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Desse modo, passa­se a expor sobre alguns dispositivos constitucionais que preveem a restrição do acesso aos investimentos estrangeiros a setores específicos, por intermédio de algumas restrições setoriais.

a) Minérios e Minerais Nucleares e seus Derivados

Ressalta­se que o art. 177 da Constituição Federal do Brasil, antigamente, dispunha sobre as atividades emolduradas como monopólio da União. Contudo, após a Emenda Constitucional n° 9 de 1995, houve mudança na redação do referido artigo, e seu § 1º passou a estabelecer que a União poderá contratar com empresas estatais ou privadas para a realização das atividades previstas nos incisos I a IV, que englobam: (i) a pesquisa e a lavra de jazidas de petróleo e gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos; (ii) a refinação

145 XAVIER JÚNIOR, Ely Caetano. Direito internacional dos investimentos e o Brasil: uma perspectiva a

partir do padrão de tratamento justo e equitativo. 2014. 279 f. Dissertação (Mestrado em Direito) ­ Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. f.135.

146 FADDA, Fernanda. Regime constitucional e legal dos investimentos estrangeiro no Brasil. In: RIBEIRO,

Marilda Rosado de Sá (Org.) Direito Internacional dos Investimentos. Rio de Janeiro: Renovar, p. 395­ 423, 2014, p. 408.

147 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado, 1988.

art. 172.

148 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 17. ed.

São Paulo: Malheiros, 2015. p. 225. SALOMÃO FILHO, Calixto. Regulação da atividade econômica (princípios e fundamentos jurídicos). 2 ed. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 275.

do petróleo nacional ou estrangeiro; (iii) a importação e exportação dos produtos e derivados básicos resultantes de atividades de pesquisa e lavra de jazidas e refinação de petróleo, gás natural e hidrocarbonetos e (iv) o transporte marítimo do petróleo bruto de origem nacional ou de derivados básicos de petróleo produzidos no País, bem como o transporte, por meio de conduto, de petróleo bruto, seus derivados e gás natural de qualquer origem.

Entretanto, no que tange ao inciso V, dispõe­se que a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios e minerais nucleares e seus derivados, com exceção dos radioisótopos cuja produção, comercialização e utilização poderão ser autorizadas sob regime de permissão, são monopólio absoluto da União. Isto ocorre, principalmente, em razão do alto potencial lesivo das substâncias nucleares, portanto, visa­se preservar a segurança nacional. Por isso, a restrição não atinge somente o capital estrangeiro, mas o capital privado de forma geral149.

b) Assistência à Saúde

Destaca­se que, no art. 199, § 3º da Constituição Federal do Brasil, há proibição quanto à participação direta ou indireta de empresas ou capitais estrangeiros nas atividades de assistência à saúde, porém, admitindo­se exceções previstas em legislação ordinária. Nesse diapasão, a Lei n° 8.080/90, que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes, prevê exceção no que tange à assistência à saúde realizada por meio de doações de organismos internacionais vinculados às Nações Unidas, entidades de cooperação técnica e de financiamento e empréstimos, mediante autorização do órgão diretivo responsável vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ademais, segundo a Lei n° 9.656/98, é permitido acesso do capital estrangeiro aos planos de saúde privados e aos serviços de seguro de saúde privados, desde que haja reciprocidade no Estado de origem do investidor, conforme Decreto­lei n° 73/66150.

149 DIAS, Bernadete de Figueiredo. Investimentos estrangeiros no Brasil e no Direito Internacional.

Curitiba: Juruá, 2010. p. 99; FADDA, Fernanda. Regime constitucional e legal dos investimentos estrangeiro no Brasil. In: RIBEIRO, Marilda Rosado de Sá (Org.) Direito Internacional dos Investimentos. Rio de Janeiro: Renovar, p. 395­423, 2014..p. 398.

c) Empresa Jornalística, Radiodifusão Sonora e de Sons e Imagens

No que diz respeito à propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens, os direitos insculpidos no art. 222 da Constituição Federal antigamente vedavam a participação de pessoas jurídicas em seu capital social, a não ser que se tratassem de partido político e de sociedade com capital pertencente exclusivamente e nominalmente a brasileiros, com participação limitada a 30% do capital social e sem direito a voto.

Com o advento da Emenda Constitucional n°36 de 2002, o art. 222 passou a permitir a participação de pessoas jurídicas no capital social de tais empresas, mantendo algumas restrições. A primeira delas refere­se à participação de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, a qual deve corresponder a 70% do capital social e do capital votante das empresas jornalísticas e de radiodifusão, restando ao investidor estrangeiro, portanto, o limite de participação de até 30% do capital social e votante.

A propriedade das empresas jornalísticas, de radiodifusão sonora e de sons e imagens continuam privativas a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, os quais são juridicamente competentes pela gestão e responsabilidade das atividades, pelo conteúdo da programação, pela edição e direção da programação difundida.

d) Setor Financeiro

Antes da Emenda Constitucional n° 40 de 2003, o art. 192 da Constituição Federal do Brasil outorgava à lei complementar a regulamentação da participação de capital estrangeiro nas instituições do sistema financeiro nacional, levando em consideração os interesses nacionais e os acordos internacionais. Após a referida emenda, manteve­se a necessidade de edição de lei complementar, porém, enquanto esta não é editada, o art. 52 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) estabelece que até serem fixadas as condições por lei complementar, serão vedadas a instalação de novas agências de instituições financeiras domiciliadas no exterior, bem como proibido o aumento do percentual de participação, no capital das instituições financeiras com sede no Brasil, de pessoas físicas ou jurídicas residentes ou domiciliadas no exterior. Ressalta­se que frente a essas proibições, algumas instituições financeiras conseguiram acesso ao mercado nacional por intermédio de aquisições de instituições financeiras brasileiras. Por fim, a proibição

não se aplica às autorizações provenientes de acordos internacionais, de reciprocidade ou de interesses governamentais do Estado brasileiro151.

e) Mineração e Hidroeletricidade

O art. 176 da Constituição Federal do Brasil instituía, em sua redação original, que era reservado a brasileiros ou à empresa brasileira de capital nacional as atividades de pesquisa e a lavra de recursos minerais e de aproveitamento dos potenciais de energia hidráulica. Com a emenda constitucional n°6 de 1995, houve a alteração da redação do art. 171, como já mencionado, o que corroborou à adequação do art. 176, que passou a admitir a realização de tais atividades por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras, com sede e administração no Brasil. Atualmente, o art. 176, em seu § 1º, mantém a vedação de se efetuar atividades relacionadas no artigo por empresa estrangeira, no entanto, não é imposta proibição no que se refere à origem do capital da empresa brasileira estabelecida e com sede no país.

f) Transporte Aquaviário

A antiga redação do art. 178 da Constituição Federal do Brasil versava sobre restrições à navegação de cabotagem e interior por embarcações estrangeiras e à nacionalidade dos tripulantes, armadores, proprietários e comandantes de embarcações nacionais, exceto em caso de necessidade pública. Com a emenda constitucional n° 7 de 1995, o § 1º, do art. 178, admitiu que as atividades pudessem ser realizadas por estrangeiros, atendidas as condições da legislação de transporte aquático, Lei n° 9.432/97, para o transporte de cabotagem e para a navegação interior, como é o caso, por exemplo, da exigência da nacionalidade brasileira para o comandante e dois terços da tripulação, prevista no art. 4º da Lei n° 9.432/97.

g) Aquisição ou Arrendamento de Propriedade Rural

151 XAVIER JÚNIOR, Ely Caetano. Direito internacional dos investimentos e o Brasil: uma perspectiva a

partir do padrão de tratamento justo e equitativo. 2014. 279 f. Dissertação (Mestrado em Direito) ­ Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. f. 142­143. Além disso, segundo Ely Caetano Xavier Júnior, a proibição do art. 52 não abrange as sociedades seguradoras, conforme estabelecido no Parecer AGU/LA­01/96, adotado pelo Parecer GQ­104/96. Cf. BRASIL. Advocacia Geral da União. Parecer n°GQ­104, de 29 fevereiro 1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, 11 de junho de 1996.

O art. 190 da Constituição Federal do Brasil estipula que a lei regulará e limitará a aquisição ou arrendamento de propriedade rural por pessoa física ou jurídica estrangeira. No entanto, esta lei ainda não foi editada pelo Poder Legislativo, permanecendo em vigor até o momento a Lei n° 5.709/71, que estabelece diversas restrições à aquisição de imóvel rural por estrangeiros residentes no Brasil ou por pessoa jurídica estrangeira autorizada a funcionar no país. Dentre as restrições cita­se o tamanho da propriedade; percentual em loteamentos rurais realizados por empresas particulares de colonização; vinculação dos imóveis rurais necessariamente aos objetivos estatutários das pessoas jurídicas estrangeiras ou brasileiras a elas equiparadas, dentre outras disposições previstas em lei.

Nesse diapasão, o art. 1º da lei supracitada expande as restrições insculpidas à “pessoa jurídica brasileira da qual participem, a qualquer título, pessoas estrangeiras físicas ou jurídicas que tenham a maioria de seu capital social”152. Ocorre que, com a revogação

do art. 171, isto foi questionado em razão da distinção realizada em sua redação original. Segundo parecer da Advocacia Geral da União (AGU), à época, ao ser consultada sobre a constitucionalidade do artigo, esta pronunciou­se no Parecer n° AGU/LA­04/94, adotado pelo Parecer n° GQ­22/94, que o art. 1º da Lei n° 5.709/71 não havia sido recepcionado pela Constituição. Contudo, com a revogação do art. 171 da Constituição, foi determinado o reexame do parecer, quando se concluiu que seria impossível a repristinação da norma jurídica. Assim, o novo Parecer n° AGU/LA­01/97, adotado pelo Parecer n° GQ­ 181/98, manteve o entendimento do parecer anterior. Entretanto, em 2008, a AGU reformou a orientação anterior, por meio do Parecer CGU/AGU n° 01/2008, adotado pelo Parecer n° LA­01/2010, que entendeu pela recepção do § 1º, do art. 1º, da Lei n° 5.709/71 pela Constituição153.

Segundo Fernanda Fadda (2014, p.403), “a conclusão do Parecer CGU/AGU n° 01/2008, ao sujeitar a empresa brasileira sob controle estrangeiro às mesmas regras impostas à empresa estrangeira para a aquisição de imóvel rural, foi alvo de várias

152 BRASIL. Lei n° 5.709 de 7 de outubro de 1971. Regula a aquisição de imóvel rural por estrangeiro

residente no país ou pessoa jurídica estrangeira autorizada a funcionar no Brasil, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, 11 de outubro de 1971.

153 XAVIER JÚNIOR, Ely Caetano. Direito internacional dos investimentos e o Brasil: uma perspectiva a

partir do padrão de tratamento justo e equitativo. 2014. 279 f. Dissertação (Mestrado em Direito) ­ Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. p. 147.

críticas”154. Estas concentravam­se principalmente na literalidade do art. 190 da

Constituição, que previa limitações à pessoa física ou jurídica estrangeira, contudo, um dos méritos do parecer foi “enfrentar a questão pertinente à possibilidade de lei ordinária dispor sobre restrições à empresa brasileira de capital estrangeiro, além daquelas previstas no texto constitucional, independentemente da revogação do art. 171 da Constituição”155.