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Y. Ö.K DOKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU

2.2. Türkiye Deri Sektörü

2.2.5. Türkiye’ de Deri Alt Sektörlerine İlişkin Temel Göstergeler

2.2.5.2. Türkiye’de Deri İşleme Sektörü

No final do século XIX e início do XX, quando a morte chegava muitas famílias percebiam que não haviam tido tempo de captar a imagem do ser amado que estava para desaparecer, pelo que, mesmo sem vida o corpo deveria ser fotografado. “Oh, senhor, minha pequena Armênia está morta e não tenho nenhum retrato dela, poderia vir imediatamente e fotografá-la?”, pede uma mãe ao fotógrafo Gabriel Harrison177, também autor dos retratos pós-morte de dois de seus próprios filhos, mortos na infância.

177BOLLOCH, Joëlle. Photographie après décès: pratique, usages et fonctions. In: HÉRAN, Emmanuelle (Org.).

Nessa época a confrontação com a morte era algo corrente, e geralmente acontecia em casa, onde se morria entre os seus. A mortalidade dos bebês, das crianças e dos adolescentes era elevada, pois as doenças infantis como varicela, escarlatina, coqueluche, entre outras, dizimavam milhares de infantes. Ao pesquisar os retratos mortuários no Estado do Rio Grande do Sul, constatou-se que quase dois terços do material coletado era constituído por fotografias de crianças.

A fotografia de um filho morto, na mais tenra infância, significava, na maioria das vezes, o único meio de se obter um registro material da sua existência, como refere Riedl178, pois nesse período providenciar uma certidão de nascimento ou uma certidão de óbito envolvia uma série de entraves burocráticos e também um alto custo, principalmente para as populações rurais.

Nas cidades a fotografia já era usada para registrar os principais acontecimentos da burguesia, como batismo, primeira comunhão, casamento, festas familiares, entre outros. Os álbuns de família tornaram-se uma febre nos grupos sociais de médio e alto poder aquisitivo e assim as crianças das cidades passaram a ser constantemente retratadas. Nesses casos, quando a criança possuía registros fotográficos de sua vida, não se fazia necessária a fotografia pós- morte mas, mesmo assim, foram encontrados retratos mortuários de crianças que residiram nos centros urbanos.

Nesse período a fotografia ainda não estava disseminada, ou democratizada, como nos dias atuais e também não existiam as máquinas fotográficas portáteis, cabendo ao fotógrafo efetuar os retratos familiares. Como referido acima, muitos profissionais eram requisitados para fotografar crianças mortas, situação que no Rio Grande do Sul não foi diferente. Se Gabriel Harrison realizou inúmeras imagens de infantes sem vida, inclusive de seus filhos, aqui no Estado também houve fotógrafos com histórias parecidas. Giácomo Geremia, destacado fotógrafo de Caxias do Sul, já referido acima, também fotografou sua filha quando morta. Muito provavelmente o profissional da fotografia Geremia tenha sido obscurecido pelo sentimento de luto do pai Giácomo. Entretanto, esse sentimento não impediu o experiente fotógrafo de realizar o retrato.

178 RIEDL, Titus. Últimas lembranças: retratos da morte, no Cariri, região do Nordeste Brasileiro. São Paulo:

Figura 28 - Fotografia do velório de Elisabeta Geremia, irmã de Ulysses Geremia (1909/1910)

Fotógrafo: Giácomo Geremia. Local: Caxias do Sul-RS Época: 1909/1910

Suporte de papel no tamanho de 12, 4 cm x 17, 3 cm.

Fonte: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

Os olhos abertos da menina Elisabeta provavelmente se devem a uma crença popular179 segundo a qual as criançinhas, para encontrarem o caminho do céu, devem ter seus olhos mantidos abertos, pois com os olhos fechados elas andariam a esmo pelo limbo, nunca encontrando a casa do Senhor. Nesse sentido, refere Borges180 que também a cruz sustentada por uma touca - muito usada no nordeste brasileiro - ajuda a guiar o bebê pelo longo trajeto em direção ao paraíso. Segundo Borges181

Para os familiares do bebê recém-morto, a fotografia funcionará como prova de que a criança partiu preparada para sua longa viagem em direção ao paraíso. Para o historiador, interessado na decodificação da imagem, esse tipo de fotografia é o testemunho de uma das formas de manifestação do imaginário popular cristão.

179 SALGADO, Sebastião. Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 140.

180 BORGES, Maria Eliza Linhares. História & Fotografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 65. 181 Ibid., p. 65.

Nessa imagem, também é interessante perceber uma espécie de lona preta aplicada por detrás do corpo para que outros elementos não interferissem no interesse principal do fotógrafo. Esse artifício também aparece em retratos realizados por fotógrafos europeus. Outra circunstância presente no ato de fotografar as crianças, que se assemelha aos retratos europeus e americanos, é a clara intenção de se esconder o caixão. Muitas fotos mostram as crianças sobre mesas cuidadosamente ornamentadas, ou em caixões que ficam escondidos através de panos, fitas e flores em profusão, ficando evidente a elevada condição econômica dos familiares.

Figura 29 - Velório na residência de Vicente Rovea, de sua neta Zélia Moreira Leite (filha de

Flemino e Rosina Moreira Leite) Fotógrafo: desconhecido. Local: Caxias do Sul-RS. Ano: 1923

Suporte de papel no tamanho de 29,5 cm x 23,5 cm.

Fonte: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

Nos retratos pós-morte de crianças européias e norte-americanas havia o costume de se colocar o corpo no colo da mãe e fotografar sob uma luz lateral tradicionalmente associada à imagem do sono182. Esse tipo de composição é bastante recorrente. Em alguns casos, na verdade muito raros, figuram próximos ao pequeno cadáver os parentes, o pai, um irmão ou irmã ou toda a

família. No Rio Grande do Sul não foi encontrada, até o momento, fotografia de criança morta no colo de sua mãe. Mas com os parentes existem alguns exemplares no Estado.

No Nordeste brasileiro, os chamados retratos de anjinhos seguem um mesmo padrão em relação aos retratos feitos no Rio Grande do Sul. Na região do Cariri, estudada por Riedl183, existe uma enorme quantidade desse tipo de fotografias, algumas inclusive realizadas em estúdio184.

Figura 30 - Eneus Bazo - Carlos de Lorenzo - natural de Ana Rech - (casado com Amélia Corso,

velando o filho Rosendo) Fotógrafo: desconhecido. Local: Sananduva-RS. Época: em torno de 1940

Suporte de papel, tamanho da cópia original desconhecido. Fonte: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

183 RIEDL, Titus. Últimas lembranças: retratos da morte, no Cariri, região do Nordeste Brasileiro. São Paulo:

Anablume/Fortaleza: Secult, 2002. p. 139.

Outro costume europeu e norte-americano era fazer figurar, ao lado do corpo, um objeto familiar ou simbólico. Assim, colocava-se um cavalinho-de-pau perto dos meninos, uma boneca próxima das meninas. Utilizava-se também um tambor, que está associado à idéia da morte, do mesmo modo que um pêndulo ou um relógio, um livro fechado ou ainda uma flor cortada colocada nas mãos.

Esses retratos evidenciam a mudança de atitude com relação à morte de crianças ocorrida principalmente no século XIX. Segundo Vovelle185

Aos olhos dos homens, como espectadores ou atores, a morte sempre ocupou um lugar maior ou menor. Essa sensibilidade à morte sofreu avanços e recuos: a partir de que momento a morte da criança passou a ser sentida como perda verdadeira, antes de se tornar, ao longo do século XIX, a mágoa essencial (...).

Merece destaque um outro uso para essas fotografias de infantes mortos. Steyer186, em suas pesquisas, encontrou retratos cemiteriais existentes no Rio Grande do Sul que registram crianças mortas. Nesses casos constata-se que ocorre uma interessante fusão entre o retrato

185 VOVELLE, Michel. Ideologias e mentalidades. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 131.

186 STEYER, Fábio Augusto. Representações e manifestações antropológicas da morte em alguns cemitérios do

Rio Grande do Sul. In: BELLOMO, Harry (Org.). Cemitérios do Rio Grande do Sul: arte, sociedade, ideologia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. p. 96.

Figura 31 - Mãe e filha

Fotógrafo: desconhecido. Local: EUA

Época: século XIX

Daguerreótipo colorido a mão. Fonte:

thanatos.net/galleries/details.php?im age_id=823&sessioni

Figura 32 - Menina e boneca

Fotógrafo: desconhecido Local: França

Época: século XIX Daguerreótipo Fonte:

thanatos.net/galleries/details.php?im age_id=823&sessioni

mortuário e o retrato cemiterial. Essa ocorrência decorre, provavelmente, do fato de ter sido a criança fotografada somente após a sua morte.

Na atualidade, o olhar que se costuma lançar sobre as fotografias de mortos deixa transparecer a cultura de negação com relação à morte. Entretanto, pode-se olhar para a morte fotografada não como o terrível fim, o fracasso, a sombra, o esquecimento e a dor, mas sim, como o resgate da humanização da vida na complexidade da morte, como defende Macieira187. Diversos estudos, tanto filosóficos como psicológicos, apontam para a importância de se valorizar o tema da morte durante a nossa existência. É preciso que a morte volte a ser pensada durante a própria vida, na educação, na arte, na saúde, não apenas quando esta estiver diante de nós.

No mundo atual, como afirma Saldanha188, a dessacralização refere-se ao empobrecimento da vida em seus vários aspectos, com o abandono do interesse pela existência, que se coloca banalizada quanto aos fatos do cotidiano e até na própria morte. Somente com um olhar profundo sobre a morte e suas múltiplas facetas poderemos trazer de volta a consciência de que a morte é irmã da vida, e que a nossa natureza finita, que na maioria dos casos gera tristeza, dor e luto é o que nos permite ir além da própria morte, em direção aos verdadeiros valores de nossa existência. Segundo Saldanha189

Através do amor reencontramos vida na morte. Reconquistamos sacralidade de cada ato, cada gesto, de cada etapa de nossa jornada, desde antes do nascimento, até a morte e mais além (...) Em uma cultura onde a morte é negada, ou usada como crime e punição, os seres vivem ilusioriamente, se robotizam, perdem a dimensão da temporalidade e de sua real transcendência.

Deparando-se com as imagens do passado, nas quais crianças mortas jazem impecavelmente ornamentadas por peças brancas, não se sabe bem como reagir. O primeiro impulso é o terror, o não querer olhar. Mas é preciso ter consciência de que lá, no momento da criação e posteriormente do uso destas imagens, estavam presentes o amor, o afeto e a necessidade de se preservar a memória do filho morto através de um artefato que ajudava os

187 MACIEIRA, Rita de Cássia. O sentido da vida na experiência de morte: uma visão transpessoal em Psico-

Oncologia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001. p. 20.

188 SALDANHA, Vera. Prefácio. In: MACIEIRA, Rita de Cássia. O sentido da vida na experiência de morte:

uma visão transpessoal em Psico-Oncologia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001. p. 12.

pais a enfrentarem o luto, e que representava não só a imagem, mas os significados mais bonitos da breve existência daquele ser amado.