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Y. Ö.K DOKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU

3.5. Türkiye Rusya Ticaret İlişkileri

3.5.1. Bavul Ticareti

Serão abordadas, a seguir, características do cemitério São Miguel e Almas, de Porto Alegre-RS, um dos mais belos cemitérios da América Latina, ligadas à temática ora explorada. Sua importância para o presente trabalho deve-se ao fato de ser, além de belo, o mais multifacetado cemitério da capital do Rio Grande do Sul, independentemente da questão religiosa282. Tal cemitério possui uma rica estatuária, belíssimos relevos, capelas, túmulos, “gavetas” magnificamente ornadas, tudo em profusão, principalmente fotografias.

No Brasil existem importantes estudos sobre o ornamentalismo e a arquitetura tumular. O pioneiro foi o trabalho de Clarival Valladares283 , que abordava a arte e a sociedade nos cemitérios brasileiros. A produção da arte tumular em Ribeirão Preto, no período da Primeira República, foi estudada por Maria Elizia Borges284. Já a pesquisa do geógrafo Eduardo Rezende285 concentra-se em analisar o espaço geográfico e as atividades socioespaciais realizadas no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. Cassiana Lacerda

282 Cabe destacar que a fotografia desde sua incorporação como elemento cemiterial, transitou sem maiores

contestações, ou rejeições, pelo olhar moral das religiões, onde existe o juízo que define o que é profano e o que é compatível com o sagrado.

283 VALLADARES, Clarival do Prado. Arte e sociedade nos cemitérios brasileiros. Rio de Janeiro: Conselho

Federal de Cultura, 1972.

284 BORGES, Maria Elizia. Arte tumular: produção dos marmoristas de Ribeirão Preto no período da Primeira

República. Tese (Doutorado) – ECA, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991.

285 REZENDE, Eduardo Coelho Morgado. Metrópole da morte: necrópole da vida: um estudo geográfico do

Carollo286 analisa a história do Cemitério Municipal de São Francisco de Paula, em Curitiba, Paraná, explicando desde os processos de fundação e de estruturação, e também o desenvolvimento dessa necrópole até os dias atuais.

No Rio Grande do Sul destacam-se os trabalhos de Harry Rodrigues Bellomo287, que identifica o uso de diferentes temas e representações na arte funerária gaúcha. A pesquisa de Sérgio Silva e Viviane Saballa288 analisa o cemitério municipal de Pelotas, abordando uma relação entre a produção da estatuária, os ateliês e os artistas da região. Outra importante obra

é Cemitérios do Rio Grande do Sul: Arte, Sociedade, Ideologia. Este livro, organizado por

Bellomo289, possui diversos artigos sobre vários aspectos presentes nos cemitérios gaúchos. Por fim, se destaca a pesquisa de Arnoldo Doberstein290, que investiga a estatuária gaúcha, onde se insere as estátuas presentes nos cemitérios de Estado.

Sendo assim, não há a intenção de se analisar as esculturas, os mausoléus e os diferentes adornos existentes nos cemitérios gaúchos, ou realizar um levantamento quantitativo que abranja todos os milhares de retratos fotográficos existentes nos cemitérios gaúchos. A intenção é mostrar como a fotografia se tornou um importante elemento cemiterial, e também uma inestimável ferramenta da memória visual em inúmeras sociedades do Ocidente. Para tanto, pelas características já destacadas, optou-se por apresentar o cemitério São Miguel e Almas como exemplo de apresentação e disposição destas fotografias.

Os retratos do século XIX, presentes no Cemitério São Miguel e Almas, são verdadeiras preciosidades imagéticas, constituídas, na sua maioria, por fotos tiradas em estúdios, pois a disseminação dos equipamentos fotográficos amadores ainda não havia acontecido no Rio Grande do Sul. A maioria das pessoas sepultadas no cemitério pesquisado era da elite da Porto Alegre, do século XIX e início do século XX, razão pela qual os retratos mostram a distinção de homens e mulheres muito bem trajados, com cabelos e bigodes

286 CAROLLO, Cassiana Lacerda. Cemitério Municipal São Francisco de Paula: monumento e documento. Boletim

Informativo da Casa Romário Martins, Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v. 22, n. 104, abr. 1995.

287 BELLOMO, Harry Rodrigues (Org.). Cemitérios do Rio Grande do Sul: arte, sociedade e ideologia. Porto

Alegre: EDIPUCRS, 2000.

288 SILVA, Sérgio Roberto Rocha da; SABALLA, Viviane Adriana. Pelotas: a arte imortalizada. Pelotas: Ed. Da

Universidade/UFPEL, 1998.

289 BELLOMO, Harry R. O Cemitério como fonte histórica. In: Anais do III Encontro de Pesquisadores do

Departamento de História. IFCH – PUCRS. Porto Alegre: (s.e.), 1996.

meticulosamente tratados. As crianças, da mesma maneira, aparecem bem vestidas, junto a móveis requintados – é possível que as mobílias sejam dos estúdios fotográficos, principalmente nas fotos que possuem um fundo neutro de tecido escuro atrás dos sujeitos.

Existem fotos em suporte de porcelana e fotos em suporte de papel, estas últimas com molduras em metais e protegidas por lâminas de vidro, como ilustrado abaixo.

Figura 61 - Foto de criança, exposta em

túmulo localizada em coletivo, Séc. XIX. Fonte: Cemitério São Miguel e Almas - fotografia Miguel Soares, 2006.

Figura 62 - Catálogo de Molduras, da Metalúrgica Carvalho,

Gravataí-RS

Fonte: Reprodução fotográfica Miguel Soares, 2006.

Ao percorrer os amplos corredores do Cemitério São Miguel e Almas, observado pelos incontáveis olhos opacos presentes nos retratos, pude verificar diversos aspectos importantes. Chama a atenção a decomposição material de algumas fotografias, que infelizmente não conseguiram cumprir a missão de preservar a memória visual do morto. Em muitos casos, ocorreu o desgaste da imagem devido aos intempéries, principalmente das fotos que ficam expostas ao ar livre, sem cobertura, pois aquelas localizadas nos corredores permanecem extraordinariamente íntegras, isso se deveà proteção que possuem.

Um aspecto interessante, ainda relacionado aos elementos tumulares ligados à memória, é a ocorrência do apagamento dos textos de alguns túmulos, enquanto as imagens fotográficas permanecem em bom estado de conservação.

Outra importante constatação refere-se à relação dos elementos presentes nos túmulos, pois transmitem um complexo conjunto de dados. Entretanto, muitas vezes a integração entre as partes que compõem o sepulcro, além de transmitir determinada mensagem religiosa ou social referente ao morto, pode ter ainda um fim artístico, de arranjo estético. Muitos túmulos possuem composições entre a fotografia e o relevo, ou entre a fotografia e a estatuária. Na maioria dos casos a representação fotográfica do falecido é reverenciada por um anjo, ou por uma santa; em outros casos a fotografia integra-se a símbolos religiosos.

Figura 63 - Neste túmulo, das seis fotos

presentes, três estão inutilizadas. As fotos datam do final do séc. XIX e início do XX. Cemitério São Miguel e Almas.

Fonte: Fotografia Miguel Soares, 2006.

Figura 64 - No túmulo acima, as fotos estão

em ótimo estado de conservação, já o texto que acompanha as fotografias está em processo de apagamento, inclusive algumas letras já foram totalmente perdidas.

Cemitério São Miguel e Almas. Fonte: Fotografia Miguel Soares, 2006.

Existem túmulos que possuem uma representação fotográfica e uma representação escultórica, ou em relevo, do morto. Abaixo, a imagem mostra um casal retratado nestas duas formas. Nos relevos eles estão separados, cada um representado em diferentes medalhões de metal, já na fotografia eles aparecem juntos. Em ambos os casos eles são apresentados serenos, sorridentes.

Figura 67 - A quarta foto da esquerda

para direita representa fotograficamente o casal retratado nos relevos em metal. Cemitério São Miguel e Almas Fonte: Fotografia Miguel Soares, 2006.

Figura 65 - Anjo reverenciando a imagem

fotográfica do morto. A foto é aplicada no centro do circulo de ramos.

Cemitério São Miguel e Almas. Fonte: Fotografia Miguel Soares, 2006.

Figura 66 - Neste túmulo, a fotografia integra

a cruz. Abaixo, a Alegoria da Saudade. Cemitério São Miguel e Almas. Fonte: Fotografia Miguel Soares, 2006.

Em alguns casos, os túmulos compartilhados são como álbuns fotográficos, devido ao grande número de retratos expostos na pedra tumular, nos quais é interessante verificar as diversas gerações e seus diferentes períodos de existência. Observa-se fotografias do final do século XIX e também do final do século XX. Possivelmente fotografias do século XXI ainda ocuparão espaço nestas lápides.

Figura 68 - Neste túmulo, treze fotografias de diferentes

períodos dividem espaço na pedra. Cemitério São Miguel e Almas. Fonte: Fotografia Miguel Soares, 2006.

A relação entre a morte e a fotografia através dos retratos existentes nos mausoléus e nas tumbas, e suas implicações no campo da memória, contexto no qual se imbricam múltiplos fatores históricos e culturais, foram os temas explorados nesse terceiro capítulo.

A partir do que foi apresentado, é possível pensar que a imagem é o simulacro, o espectro imutável, pelo que constitui ferramenta fundamental da memória. O status de ferramenta da memória visual alcançado pela fotografia como elemento cemiterial está, assim, ligado diretamente à necessidade do homem de enfrentar a morte, apreendendo com a imagem alguns lampejos de vida. Essa utilização da fotografia torna evidente o desejo do homem de reacender lembranças a partir da imagem que acredita ser perene. Assim, cada novo olhar lançado sobre a fotografia “imortalizada” do morto suscita um complexo jogo entre morte, esquecimento e memória, permitindo novas e diferentes lembranças e interpretações a cada novo e diferente olhar sobre a fotografia cultuada, ou mesmo sobre a própria morte ou vida por ela representada.

A prática de representar os mortos através da imagem acompanha o homem desde a pré-história até os dias de hoje, quando máscaras, efígies e pinturas são suplantadas pelas fotografias. Muitas são as nuances que caracterizam essa trajetória, eivada de diferentes práticas e culturas, que culminaram com a incorporação da fotografia a partir do século XIX. Incontestável é que todas elas trazem em si especialmente duas características: o desejo de enfrentar o inexorável fato da morte e a função de preservar a memória, tanto do morto quanto da sociedade à qual ele pertencia, cujas tradições e costumes são também representados e perenizados pelas imagens produzidas.

Com a incorporação da fotografia neste contexto houve importante democratização da prática de retratar os mortos, o que se tornou usual principalmente entre os imigrantes europeus. Decorrência disso é o fato de que a maioria das fotografias encontradas no Rio Grande do Sul, relativas ao período de 1890 a 1963, procedia das áreas de imigração italiana, alemã e polonesa.

Foram apresentadas 68 imagens, de diferentes espaços e temporalidades, que foram respondendo aos objetivos lançados no início da pesquisa, ao mesmo tempo em que suscitaram novas questões relevantes.

Os imigrantes italianos foram aqueles que mais produziram retratos mortuários no Rio Grande do Sul, razão pela qual a maior parte das fotografias que compõem o trabalho foi encontrada no Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, em Caxias do Sul-RS, onde também existem retratos de outras cidades relacionadas à imigração italiana. O restante do material coletado foi encontrado no Museu Histórico Casa do Imigrante Bento Gonçalves (Bento Gonçalves), Museu da società Italiana (Garibaldi), Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa (Porto Alegre),Arquivo Histórico de Porto Alegre (Porto Alegre). As demais fotografias passaram a fazer parte da pesquisa através de doações de familiares dos mortos.

Nesse sentido, merece destaque o fato de que na cidade de Porto Alegre tenham sido encontrados somente dois retratos mortuários, até por que uma pesquisa realizada na

Universidade Federal da Paraíba aponta que nas capitais brasileiras 20% da população costuma fotografar seus mortos. Assim, o número de retratos existentes na capital gaúcha deveria ser muito grande, mas onde estão essas fotos? Provavelmente em álbuns de família, por se tratar de uma prática de caráter fortemente familiar.

Importante salientar que as imagens pesquisadas, se por um lado comprovam a ligação dos imigrantes europeus com o culto aos mortos e às suas tradições, suscitaram certa perplexidade no pesquisador ao ser constatado que grande parte delas foi doada ao arquivo sem qualquer referência quanto aos dados do morto, de seus familiares e do fotógrafo, sendo que algumas ainda se encontravam em péssimo estado de conservação. Paradoxal é que a ausência de maiores especificações das fotografias impede que cumpram seu papel de identificação, de preservação da memória e de valorização dos retratados, objetivo maior que envolveu sua produção.

Este fato evidencia o desinteresse das gerações contemporâneas com relação a estas práticas culturais, comuns em outros tempos. A vulnerabilidade a que ficaram sujeitas essas imagens parece decorrer dos efeitos que a morte produz sobre os sentimentos do homem moderno. Se, por um lado, ainda está vivo o desejo de preservar a memória dos entes queridos, por outro, a inexorabilidade da morte atinge frontalmente uma sociedade que hoje cultua a vida e teme seu próprio fenecimento.

Durante séculos a iconografia relacionada à morte esteve ligada com o culto aos mortos. Se a partir da Revolução Francesa essa conexão foi aos poucos se afastando do caráter estritamente religioso que envolvia as imagens, foi no século XIX que uma outra revolução abriu caminho para a democratização dessa antiga prática, que até então pertencia somente aos grupos sociais de maior poder econômico, a qual corresponde ao surgimento da fotografia.

Entretanto, as intenções pelas quais se produziam essas imagens conservaram os mesmos interesses aos quais os próprios cultos aos mortos já se propunham. No âmago dos retratos fotográficos relacionados à morte está presente a família e, por via de conseqüência, o afeto, o amor e a necessidade de se manter, de alguma maneira, a presença do ente querido. Nesse sentido, o comportamento humano diante da morte pouco mudou. A recorrência dessas

representações aponta para a idéia de legitimação dessas imagens. Seus usos e funções evidenciam a importância conferida a essa prática ao longo da história.

Tanto a escultura, quanto a pintura e a fotografia, apresentam semelhanças e diferenças no que se refere à representação dos mortos. A pintura e a fotografia buscavam a fidelidade com relação à aparência do morto, à semelhança das máscaras mortuárias e dos bustos romanos. As imagens fotográficas do século XIX herdaram muitas das convenções das pinturas que retratavam os mortos, principalmente quanto à composição de inúmeros elementos juntos ao defunto, e também com relação aos enquadramentos e às distâncias aplicadas. Entretanto, nesse período, a fotografia era em preto e branco e de tamanho reduzido com relação à pintura. Mas a fidelidade aos traços fisionômicos das pessoas fotografadas foi decisiva para a enorme aceitação dos retratos fotográficos.

Muitos estudiosos destacam o afastamento da morte do cenário no qual o homem moderno pretende atuar. Isso não significa que em outros tempos a morte humana pudesse ter sido algo “natural”, ou seja, aceita com serenidade, livre de medos e de apreensões. Mas certamente, nos dias de hoje, toda uma rede de seculares gestos, ritos, objetos e práticas ligados a esse evento vem sendo banidos da vida cotidiana ocidental.

Alguns artefatos ainda sobrevivem a essa aversão às coisas referentes à morte. São eles os retratos mortuários de caráter familiar – que ainda resistem embora em número reduzido em comparação com cem anos atrás – e os retratos cemiteriais, que aparecem na atualidade como uma prática popular.

Sendo esta a primeira pesquisa que envolve o estudo de fotografias relacionadas à morte no Estado do Rio Grande do Sul, impõe-se destacar alguns aspectos relevantes dos retratos mortuários encontrados em solo gaúcho, em comparação com aqueles da Europa e dos Estados Unidos.

Nos retratos mortuários existentes no Estado evidenciou-se que a produção teve seu apogeu entre 1890 e 1940, sendo que a fotografia mais atual encontrada é do ano de 1963. No Velho Mundo e nos EUA, entretanto, a prática teve início décadas antes, o que se pode

verificar pela análise das datas que constam nas fotografias que fazem parte dessa dissertação, bem como pelo referencial teórico utilizado.

As fotografias encontradas no Estado procederam de álbuns de família, de paredes de residências, de arquivos públicos e de doações de parentes e amigos. Na Europa e nos EUA a maioria dos retratos mortuários também se encontra em museus e arquivos, ou em poder das famílias.

A quase totalidade das fotografias do Estado foi tirada durante velórios, com os mortos em seus caixões, ao contrário dos retratos produzidos na Europa e nos Estados Unidos, onde era comum movimentar o corpo para a execução das fotos. Nestas utilizava-se a convenção denominada “Último Sono”, fazendo parecer que o defunto não havia morrido realmente.

Outro estilo que foi encontrado na Europa e nos Estados Unidos é aquele que tenta sugerir que a pessoa está viva, abrindo-se os olhos do morto e colocando-o sentado em sofás ou poltronas, o que também não ocorreu neste Estado.

Uma outra convenção, segundo a qual o morto é retratado como um objeto de dor circundado por parentes e amigos, está presente tanto nas fotografias européias e estadunidenses quanto nas gaúchas. Elas evidenciam especial atenção dos fotógrafos na execução desses retratos, arranjando e compondo o espaço, o enquadramento e os objetos e pessoas, que deviam ser registrados junto ao morto.

Nessas últimas circunstâncias são aspectos em comum nos retratos encontrados nas mais distintas regiões soluções como panos de fundo pretos, que facilitam a visualização do morto ao gerar melhor contraste, o uso de mesas para fotografar crianças e adolescentes, a utilização de roupas formais e as expressões carregadas de dor.

Apenas duas fotos encontradas no Rio Grande do Sul possuem mais de um morto representado. Na Europa e nos Estados Unidos existem muitos exemplares de retratos em que aparecem vários defuntos.

Assim como na Europa e nos Estados Unidos todas as imagens encontradas no Rio Grande do Sul são em preto e branco, até por que no período estudado ainda não existiam as fotografias coloridas. Aqui no Estado somente uma fotografia foi encontrada na técnica da albumina, e o restante segue a forma tradicional de confecção, com placas secas e papel de gelatina/prata.

O caráter de representação da realidade conferido à fotografia fez com que ela também passasse a ocupar espaço dentro do universo dos cemitérios, retratando os mortos. Além disso, a invenção da fotografia foi contemporânea à revolução cemiterial romântica, quando os cemitérios tornaram-se um “universo familiar” e um centro de valorização da memória, principalmente dos homens glorificados socialmente.

Nos cemitérios a fotografia se tornou quase uma obrigação e, ao contrário dos retratos mortuários, não causa sentimentos ambivalentes nos admiradores, pois representa os mortos quando ainda estavam vivos.

Outro aspecto interessante é que nas fotografias cemiteriais, que quase sempre são escolhidas pelos familiares, muitos mortos aparecem muito mais jovens do que quando morreram. A opção dos familiares por estas fotos, além de evidenciar as características principais do morto que desejam preservar em sua memória, deixa transparecer uma recusa de aceitação da finitude, marcada principalmente pela doença, pela velhice e pela morte.

Se no período abrangido pela pesquisa os retratos mortuários envolvem diferentes grupos sociais, no caso dos retratos cemiteriais ocorre a predominância de segmentos sociais com maior poder econômico. A maioria das fotos produzidas no final do século XIX, e nas primeiras décadas do XX, existentes no Cemitério São Miguel e Almas, foram realizadas em estúdio e apresentam pessoas bem vestidas e em poses distintas, seguindo claramente as convenções e os padrões empregados na produção dos retratos feitos na Europa.

Entretanto, ao longo do tempo, com o baixo custo para a confecção do retrato fotográfico e com a propagação das máquinas portáteis, a fotografia foi ocupando o lugar da escultura funerária e também tomando espaço nos túmulos de camadas sociais mais desprovidas.

É sabido que alguns retratos cemiteriais existentes no Rio Grande do Sul registram crianças mortas. Nesses casos constata-se que ocorre uma interessante fusão entre o retrato mortuário e o retrato cemiterial. Essa ocorrência decorre, provavelmente, do fato de ter sido a criança fotografada somente após a sua morte.

É possível perceber que o culto aos antepassados, ou seja, aos mortos, foi o grande propulsor para a existência e a permanência do retrato. Na modernidade, com o advento da fotografia, a prática ligada aos álbuns de família aponta para uma retomada da valorização e da afirmação da identidade familiar através dos retratos. Os retratos mortuários e os retratos cemiteriais contribuíram para esse retorno da propriedade intrínseca de veneração, de adoração e de culto, reafirmando valores e buscando preservar a memória enquanto instância