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Após marchar rapidamente pela bifurcação que separa de maneira mais clara a história da ficção, o caminho de Ricoeur se depara com um paralelo que tem como pedra de toque a questão da relação da narrativa, seja histórica ou ficcional com a realidade. A partir desse momento, o filósofo começa a observar uma incipiente convergência entre a função de representância exercida pelo conhecimento histórico e a significância adquirida pelo discurso ficcional quando o processo de leitura relaciona o mundo do texto com o mundo do leitor.

Esse trajeto nos leva para mais perto de nosso tema central, cujo nascedouro é o problema que pode ser assim exprimido: “A questão da representância do passado ‘real’ pelo conhecimento histórico nasce da simples pergunta: que significa o termo ‘real’ aplicado ao passado histórico? Que queremos dizer quando dizemos que algo ‘realmente’ aconteceu?” (T&N 3: 252).

Essa simples e embaraçosa pergunta marca uma segunda diferença entre história e ficção, sendo que a primeira diz respeito à refiguração do tempo. Em que pese o caráter seletivo da coleta e conservação de fontes e de suas implicações ideológicas, o documento submete o historiador ao que um dia foi e o coloca em uma relação de dívida para com os mortos. O realismo crítico ricoeuriano está no substrato desse pensamento:

[O conceito de passado real] está, sustentado por uma ontologia implícita em virtude da qual as construções do historiador têm a ambição de ser

reconstruções mais ou menos aproximadas do que um dia foi “real”. (...) É

tarefa de uma reflexão filosófica explicitar as pressuposições desse

“realismo” tácito que o mais militante dos “construtivismos” da maioria dos historiadores epistemólogos não consegue abolir. Daremos o nome de representância (ou de lugartenência) às relações entre as construções da

história e seu contraponto (vis-à-vis), a saber, um passado que é ao mesmo tempo abolido e preservado nos vestígios (T&N 3: 183, grifo nosso).

A indagação sobre a realidade do passado histórico leva Ricoeur a refletir sobre as especificidades da representação na operação historiográfica. Para tanto, ele retoma algumas considerações de Karl Heussi, para quem o passado é a contraparte (vis-à-vis) à qual o conhecimento histórico se esforça para corresponder de maneira apropriada. A língua alemã fornece uma importante distinção semântica ao atentar para a “distinção entre representar, tomada no sentido de estar no lugar (vertreten) e se representar, no

sentido de criar uma imagem mental de uma coisa exterior ausente (sich vorstellen)” (T&N 3: 253, grifos nossos).

A historiografia tomada na acepção de um conhecimento por rastros – para usar a expressão de Marc Bloch – opera, segundo Ricoeur, com a primeira definição do conceito de representação: “Com efeito, o vestígio (trace), na medida em que é deixado pelo passado, vale por ele: exerce a seu respeito uma função de lugartenência, de representância (Vertretung)” (T&N 3: 254). Isso sublinha a referência indireta da escrita da história e marca sua distinção em relação a outros modos referenciais em relação ao passado.

A abordagem do enigma da realidade do passado histórico foi realizada por meio do recurso aos grandes gêneros do Mesmo, do Outro e do Análogo – sendo que os dois primeiros provêm do Sofista de Platão. O exame desses argumentos será um momento propício para uma primeira aproximação ao cerne de nosso trabalho, qual seja, a representação do passado histórico em Paul Ricoeur. A respeito disso, o próprio autor alerta: “Não pretendo que a ideia de passado seja construída pelo encadeamento destes três ‘grandes gêneros’; apenas sustento que dizemos algo de significativo (sensé) sobre o passado ao pensá-lo sucessivamente sob o signo do Mesmo, do Outro e do Análogo” (T&N 3: 255).

O primeiro modo de o historiador lançar luz sobre a passeidade (passeité) do passado, isto é, a qualidade passada do que um dia ocorreu, é tratando-o sob o signo do Mesmo, anulando a distância temporal que separa o pretérito do presente. Assim, há um des-distanciamento, uma identificação que realça a continuidade entre os tempos. Tal operação é feita a partir do vestígio, que, em si, existe no presente. A fonte de Ricoeur para essa posição é o filósofo-historiador Robin George Collingwood e seu projeto de “reefetuação” ou “re-apresentação” da experiência passada.

Para compreendermos a teoria de Collingwood, é importante ter em mente a diferenciação que o autor traça entre a face interna e a face externa do acontecimento. O exemplo retirado pelo autor da história romana clarifica os conceitos. A face exterior é composta pelos movimentos físicos realizados pelos eventos – “a passagem de César, acompanhado de certas pessoas, através de um rio chamado Rubicão, numa certa data” (COLLINGWOOD, 2008, p. 305) –, enquanto a face interior diz respeito à realidade interna aos eventos, seu pensamento e ação – “o desafio de César à lei da República, ou o conflito da política constitucional entre ele próprio e os assassinos” (COLLINGWOOD, 2008, p. 305-306). Nessa perspectiva, o historiador não investiga

“meros eventos”, que para Collingwood se resumem a um exterior sem interior, mas pesquisa ações, isto é, uma unidade entre a face interna e a externa.

A tarefa do historiador, para Collingwood, é reanimar a face interna, repensar o pensamento do agente, perscrutar quais eram suas motivações e intenções. O repensamento elimina a distância temporal, presentifica a experiência passada e reatualiza o passado. O rastro é uma herança deixada pelo passado que permite a reefetuação do pensamento. O paradoxo é que o vestígio só se torna vestígio do passado quando sua passeidade é abolida pelo ato intemporal de repensar o acontecimento no seu interior pensado. Temos, portanto, uma noção de representação como re- apresentação do passado no espírito do historiador. Embora esses passos pareçam conduzir a uma espécie de cópia imaginativa da experiência, o autor adverte:

Não se trata de uma rendição passiva à magia de outro espírito, trata-se do trabalho de pensamento ativo e, por conseguinte, crítico. O historiador não se limita a re-presentar o pensamento passado; representa-o no contexto do seu próprio conhecimento e assim, ao representá-lo, critica-o, faz sobre ele um juízo de valor, corrige os possíveis erros que nele encontre (COLLINGWOOD, 2008, p. 307).

Três objeções são levantadas por Ricoeur contra o grande gênero do Mesmo: 1) é impossível passar do pensamento do passado como meu para o pensamento do passado como outro. Essa alteridade do pensamento é irredutível e inultrapassável; os meus pensamentos serão sempre meus e não de outros. O historiador nunca conseguirá repensar todo pensamento de César ao atravessar o Rubicão. 2) Nenhuma consciência é inteiramente transparente a si mesma. O ato de reefetuar o pensamento esbarra, então, em uma parcela de opacidade, seja por parte da consciência do historiador, seja por parte da consciência do agente do passado. 3) A própria dissociação entre a face exterior e a face interior do acontecimento é questionável, pois desarticula a própria noção de tempo histórico ao separar, de um lado, as contingências do puro movimento físico e, de outro, o ato intemporal de pensar.

Em face de tantas limitações e dificuldades, Ricoeur se questiona: não seria melhor pensar o passado a partir do grande gênero do Outro? Essa perspectiva foi construída por historiadores abertos ao questionamento filosófico – W. Dilthey, Paul Veyne e Michel de Certeau – que chegam a apontar para uma ontologia negativa do passado. Na direção oposta a de Collingwood, esses autores defendem que a historiografia deve realçar a distância temporal entre passado e presente, colocando o primeiro sob o signo do Outro, num procedimento produtor de estranhamento. Algumas

vezes, essa estratégia foi utilizada para descentrar o etnocentrismo ocidental presente em uma parcela da historiografia (T&N 3).

O processo de conceitualização e individualização é o momento privilegiado para a produção de diferenças na historiografia, segundo Paul Veyne. Para fazer aparecerem as diferenças, o historiador recorre a constantes, já que não é possível falar do individual sem o auxílio de um conceito. Nessa visão, a história é uma ciência61 que faz o inventário das diferenças. A partir da conceituação de uma constante, é possível explicar os acontecimentos, que passam a ser vistos como uma modificação histórica dos modelos. Por exemplo, um historiador se põe a pergunta: “o governo de George W. Bush pode ser classificado como imperialista?” Para respondê-la, é preciso recorrer a uma constante, a um conceito de imperialismo que abarque traços imperialistas presentes na Grécia, em Roma, no Império Britânico, na Alemanha nazista etc. Assim, o imperialismo de Bush ganha uma fisionomia própria, que revela sua individualidade em relação às demais experiências imperialistas. Em suma, o fato histórico é descrito como uma variante produzida pela individualização da invariante conceitual.

Com o destaque para a distância temporal, o historiador torna-se um estrangeiro em relação aos costumes dos tempos passados a ponto de a alteridade pretérita prevalecer sobre a sobrevivência do passado no presente. A ontologia negativa do passado ganha cores mais intensas com a operação historiográfica de Michel de Certeau. Na abertura de seu célebre ensaio, o autor se indaga: “O que fabrica o historiador quando ‘faz história’? Para quem trabalha? Que produz? (...)” (CERTEAU, 2007, p. 65). Na leitura de Ricoeur, de Certeau se propõe a investigar o lugar social da produção historiográfica numa espécie de sociologia da historiografia. Este lugar é o não dito por excelência do conhecimento histórico. Em sua pretensão científica, alguns historiadores acreditaram produzir história a partir de lugar nenhum. Porém,

toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de produção socioeconômico, político e cultural. Implica um meio de elaboração que circunscrito por determinações próprias (...) está, pois, submetido a imposições, ligado a privilégios, enraizado em uma particularidade (CERTEAU, 2007, p. 66-67).

A teoria do acontecimento como diferença em de Certeau tem como ponto de partida essa crítica ideológica. Na interpretação ricoeuriana dessa teoria, uma história menos ideológica seria um conhecimento que não se limitasse a construir grandes

61 Para uma análise das oscilantes posições de Veyne quanto à cientificidade da história e do alcance de suas construções conceituais, conferir REIS, 2006, p. 127-131.

modelos explicativos, mas que expressasse as diferenças como desvios. Assim como as variantes de Veyne, os desvios são relativos a modelos (T&N 3). Para M. de Certeau, a historiografia deve realizar um trabalho sobre o limite, evidenciando aqueles eventos que são desviantes em relação aos modelos. Se antes o historiador se lançava em uma ‘totalização’ dos fatos do passado que apagaria, ou reconciliaria as diversas interpretações, agora ele se interessa pela manifestação das diferenças. Quando a história se coloca em contato com modelos produzidos em outras ciências, ela resguarda sua função crítica:

O conhecimento histórico fez surgir, não um sentido, mas as exceções que a aplicação de modelos econômicos, demográficos ou sociológicos faz aparecer em diversas regiões da documentação. O trabalho consiste em

produzir algo de negativo, e que seja ao mesmo tempo significativo. Ele é

especializado na fabricação de diferenças pertinentes que permitem “criar” um rigor maior nas programações e na sua exploração sistemática (CERTEAU, 2007, p. 91, grifos nossos).

Alguns anos antes da publicação da primeira versão de Operação histórica (1974), Michel Foucault apresentara sua Arqueologia do saber (1969), na qual a noção de descontinuidade tem proeminência. O filósofo percebe que o deslocamento da história factual e biográfica para os longos períodos que tendem à estabilidade tem como contrapartida o deslocamento na história das ideias (especialmente na chamada Epistemologia Francesa, que conta com A. Koyré e G. Canguilhem), das unidades contínuas de pensamento para o fenômeno da ruptura. Ambos os movimentos, na visão foucaultiana, têm como ponto de partida a crítica do documento, que passa a ser visto como monumento. A Nova História não se preocupa em estabelecer a autenticidade do documento, mas em trabalhá-lo desde o interior, recortando-o e dispondo-o em séries, para, posteriormente descrever as relações entre as séries. Uma das consequências dessas mudanças é assim enunciada:

Para a história, em sua forma clássica, o descontínuo era, ao mesmo tempo, o dado e o impensável; o que se apresentava sob a natureza dos acontecimentos dispersos (...) o que devia ser, pela análise, contornado, reduzido, apagado para que aparecesse a continuidade dos acontecimentos. A descontinuidade era o estigma da dispersão temporal que o historiador se encarregava de suprimir da história. Ela se tornou, agora, um dos elementos fundamentais da análise histórica. (...) Um dos traços mais essenciais da história nova é, sem dúvida, esse deslocamento do descontínuo: sua passagem do obstáculo à prática; sua integração no discurso do historiador (FOUCAULT, 2009, p. 9- 10).

É verdade que, segundo suas próprias palavras, de Certeau prefere falar em limite ou diferença, e não em descontinuidade, já que, para o historiador francês, essa noção é ambígua e “parece postular a evidência de um corte na realidade” (CERTEAU, 2007, p. 51). De toda forma, são notáveis as afinidades entre os pensadores em questão no que diz respeito à crítica à continuidade histórica, que resulta num distanciamento crítico do presente em relação ao passado.

“O passado é o ausente da história”. Essa frase que de Certeau gostava de repetir é o corolário da ontologia negativa do passado, para a qual também contribui sua teoria do acontecimento como desvio. Segundo Ricoeur, a distinção entre a diferença- variante, proposta por Veyne, e a diferença-desvio, de de Certeau, é que a primeira se insere na periferia do modelo, ao passo que a segunda se exclui dele. Mas, ele alerta: “a noção de desvio permanece sendo tão intemporal quanto a de modificação, na medida em que um desvio permanece relativo ao modelo alegado” (T&N 3: 271).

Apesar dessa crítica, Ricoeur ressalta os méritos do grande gênero Outro. Ele exorciza da historiografia o fantasma do passado substancial criticando as perspectivas totalizantes de apreensão. Ademais, algo importantíssimo para os propósitos de nossa pesquisa: abandona-se a ideia de representação como uma reduplicação mental da presença, como ocorria no grande gênero Mesmo. Todavia, a noção de diferença, seja como variante, seja como desvio, não faz justiça ao que há de positivo na persistência do passado no presente: “Pois, como poderia uma diferença sempre relativa a um sistema abstrato e ela mesma tão destemporalizada quanto possível ocupar o lugar do que hoje, ausente e morto, outrora foi real e vivo?” (T&N 3: 255, grifo nosso)

Tendo em vista que os grandes gêneros do Mesmo e do Outro trazem contribuições, mas também trazem limitações quando tomados de forma unilateral, a proposta ricoeuriana é que um terceiro gênero possa conjugar seus benefícios e equacionar as insuficiências. Este outro gênero é o Análogo, que é uma semelhança menos entre termos simples do que entre relações.

A historiografia, assim como outras formas de conhecimento, não está imune aos mitos. Um dos mais repisados e menos compreendidos é a máxima rankeana62 de que a tarefa do historiador é mostrar os fatos “tal como efetivamente ocorreram” (wie es

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Sérgio da Mata define o mito historiográfico como “uma crença, ou articulação de várias crenças, coletivamente construída(s) e a partir de então associada(s) à obra e à trajetória de um historiador ou grupo de historiadores” (MATA, 2010, p. 188). Assim, o famoso adágio rankeano é lido fora de seu contexto textual e histórico e, muitas vezes, instrumentalizado para legitimar a “revolução” dos Annales em relação à historiografia do século XIX, que é equivocadamente chamada de positivista.

eigentlich gewesen). Antes de chegarmos a conclusões apressadas, vejamos a frase em seu contexto textual: “Atribui-se à história a tarefa de julgar o passado, de instruir o presente em prol das gerações futuras. O presente estudo não se atribui tarefa tão elevada: limita-se a mostrar como as coisas efetivamente aconteceram (Wie es eigentlich gewesen” (RANKE apud T&N 3:272, nota 1). Ricoeur não endossa a interpretação dos que viam em Ranke o “arquipositivista” selvagem que ansiava por atingir de forma substancial o passado em si mesmo:

Este famoso princípio rankeano exprime não tanto a ambição de alcançar o passado ele mesmo sem mediação interpretante, mas o desejo do historiador de se despojar de suas preferências pessoais, de “apagar seu próprio eu, de deixar, de certo modo, as coisas falarem e aparecerem as poderosas forças que se revelaram no correr dos séculos”, como está dito em Über die

Epochen der neuren Geschichte” (T&N 3: 272, nota1).

O filósofo francês, assim como outros autores, sinaliza que a advertência de Leopold von Ranke se dirige contra o impulso de o historiador se colocar como juiz do passado, ou mesmo em impor preferências pessoais e qualquer espécie de moralismo à narrativa do passado. Marc Bloch emitiu juízo semelhante sem descartar a ambivalência presente na formulação rankeana: “Como muitas máximas, esta talvez não deva sua fortuna senão a sua ambiguidade. Podemos ler aí, modestamente, um conselho de probidade: este era, não se pode duvidar, o sentido de Ranke” (BLOCH, 1952, p. 80). Há ainda aqueles que, como Koselleck e Dosse, interpretam a passagem como um atestado da mudança na escrita da história, que deixa de ser vista como magistra vitae para se fundamentar cientificamente (KOSELLECK, 2006).

Na ânsia de distinguir seu ofício da ficção, os historiadores parecem lançados em um paradoxo: por um lado, defendem a ideia de uma certa correspondência entre a narrativa histórica e o que realmente aconteceu; por outro, sabem que sua reconstrução é uma construção que difere do curso dos acontecimentos. Tal embaraço, de acordo com Ricoeur, levou alguns historiadores a rejeitar o conceito de representação por crerem que ele se encontrava contaminado com o “mito da reduplicação termo a termo da realidade na imagem que dela fazemos” (T&N 3: 273). Todavia, esse não é o caminho tomado por Ricoeur, que prefere depurar o conceito através da representância, por achar que seu mero abandono ou substituição não resolveria o problema da correspondência. Um dos motivos que explicam essa escolha é a convicção ricoeuriana de que o historiador possui uma dívida não paga em relação ao passado: ele pretende “dar o que é devido [rendre son dû] ao que um dia foi” (T&N 3: 273).

A exploração do gênero do Análogo é feita por Ricoeur a partir de uma leitura da Teoria dos Tropos, de Hayden White. Na interpretação do filósofo francês, White expôs o discurso histórico a uma dupla submissão, que se reporta, de um lado, ao tipo de intriga empregado, o tropo, mas, de outro, ao próprio passado, através da fonte documental disponível. O labor historiográfico procura combinar essa obediência dupla em uma narrativa que pretende representar o passado, transformando-o em um ícone (T&N 3).

Levando em conta a discussão que já realizamos sobre o linguistic turn, podemos ver alguns de seus pilares na leitura ricoeuriana de White. Em Meta-história, o historiador estadunidense sustenta que o objeto do conhecimento histórico não é pré- dado e exterior à linguagem. Isso leva a um giro linguístico que desloca a linguagem para o fundamento do conhecimento histórico como uma de suas condições de possibilidade. Não podemos também deixar de destacar que a interpretação de Ricoeur sobre a tropologia de White não a nivela com um ceticismo ou relativismo radical. Tampouco é endossada a assertiva de que o autor de Meta-história defenda o uso de uma linguagem “autorreferencial” no conhecimento histórico que dispensasse o recurso à documentação. Em nosso ponto de vista, a compreensão ricoeuriana faz justiça ao autor. Vejamo-lo em seus próprios termos:

Nessa teoria trato o trabalho histórico como o que ele manifestamente é: uma estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa. As histórias (e filosofias da história também) combinam certa quantidade de “dados”, conceitos teóricos para “explicar” esses dados e uma estrutura narrativa que os apresenta como um ícone de conjuntos de eventos presumivelmente ocorridos em tempos passados (WHITE, 2008, p. 11).

Certamente, a ênfase colocada sobre a linguagem no processo de produção de sentido para o passado aproxima a abordagem de Paul Ricoeur da de Hayden White. Com efeito, a compreensão do papel da linguagem também marca algumas distinções entre esses pensadores. Na visão de White, antes de figurar “o que realmente aconteceu”, o historiador precisa prefigurar o conjunto dos acontecimentos relatados na documentação. Essa é uma operação poética que desenha no campo histórico itinerários possíveis, traçando os contornos iniciais dos objetos possíveis de conhecimento. Uma questão pode emergir nesse contexto: O campo pré-figurativo trabalhado em Meta- história não cumpriria a mesma função que a mímesis I em Tempo e narrativa? A resposta dada por Ricoeur – à qual anuímos – é negativa. No círculo hermenêutico é a práxis humana, anterior ao trabalho de configuração empreendido pela narrativa

histórica ou ficcional, que fornece as condições de possibilidade. A compreensão narrativa pressupõe a pré-compreensão do campo prático. Já na tropologia desenhada em Meta-história, a prefiguração63 é uma operação linguística que enreda o âmbito da