4. Bulgular
4.7. Altıncı Hipoteze İlişkin Bulgular ve Yorumlar
A segunda fase da operação historiográfica ricoeuriana é chamada de explicação/compreensão e seria o momento epistemológico, em que há uma maior autonomia da história em relação à memória. Ela diz respeito ao encadeamento construído entre os fatos documentados. Explicar é tentar responder à pergunta “por quê”, ou, para ser mais preciso, edificar uma imputação causal singular, conforme analisamos no segundo capítulo. Ao emparelhar explicação e compreensão, Ricoeur se posiciona contra a definição das ciências humanas como estritamente compreensivas.
Em sua exposição contida no ensaio O que é um texto?, ele já esboçara uma tentativa de conjugar a explicação (então associada ao estruturalismo) à compreensão. Se recordarmos que em sua epistemologia mista há uma interação entre objetividade e subjetividade, veremos que essa orientação perpassa vários de seus trabalhos. Isso significa romper com o dualismo que reserva a explicação às ciências da natureza e a compreensão às ciências do espírito. O modelo da interpretação de um texto, por nós examinado no primeiro capítulo, é uma boa amostra desse proceder.81
De certa maneira, essa fase já estava imbricada na precedente, já que o sujeito vai ao arquivo com perguntas e hipóteses em mente e também um projeto de explicação. Ricoeur nota que os modelos de explicação da prática historiadora têm em comum a característica de reportar-se à realidade como um fato social. O centro das investigações do filósofo é a dinâmica da historiografia francesa desde a história das mentalidades coletivas até a história das representações sociais, em seus distintos jogos de escalas variantes entre a macro e a microexplicação. Infelizmente, não poderemos acompanhar esse panorama historiográfico sob a pena de nos desviarmos, excessivamente, de nosso caminho. O que mais interessa à pesquisa de nosso tema central é a ambiguidade apontada por Ricoeur acerca da noção de representação. Em sua polissemia, ela é empregada tanto como objeto da explicação/compreensão – as representações sociais –, quanto como uma operação indispensável à escrita da história.
Em A memória, a história, o esquecimento, Ricoeur utiliza a noção de representação em três contextos. No primeiro, ela designa o enigma da memória, a problemática da eikôn, imagem presente de algo ausente, que não é mais, porém, um dia, foi: a lembrança é representação. Num segundo momento, a noção reaparece no âmbito da epistemologia da história como a terceira fase da operação historiográfica, quando o historiador, após trabalhar a documentação, publica sua obra. Ao lado da representação mnemônica, e compartilhando sua aspiração à fidelidade, a representação histórica se depara com uma questão já formulada em nosso trabalho:
Como a história, em sua escrita literária, consegue distinguir-se da ficção? Colocar essa questão é indagar em que a história permanece, ou melhor, torna-se representação do passado, o que a ficção não é, ao menos
81 Jean Ladrière aponta que o modelo da interpretação do texto é a base na qual Ricoeur fundamenta suas tentativas de reunir explicação e compreensão num mesmo arco hermenêutico, seja no domínio da teoria do texto, da ação ou da história: “Em cada caso, trata-se de mostrar como podem se articular, em uma pesquisa que se quer científica, um momento explicativo e um momento de compreensão. Mas a
démarche da qual procede essa reconstrução obedece a um esquema de articulação do qual a interpretação
intencionalmente, ainda que ela, por acréscimo, (par surcroît) o seja de alguma forma. Assim, a historiografia repete em sua fase terminal o enigma levantado pela memória em sua fase inicial. (...) A questão será então saber se a representação histórica do passado terá resolvido, ou simplesmente transposto, as aporias ligadas à sua representação mnemônica (MHE: 240).
Entre a representação mnemônica e a representação escrita da história, assenta- se a representação, como objeto do discurso historiador, perfazendo as acepções que o conceito assume na obra em questão. Diga-se de passagem, essa sobreposição de significados é indicada por Ricoeur como “a razão mais sutil” de seu interesse pela história das mentalidades e das representações sociais. Na análise ricoeuriana, o conceito de mentalidade era vago e impreciso, ao contrário da noção de representação, que aponta para as práticas e vínculos dos atores sociais, abrindo espaço para o jogo entre as escalas macro/micro. Outra objeção levantada pelo filósofo diz que as mentalidades formavam uma noção indiferenciada e pouco operacionalizável na medida em que se assemelhariam às estruturas de longa duração, quase imóveis, com pouca atenção à iniciativa dos agentes particulares. Em contraposição, a ideia de representação social estaria alerta em relação à plurivocidade, à diferenciação e às múltiplas temporalidades do fenômeno social (MHE).
A dialética da representação – representação-objeto/representação-operação – conduz ricoeur a ensaiar uma hipótese segundo a qual haveria uma relação mimética entre os polos dialéticos: “o historiador, enquanto fazedor da história, ao levá-la ao nível do discurso erudito, não mimetizaria, de maneira criadora, o gesto interpretativo pelo qual aqueles e aquelas que fazem história tentam compreender-se a si mesmos e a seu mundo?” (MHE: 295). A nosso ver, com essa proposição, Ricoeur visou sublinhar que a condição histórica do homem é o referente último de ambas as faces da dialética da representação. No conhecimento histórico, tanto o sujeito quanto o objeto estão sob um mesmo pano de fundo, estão envolvidos em histórias, imersos na temporalidade. Os dois se esmeram em atribuir sentidos à experiência temporal, tornando-a mais compreensível.
A reflexão sobre os significados da representação em história nos orienta rumo à terceira fase da operação historiográfica, propriamente chamada de “representação historiadora”. Ricoeur opta não mais chamar esse momento de “escrita da história”, como fizera nos artigos de 1994, por entender que isso seria um equívoco, afinal, em sua concepção, a história é escrita de uma ponta a outra. De toda forma, essa é a fase em que a história escrita é registrada em um artigo ou livro, e assim acessa o espaço
público. Se, ao se enfronhar nos arquivos, o historiador parece ser arrancado do mundo da ação, ao publicar sua pesquisa, ele tem a certeza que está no mundo da vida. O processo de publicação transforma o próprio livro de história em um documento e permite que o conhecimento seja continuamente revisto. Enfim, a representação historiadora deixa claro o pertencimento da história à ordem do discurso. No entanto, Ricoeur alerta que isso não redunda em inserir um “desvio estetizante” na historiografia. Pertencer ao campo discursivo – ou literário, em um sentido bem amplo – não diminui o rigor epistemológico do conhecimento histórico (MHE).
Como vimos, o termo representação marca uma continuidade entre essa fase e a precedente. No momento da explicação/compreensão, a prática das representações sociais englobava os vínculos sociais e as identidades coletivas. Na presente etapa, a representação escriturária procura tornar patente o caráter ativo da operação historiográfica, assim como sua visada intencional: “A representação no plano histórico não se limita a conferir uma roupagem verbal a um discurso cuja coerência estaria completa antes de sua entrada na literatura, mas que constitui propriamente uma operação que tem o privilégio de trazer à luz a visada referencial do discurso histórico” (MHE: 304, grifos nossos).
A problemática da referência do discurso histórico figura entre as principais preocupações de Ricoeur no que tange à representação. No trecho acima, podemos notar uma certa continuidade com discussões feitas em Tempo e narrativa. Mais uma vez, o autor destaca o aspecto ativo da escrita da história. O agenciamento dos fatos pela intriga e o papel da mímesis abordados outrora foram os primeiros indicativos dessa convicção. Quanto a isso, o próprio Ricoeur salienta que a distinção entre “representação-explicação” e “representação-narração” denota um avanço em relação à discussão anterior, porque naquela ocasião a articulação entre temporalidade e narrativa ocupava o centro das atenções. Não obstante, a noção de composição da intriga (mise en intrigue) permanece fundamental (MHE).
Contudo, o pensamento ricoeuriano não é feito somente de permanências ininterruptas. O próprio autor aprecia reavaliar alguns de seus posicionamentos para aperfeiçoá-los. Desse modo, ele reafirma a continuidade entre a narrativa e o campo prático, como fizera em Tempo e narrativa, porém, abdica do termo quase, que salvaguardava uma relação indireta entre a explicação histórica e a estrutura narrativa, conforme analisamos em nosso segundo capítulo:
Hoje, eu tiraria a cláusula “quase” e consideraria as categorias narrativas em questão como operadores de pleno direito no plano historiográfico, na medida em que o elo presumido nessa obra [Tempo e narrativa] entre a história e o campo prático onde se desenrola a ação social autoriza a aplicar diretamente ao domínio da história a categoria aristotélica dos “agentes” (agissants) (MHE: 314, nota 12).
Na operação historiográfica ricoeuriana, os três níveis estão intrinsecamente ligados uns nos outros. Graças a isso, o autor defende que a narratividade não se restringe à fase da representação escrita ou ao plano factual. Para ele, a alternância entre a escala macro e micro que ocorre no nível da explicação/compreensão também é um caminho narrativizado. Nem a micro-história nem tampouco a macro-história podem operar apenas em um nível de análise, restringindo-se a uma única escala. Segundo Ricoeur, ao reduzir seu foco, a micro-história não deixa de ler de baixo para cima as relações de poder que ocorrem na escala macro. O mesmo poderia ser dito da macro- história, como aquela praticada por N. Elias, que mostra bem como o processo civilizador ocorrido em escala macro tem incidências no plano micro, na demanda de contenção das pulsões e autocontrole pelos indivíduos civilizados. A transição entre as escalas, bem como sua visibilidade e lisibilidade, demandam a mediação narrativa, assegura Ricoeur (MHE; RICOEUR, 2000).
A narrativização entre os jogos de escala não é uma novidade inserida por Ricoeur no debate historiográfico. Em Futuro passado (1979), Koselleck assinalou as interações em jogo entre representação, evento e estrutura. O historiador alemão se voltou contra a tese segundo a qual os eventos só podem ser narrados enquanto as estruturas apenas podem ser descritas. Nessa lógica, a descrição se dirige aos traços estruturais duráveis, que mudam em um prazo mais longo, e a narração remete àquilo que muda no tempo em um limite mais estreito.82 Entretanto, Koselleck salienta que esses níveis de representação remetem-se mutuamente, sem se dissolver um no outro. Por um lado, podemos considerar que “as sequências estatísticas temporais nutrem-se de eventos concretos e individuais, dotados de um tempo próprio, mas que só adquirem significação por força de uma perspectiva estrutural de longo prazo” (KOSELLECK, 2006, p. 137-138). Narração e descrição são ajustadas de forma que o evento seja tomado como pressuposto das proposições estruturais. Por outro lado, algumas condições estruturais, como as formas de dominação e a configuração conceitual
82 Alexandre Escudier nota que essa distinção entre descrição (beschreibung) e narração (erzälung) é um tema clássico na historiografia alemã desde o século XVIII (ESCUDIER, 2002).
“amigo-inimigo”, são pressupostos para a inteligibilidade de um acontecimento como uma batalha, por exemplo.
Ricoeur subscreve a ideia de Koselleck na qual a narração funciona como um permutador entre acontecimento e estrutura, coordenando os estratos temporais. Essa função integrativa da narrativa é possível por causa de seu distanciamento em relação à mera sucessão cronológica. A intriga é vista como uma unidade de sentido capaz de articular numa mesma configuração estruturas e acontecimentos. O principal objetivo do filósofo francês na retomada desses argumentos é demonstrar como a narrativa é importante também para as operações metodológicas de explicação em historiografia.