1.3. Yerel Basının Temel İşlevleri
1.3.3. Haber Verme, Kamuoyu Oluşturma, Halkı Bilgilendirme,
O próximo passo de nossa jornada investigativa nos conduzirá a examinar detidamente quais especificidades estão em jogo quando a representação do passado construída pela historiografia se vê lado a lado com a escrita ficcional. Esse problema guiou Ricoeur nos capítulos agrupados na quarta e última parte de Tempo e narrativa, intitulada Tempo narrado. Para nossos propósitos, essa discussão é valiosa. Nela, o filósofo francês se questionará sobre a aplicação do conceito de real ao passado histórico, o que o guiará a uma primeira abordagem do tema da representação.
Antes, porém, de nos enredarmos no terceiro tomo da trilogia, é razoável que realizemos uma breve retrospecção acerca do debate entre história e ficção no contexto contemporâneo. Pode ser que um leitor mais exigente reclame a ausência dessa discussão no tripé de questões que construímos no capítulo primeiro. Entretanto, em nossa defesa, diríamos que os problemas estão inter-relacionados. Com frequência, os autores que refletiram sobre os temas por nós elencados – giro linguístico; “retorno” da narrativa e “retorno” do acontecimento – também meditaram sobre as fronteiras da historiografia com o ficcional; Michel de Certeau e Hayden White nos dão uma amostra disso. Chartier chega a ir um pouco mais longe que nós, ao sustentar que o reconhecimento da pertença da história ao gênero das narrativas abriu o caminho para a inquirição dos recursos linguísticos compartilhados por historiadores e ficcionistas (CHARTIER, 2011a).
White é um nome incontornável que nutriu teses polêmicas desde a publicação de Meta-história, em 1973. Nesse momento, nos deteremos em algumas de suas considerações sobre a relação entre história e ficção. Os controversos argumentos whiteanos foram assim formulados no famoso artigo – publicado inicialmente em 1974 e retomado em Trópicos do discurso (1978) – “O texto histórico como artefato literário”:
De um modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas manifestamente são: ficções verbais cujos
conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com seus correspondentes nas ciências (WHITE, 1994, p. 98, grifos nossos).
Em outra passagem desse ensaio, igualmente polêmica e famosa, o autor indica que nenhum conjunto de acontecimentos constitui por si só uma estória. Eles, no máximo, podem fornecer elementos para o enredo a ser urdido pelos historiadores. Nesse processo, alguns eventos são destacados e outros minorados, o que implica a existência de múltiplas estratégias linguísticas para narrar os mesmos acontecimentos. Em virtude disso, os eventos não são intrinsecamente trágicos ou cômicos. O procedimento pelo qual o historiador atribui este ou aquele sentido é essencialmente “uma operação literária, vale dizer, criadora de ficção” (WHITE, 1994, p. 102, grifos nossos).
Na visão de White, a proximidade entre os campos historiográficos e ficcionais é uma evidência da fragilidade do estatuto científico do conhecimento histórico. Assim como a literatura – e a equivalência que esse historiador utiliza entre ficção e literatura será alvo de críticas posteriores –, a historiografia escolhe certas obras como clássicas. Tais trabalhos, ainda que apresentem conteúdo documental “desatualizado”, não podem ser invalidados ou negados, como acontece com as explicações científicas: “Há algo numa obra-prima da história que não se pode negar, e esse elemento não negável é a sua forma, a forma que é sua ficção” (WHITE, 1994, p. 105, grifo nosso). Por fim, White sugere que a historiografia seja compreendida como uma metáfora de longo alcance. O funcionamento da metáfora seria como o do símbolo, e não o do ícone. Ela não descreve a coisa representada, mas nos sugere imagens de nossa tradição que ajudam na construção de sentido do objeto. As narrativas históricas teriam um mecanismo semelhante. Elas atribuem sentido aos eventos através da exploração da semelhança
metafórica entre um conjunto de acontecimentos e as estruturas de enredo das ficções, tornando familiar o que antes era estranho. “Os historiadores talvez não gostem de pensar que suas obras são traduções do fato em ficções: mas este é um dos efeitos das suas obras” (WHITE, 1994, p. 108, grifos nossos).
Muita tinta foi gasta em réplicas, refutações, mas também em elogios à teoria de White. Seria inviável a pretensão de dar conta de todo o volumoso debate. Contudo, algumas considerações que abordaremos da Teoria do Ficcional de Luiz Costa Lima permite-nos construir uma sólida ponte para a transição dos argumentos whiteanos aos ricoeurianos.
Um primeiro ponto levantado por Costa Lima é que, não obstante White considere a historiografia como uma ficção verbal, ele não se indaga detidamente sobre as especificidades do discurso ficcional, limitando-se a reprisar os tropos formadores do enredo apontados por Northrop Frye na Anatomia da crítica (1957). Na perspectiva de Costa Lima, poderíamos acrescentar ainda que White, assim como diversos outros teóricos, utiliza os termos ficção e literatura como se fossem sinônimos. Entretanto, não é exaustivo lembrar que a ficção se exprime em outros meios que não as obras literárias, tais como os filmes, as representações teatrais e até a música. Já a literatura, afirma o autor, é um campo discursivo híbrido e elástico, no qual podem figurar textos que vão de escritos filosóficos (como os Ensaios de Montaigne, ou os diálogos platônicos), poesias, livros de ficção até escritos não ficcionais, como as cartas, o ensaio, os diários e a autobiografia (COSTA LIMA, 2006; GOMES, 2011).
Um dos alicerces fundamentais da Teoria do Ficcional construída por Costa Lima consiste na insistência em desvincular ficção e falsidade. Se a relação entre discurso e verdade pode ser apontada como um fator que diferencia o campo historiográfico do ficcional, isso não redunda em uma oposição, pois,
a verdade da história sempre mantém um lado escuro, não indagado. A ficção, suspendendo a indagação da verdade, se isenta de mentir. Mas não suspende sua indagação da verdade. Mas a verdade agora não se pode entender como “concordância”. A ficção procura a verdade de modo oblíquo,
i.e., sem respeitar o que, para o historiador se distingue como claro ou escuro
(COSTA LIMA, 2006, p. 156).
Ora, vimos, em nosso segundo capítulo, que a ideia da ficção poder se referir de um modo indireto, oblíquo, à realidade, é endossada por Ricoeur por meio do conceito de referência metafórica. O sentido figurado empregado pela linguagem ficcional não
tem por intenção enganar, e por isso não pode ser confundida com a mentira. Isso enfatiza que o discurso ficcional está ancorado na realidade. O texto de ficção, por meio da mímesis, acolhe, seleciona, transforma e transcende o real e suas configurações sociais. O ficcional poderia ser situado no interstício do verdadeiro e do falso, sem se confundir com nenhum deles. Ele desemboca em um ato de fingir sem o propósito de enganar que apresenta traços da realidade para depois transgredi-la em seus limites.57 (COSTA LIMA, 2006).
Ao desligar a ficção da falsidade e apontar para um modo oblíquo de referência à realidade, Luiz Costa Lima forneceu-nos uma preciosa pedra de toque para principiarmos a traçar o percurso do argumento ricoeuriano no que tange à ligação entre a historiografia e o discurso ficcional. Em sua análise sobre a função poética contida na Metáfora viva, Ricoeur chega a trabalhar com o conceito de verdade metafórica, que será explorado por nós no capítulo seguinte. Já em Tempo e narrativa, o filósofo parte de uma apreensão dicotômica entre a perspectiva historiográfica e a ficcional no que diz respeito à maneira como elas referem-se ao tempo. Em seguida, a dicotomia transmuda- se em paralelismo na discussão sobre a realidade do passado histórico. No fim do trajeto, está o entrecruzamento entre história e ficção cujo principal mérito é escapar aos extremos da dicotomia ou da fusão entre os campos discursivos, preservando a especificidade das narrativas ao refigurar a experiência temporal.
A tarefa deste capítulo será examinar criticamente esse itinerário, mensurando as implicações que ele traz para o tema da representação historiadora.
57 Uma boa síntese dos argumentos de Luiz Costa Lima, bem como uma análise de sua possível aplicação à Teoria da História pode ser encontrada no texto “O fingir historiográfico: a escrita da história entre a ciência e a ficção” do qual reproduzimos a passagem a seguir: “Através dos argumentos apresentados acima, podemos compreender que a relação entre a ficção, o real e o cotidiano é muito mais complexa do que uma simples ‘falsificação’ do que nos é perceptível. A negação do cotidiano se dá através de um estrito entrelaçamento com ele, sendo que ao mesmo tempo que o nega e o desautomatiza, também estabelece vínculos, ultrapassa-o, e porque não, acaba reafirmando-o. Consideramos, neste caso, que afirmação e negação não se colocam como opostos, pois para que haja a negação e o entrelaçamento é preciso haver o reconhecimento do real” (GOMES, 2011, p. 79). Vale destacar, ainda, que o autor dá um passo adiante na discussão, ao propor que também a historiografia, ao erigir suas construções do passado histórico, opera atos de fingir, embora de maneira distinta da ficção.