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É um erro acreditar que um processo eficaz de interação com os símbolos gráficos organizados na forma de texto seja capaz de empoderar grupos não- escolarizados. Isso, por si só, é insuficiente. Bagno (2007) problematizou o mito de que “o domínio da norma culta é instrumento de ascensão social”. Não é suficiente saber ler e escrever a forma padrão da língua; outras variáveis precisam ser consideradas.

Em sua pesquisa etnográfica sobre a construção da identidade de mulheres, realizada em Paranoá, Magalhães (1995, p. 209) caracterizou, baseada em textos jornalísticos, uma segmentação social baseada no uso da escrita:

Embora reconheça que a escola brasileira não ensina, a reportagem da revista assume uma posição de defesa do que venho chamando mito do português correto (Magalhães, 1994). Segundo esta noção de língua, derivada da gramática tradicional, os brasileiros estão divididos em duas classes: os que cometem “erros de português” e os que se comportam segundo as normas historicamente consagradas da gramática.

muitos preconceitos e mitos. Tratarei disso mais adiante.

No sentido do questionamento de conceitos, Street (2012) problematiza o termo “Letramento”. Para ele, tanto há letramentos múltiplos, como há multiletramentos. Existem letramentos múltiplos porque, da mesma forma, são múltiplas as culturas. Preocupado com a reificação dos significados, diz: “[...] a cultura é um processo que é contestado, não um inventário dado de características” (STREET, 2012, p.72). Para Street (2012), a comunidade precisa estar aberta às mudanças que podem acontecer tanto na cultura quanto nas práticas de letramento.

Já o termo “multiletramentos”, utilizado pelo Novo Grupo de Londres (New London Group, 1996), é definido como “formas múltiplas de letramento associadas a canais ou modos, como o letramento do computador, o letramento visual” (STREET, 2012, p.72-3).

Apesar da academia já estar familiarizada com a nomenclatura dos novos estudos: “letramento”, “letramento crítico”, “letramentos múltiplos” ou “multiletrementos”, “O cenário teórico em que se encontram as escolas brasileiras ainda opõe o “letramento autônomo” ao conceito de “alfabetização”. Nesse contexto, podem ocorrer conflitos entre práticas discursivas dos alunos/as e as que são propostas pelo sistema educacional experienciado pelos professores/as53. Em vez de optar pelas

práticas discursivas dos alunos/as, prefere-se vivenciar, em sala de aula, eventos de letramento que consolidam as práticas discursivas da classe dominante (KLEIMANN, 1995). Um aspecto dessa escolha é a desvalorização da língua oral, praticamente retirada de sala da aula tradicional.

Faz-se necessário compreender porque o confronto entre os termos “alfabetização”, “letramento autônomo” e “letramento ideológico” é importante. Para Street (2014, p.159), o letramento autônomo “tem dominado os estudos por tempo demais”.

No Brasil, o Modelo Autônomo de Letramento é o que predomina nas escolas. Segundo Kleiman (1995, p.21): “As práticas de uso da escrita na escola – aliás, práticas que subjazem à concepção de letramento dominante na sociedade – sustentam-se num modelo de letramento que é por muitos pesquisadores considerado parcial e

53 É preciso reconhecer que o Brasil é um país com uma dimensão continental, qualquer mudança no

Sistema Nacional de Ensino brasileiro tanto leva tempo para ser construída com a participação efetiva da comunidade acadêmica (por exemplo, os Planos Nacionais de Educação, que se basearam nas Conferências Nacionais de Educação), como leva tempo no momento de retirar as leis sancionadas e leva-las para o chão da sala de aula.

inadequado”

O Modelo Autônomo de Letramento, assim defendido por Ong (1982), fortalece o que Graff (1979, apud KLEIMAN, 1995, p.34) vai denominar de “mito do letramento”. Além de questionar o “mito do letramento”, os “Novos Estudos de Letramento” contestam a tese de Ong (1982) sobre a existência de uma diferença radical entre sociedades iletradas e letradas (tese da “grande divisão”, construída pelo letramento autônomo). Essa distinção (entre letrados e iletrados) implica uma forma diferenciada também “nos modos de raciocinar, capacidades cognitivas” (STREET, 2014, p.38). Portanto, defende que as sociedades mais desenvolvidas social e tecnologicamente são as letradas (MAGALHÃES, 2012). Defende também que os indivíduos que têm “baixo desempenho em testes tradicionais de letramento também [apresentam] limitadas habilidades cognitivas e sociais” (OECD, 1995; OAKHILL; BEARD; VINCENT, 1995, apud STREET, 2012, p. 82).

Baseado em pesquisas etnográficas, Street (2012, p. 82) defende:

[…] membros de sociedades com pouco ou nenhum letramento podem, não obstante, desempenhar os complexos processos cognitivos, atingir a consciência metalinguística e realizar as operações lógicas que Godoy, Ong e Olson e outros atribuíram à sociedade letrada. As práticas de letramento variam com o contexto cultural, não há letramento autônomo, monolítico, único, cujas consequências para indivíduos e sociedades possam ser inferidas como resultados de suas características intrínsecas. [...]

Street (2012) faz ainda uma distinção entre práticas de letramento e eventos de letramento. Define os eventos de letramento como:

Penso que 'eventos de letramento' é um conceito útil porque capacita pesquisadores, e também praticantes, a focalizar uma situação particular onde as coisas estão acontecendo e pode-se vê-las enquanto acontecem. Esse é o clássico evento de letramento em que podemos observar um evento que envolve a leitura e/ou a escrita e começamos a delinear suas características. (p.75)

[…] Penso que o conceito de práticas de letramento é realmente uma tentativa de lidar com os eventos e com os padrões de atividades de letramento, mas para ligá-los a alguma coisa mais ampla de natureza cultural e social. E parte dessa ampliação envolve atentar para o fato de que trazemos para um evento de letramento conceitos, modelos sociais relativos à natureza da prática e que o fazem funcionar, dando-lhe um significado. […] Podemos fotografar eventos de letramento, mas não podemos fotografar práticas de letramento […]

O termo “letramento”, apesar de amplamente usado em trabalhos da área da Linguística e da Educação, ainda não está dicionarizado. Esse, contudo, é o menor dos problemas. É preciso que a incorporação de seu conceito seja assumida como prática pedagógica. Magalhães (2012) traz uma reflexão importante e necessária sobre pesquisadores, como Saviani (1983) que pedem a retomada das discussões iniciadas por Freire. Construídos desde 196254, os Planos de Educação do Brasil trazem hoje um

caráter participativo, mas os avanços são pequenos em relação ao que é desejado como construção participativa de uma educação crítica. As universidades precisam retornar ao tema, criando estratégias de amplo compartilhamento de informação com a sociedade.

Tratar letramento como prática social é compreender para além da capacidade avaliativa (individual) dos sujeitos reagirem a textos escritos, por esta razão torna-se uma questão que se apresenta como cada vez mais necessária. A defesa de um “modelo ideológico” de letramento - em oposição ao “modelo autônomo” - implica também a busca da compreensão de como as pessoas usam, quais as suas necessidades e qual a relação desses usos com os diversos contextos culturais e sociais. Os estudos sobre letramento ideológico têm influenciado pesquisadores/as brasileiros/as desde os anos 1990, e muitos outros/as pesquisadores/as têm compreendido que estudos críticos precisam ainda ser uma prioridade na agenda do letramento no Brasil.

Ter acesso a uma educação que trabalhe na perspectiva de um letramento ideológico é criar condições para as transformações individuais e sociais, pois meninos e meninas passarão por uma educação que os emancipa como sujeito social crítico.

Nesta pesquisa, preciso considerar a possibilidade de mulheres negras sequer conseguirem ter acesso à educação. Somente depois, levantarei a possibilidade dessas mulheres entrevistadas terem passado pelo letramento ideológico.

54 O primeiro Plano Nacional de Educação foi elaborado em 1962, na forma de plano de distribuição de recursos. É assim descrito mesmo que as constituições de 1934, 1967 e 1988 tenham planos de educação no corpo de seu texto. Vale lembrar também que em 1931, foi instituído o Conselho Nacional de Educação.

Benzer Belgeler