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2. Sosyal Medya Kullanımı

2.3. Sosyal Medya Gazetecilik İlişkisi Ve Yerel Basında Sosyal Medya

Antes do final de Tempo e narrativa, Ricoeur se dispôs a explorar os limites de sua empreitada redigindo um texto com suas conclusões, que foram construídas um ano após o término do terceiro tomo, durante a revisão final do manuscrito. Como vimos, a atividade mimética contribui para a concepção de um terceiro tempo, que advém do entrecruzamento da história e ficção. Nas palavras de Ricoeur, essa dialética seria frágil e inadequada à aporética da temporalidade da ocultação mútua entre tempo cósmico e fenomenológico se, a partir dela, não fosse gerado um rebento. O frágil rebento nascido da união entre história e ficção é a atribuição de uma identidade específica – uma identidade narrativa – a um indivíduo ou comunidade histórica. Está cada vez mais claro que, na filosofia ricoeuriana, a narrativa não desempenha apenas uma função cognitiva ou epistêmica. A identidade narrativa é compreendida como uma categoria da práxis humana. Dizer “a identidade”, seja de um indivíduo ou de uma comunidade, é responder à pergunta: quem fez determinada ação? Quem é o seu agente? Quando buscamos respostas a esse questionamento, nomeamos alguém a quem designamos com um nome próprio. Para respondermos à pergunta sobre o quem, precisamos narrar sua história de vida (T&N 3).

Na história da filosofia, a querela sobre o tema da identidade é duradoura e controversa. Por um lado, a identidade do sujeito é apresentada como autoevidente, idêntica a si mesma na diversidade de seus estados. Por outro, a identidade é tomada como uma ilusão substancialista de um si que é puro devir, um fluxo contínuo de vontades. Diante disso, o pensamento se depara com uma antinomia: como pensar a identidade de um sujeito que muda, mas também permanece ao longo do tempo? Como dizer a identidade de alguém que age na história, mas também é transformado por ela? De acordo com Ricoeur, o dilema desaparece quando recorremos à identidade narrativa (ipse), que substitui a identidade substancial (idem). A ipseidade escapa à antinomia entre o Mesmo e o Outro, na medida em que sua identidade repousa em uma estrutura temporal, conforme o modelo de identidade dinâmica da composição poética de um texto narrativo. A identidade narrativa, ao contrário da identidade abstrata do Mesmo (idem), pode incluir a mutabilidade na coesão de uma vida (T&N 3).

A refiguração cumpre um papel decisivo nessa construção. O si-mesmo é refigurado, transformado, pela aplicação reflexiva das narrativas históricas ou ficcionais à sua experiência: “As narrativas, ao mesmo tempo, ‘exprimem e moldam’ sua

identidade, numa relação circular: expressam suas experiências passadas e projetam seus desejos, combinando elementos históricos e elementos imaginativos” (GENTIL, 2004, p. 239). Essa contínua refiguração faz da própria vida um tecido de histórias narradas. O si que emerge desse percurso não é transparente a si mesmo e, por isso, precisa da mediação dos signos para compreender-se. Em Ricoeur, não temos nem um cogito exaltado, à maneira de Descartes, nem um cogito humilhado, à moda nietzcheana, mas um cogito ferido (blessé), quebrado (brisé) (T&N 3; SO; GAGNEBIN, 1997).

A identidade narrativa ricoeuriana pode ser aplicada a indivíduos ou comunidades históricas. A identidade de ambos se constitui por meio de uma série de transformações e retificações às narrativas prévias sobre o si. Numa sessão psicanalítica, por exemplo, uma das finalidades é substituir fragmentos de histórias ininteligíveis e insuportáveis ao sujeito por uma história coerente e aceitável, na qual o analisando possa reconhecer sua ipseidade. Analogamente, a história de um povo procede da série de correções e ajustes que um historiador faz nas explicações de seus predecessores e mesmo nas lendas que precederam o trabalho historiográfico. Por isso, Ricoeur diz que “a história procede sempre da história” (T&N: 3: 444).

Tais apontamentos poderiam ser aplicados em uma investigação sobre a identidade nacional brasileira. Há muito tempo as narrativas que contamos sobre nós referem-se a nossa experiência e a transformam. Ideias como “a terra de bons ares em que se plantando tudo dá”; “a matriz cultural brasileira como resultado do cruzamento de três raças”; “a mestiçagem e democracia racial” não se detêm apenas em discussões livrescas, mas refiguram a maneira como os brasileiros representam a si mesmos. Com efeito, seria um equívoco tomar essas interpretações como expressão de alguma essência brasileira imutável, tal como a identidade-idem. Todavia, as interpretações e ensaios sobre o Brasil podem ser compreendidos como exemplares de nossa identidade narrativa, que comporta, inclusive, a mudança ao longo do tempo, sem que com isso os leitores deixem de reconhecer sua experiência sendo narrada.

Um dos limites da identidade narrativa é que ela não produz uma identidade estável, sem falhas. Da mesma maneira que é possível tecer várias tramas – algumas até opostas entre si – sobre os mesmos acontecimentos, existe a possibilidade de contar várias intrigas sobre a própria vida ou sobre uma comunidade histórica. Esse rebento frágil, nascido do enlace da história e ficção, recebe componentes de ambas. O componente histórico da identidade narrativa a coloca perto das verificações

documentais da narrativa historiográfica, ao passo que o componente ficcional a aproxima das variações imaginativas que desestabilizam a identidade narrativa. Dissemos acima que Chartier critica Ricoeur porque a teoria da leitura deste teria como pressuposto um “sujeito universal, invariante e trans-histórico”. As discussões que analisamos até o momento, contudo, mostram que esse pressuposto não está presente na filosofia ricoeuriana.

Em O si mesmo como um outro (1990), Ricoeur avançou suas discussões sobre identidade narrativa. Essa transição entre uma obra e outra não aconteceu sem que o argumento fosse moldado e ajustado. Nas conclusões de Tempo e narrativa, a identidade narrativa é apresentada como uma alternativa que substitui a identidade- idem: “O dilema desaparece se a identidade entendida no sentido de um mesmo (idem) for substituída pela identidade entendida no sentido de um si-mesmo (ipse).” (T&N 3: 443, grifo nosso). Nesse momento, a identidade narrativa está completamente associada à ipseidade em oposição à identidade substancial. Em sua obra posterior, o filósofo nuançou esta dicotomia. A narratividade passa a ser vista como um operador que pode dialetizar a mesmidade e a ipseidade ao colocar os dois pólos em interação contínua.

Uma das formas de permanência do tempo característica da identidade-idem é o caráter, que é um conjunto de marcas distintivas que permitem reidentificar o indivíduo humano como o mesmo, apesar da passagem do tempo. Entretanto, Ricoeur sublinha que o caráter, não obstante pertença à mesmidade, não é imutável. Na verdade, o caráter é constituído ao longo do tempo através de uma sedimentação de hábitos. O caráter foi precedido por uma inovação que se sedimentou e conferiu ao idem um aspecto de permanência no tempo. Cada hábito contraído e tornado uma disposição durável constitui um traço de caráter, um signo distintivo com o que reconhecemos uma pessoa, a identificamos novamente como a mesma. Por isso, não podemos pensar o idem da identidade pessoal sem

o ipse. Essa dinâmica tende a colocar o caráter no limite do recobrimento do ipse pelo idem, porém “mesmo como segunda natureza, meu caráter sou eu, eu mesmo, ipse; mas esse ipse anuncia-se como idem” (SO: 146). O caráter é o “o quê” do “quem”. Trata-se de uma sobreposição do quem? pelo o quê? que faz deslizar da pergunta quem sou eu? à pergunta o que sou?, porém, ainda assim, não podemos pensar o idem sem o ipse.

O polo da ipseidade, apesar de incluir a passagem temporal, também possui uma modalidade de permanência no tempo: a promessa. Quando o sujeito promete algo a alguém, ele se compromete a manter sua ipseidade, não obstante todo desejo de

mudança gerado pelo transcurso temporal. A manutenção da palavra dada é um modelo de permanência do si distinto do caráter, já que se inscreve na dimensão do quem, e não do o quê. Para Ricoeur, a oposição entre o caráter e a manutenção de si mesmo na promessa abre um intervalo de sentido que é preciso preencher pela noção de identidade narrativa. Portanto, a identidade narrativa oscila entre dois limites: em um confim inferior está a permanência no tempo, em que o idem recobre o ipse, o caráter; em um confim superior encontra-se uma manutenção de si, na qual o ipse tende a se colocar sem auxílio do idem, a promessa.

Além de esclarecer a compreensão ricoeuriana de subjetividade, a identidade narrativa traz outro importante aporte à nossa pesquisa, a saber, as implicações éticas da narrativa. Seja em sua variante historiográfica ou ficcional, jamais a narração está destituída de uma dimensão normativa, avaliativa e prescritiva. Ainda que implicitamente, o narrador tece juízos morais sobre as ações postas em enredo. Na tessitura da trama, uma maneira de avaliar o mundo e a experiência é sugerida ao leitor. Certamente, o sujeito que lê não está fadado a aceitar passivamente essa sugestão: “Cabe ao leitor, que volta a ser agente, iniciador de ação, escolher entre as múltiplas proposições de justeza ética veiculadas pela leitura” (T&N 3: 447, grifos nossos).

Não devemos nos esquecer de que o campo prático do qual a narrativa emerge – mímesis I – também já é dotado de valorações. Na visão de Ricoeur, a narrativa de ficção apresenta-se como um laboratório do imaginário no qual são experimentadas novas maneiras de avaliar as ações, seus motivos e consequências. O discurso ficcional está aberto às variações imaginativas e não está diretamente submetido a uma norma moral. Por isso, ele apresenta-se como um lugar profícuo para a experimentação de normas variadas, um espaço para ensaiar as implicações e consequências destas normas para as ações dos personagens (T&N 3; GENTIL, 2009).

A narrativa historiográfica também apresenta seus desdobramentos éticos. Ao compor uma intriga, o historiador agencia fatos, põe juntos acontecimentos em uma trama. Ele conta quem fez o quê, por que e como. A trama historiográfica ascreve a ação a um ou vários agentes, ela confere ao sujeito, ao personagem, uma iniciativa, ou seja, o poder de começar uma série de acontecimentos sem que isso se constitua em um início absoluto. Tudo isso permite sopesar as responsabilidades das ações realizadas pelos agentes históricos.

Graças ao processo de refiguração, na interpretação de um texto, o sujeito-leitor passa a compreender melhor a si mesmo. Ricoeur é mais explícito quanto à dimensão

ética da narrativa ficcional, que institui a ficção como uma espécie de laboratório para experimentação de regras morais; o filósofo não chega a especificar, ao menos nesse momento, como isso ocorreria na história. Como hipótese, sugerimos uma chave de leitura contida nas linhas abaixo. No caso da narrativa historiográfica, a contribuição para a formação valorativa do sujeito pode ocorrer através da avaliação ética de um percurso feito pelas ações dos homens no tempo. No confronto com o texto histórico, o leitor poderá examinar as consequências e implicações que ações concretas tiveram em um contexto determinado.

Não é novidade para nenhum historiador bem formado que, com a ascensão dos tempos modernos e o processo de fundamentação científica da escrita da história, passou a estar fora de nossa alçada propugnar lições de moral ou fornecer exemplos, como era corriqueiro na prática da história magistra vitae. Do ponto de vista epistemológico, poucos historiadores atualmente lamentam a interdição do conhecimento histórico em propor “leis” ou em investigar constantes e regras do comportamento humano. Todavia, o reverso dessa medalha não é nada agradável, especialmente da perspectiva ética. O preço a ser pago costuma ser uma perda de vínculo entre a historiografia e o mundo da vida prática. Já que não é mais possível aprender lições com a história, parece que ela tornou-se um conhecimento incapaz de orientar a ação humana.

Em nossa leitura, os apontamentos das implicações éticas da narrativa feitos por Ricoeur vislumbram um caminho para um possível enlaçamento entre o conhecimento histórico e a vida prática que não percorra o tópos historia magistra vitae. Vejamos em que medida as duas perspectivas se diferenciam. Em primeiro lugar, as noções de imutabilidade ou constância da natureza humana, que estão na base da magistra vitae, não são endossadas por Ricoeur. Seu recurso à identidade narrativa se dá precisamente para evitar as aporias que podem ser encontradas na identidade-idem, substancial, sempre idêntica a si. A identidade narrativa inscreve a historicidade, o caráter temporal da mudança, na coesão de uma vida. Ela permite ao sujeito ser si mesmo sem permanecer sempre o mesmo.

Em segundo lugar, retomando o sonho de Marcel Proust, o desejo de Paul Ricoeur é que o sujeito seja constituído como leitor, mas também como autor de sua própria vida, sua própria história. A sua história de vida é constantemente refigurada pelas histórias verídicas ou fictícias que são contadas sobre o si mesmo. A narrativa, seja ela historiográfica ou ficcional, é uma experiência de pensamento na qual

exercitamos a capacidade de habitar mundos diferentes dos nossos. No ato de leitura, há um novo impulso para a ação, uma provocação a ser e agir de outro modo (T&N 3). Para nós, longe de colocar sobre os ombros do historiador o peso de fornecer lições ao presente a partir do passado, a filosofia ricoeuriana abre a possibilidade de o leitor avaliar e se posicionar frente às ações de outrora, suas motivações, implicações éticas e normas morais.

Depois de perfazermos o itinerário ricoeuriano em Tempo e narrativa, uma questão fundamental para a pretensão de referência à realidade parece não ter sido tratada senão tangencialmente: o conceito de verdade. Em sua leitura da obra, Jean Grondin irá destacar justamente isso. Ele parte da assertiva, presente na trilogia de Ricoeur, de que a narrativa é capaz de trazer orientação para nossa condição temporal. Tal convicção, segundo Grondin, desembocaria em uma acepção pragmatista de verdade narrativa, já que o critério para julgar as proposições estaria assentado no efeito prático que elas são capazes de gerar. Conquanto Ricoeur tenha prometido na última página do segundo tomo da obra que “apenas depois da teoria da leitura (...) é que a narrativa de ficção poderá reivindicar seu direito à verdade, ao preço de uma reformulação radical do problema da verdade” (T&N 2: 234), Grondin sentencia: “Qual é o critério de verdade no universo narrativo? A abertura de um mundo suscetível de ser habitado? A abertura de um mundo é proposição de sentido, mas o que faz dela uma verdade? Não encontramos nenhuma resposta clara e distinta a esta questão em Tempo e narrativa” (GRONDIN, 1990, p. 135).

A necessidade de uma concepção mais firme sobre a verdade é sublinhada nos comentários de Grondin. Por causa disso, ele se indaga: se a verdade de uma narrativa consiste em sua capacidade de transformar o agir humano, o leitor foi alçado à categoria de árbitro da verdade? Se for o caso, a filosofia ricoeuriana estará embaraçada nas linhas do pragmatismo e do relativismo, afinal, cada leitor teria uma verdade distinta sobre o que é narrado.

Em um primeiro instante, as ponderações de Grondin parecem colocar em xeque nossa hipótese sobre o realismo crítico de Ricoeur, uma vez que evidenciaria uma lacuna no processo de representação do passado histórico. Todavia, “onde há perigo, ali também cresce o que salva”, como nos lembra o poeta Hölderlin. A resposta de Ricoeur a essa objeção, assim como a nossa interpretação sobre a questão da verdade e representância, forma a semente que germinará no capítulo vindouro.

Capítulo 4

Verdade e representância do passado histórico

A verdade histórica pode ser equiparada às nuvens, que somente ganham forma à distância dos olhos.

Wilhelm von Humboldt

O passado é, por definição, um dado que nada mais modificará. Mas o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que incessantemente se transforma e aperfeiçoa.

Marc Bloch

Prolegômenos

Arremetamos o capítulo precedente com a exposição da crítica feita por Jean Grondin à noção de verdade em Tempo e narrativa. Além de apresentar a réplica de Ricoeur a essa objeção, faremos do problema da verdade o leitimov – ou motivo condutor – desse capítulo, juntamente com o conceito de representância. Esforçar-nos- emos para, dentro de nossos limites, discutirmos a unidade e as descontinuidades contidas nas reflexões ricoeurianas sobre a historiografia. Em alguns momentos, a conexão entre os argumentos de uma obra e outra é feita pelo próprio filósofo, entretanto, é possível também ensaiarmos outras conexões que forneçam uma leitura coerente para o raciocínio de Ricoeur.

Em sua resposta à crítica de Grondin, Ricoeur ressalta que jamais empregou a noção de verdade narrativa, nem mesmo ao tratar da resposta ofertada pela narrativa às aporias da temporalidade (estas são chamadas de réplicas poéticas). Por isso, a refiguração posta em cena pela narrativa exerceria uma função de preparação para um tipo de verdade que estaria no plano ético e político. Tal função consistiria em “não separar manifestação (ou descoberta ou invenção) e transformação” (RICOEUR, 1990b, p. 204). Ora, sustenta o filósofo que se alguma noção de verdade está em disputa aqui ela não deve ser buscada no universo narrativo enquanto tal, mas na compreensão de si oriunda do entrecruzamento da história e ficção, ou seja, a identidade narrativa. As categorias de atestação e testemunho desempenham um papel de destaque nesse debate, que foi aprofundado por Ricoeur em O si mesmo como um outro. Ambas as concepções indicam que “a questão da verdade é reorientada em um sentido que não pode mais se

limitar à verdade da correspondência, e menos ainda, à verdade da verificação” (RICOEUR, 1990b, p. 205).

Em nossa visão, essa reformulação do conceito de verdade não se limitou exclusivamente às ideias sobre atestação de si e testemunho contidos em O si mesmo como um outro. Empenhar-nos-emos em construir uma interpretação para amalgamar os argumentos arrolados pela a tese do artigo “A marca do passado”, assim como a de “A memória, a história, o esquecimento”, no que concerne à representância. Entretanto, antes de darmos um passo adiante na trajetória ricoeuriana, examinando a obra que o filósofo dedicou a problemas historiográficos após Tempo e narrativa, precisaremos recuar até uma das primeiras abordagens ricoeurianas sobre a historiografia, em História e verdade (1955). Esse movimento, esperamos, tornará mais clara a conexão entre as reflexões ricoeurianas sobre a história.