A caminhada ricoeuriana sobre o problema da relação entre o discurso histórico e o ficcional principia-se em uma bifurcação: de um lado, a via historiográfica refigura o tempo elaborando um terceiro tempo – o tempo histórico –, que realiza a mediação entre o tempo vivido e o tempo cosmológico inscrevendo o primeiro no último; de outro lado, a via ficcional aponta para as variações imaginativas, que explicitam as descontinuidades entre as perspectivas temporais e a impossibilidade de reduzir uma a outra.
A historiografia exerce sua capacidade de refiguração temporal por meio de instrumentos de pensamento que, em sua composição, contêm elementos tanto do tempo objetivo quanto do subjetivo. Esses dispositivos funcionam como pontes que a prática historiadora lança entre o tempo cósmico e o tempo vivido, e podemos citá-los: o calendário, a sequência de gerações e o recurso aos arquivos, documentos e rastros.
O calendário é o primeiro conector temporal assinalado por Ricoeur. Nele, existe um parentesco com o tempo objetivo: ambos se apresentam como um contínuo uniforme, infinito, linear e segmentável à vontade. O calendário fornece instantes quaisquer destituídos de passado, presente e futuro que possibilitam a datação dos eventos. Do curso dos astros, essencialmente do sol, provém a referência para a mensurabilidade dos intervalos temporais. Todavia, esse conector, assim como os demais, não pode ser limitado ao tempo cósmico. Do tempo vivido ele retém a noção de um presente – distinto de um instante qualquer –, em função do qual há um amanhã e um ontem. Isso permite a percepção dos momentos axiais, isto é, aquele marcante presente vivido que é escolhido como o marco zero de uma nova era. Os demais acontecimentos serão ordenados temporalmente em relação ao momento axial. O calendário, sem o qual não há tempo histórico, opera a inscrição de uma vida humana em um tempo mais vasto referenciado por um evento fundador. Assim “ele cosmologiza o tempo vivido e humaniza o tempo cósmico” (T&N 3: 197).
O tempo histórico utiliza um outro conector para executar a ligação entre o tempo cósmico e o vivido: a sequência de gerações, que cria o reino dos contemporâneos, sucessores e predecessores. Na sucessão de gerações, os vivos ocupam o lugar deixado pelos mortos. Ricoeur salienta que a noção de geração não pode ser restringida a seus traços biológicos, tais como nascimento, envelhecimento e morte, com base nos quais se chega a mensurar quantitativamente o tempo da substituição de
uma geração pela outra de acordo com a duração média de vida. A simples substituição biológica entre mortos e vivos não é suficiente para constituir uma sucessão geracional. Desde Dilthey, esse fenômeno é visto como intermediário entre o tempo exterior, do calendário, e o tempo interior, da vida psíquica. Para pertencer à mesma geração, não basta ter nascido em datas relativamente próximas, mas é necessário ter sido exposto às mesmas influências, ser marcado pelos mesmos acontecimentos e mudanças e compartilhar expectativas. Já na sociologia fenomenológica de A. Schutz, mobilizada por Ricoeur, o conceito de geração faz a transição da experiência compartilhada ao anonimato. Dessa forma, torna-se possível um tempo intersubjetivo que está para além das relações interpessoais imediatas, que faz a mediação entre o tempo público e o tempo privado. Por fim, a sequência de gerações nos lembra do lugar da morte na escrita da história, fazendo referência tanto ao aspecto íntimo da mortalidade de cada homem, quanto à dimensão pública da substituição dos mortos pelos vivos (T&N 3).
O último conector empregado pela prática historiadora analisado por Ricoeur foi a noção de vestígio (trace). Aqui, o filósofo retoma a definição Marc Bloch, para quem a historiografia é um “conhecimento por vestígios” (BLOCH, 1952, p. 34). O rastro (trace) é um sinal de que alguém passou por aquele lugar. A marca deixada indica o passado da passagem; ela mostra, sem fazer aparecer, o que por ali passou. O vestígio orienta a pesquisa histórica, pois, por meio dele, tem-se acesso à significância de um passado concluído (révolu), que, todavia, mantém-se preservado nos rastros. “Nele o passado não ‘aparece’, mas, ao mesmo tempo, afirma a sua existência” (REIS, 1994, p. 77). Os homens podem passar, mas suas obras ficam. O vestígio também opera uma mediação entre as perspectivas temporais cosmológicas e fenomenológicas. Ao ser datado, o rastro marca a passagem de alguém no tempo do calendário e no tempo objetivo. Ele é, na perspectiva do filósofo francês, um dos instrumentos mais enigmáticos pelos quais a narrativa histórica refigura o tempo (T&N 3).
A problemática do vestígio será crucial para os argumentos ricoeurianos sobre a representação do passado histórico. Ele coloca em jogo o enigma da presença do ausente que há muito tempo está na base da discussão sobre o conceito de representação. No artigo “A marca do passado” (1998) e em A memória, a história, o esquecimento (2000), os rastros são cotejados com a noção de testemunho.
No que tange às respostas, a aporia da temporalidade a ficção é apresentada por Ricoeur em contraponto à historiografia. Se o tempo histórico se ocupa invariavelmente
com a reinscrição do tempo vivido no tempo cósmico,58 a ficção elabora variações imaginativas, fábulas sobre o tempo. A incursão ricoeuriana pelo campo ficcional se dá através de uma extensa leitura de três romances: Mrs. Dalloway, de Virginia Wolff; A montanha mágica, de Thomas Mann, e Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Devido a nossa delimitação temática e a nossa limitação de espaço, não poderemos reconstruir os passos dessa análise. Em vez disso, escolhemos destacar aqueles argumentos abrangentes, que não se atêm exclusivamente à particularidade das narrativas citadas. Destarte, colocamos em relevo o conceito de variações imaginativas que foi cunhado inicialmente no tomo 2 de Tempo e narrativa – A configuração do tempo na narrativa de ficção:
Falaremos de variações imaginativas para designar estas figuras variadas de concordância discordante, que vão bem além dos aspectos temporais da experiência cotidiana, tanto práxica quanto pática, tal como as descrevemos no primeiro volume sob o título de mímesis I. São variedades da experiência temporal que só a ficção pode explorar e que são oferecidas à leitura com vistas a refigurar a temporalidade ordinária (T&N 2: 191).
Esse excerto nos lembra, principalmente, de duas coisas: 1) a leitura de Ricoeur das obras ficcionais pretende continuar e aprofundar sua teoria da tripla mímesis; 2) em consequência disso, a narrativa ficcional emerge do um campo prático da experiência e tem um efeito na experiência vivida pelos leitores, transformando-a. O conceito de experiência ficcional do tempo pretende sublinhar a abertura presente nas narrativas de ficção. As obras se reportam a... , se dirigem para... , são a respeito de... No momento da leitura, a experiência fictícia dos personagens se encontra com a experiência viva do leitor (T&N 2).
A ficção, assim como a história, fornece uma refiguração temporal ao leitor, tornando o tempo mais humano. Para nós, a tese central de Ricoeur sobre a mediação entre temporalidade e discurso narrativo apresenta afinidades com os argumentos publicados por Frank Kermode em meados dos anos de 1960. Para esse crítico literário, a ficção humaniza o tempo, ao atribuir-lhe a noção de início e de fim. Seu exemplo é um simples tique-taque de um relógio. Efetivamente, não há diferença entre os sons, porém, nossa consciência confere um sentido a esse intervalo, erigindo um princípio e um fim. De forma mais elaborada, as narrativas organizam nossa experiência temporal e
58 Para uma discussão sobre que compare a perspectiva ricoeuriana do tempo histórico como um terceiro tempo com outras reflexões, conferir em História & Teoria de José Carlos Reis o capítulo “O conceito de tempo histórico em Ricoeur, Koselleck e nos Annales: uma articulação possível”. (REIS, 2006).
conferem significado à mera sucessão por meio de interação entre princípio, meio e fim, na qual o final poderá trazer redenção e sentido ao início:
Tomemos um exemplo muito simples, o tique-taque dum relógio. Perguntamos-lhe o que diz; e concordamos que diz tique-taque. Por esta ficção, humanizamo-lo, fazemo-lo falar a nossa linguagem. Claro que somos nós que fornecemos a diferença fictícia entre os dois sons; tique é a nossa palavra para um princípio físico, taque a nossa palavra para um fim. (...) O intervalo entre os dois sons, entre o tique e o taque, está carregado agora com uma duração significativa. Pego no tique-taque do relógio como modelo daquilo a que chamamos trama, uma organização que humaniza o tempo ao dar-lhe forma (KERMODE, 1997 [1966], p. 56, grifos do original).
Em momento algum de Tempo e narrativa, Ricoeur explicita as semelhanças entre sua tese e a de Kermode. Talvez Ricoeur não tenha se preocupado em fazer essa ligação porque parte de um ponto distinto que é a sua original leitura do paradoxo invertido entre tempo e narração contido nas Confissões e na Poética. O filósofo se apropria das reflexões do referido crítico literário também no que diz respeito ao paradigma e a seu contínuo remodelamento por cada nova obra, sendo que, desta feita, ele deixa claro sua referência. De toda forma, o registro da confluência dos autores é importante para salientar que outros pensadores apontaram para uma direção similar à seguida por Ricoeur no que diz respeito à humanização do tempo através da narrativa.
Dito isso, voltemos a examinar a ligação entre história e ficção. Um traço nítido na oposição entre o tempo histórico e o ficcional na visada ricoeuriana é a libertação do narrador do uso dos conectores, que operam a reinscrição do tempo vivido no tempo cósmico e que o historiador é compelido a utilizar. A experiência temporal dos personagens fictícios não exige ser conectada a um tempo cronológico comum. Cada narrativa ficcional projeta um mundo do texto próprio, singular e incomparável, a despeito das eventuais intertextualidades. Por isso, “as experiências temporais ficcionais não são totalizáveis” (T&N 3: 231). A contrapartida positiva da não imposição do tempo cronológico é a possibilidade de a ficção explorar aspectos do tempo fenomenológico que não são tocados pelo tempo histórico em virtude de sua preocupação em reinscrever uma perspectiva temporal na outra.
O discurso ficcional até estabelece relações entre o tempo vivido e o cósmico ao mesclar personagens históricos, eventos datáveis e lugares geográficos conhecidos a acontecimentos, personagens e lugares inventados. Porém, isso não arrasta o tempo ficcional para o espaço de gravitação do tempo histórico. Na ficção, a referência ao
passado histórico não tem função de representância como – veremos adiante – é o caso da historiografia. Ainda quando a narrativa ficcional lança mão dos conectores específicos do conhecimento histórico, ela os neutraliza, os emprega de modo mais maleável. Os romances ficcionais analisados por Ricoeur evidenciam a dimensão qualitativa da experiência do tempo, impedindo que ela seja reduzida a seus aspectos cronológicos e quantificáveis (GENTIL, 2004):
A maior contribuição da ficção à filosofia não reside na gama de soluções que ela propõe à discordância entre tempo do mundo e tempo vivido, mas na exploração dos traços não lineares do tempo fenomenológico que o tempo histórico oculta em virtude de sua inserção na grande cronologia do universo (T&N 3: 237).
A pergunta a ser feita é: quais são as implicações desses primeiros passos para nossa pesquisa? Caracterizamos as posições ricoeurianas sobre a representação histórica como um realismo crítico que seria uma terceira via entre o realismo doutrinário e os relativistas mais radicais. No contexto francês, durante o esforço de fundamentar cientificamente a história, alguns autores propuseram uma oposição entre a historiografia e a arte, sobretudo a literatura:59
A história não é uma arte que vise narrar com encanto. Não se assemelha nem à eloquência nem à poesia. O historiador pode ter imaginação; ela lhe é até indispensável; pois é necessário que ele forme no espírito uma imagem exata, completa e viva das sociedades de outrora; mas a história não é um produto da imaginação. A história é uma ciência pura, uma ciência como a física ou como a geologia. (...) Ela visa apenas encontrar fatos, descobrir verdades (...) Ela é tão imparcial, tão independente e tão impessoal quanto todas as demais ciências. Acrescento que ele nem sequer tem um objetivo prático (FUSTEL DE COULANGES, [1875] 2003, p. 305).
Não chega a ser novidade apresentar o século XIX como um momento de consolidação da história como ciência, o que envolvia uma narrativa objetiva e neutra fundada na crítica documental, cada vez mais distante do campo da literatura e das artes. Todavia, como alguns autores têm observado, a consolidação do modelo científico de escrita da história não ocorreu de uma só vez, de forma rápida e consensual, à moda de
59 Não é de se espantar que os historiadores oitocentistas façam menção à literatura e às artes – e não a ficção – como campo do qual a historiografia deveria diferençar-se. Segundo Costa Lima, no início do século XIX, a teorização sobre o ficcional ainda era precária, à exceção da epistemologia de Jeremy Bentham (1813-1815) e da Filosofia do como se, proposta por Hans Vaihinger (1877). Cf. COSTA LIMA, 2006, p. 260-278. “Do ponto de vista da ficção poética, o exame das reflexões de Bentham e Vaihinger apresenta um resultado paradoxal: se elas próprias pouco ou nada dizem da espécie poética, foram, contudo, fundamentais para a grande teoria da ficção poética que o século XX afinal produziu” (COSTA LIMA, 2006, p. 277).
uma abrupta mudança de paradigma ou revolução científica (CEZAR, 2004; DELACROIX, DOSSE; GARCIA, 2012). A noção de cor local expressa bem esse anseio dúbio. Recurso estilístico que era empregado tanto por historiadores quanto por literatos, ele recomendava que os quadros históricos pintados pela narrativa deveriam se valer das cores do próprio passado, de suas características específicas. O historiador seria como um observador que pode ver a realidade em sua multiplicidade. A intermediação da linguagem não compromete o processo, pois o sujeito do conhecimento aceita apagar a si mesmo como autor para fielmente deixar que apenas a cor local60 do passado apareça em uma representação fiel e vívida que afetasse a vida do leitor (HARTOG, 2011): “A cor local, sem mediações, é assim a representação exata da história” (CEZAR, 2004).
Com efeito, será que a dicotomia entre história e ficção apontada por Ricoeur nesses primeiros momentos de sua argumentação repõe o mesmo problema levantado por Coulanges? A resposta é negativa. A oposição entre os discursos levantada pelo filósofo diz respeito à outra discussão. Nesse momento, ela remete estritamente à resposta dada pelas narrativas à aporia da temporalidade. Portanto, Ricoeur não retorna à discussão metódica que levou alguns autores oitocentistas a cindirem o campo historiográfico do ficcional. Apesar de formular esse contraponto no início de Tempo e narrativa, v. 3, na filosofia ricoeuriana, tanto a história quanto a ficção tem como pano de fundo a refiguração temporal. Aliás, essa contraposição não é assim tão rígida, tanto que, nos capítulos seguintes de Tempo e narrativa, a teoria caminha para um paralelismo e culmina em um entrecruzamento entre historiografia e ficção. Sigamos esses passos.
60 Esse recurso narrativo pretende conferir visibilidade e intensidade à história narrada, mas não renuncia à faculdade imaginativa e, portanto, não está plenamente divorciada de uma dimensão literária e retórica (CEZAR, 2004). Estamos cientes de que a breve menção que fizemos ao conceito de cor local não faz justiça à história e à riqueza de sentidos dessa noção. Nosso objetivo foi mostrar que, mesmo ao tentar oferecer uma representação fiel do passado, uma parcela da historiografia oitocentista partilhava recursos com a literatura. Direcionamos o leitor interessado em um estudo mais aprofundado para a pesquisa de CARDOSO, 2012, além do artigo de Temístocles Cezar já citado.
3.3 A representação da realidade do passado histórico e a interação entre mundo