Platão foi precursor em desenvolver uma teoria sobre o mundo baseando-se na intuição, buscando desmistificar o mundo dos fenômenos. O processo racional adviria do conhecimento da natureza dos objetos e as idéias decorrentes, gerando o pensamento racionalista. Em seguida, foi criado o conceito da lógica formal. Esta foi uma das contribuições de Aristóteles, ao adotar um processo indutivo para a formulação de leis gerais a partir da observação de fatos particulares, gerando os princípios de classificação (MATALLO JÚNIOR, 1989). O pensamento racionalista e a lógica formal deram a base para a geração de conhecimento. Entre os períodos do século V até o século XVII, predominou seu uso para fins do auto-conhecimento e era privilégio do poder dominante situado na aristocracia e o clero.
A partir do momento em que começou a existir uma necessidade maior de se atender às demandas básicas do ser humano em escala industrial, surge a revolução industrial. O conhecimento passa a ter uma conotação de ativo, se torna um recurso. O conhecimento passa a ser visto como instrumento para alcance de resultado.
O resultado da aplicação do conhecimento se deu com o surgimento das invenções, das máquinas e outros recursos (SALIM, 199910 apud ABREU, 2001) que viabilizaram a era industrial e foram sementes para a era da informação e a do conhecimento (NAISBITT, 1982; SENGE, 1990; DRUCKER, 2000; SANTIAGO JÚNIOR, 2004).
Assim, o conhecimento, sendo um recurso que permite elevar um resultado, passou a ser um elemento de estudo para que o processo de sua criação e uso pudesse ser mais efetivo na sua utilização. Existem autores modernos e contemporâneos que contribuíram com novas associações entre conhecimento, método e aprendizagem. Pode-se citar Daniel Bell (1973), Peter Drucker (1993) e Alvin Tofler (1970, 1980) (O’DELL; GRAYSON, 1998). Alguns defendendo a base do conhecimento como sendo a experiência, outros, de que a sua aplicação se dá em ações práticas, chegando à categorização do conhecimento proposto por Nonaka e Takeuchi (1997) que é a do conhecimento explícito e tácito.
Essa visão permite um enfoque mais atual voltado para a empresa. Nonaka e Takeuchi resgatam a teoria colocada pelo filósofo Michael Polanyi (1958, 1966), que separa essas duas formas de conhecimento. O tácito refere-se ao conhecimento individual (expresso), pessoal, específico ao contexto e, assim, fácil de ser formulado e comunicado. O conhecimento explícito (codificado) refere-se ao conhecimento mais facilmente transmissível e em linguagem formal e sistemática. O tácito, não codificado, está na mente dos funcionários, na experiência dos clientes, nas memórias dos fornecedores. É difícil de catalogar, é altamente experimental, difícil
10 SALIM, J. J. Um modelo geral de criação de conhecimento nas organizações. São Paulo: EAESP-
de documentar em detalhe, efêmero e transitório. O explícito, por outro lado, vem dos livros e documentos, artigos, bases de dados e manuais de procedimentos11.
Ambos os conhecimentos são vitais para a organização, pois é no limite dos dois, tácito e explícito, que se gera o aprendizado.
Conhecimento é muito mais que informação e dados; para tanto é importante fazer uma distinção entre as características que diferenciam dados, informação e conhecimento.
O dado é algo que está presente e disponível em todo ambiente empresarial, é um instrumento que pode gerar valor, porém isoladamente tem baixo valor agregado. O valor está em saber qual dado deve ser selecionado ou captado para fins de manipulação e estudo, para que se possa aumentar o seu valor intrínseco. Os dados formam um conjunto de fatos objetivos e discretos sobre eventos (DAVENPORT; PRUSAK, 1998a). O dado pode ser oriundo de observação, pode estar expresso em números, palavras e normalmente sob nenhum contexto. Uma vez coletado, manipulado e colocado num determinado contexto ele se torna uma informação12.
A informação já permite que haja uma mudança na percepção de quem a recebe com impacto no seu julgamento e comportamento. Informação pode ser vista como um dado que faz a diferença (DAVENPORT; PRUSAK, 1998a).
Para transformar um dado em informação, Davenport e Prusak (DAVENPORT; PRUSAK, 1998b; SANTIAGO JÚNIOR, 2004) propõem os seguintes métodos:
a) contextualização: define a finalidade dos dados;
b) categorização: conhecimento das unidades de análise; c) cálculo: análise matemática dos dados;
d) correção: eliminação das imperfeições e dos erros; e) condensação: sumarização dos dados existentes.
11 Adaptado de O’Dell e Grayson (1998). 12
O conhecimento é motivado pelo pensamento em atividade, experiência, valores, informação em contexto e proporciona uma estrutura básica que permite avaliação sobre informação e sua possível incorporação. Ele tem origem nas cabeças das pessoas. Qualquer um pode estruturar, dentro de sua condição de experiência, contexto e conhecimento, um novo conhecimento, próprio, escondido, que poderá ser compartilhado e incorporado. Ou seja, o conhecimento só pode ser criado por indivíduos e, como o indivíduo não é isolado do todo, ele pode ser compartilhado na interação com a comunidade ou grupo, transcendendo níveis e fronteiras interorganizacionais.
Os mecanismos que permitem a transformação da informação para conhecimento, segundo Davenport e Prussak (DAVENPORT; PRUSSAK, 1998b; SANTIAGO JÚNIOR, 2004), são:
a) comparação: como as informações podem ser contrastadas ou relacionadas com outras situações;
b) conseqüências: a implicação que determinada informação pode trazer para tomada de alguma ação ou decisão;
c) conexões: ligação entre a informação adquirida e outra informação ou conhecimento existente;
d) conversação: relação entre a informação adquirida e um conhecimento existente.
O conhecimento é mais amplo que o Capital Intelectual, segundo Stewart (1997). De acordo com O’Dell e Grayson (1998, p. 4, tradução nossa):
[...] alguns autores tem escolhido expandir o Capital Intelectual para incluir práticas e processos. Em sua forma purista, Capital Intelectual refere-se ao valor comercial de marcas e patentes, licenças,
logomarcas e formulações. Por essa visão, o conhecimento como Capital Intelectual é um ativo, quase tangível. Nossa visão de conhecimento é mais ampla: vemos o conhecimento como uma dinâmica – uma conseqüência de ação e interação de pessoas numa organização com informações, e entre eles”
Reforçando esta visão citamos Davenport, Prussak e Polyani; este último resumiu, em 1966, este significado maior na de forma que as pessoas podem saber mais do que dizem (POLANYI, 1966); os outros dois autores a referenciaram como a ponta do iceberg com a frase, ou seja, o conhecimento que pode ser expresso em palavras e números representa apenas uma pequena parte do conjunto de conhecimentos como um todo (DAVENPORT; PRUSAK, 1998a).
Nessa era do conhecimento existe a necessidade de internalizar habilidades, ter flexibilidade e praticar o aprendizado contínuo (PORTER, 1996; SENGE, 1990; ARGYRIS, 1991); para tanto, o conjunto de componentes do conhecimento inclui:
a) experiência: refere-se ao que se fez e ao que aconteceu no passado; b) base funcional: significa saber o que funciona e o que não funciona;
c) complexidade: conhecimento não é uma estrutura rígida que exclui o que não se encaixa: isso pode ser fatal em termos de paralisia de paradigma numa organização. O conhecimento pode tratar da complexidade de forma complexa;
d) julgamento: significa que tudo está ligado a um sistema ou organismo vivo, crescente e mutante, enquanto interage com o meio ambiente. Por isso existe julgamento. Quando o conhecimento para de evoluir então se estabelece um dogma ou opinião;
e) intuição e regras práticas: se caracterizam em pessoas experientes e empreendedoras que quantificam e qualificam uma situação rapidamente, sem passarem por um processo definido, e muito menos são aptas a explicar seu raciocínio;
f) valores e crenças: são parte integrante do conhecimento que determinam a forma como se vê, absorve e conclui a partir de observação;
g) convergência de produtos e serviços: fica difícil dentro do contexto da economia da informação caracterizar a diferença entre manufatura e serviços;
h) vantagem competitiva sustentável: a mesma tecnologia está disponível ao mercado; uma vantagem de conhecimento é sustentável.