conhece a faculdade Sem Fronteiras... Aqueles cursos TODOS eu fiz/DANÇA de salão... e aqueles... ouse SER VOCÊ MESMO[modalidade deôntica - exigência]... tem um bocado de curso lá que...// PINTURA... que a gente não pode

parar, né?

Cria-se uma expectativa de que a senhora Lírio G1 se conforma com a “[...] condição de mulher” do seu tempo histórico, mas ela é inquieta, curiosa, incansável. Ela […] não se satisfaz com pequenas doses de instrução” (LOURO, 2009, p.446). Essa impressão equivocada se dá pelas escolhas do casamento e pela descrição da relação com o marido e com o estudo, contudo ela declara que não se arrepende dessas escolhas, como se tivessem sido escolhas necessárias para que outras escolhas mais felizes pudessem também ser realizadas, como dos seus muito cursos. Assim, ela não se adequa à identidade coletiva tradicional de seu tempo. Aos 85 anos, deseja que a sua vida seja cheia de coisas novas, quer aprender sempre mais, que ver o mundo, o Fortal, o carnaval, as festas que puder. Isso não excluí o desejo de ver suas filhas e neta com formação universitária e realizadas profissionalmente.

Nesse fragmento de narrativa, o que surpreende é o seu conselho “Ouse ser você mesmo”, que surge inesperadamente em meio a outros assuntos. De modalidade deôntica, a ordem retoma a primeira ideia, de que ela foi ela mesma e não se arrepende de ter realizado as escolhas que realizou. O verbo ousar propõe uma ruptura com padrões estabelecidos, sendo ela mesma, poderia ser aquilo que a sua condição social e racial também possibilitava, ser uma mulher branca e rica com acesso à educação. E o acesso à educação possibilita acesso a outros espaços sociais.

O discurso de emancipação, independência, autonomia era do casal G3 [Lírio]; Lírio G2, hoje juíza de direito, conta:

[Entrevista 2 – fragmento 1 – Lírio G2]

o meu pai tinha um único objetivo: era formar todos os filhos. Então ele dizia que o marido das filhas seriam empregos (?-). Para isso ele queria que todas estudassem, se formassem e só então depois fossem constituir faMÍlia...[modalidade epistêmica – declaração] Dar

um rumo numa direção que não precisassem de um homem para sustentá-las...[avaliação]

mas elas mesmas se mantiVErem... FINANCEIRAmente independentes.

Apesar de a senhora Lírio G3 se dedicar à educação dos filhos, as crianças (todas elas) foram educadas param serem independentes. A declaração do pai é mais do que uma afirmação é a expressão de um desejo de transformação de uma realidade social. Ainda com poucos recursos financeiros, o pai só tinha a certeza de que o que poderia deixar para os filhos era uma educação de qualidade, que – de fato – fosse um instrumento de transformação inclusive das relações de gênero, como declara na negativa: defende a ideia de que a mulher tem que se formar, trabalhar e não se submeter a nenhum homem.

O comportamento do pai de Lírio G2 destoa da sociedade patriarcal cearense de meados do século XX. Essa variável certamente deve ser considerada na construção de uma concepção de emancipação da mulher e da relação de equidade entre os gêneros. Além dele pensar diferente, busca escolas que não mais subestimassem a capacidade da mulher aprender. Dos colégios da rede particular de Fortaleza entendiam que “o estudo é que daria certa independência e vivência para a vida”

[Entrevista 2 – fragmento 2 – Lírio G2]

Eu estudei em dois colégios: no 7 de Setembro e no Nossa Senhora das Graças. E todos dois assim eles tinham por meta// um com doutor Edilson, que era ESTUDAR, ESTUDAR, ESTUDAR [modalidade epistêmica]. Quando eu fui para o Nossa Senhora das

Graças, a gente tinha a esPIRItualidade em cima da vocação religiOosa, de tentar unir as pessoas dentro de alguma filosofia, mas também tinha por meta mostrar que o estudo é que daria certa independência e vivência para a vida [modalidade epistêmica – avaliação implícita]. Então, assim, tudo o que foi visto em sala de aula, tanto na parte de ciências

[avaliação explícita]. A própria literatura chegava pra gente dessa maneira.

Dois aspectos, então, precisam ser ressaltados. O primeiro é o de que estudar era importante para qualquer aluno/a, independente do gênero – e isso está posto em sua avaliação implícita de que é por meio da educação que se alcança independência. Segundo, a educação estabelecia uma estreita relação com as questões sociais e isso se dá na afirmação marcada pelos avaliadores: “tudo”, “sempre” e “muito”.

Orquídea G1 queria ser engenheira, mas para casar preferiu fazer logo o Normal. Nunca exerceu a profissão de professora, mas reconhece que era importante que a mulher tivesse formação.

[Entrevista 2 – fragmento 1 – Orquídea G1]

Orquídea G1: No primário, a gente chamava primário[modalidade epistêmica – declaração], né? Eu

estudei com uma grande professora que era dona Margarida Sabóia de Carvalho, que eu nunca esqueci[avaliação], mulher de Jáder de Carvalho. Foi com quem mais eu

aprendi[avaliação]. Foi foi// eu saí de lá pra ((risos))porque pra entrar na Escola Normal,

antigamente, era um vestibular, era um verdadeiro vestibular [avaliação]. Então eu fiz esse,

esse, essa prova. Eram duas turmas. Eu passei, fiz o Ginásio, né? Que nós chamávamos ginásio [modalidade epistêmica – declaração], né? Quem tinha média mais de 7,0 podia fazer o

científico ou o normal. Eu poderia ter feito o científico [modalidade epistêmica – declaração], mas

como eu//

Orquídea G2: Mãe ela quer saber os textos.

Orquídea G1: Não, pêra aí. Depois eu falo do texto. É, então, eu queria fazer Engenharia ((risos))

Pa.: A senhora queria fazer Engenharia?

Orquídea G3: ((risos))Eu queria fazer engenharia [avaliação].

Pa.: E foi pro normal por quê?

Orquídea G1: Porque eu já estava noiva ((risos)) e ia terminar sem nenhum diploma, sem nada [modalidade epistêmica – declaração], né?

Na sua avaliação, a entrada na escola normal tinha um processo tão seletivo quanto o do vestibular. Na segunda entrevista coletiva, Orquídea G1 contou que não passou na primeira seleção e que a sua professora, Margarida Sabóia de Carvalho, fizera um conto para o jornal enunciando a crise da seletividade do processo, uma vez que

tinha convicção de que a aluna estava apta para estudar na instituição. No ano seguinte, ela fizera novamente o exame e passara. O uso do termo “verdadeiro” é o elemento avaliador, reforçando que o processo é complexo e competitivo.

A relação entre “Eu poderia ter feito científico”(modalizada pelo verbo “poder” no futuro do pretérito) e “eu queria fazer engenharia” (avaliação explicitada pela presença do verbo “querer”) estabelecem uma relação de conflito com a construção negativa indireta (Orquídea G1 opta pela construção “poderia ter feito” em substituição à forma direta “eu não fiz”) por meio da qual apresenta o aspecto que a impediu de ser mais uma mulher nos bancos das ciências exatas das universidades brasileiras: ela iria casar, precisava de um diploma para honrar o seu marido.

O sentimento de possibilidades, de acreditar ter escolhas, que ocorre com as duas mulheres de classe social média alta (Orquídea G3 e Lírio G3) não são os mesmos sentidos pelas outras duas mulheres (Rosa G1 e Tulipa G1). O estudo veio para essas como uma necessidade para se mudar de vida. Tulipa G1 era normalista e professora de uma respeitada escola da rede pública da cidade de Fortaleza (Colégio Jenny Gomes), que antes recebia o apoio da Base Aérea de Fortaleza. Algumas narrativas dos anos 1980 o comparam ao Colégio Militar. Lá, ministrava aulas de ciências, mas nos anos 1980 foi decretado pelo governador Luiz Gonzaga Fonseca Mota, pela lei estadual Lei Nº 10.884, de 02 de fevereiro de 1984, que os professores deveriam ter habilitação específica de ensino superior para ensinarem o primeiro e o segundo grau. De um modo mais detalhado, até a quarta série, o segundo grau; até a sexta série, “2º Grau, acrescida de um ano letivo de estudos adicionais”; até a oitava série, “habilitação específica obtida em curso superior de graduação de curta duração”; e no segundo grau, “a habilitação de que trata o inciso anterior acrescida de, no mínimo, um ano letivo de estudos adicionais”. A ideia era de que os professores conseguissem “[Art. 9] V - em todo o Ensino de 1º e 2º Graus, habilitação específica obtida em curso superior de graduação correspondente a Licenciatura Plena” (CEARÁ/ LEI Nº 10.884). Posteriormente, por orientação do governador Tasso Jereissati (1987 – 1991), os/as professores/as graduados deveriam ser remanejados para as suas áreas de formação.

Nessas condições, Tulipa G1 se vê obrigada a cursar o ensino superior, com a ajuda e a compreensão dos/as professores/as, coordenadores/as e direção da escola. Com ela, muitos/as outros/as profissionais da educação entram no ensino superior. Ela avalia que aquela experiência foi desafiadora para eles/as.

[Entrevista 1 – fragmento 1 – Tulipa G1]

Eu acredito que nós tivemos oportunidade de vivenciar isso [mudanças][avaliação]. Só que

tinha algum// alg/ algumas// alguns impedimentos que se caracterizava pe//pela//porque já éramos pessoas de uma certa idade já [modalidade epistêmica – declaração], né? Houve a

necessidade de fazer a- a- a faculdade, por questão de promoção também[modalidade epistêmica – declaração], mas, mas, mas é – é// era// mas foi uma convivência um::::ito

saudável, foi uma grande oportunidade//porque mudamos a cabeça, quem – quem não pode mudar é porque não teve assim [pausa] maturidade, mas o grupo em si mesmo sofreu grandes mudanças. Eram pessoas que tinham interesse de-de-de melhorar de vida, tinham interesse de se socializar, havia muita conversa era// co-como-como nós éramos como uma certa/ UMA CERTA IDADE que eu digo não era aquela TURMA DE ADOLESCENTE, era turma de pessoas que faziam/ que estavam ali porque precisavam mudar, porque precisavam// porque precisavam para a sua atividade profissional mais consciente do seu papel na sociedade[avaliação], né? Porque, como se diz, foi uma

faculdade cursada por necessidade, priorizando melho-me-melhorar pra que a gente saísse daquele ritual só de coisas antigas[avaliação].

Naquela turma de homens e mulheres, Tulipa G1 não percebia muitas diferenças entre as mudanças sofridas pelos homens e pelas mulheres. Parece que o espaço acadêmico tinha afetado aos dois. O “precisar mudar” faz referência tanto a necessidade de um diploma, quanto à necessidade de ter uma postura mais crítica em sala de aula. Depois que a entrevista encerrou, ela ficou conversando um longo tempo. Tinha outras histórias. Queria falar de como ter passado pela universidade também tinha alterado suas práticas como professora naquele período pós-ditadura, naquela escola que tinha relação com a base aérea. Uma das histórias que mais impressionou foi a sua recusa em adotar o livro escolhido pela direção. Ela tinha feito um curso e aprendera a ver o mundo com outros olhos, quando chegou ao colégio, a diretoria indicou um livro ultrapassado, pouco reflexivo. Ela indicou um livro de história comparada, que os pais teriam que comprar ou ela mesma teria que pagar do próprio salário. Então, ela foi à editora, conseguiu um abatimento significativo, conversou com os pais e mães e eles compraram. Apenas um aluno ficou sem o material. A este, ela deu o livro.

Naquele momento, no chão daquela sala dos anos 1980, aquela mulher desafiava a institucionalidade da escola para mostrar outras formas de ver o mundo. Também outras formas de ver o mundo foram possibilitadas à Rosa G1 a partir do acesso ao

estudo, àquela época ainda a escola normal.

[Entrevista 1 – fragmento 1 – Rosa G1]

Rosa G1: Muitas mudavam o jeito de viver, de se vestir, de falar[avaliação], né?

Pa.: de falar?

Rosa G1: É! TAMBÉM DE FALAR! Porque tinha delas - coitadas! – que não sabiam nem falar[avaliação]! Né? Naquela época, né? Mas teve uma mudança ENORME[avaliação].

Rosa G2: Acho que da senhora principalmente, não foi não, mãe[avaliação]?

Rosa G1: É!

As mudanças acontecem em todos os aspectos no jeito “de viver, de vestir, de falar”. Para Rosa G1, aquela experiência que possibilitou a ela se tornar professora e, posteriormente, sustentar a família após o falecimento de seu marido, pareceu-lhe única no sentido de ser enriquecedora, tanto para ela quanto para suas colegas de turma. Quem mais percebe as diferenças sofridas por ela são as filhas, como sugere Rosa G2 “Acho que da senhora principalmente, não foi não, mãe”.

Assim como há diferenças entre as questões apresentadas entre os grupos de mulheres brancas em decorrência da classe social e da geração, há diferenças nas narrativas das mulheres brancas e das mulheres negras.

Benzer Belgeler