4. Suriye’de Değişim Konferansı’nda Çeşitli Gruplardan Temsilciler ile Yapılan Mülakatlar .12
4.7. Suriye Türkmen Hareketi Sözcüsü Ali Öztürkmen ile Mülakat
O presente estudo pode classificar-se como sendo um estudo de caso, na acepção de Coutinho (2005), de natureza interpretativo-qualitativa visto que incide sobre a relação entre as perspectivas dos indivíduos (actores) e as condições da acção na qual se encontravam ou se encontram implicados (Lessard-Hébert, 1994). A pesquisa desenvolvida pretende estudar os imigrantes dos países da parte europeia da ex-URSS, num duplo contexto: o da sociedade e do tempo em que viveram na União Soviética, período durante o qual se processou a sua escolarização e se desenvolveu o processo de socialização de que foram alvo, por um lado; e por outro, o tempo vivido na sociedade de acolhimento, Portugal, o tempo da imigração, no qual o seu “capital identitário” foi confrontado com novas realidades e novas formas contrastantes de organização do social, do político, do económico e do cultural. Em suma, compreender as possíveis alterações registadas no processo de mudança identitária das pessoas nascidas e formadas na URSS que, em consequência de um processo migratório, se expuseram em sociedades que exigiriam inevitáveis processos de mudança.
Por isso, os procedimentos de recolha de materiais empíricos compreendem dois momentos:
a) recolha dos elementos essenciais caracterizadores relacionados com o processo da socialização formal (sistema educativo entre 1970 e 1980 no tempo da URSS) em que os materiais recolhidos são os conteúdos dos manuais de História de níveis de escolaridade correspondentes ao ensino básico e secundário e
121 b) recolha, sob a forma de um questionário76, de informação relacionada com a sua vida em Portugal na qualidade de imigrantes, sociedade em que fixaram a sua estadia, anos depois de desmoronamento da URSS, e sobre as suas representações e orientações de valor em aspectos considerados relevantes para a comparação com os modelos inferidos da análise dos manuais escolares.
Foram seleccionados os seguintes livros para efeitos de análise:
Quadro 3.1.
Manuais escolares de Historia editados na URSS
Autores principal Título Editora Número total de páginas Ano de publicação Número de exemplares publicados Fedosov, I. História URSS, 8º ano M: Procveschenie 224 1973, 8ª ed. 1. 800.000 Bеrhin, I. Fеdоsоv, I. História da URSS, 9º ano M: Procveschenie 383 1979, 4ª ed. 1. 750.000 Furaev, V. História moderna, 10º ano M: Procveschenie 272 1978, 9ª ed. 2. 700.000
Trata-se de livros que, em virtude da natureza centralizada do sistema educativo da União Soviética, gozavam de uso generalizado e obrigatório na sua época. Segundo a Estatística Oficial do Ministério da Educação da URSS, no início do ano lectivo de 1972/1973 frequentavam o 9º e o 10º ano da escolaridade 8,9 milhões de alunos (“SSSR v tsifrakh”,1975). Como a reprovação era raríssima, pode-se considerar que o número de alunos no 10º ano seria aproximadamente igual ao do 9º ano. Uma parte dos alunos, nomeadamente, os das repúblicas Bálticas, estudava por um programa ligeiramente diferente, devido ao facto da escolaridade obrigatória nesses países ser de 11 anos, e não de 10 anos como no resto da URSS.
Levando ainda em conta o sistema de fornecimento dos livros escolares, que era assegurado pelo Estado através da sua reutilização por via dos empréstimos bibliotecários, podemos afirmar, sem margem para erro, que os manuais objecto desta
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Apesar de se tratar da vida no contexto português, muitas das questões do questionário estão relacionadas com a memória da vida na União Soviética.
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análise eram “livros únicos” usados na época nas escolas das Repúblicas Soviéticas da Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia. Assim, o problema da amostragem não se colocou, uma vez que os manuais de História foram adoptados oficialmente e utilizados de forma uniforme em todo o país. Os livros didácticos em análise abrangem diferentes períodos históricos – o do Império russo no século XIX; o que vai desde o início do século XX até ao período da construção da base do socialismo soviético nos anos 30; e um terceiro, relacionado com a II Guerra Mundial e os considerados “anos de ouro” do socialismo. Dada a sua abrangência temporal, potencialmente, poderão de certa forma completar o processo da identificação da identidade soviética, evidenciando os seus diferentes aspectos.
A análise que tradicionalmente é realizada aos manuais de história, normalmente, procura investigar sobretudo a sua qualidade. Tecnicamente, este processo é suportado numa análise categorial baseada em teorias apropriadas para descobrir e examinar os padrões da narrativa histórica nos livros didácticos. O objectivo não é nem descrever os aspectos negativos dos livros analisados, nem tão-pouco dar exemplos de boas práticas encontradas nos manuais escolares, nem ainda identificar e denunciar a manipulação da realidade por parte dos autores. Ou seja, não se procura saber e muito menos julgar como eles destroem ou distorcem uma realidade ontológica, mas sim como constroem uma realidade de representação; nomeadamente, tentar entender as características dos livros que contribuem para o processo da transmissão do núcleo identitário ligado à concepção do “Homem Soviético”. Sendo assim, pode considerar-se que a metodologia tradicionalmente utilizada não seja adequada para o presente caso. Por isso, e porque os pesquisadores acreditam que o raciocínio e o pensamento no âmbito da investigação histórica devem ser construídos sobre uma análise e avaliação das múltiplas perspectivas e múltiplas fontes (Tuckman, 2000), mostrou-se apropriado desenvolver uma metodologia, a partir das já existentes, que serviria os propósitos e os objectivos estabelecidos para este estudo.
Uma das inspirações foi a metodologia desenvolvida na Universidade Católica de Eichstaett-Ingolstadt (Schoener, s.d.), centrada no conceito da reconstrução da narrativa histórica por camadas. Os investigadores partem da ideia que a mensagem transmitida pelo livro é transmitida em diferentes níveis: do mais superficial até ao mais profundo. Por isso reconstroem a narrativa à medida que caminham do primeiro nível
123 para o nível mais avançado. Para o propósito deste estudo a camada mais interessante deverá conter dois aspectos importantes:
a) o complexo dos agentes da narração, ou seja quem ou o que o autor vê como condutor ou força que age, por um lado, e que move processos e provocam acontecimentos históricos, por outro lado.
b) o interesse que o autor procura desenvolver olhando para o passado sob um determinado ângulo. Para identificar o tipo de interesse do autor parece ser suficiente identificar as situações ou processos em que os principais agentes/forças da narração se encontram envolvidos.
O tratamento dos manuais de História foi realizado segundo as indicações elaboradas pelos pesquisadores do Georg Eckert Institute for International Textbook Research (Braunschweig, Alemanha, www.gei.de) envolvidos na investigação dos manuais escolares de todo o mundo, nomeadamente, Pingel (1999, 2007).
Subsidiariamente, foi usada a análise textual, através da tipologia da narrativa de autoria de Diniz, (1998) e a análise do tom da narrativa e do papel da linguagem de Foster e Nicholls (2004).
Assim, na nossa análise dos livros escolares de história dos anos 1973-1979 na URSS que se baseia no conjunto de técnicas denominadas de análise de conteúdo, foi dado relevo aos seguintes aspectos, cujo objectivo visa identificar as características do perfil identitário do “Homem Soviético” inculcado aos alunos nas aulas de História: a apresentação formal do livro e do texto;
a contribuição dos indivíduos e personagens-chave, com ênfase na suas características, papéis, atitudes, comportamentos e actividades;
delinear o perfil da identidade colectiva soviética e a forma como esta é apresentada nos livros de história da União Soviética.
as mensagens veiculadas no texto do manual de História.
Com a finalidade de aplicar uma metodologia de análise de conteúdo aos manuais escolares já referenciados, foram definidas as principais categorias em torno de vários eixos de análise. Com a ajuda deste instrumento, pretende-se encontrar, nos conteúdos dos manuais de história, os traços de uma proposta identitária ligada ao arquétipo de cidadão “Homem Soviético”.
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O primeiro eixo vai no sentido de definir o complexo dos protagonistas ou das personagens referidos no texto dos manuais, e envolvidas em diferentes situações e implicadas na realização das acções e nas articulações dessas acções, nos contextos em que estão inseridas. A finalidade desta categoria Personagens é a de permitir o estabelecimento de “biografias” ou “perfis”, constituídos a partir da interpretação fornecida ao leitor pelo autor. Nesta lógica, a personagem é tomada como uma primeira realidade a partir da qual procura levar-se a análise ao termo de chegada – o perfil do ideal de identidade colectiva “Homem Soviético”. Para proporcionar uma acumulação de dados, pretende-se identificar os papéis desempenhadas por cada personagem, o
contexto em ocorrem as suas acções e caracterizar o tipo de relacionamento que esta desenvolve com grupo em que se integra.
Num segundo eixo, achou-se conveniente distinguir as personagens presentes nesse texto segundo o conjunto de critérios usados pelos autores para a avaliação das personagens, com o objectivo de observar como e em que sentido se desenvolvem as figuras dos protagonistas, que mensagem valorativa transmite este processo, tomando como base a argumentação dos exemplos e das lições do passado. Procura-se assim identificar tipos de personagens com características e comportamentos distintos, de modo que, com base nessa tipologia, seja possível identificar as mensagens que os autores dos livros passam através dessas figuras. A tipologia resultou numa categoria
Tipos de personagens com duas dimensões: nós e eles, visando distinguir as suas características valorativas a dois níveis: ao nível explícito, correspondente aos valores que se pretende enaltecer e incutir de forma intencional e directa, e ao nível implícito, quando a sua valorização é negada.
O terceiro eixo visa traduzir estes valores em atitudes e comportamentos concretos de personagens das narrativas dos livros em análise, que dá origem a categoria Atitudes e modelos de comportamento, que abarca o comportamento para com
o grupo de pertença, que em atenção as relações na base das intenções e objectivos comuns e apoio mutuo e para com outros, que abarca as relações de distância, de posicionamentos diferentes, julgados a partir das percepções da personagem, assim como atitudes perante diferentes actividades ou aspectos da vida, como o trabalho, o futuro.
125 Finalmente, o último eixo tende completar a análise olhando para o texto dos manuais de história como uma narrativa, usando para este efeito duas categorias: ênfase da narrativa e estrutura da narrativa.
Para a elaboração da análise em torno da primeira destas categorias, tomou-se como base a teoria do dialogismo de Bakhtin, segundo a qual tudo o que autor escreve, faz sentido não só em função dos temas, mas também em resposta a enunciados dos outros; ou seja, está orientado para os seus destinatários (Bakhtin, 1992, p. 320). Nestas diferentes formas de dirigir-se ao leitor, o autor usa diversas estratégias para identificar aqueles sobre quem o texto fala ou aqueles a quem faz referência. Uma destas estratégias é o da ênfase da narrativa, da focalização pelas características particulares que acentuam uma personagem com a ajuda de diversos procedimentos, como por exemplo uma relação emocional com a personagem. Este tipo de instrumentos serve de suporte à mensagem: as emoções serão canalizadas tornando a mensagem mais convincente. A palavra, segundo Bakhtin, “funciona como elemento essencial que acompanha toda criação ideológica, seja ela qual for” (Bakhtin, 1997, p. 38).
Outra estratégia diz respeito à construção do texto. Parte-se do princípio de que a construção da narrativa pode ser em forma de Não-ficção e em forma de Mitificação. Por não-ficção entendem-se os excertos de narrativas históricas, os factos quotidianos, acontecimentos de existência real, assim como o conteúdo biográfico relativo às grandes figuras, cujo exemplo é utilizado para construir uma certa forma de identidade colectiva e promover as atitudes consideradas correctas e desejadas. Por mito, entende- se uma narrativa ou imagem de significação simbólica, transmitida e instituída através dos processos de educação e de socialização de geração a geração, considerada verdadeira ou autêntica dentro de um grupo. Se, como formula Girardet (1989), uma história contada, repetida e reelaborada é o que dá corpo e substância ao mito, procura- se identificar nos manuais de história em análise os mitos em que a proposta identitária desses livros didácticos assenta e como estes mitos são veiculados, tornando as características identitárias mais convincentes.