Em 1934 foi possível restabelecer o ensino da História como disciplina autónoma, deu-se início à elaboração dos conteúdos desses manuais que deveriam obedecer aos objectivos político-ideológicos da educação das gerações jovens e proporcionar o retorno ao esquema de ensino da História definido e defendido por Karamzin.
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Esta preocupação do Estado com a História62 e com o seu ensino tinha inevitavelmente uma justificação: a situação geral do país tinha mudado significativamente, depois dos anos 20. Fora da URSS, pesavam sobretudo dois factores – um deles residia no facto de ter sido perdida a esperança numa revolução mundial, pelo menos no curto prazo, e outro ligava-se à ameaça da deflagração de uma guerra, que estava bem presente depois de Hitler ter tomado o poder na Alemanha. No respeitante aos factores internos relevantes, é de realçar, em primeiro lugar, a perigosa e crescente influência do culto da personalidade de Estaline que, entretanto, avançava com a teoria da “construção do socialismo num único país” e em segundo lugar a afirmação crescente da componente patriótica da ideologia oficial63. Estas alterações na perspectivação do futuro da URSS, resultantes sobretudo da situação política internacional, levaram Estaline a tornar-se um defensor da ideia de um Estado forte. A visão da História apresentada no manual de Pokrovsky era agora, de todo, inaceitável para o poder instituído. Era necessário um novo enfoque do trabalho histórico que realçasse a grande herança, poder e tradição da Rússia e da civilização russa, os seus grandes líderes e heróis nacionais como Pedro o Grande, Catarina a Grande e outros que contribuíram para a construção do Império Russo.
Em 1934, foi organizado um concurso para novos manuais escolares que sublinhava a necessidade de encontrar no manual de História da URSS a demonstração da criação do núcleo do Estado nacional russo, o papel positivo dos heróis nacionais na luta contra os invasores estrangeiros pela libertação e pela criação do um estado forte, da importância progressiva do papel do poder estatal centralizado e da adesão voluntária da Geórgia, da Ucrânia e outros países à Rússia para formar a URSS. O próprio Estaline acrescentou alguns detalhes, tal como a interpretação da tirania do Ivan “O Terrível”, à qual foi atribuída uma importância progressiva como medida necessária em prol de fortalecimento do poder centralizado e, consequentemente de um estado-nação forte. As exigências formuladas vagamente no que dizia respeito à ruptura/continuidade com o passado não permitiram a nenhum dos concorrentes ganhar o 1º prémio:
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Em 1930, na URSS foi criado o Instituto Histórico-Arquivo, facto que também testemunha a importância de que os bolcheviques davam ao seu poder sobre a história (Kamensky, 2000).
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Todos estes factos levaram a partir de 1935-36 a aumentar o número de horas semanais do ensino da História de 14 a 21 (Suny, 2003).
99 Os historiadores deviam apresentar a história do povo russo e do estado pré- revolucionário de uma forma positiva mas não demasiado positiva, para que não ensombrasse a importância da conquista do período soviético (Tikhonov, s.d., p. 3). A Revolução de Outubro e a Guerra Civil foram reescritas: os nomes da maioria dos revolucionários foram votados ao esquecimento, enquanto eram introduzidos relatos de acontecimentos que não constavam na verdade dos factos históricos64.
Como resultado deste trabalho foi publicado, em 1937, o primeiro manual “Breve curso da Historia da URSS” que foi recomendado como livro oficial, tendo permanecido assim até 1956. No entanto o esquema sob o qual tinha sido concebido sofreu algumas alterações em função dos acontecimentos da II Guerra Mundial, principalmente nos tempos mais sombrios entre Junho de 1941 e Julho de 1942, marcados pelas derrotas infligidas ao “Exército Vermelho”. Apesar da importância atribuída às ideias e aos valores do marxismo-leninismo na sociedade em geral e no sistema de instrução em particular, neste período, a relevância foi atribuída à educação patriótico-militar, tornando-se a História65 uma das grandes apostas da propaganda soviética66. A máquina de propaganda do Estado contribuiu de forma eficaz para que o desenvolvimento da identidade soviética se alicerçasse numa combinação do nacionalismo e patriotismo russos: a Guerra Mundial começou a ser conhecida como “A Grande Guerra Patriótica”, para salvar não tanto o sistema comunista como “a Mãe Rússia, a nossa Pátria Histórica”. A “Internacional”, como hino da URSS foi substituído pelo hino nacional, as próprias palavras “União Soviética” e “comunismo” apareciam com menos frequência e eram substituídas por um vocabulário menos político e mais patriótico (Overy, 1999). Estaline, no seu primeiro discurso radiofónico nas primeiras semanas da Guerra, trocou a referência habitual aos “camaradas comunistas” pela referência aos “irmãos e irmãs”, quando se dirigiu ao povo da URSS (Gevurkova & Koloskov, citados por Zajda, s.d.).
64 Não é por acaso se dizia: “Nada é mais imprevisível do que o passado da Rússia”.
65O regime utilizou também outras estratégias e técnicas de propaganda com muito sucesso, tais como, a
literatura (Simonov, Sholokhov), a música (Prokofiev, Shostakovich), o cinema (Eisenstein) que sinalizaram uma mudança no pensamento na URSS do comunismo internacional para a consciência nacional, para os valores tradicionais e para o patriotismo russo (Billington, 1970).
66 A propaganda e manuais escolares nos regimes totalitários andam juntos. Por exemplo, num dispositivo
da propaganda primitiva, os revolucionários e as batalhas da guerra substituíram as habituais maçãs e as bananas nas contas de aritmética no manual escolar em Cuba em 1962 (Miller, 2003a).
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As mudanças ocorridas nos livros escolares durante este segundo período foram registadas principalmente no sentido de acrescentar nos manuais conteúdos com o objectivo de reforçar a educação patriótico-militar dos alunos. Era atribuído um maior relevo às questões da tradição lutadora dos povos da URSS, às suas lutas contra os invasores, às histórias sobre as guerras de libertação, à comunidade dos destinos dos povos da URSS, da amizade e cooperação entre eles, às façanhas dos grandes heróis que marcaram a história, a sua vida e morte pela pátria e/ou pela ideia, da sua sobre-humana resistência ao inimigo67.