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SUSUZ ORTAMDA TİTRASYON

É interessante perceber que essas pesquisas com a sapucainha denotam outro momento da tradução científica, anteriormente mencionada, do óleo de Chaulmoogra. Como afirmei no primeiro capítulo, foi a partir da utilização de um óleo extraído de uma espécie da dita flora tropical, conhecida e utilizada por tradições de cura estranhas ao europeu, que esse procurou encontrar o tratamento de uma doença que assolava, principalmente, suas colônias das ditas regiões tropicais. Pode-se perceber nesse caso, um processo de tradução científica, no qual as Chaulmoogras passaram do tratamento de doenças de pele pelas das medicinas tradicionais indianas para a medicina ocidental no combate à lepra.

O uso do óleo de chaulmoogra foi muito modificado, a partir dos objetivos dos pesquisadores e de suas técnicas e formas de pensar a terapêutica no momento. Neste sentido, vemos a restrição do uso desse óleo para o tratamento de apenas uma doença, a lepra, não tendo sido encontrada documentações significativas de esforços para a produção de medicamentos para o tratamento da tuberculose – já que assim como o bacilo da lepra é causada por um bacilo álcool-acido-resistente - nem para o tratamento de outras doenças de pele, como era utilizado pelos indianos. Outro movimento interessante é a restrição ao uso de apenas determinadas substâncias desse óleo, adicionando-se a estas outros elementos da prática farmacêutica ocidental, em oposição ao início desta prática terapêutica, na qual utilizava-se o óleo puro. Ao longo do tempo, o óleo de chaulmoogra consolidou-se como um conhecimento referente ao discurso científico sobre essa doença.

No Brasil, percebemos a apropriação do discurso científico sobre a terapêutica da lepra e o desenvolvimento desse conhecimento através de novas pesquisas. É curioso observar que a Chaulmoogra como elemento traduzido serviu de modelo para a realização de pesquisas com plantas da flora nacional.

Diante da importância que as espécies do grupo chaulmoogrico vinham assumindo na terapêutica da lepra, os cientistas brasileiros olham para a flora local em busca de Chaulmoogras. Sendo assim, ao analisarem óleos vegetais de espécies nacionais, os

120 pesquisadores buscam achar espécies de reconhecido valor na terapêutica da lepra, tendo como modelo o grupo das Chaulmoogras indianas.268

Desde o início do século a farmácia da família Peckolt vinha fabricando pílulas e pomadas com o óleo da sapucainha para o tratamento de doenças de pele, e afirmava-se que esse óleo era conhecido e utilizado pela população do interior para o mesmo fim. No entanto, a validação e ampla utilização da sapucainha só ocorreram quando essa foi classificada como a Chaulmoogra brasileira. Depois de traduzido, buscou-se valorizar o produto nacional, a partir, sempre, da comparação com o medicamento já validado internacionalmente.

A procura por esse elemento da flora nacional, que pudesse substituir o reconhecido óleo de chaulmoogra, era divulgada por muitos como uma forma de livrar os países que possuíam alto índice de doentes da dependência estrangeira. Assim, a existência de Chaulmoogras classificadas em diferentes locais, nos quais a lepra era um problema sanitário de destaque, indicava a possibilidade de aumentar o número de centros produtores dos medicamentos usados no tratamento da lepra. Aguiar Pupo, finalizando seu artigo sobre as flacourtiáceas antilepróticas brasileiras, em 1926, almejava:

(...)Estudos idênticos estamos certos que serão realizados entre as Flacourtiaceas da Africa Tropical onde a lepra constitui séria endemia, tendentes a libertar os paizes coloniaes das difficuldades que cercam a acquisiçao e autenticidade do oleo de chaulmoogra de procedência indiana.269

Ao falar dos territórios coloniais africanos, Pupo faz menção à importância da produção local desse medicamento nas regiões onde a lepra era endêmica, já que as dificuldades de aquisição do óleo indiano ameaçavam a realização de medidas para o

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O caso das quinas brasileiras teria sido bem diferente. Segundo Luis Faria, as espécies de quinas encontradas no país não possuíam a quinina, substância responsável pela ação terapêutica para a cura da malária. No entanto, falsas quinas eram utilizadas, segundo ele, em preparados vendidos no comércio, o que os tornava inativos. O autor descreve as tentativas de aclimatação da quina de outras regiões no Brasil, muitas das quais não foram bem sucedidas. Conforme Faria: “A verdadeira quina não existe no Brasil, segundo opiniões autorizadas, tornando-se necessário importál-a. Com a ipeca observa-se o inverso, pois temos o monopólio das boas qualidades”. Ver: FARIA, Luis. “Breve estudo sobre as quinas.” In: Revista de Química e Farmácia. Rio de Janeiro, 1(6), 73-81, out. 1935.p. 78.

269 PUPO, J. Aguiar. O óleo de chaulmoogra e as flacourtiaceas do Brasil. In: Annaes brasileiros de

121 controle da doença. No entanto, além dos motivos expostos - altos preços, a baixa qualidade do óleo importado e dificuldades na aclimatação das espécies indianas - as pesquisas com a sapucainha, no Brasil, representavam o valor da flora nacional e, principalmente, da ciência nacional que sabia aproveitá-la. Nas palavras de Helena Possolo, anteriormente citadas, era o valor “dêsse homem que, expurgando do seu solo as endemias que o esterilizam e depauperam, deve surgir, no cenário do mundo, como o construtor dos seus próprios destinos.”270

Em um país independente como o Brasil que procurava lidar com as doenças que acometiam sua população, as pesquisas realizadas com a flora da região pela comunidade científica nacional tinham um valor muito maior do que apenas a sua utilização prática em serviços de combate à doença.

Apesar da tão falada substituição do óleo de chaulmoogra indiano pelo brasileiro não ter ocorrido de fato, já que os preparados à base dos dois óleos foram encontrados nos mercados e foram utilizados pelos serviços de controle da doença por todo o tempo que a chaulmoogroterapia foi uma prática oficial, as pesquisas com a sapucainha representaram um campo de pesquisa científica no país e uma contribuição da comunidade nacional ao conhecimento internacional sobre o assunto.

Por essa razão, compreendo que o desenvolvimento de pesquisas relacionadas a essa terapêutica no âmbito nacional pode ser visto como parte constituinte dessa rede internacional de saberes médico-científicos relacionada à lepra - na qual vemos um esforço de incorporação do óleo de chaulmoogra como um possível medicamento para essa doença - e, assim, tem significativa importância neste processo de construção e validação dessa prática terapêutica. Os estudos realizados aqui com a sapucainha foram incorporados na discussão internacional, e é possível ver referências da Chaulmoogra brasileira em tratados médicos estrangeiros sobre o assunto ao lado das Chaulmoogras indianas271.

270 POSSOLO, Helena. As flacourtiáceas antilepróticas. São Paulo, s. e., 1945. 271

Na 12ª edição do Manson’s Tropical Diseases, de 1945, além das espécies indianas mais conhecidas de chaulmoogra, é citada a sapucainha: In Brazil, a somewhat similar oils is obtained from Carpotroche brasiliensis (“Sapucainha”).Ver: MANSON-BAHR, Philip H. Manson’s Tropical Diseases. Baltimore, The Williams &Wilkins Company, 12a edition, 1945.P 578.

Além disso, em estudos estrangeiros sobre os óleos chaulmoogricos encontram-se referências às chaulmoogras e suas análises químicas. Ver: LIBERALLI.C.H. ‘Histórico das investigações sobre o óleo de sapucainha – (a propósito de um trabalho de J. R. T. Teixeira Leite)’. In: Revista de Química e Farmácia, Rio de Janeiro, 1(6):122-4, dezembro de 1935.

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