5. TÜRK CEZA KANUNUNDA DÜZENLENEN ĠNSANLIĞA KARġ
5.1 Türk Ceza Kanununda Düzenlenen Ġnsanlığa KarĢı Suçlar
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Breve histórico do caso 1: Clínica de Olhos Guedes
Dr. Armando, médico oftalmologista, casado, pai de três filhos, possuía um consultório em São Cristóvão, de onde tirava o sustento de sua família. Dois de seus filhos estudaram medicina e optaram pela mesma especialização do pai.
Quando a filha mais velha, Dra. Viviane, voltou da pós-graduação nos EUA, em 1999, Sr. Armando decidiu abrir um outro consultório na Barra. Três anos depois, quando o filho mais novo, Dr. Jaime, juntou-se a eles, decidiram abrir um centro cirúrgico oftalmológico também na Barra.
Dr. Armando trabalha exclusivamente em São Cristóvão. Já os filhos se revezam entre São Cristóvão e Barra, respondendo a filha pela área clínica e médica da empresa e o filho pela área administrativa e contábil.
Desde a entrada dos filhos, seus negócios progrediram muito. Na história da empresa, todos tiveram um papel fundamental: o pai, pela iniciativa e por ser a fonte de inspiração dos filhos; a filha, na conquista da nova clientela na Barra; e o filho, na modernização da gestão da empresa, buscando convênios com planos de saúde.
Embora os dois filhos afirmem que o pai já está passando o comando da empresa para o filho, em caso de qualquer desentendimento entre os filhos no que se refere à clinica, ainda é o pai quem decide e sua decisão é incontestável. Segundo a filha, ele é o “chefe do clã” e ninguém jamais iria contra uma decisão dele, pois o respeitam muito.
Vale lembrar que, apesar de se encontrar no estágio de transição de comando entre a primeira e a segunda geração, a Clínica de Olhos Guedes já se encontra em estágio avançado de profissionalização, pois possui um contrato social, que estabelece participação societária de 10% sobre o faturamento bruto para cada filho, possui funções e responsabilidades definidas e, em breve, irá admitir na sociedade um médico não pertencente à família.
08/11/2006 - Entrevista com Dra. Viviane Guedes
Entrevistadora: Boa noite. Hoje é dia 8 de novembro de 2006 e eu estou no consultório da
Dra. Viviane Guedes para entrevistá-la
Dra., qual o seu grau de parentesco com as pessoas que trabalham aqui na clínica?
Dra. Viviane: Eu trabalho com o meu pai, fundador da clínica, Armando Augusto Guedes,
e o meu irmão mais novo, Jaime Guedes, também sócio.
A condição para trabalhar aqui foi de que era preciso ser médico e, em se tratando de uma clínica de olhos, ter especialização em oftalmologia. Tanto é que meu irmão do meio, advogado, não poderia trabalhar aqui, por especificação do nosso contrato social, que só permite sócios médicos oftalmologistas.
Meu pai começou com um consultório em São Cristóvão, onde eu e meu irmão também trabalhamos. Depois, com a clínica da Barra, no Downtown, na época em que eu voltei do EUA, e, mais recentemente, abrimos um centro cirúrgico também aqui no Downtown.
Agora, nós estamos abrindo um novo negócio, com um sócio que não é da família, um amigo do meu irmão de muitos anos, uma pessoa que é quase da família.
Eu tenho participação de 10% do faturamento bruto da sociedade e meu irmão, além dos 10% , ainda deveria ganhar 15% pela administração do centro cirúrgico.
Entrevistadora: Você achou justo? Dra. Viviane: Sim.
Entrevistadora: Qual o seu cargo?
Dra. Viviane: Além de médica, sou a diretora técnica da clínica. Eu cuido mais da parte
médica e clínica e respondo por qualquer problema da área. A parte administrativa e contábil é feita pelo meu irmão. O meu pai já passou quase tudo pra ele.
Entrevistadora: Há quanto tempo você trabalha aqui?
Dra. Viviane: Desde que voltei dos EUA, em 1999. São 7 anos. Entrevistadora: Antes disso, você freqüentava a clínica?
Dra. Viviane: Nada oficial. De vez em quando, eu vinha fazer um teste de lente de contato
num paciente e acabava passando um tempinho observando, mas não trabalhava aqui. Era uma coisa esporádica.
Dra. Viviane: Sim. Trabalhei um ano no IBOL – Instituto Brasileiro de Oftalmologia, em
Botafogo, e como voluntária no Instituto Benjamin Constant, que é público.
Entrevistadora: Qual o seu grau de instrução? Dra. Viviane: Tenho doutorado pela USP.
Entrevistadora: Dra, a partir de agora, nenhuma pergunta tem uma resposta certa ou
errada. O objetivo deste trabalho é apenas de entender melhor a empresa familiar.
Como você definiria empresa familiar?
Dra. Viviane: É uma empresa em que, por acaso, os sócios são da mesma família. Isto
pode facilitar e, ao mesmo tempo, também dificulta. Passa uma idéia de algo não profissional, em que um é pai, o outro irmão, mas também é muito bom porque existe plena confiança. Eu gosto.
Entrevistadora: O que é diferente das demais empresas? Você nota alguma diferença, por
exemplo, em relação aos outros lugares onde você trabalhou? O IBOL também é uma empresa familiar?
Dra. Viviane: Não. O IBOL tem quatro sócios, sem relação de parentesco.
A diferença é que você mistura casa e trabalho. Existe plena confiança. É como uma continuação da sua casa no ambiente de trabalho.
Entrevistadora: Existe alguma mania, alguma regra, que vocês aprenderam em casa que
trouxeram para o trabalho?
Dra. Viviane: Não.
Entrevistadora: Alguma mania? Por exemplo, papai não gosta disso e gosta daquilo. Dra. Viviane: Quando eu trabalhava em São Cristóvão, ele gostava que eu abrisse a porta
de uma certa forma e tinha de abrir dessa forma, senão ele reclamava. Tem esse lado que numa empresa não familiar, jamais ele conseguiria manter esses trejeitos.
Entrevistadora: E o seu irmão?
Dra. Viviane: Ele sabe que eu tenho um jeito de arrumar a mesa, os aparelhos. O jeito dele
é diferente. Eu percebo quando foi ele que atendeu alguém antes de mim no consultório. E a gente chama a atenção um do outro, o que numa empresa profissional, com uma pessoa que não é da família, provavelmente, ficaria chato.
Entrevistadora: Trabalhar numa empresa familiar é melhor ou pior do que em outras
Dra. Viviane: Eu gosto mais de trabalhar em família. Aqui eu sei que eu estou investindo
numa coisa própria e lá eu seria sempre empregada.
Entrevistadora: E para a empresa? Para o seu pai e o seu irmão?
Dra. Viviane: Isso você teria que perguntar a eles. (Risos) O meu pai já está se afastando,
passando a tocha.
Entrevistadora: Você acha que o seu pai fica feliz em ver você e seu irmão continuando a
obra dele?
Dra. Viviane: Com certeza.
Entrevistadora: E para o seu meio social, para as pessoas que convivem com você?
Os amigos acham que é um trabalho menor?
Dra. Viviane: Os amigos acham que a gente ganhou de bandeja, com menos esforço, mas,
na verdade, tem muita cobrança e muita comparação. Você tem que ser melhor que o seu pai para ser respeitado pelos pacientes e pela sociedade médica.
Entrevistadora: Qual o papel da empresa familiar na sociedade?
Dra. Viviane: O de qualquer outra empresa: dar emprego, pagar imposto.
Entrevistadora: A empresa tem uma rede de relações com outras empresas, que se ajudam
mutuamente? Estas outras empresas são também empresas familiares?
Dra. Viviane: Não. As empresas com que temos relações são os fornecedores, mas não são
empresas familiares. Não existe uma relação de ajuda mútua. Existe uma relação comercial.
Entrevistadora: O que você espera receber ou deixar de herança?
Dra. Viviane: A melhor herança é algo relacionado a trabalho. É eu ter um lugar para
trabalhar e ganhar meu dinheiro e, com meu esforço, poder comprar a casa própria, um carro.
Entrevistadora: Então, você está satisfeita? Dra. Viviane: Sim.
Entrevistadora: Uma crítica que se faz à empresa familiar é a mistura do que se refere à
família e o que se refere à empresa? Nesta empresa, isto acontece? E o que prevalece?
Dra. Viviane: Não tem como separar, até por ser uma empresa pequena. Em expansão, mas
uma empresa pequena.
Dra. Viviane: Não. Mas, a Ângela, minha secretária, já dormiu lá em casa duas vezes. Entrevistadora: Então, há uma relação.
Dra. Viviane: Mas ela foi a única.. Era para facilitar. Ela precisava chegar muito cedo ao
consultório e ia ficar pesado para ela ir e voltar até tão longe. Normal.
Entrevistadora: Freqüentam a casa, participam de aniversários, apadrinham os filhos? Dra. Viviane: Nós moramos todos na mesma casa. Agora, meu irmão está morando numa
parte independente, num anexo à casa, mas se beneficia da estrutura da casa.
Entrevistadora: Como você avalia o papel do Estado em relação à empresa familiar? Dra. Viviane: Embora isso não seja da minha área, porque o meu irmão é quem cuida
disso, eu vejo que são muitos impostos. Você tem empresa familiar e sabe disso. Não há nenhum benefício para a empresa familiar. É difícil. Ainda mais uma empresa pequena. É preciso rebolar.
Entrevistadora: E o papel da escola em relação à empresa familiar? Como os seus
professores e colegas encaravam o fato de a sua família ter uma empresa familiar?
Dra. Viviane: Eu acho que, na verdade, tanto a sociedade como a escola têm a impressão
de que você já tem o futuro garantido.
Entrevistadora: Eles te viam numa situação privilegiada? Alguma vez chegaram a sugerir
que trabalhar em família seria um trabalho menor?
Dra. Viviane: Exatamente. Ela não precisa se preocupar com nada, porque já tem um
emprego, já vai trabalhar com o pai . E não é nada disso. Eu sempre fui excelente aluna, das melhores da classe, tanto no Santo Inácio (Colégio de primeira linha no Rio de Janeiro) quanto na UFF – Universidade Federal Fluminense. E eu ralei tanto ou mais que os meus colegas de turma. Depois fui morar nos EUA e fiz doutorado.
Você nunca se sentiu vítima desse preconceito?
Entrevistadora: Sim. Algumas pessoas quando me perguntam onde eu estou trabalhando e
eu respondo que estou com o meu pai, elas não vêem isso como um trabalho, mas como um hobby.
Dra. Viviane: E na verdade não é nada disso. Você é responsável.
Entrevistadora: É. Eu saio do trabalho e continuo pensando nos negócios. A cabeça não
pára. Ao passo que quando você é funcionário, você cumpre as suas horas, sai dali e desliga. Eu estou sempre ligada
Dra. Viviane: Sim.
Entrevistadora: E foi sempre assim ou no começo você não recebia salário?
Dra. Viviane: É antigamente não. Era complicado. Não era tão profissional como quando
eu era empregada no IBOL, que eu trabalhava minhas horas, recebia e tava tudo certo.
Entrevistadora: O seu pai achava que você não precisava de salário porque já te dava casa,
comida e roupa lavada? Ou então porque achava que ele saberia investir seu dinheiro melhor do que você?
Dra. Viviane: Pode até ser, mas a empresa estava crescendo, ela estava investindo e aí
precisava fazer alguns cortes. Nada melhor do que cortar o salário da filha. (Risos)
Entrevistadora: Você teve que batalhar o seu espaço?
Dra. Viviane: É diferente. Na empresa familiar, às vezes você tem que ceder porque
naquele mês a empresa não está bem. Então às vezes é melhor você não ganhar porque a empresa não está bem. É melhor você não ganhar para a empresa se levantar. É melhor do que você receber o seu salário e prejudicar a empresa. E os lucros lá na frente vão ser muito maiores do que o seu salário.
Entrevistadora: Então, é preciso trocar o certo de hoje pelo duvidoso de amanhã? É
preciso um certo sacrifício?
Dra. Viviane: É, mas a gente sempre acha que vai dar certo. Quem está fora não
compreende que a gente tem que estar disposto a esse sacrifício.
Entrevistadora: E o seu irmão pensa da mesma forma?
Dra. Viviane: Pensa. Ele ainda não está nem recebendo os 15% pela administração do
centro cirúrgico, porque achou melhor investir mais na clínica.
Entrevistadora: E se ele pensasse diferente?
Dra. Viviane: Acho que me daria uma revolta. Mas, eu acho que tem que ser assim. Afinal
de contas, estamos todos no mesmo barco.
Entrevistadora: E hoje você está satisfeita com o seu salário?
Dra. Viviane: Estou. Vanessa, você já me acompanha há um certo tempo. Você sabe que
hoje a situação está melhor, mas ainda não está como eu acho que poderia ser.
Entrevistadora: E, além do salário, o que mais você recebe? Quais são as recompensas? Dra. Viviane: É saber que eu estou construindo uma coisa minha, que está crescendo. Eu
Entrevistadora: Agora, eu vou fazer umas perguntas filosóficas, tá?
O que mais te motiva na vida? Qual o seu maior sonho?
Dra. Viviane: Ganhar na loteria. (Risos)
Entrevistadora: É a sua cara, Viviane. Ganhar na megasena. Eu vou ter que escrever isso
(risos)
Sério, o que você espera deixar para os seus filhos de herança? É a empresa?
Dra. Viviane: Com certeza, eu quero ter uma boa situação financeira, ter conforto para
poder dar conforto aos meus filhos, como os meus pais me deram. Eu quero o que todo mundo quer na vida: sucesso, felicidade, saúde... tudo de bom.
Entrevistadora: Como você se vê?
Dra. Viviane: Eu vejo que eu ainda tenho um longo caminho pela frente. Muito chão pela
frente.
Entrevistadora: Você está satisfeita com a sua escolha de vida?
Dra. Viviane: Estou satisfeita e acho que já comecei a trilhar o caminho certo. Entrevistadora: Quais são os próximos planos?
Dra. Viviane: Pessoais.
Entrevistadora: Nos seus planos, em geral, o que prevalece? Você adiaria um plano de
vida pessoal em nome da empresa, adiaria um casamento, um filho?
Dra. Viviane: Não. Não. Porque já estou com 35 anos. Não está mais na hora de adiar. Entrevistadora: E sobre a história da empresa? Há alguma passagem em especial? Alguma
virada?
Dra. Viviane: Eu acho que a virada foi a vinda pra Barra.
Entrevistadora: E para terminar, o que é bom, mau e feio na empresa familiar?
Dra. Viviane: O bom é a confiança que você tem nos seu sócios. O feio é quando as
pessoas ultrapassam os limites, quando fazem coisas que não fariam com pessoas que não são da família. Acho que as pessoas pensam mais para falar as coisas quando as pessoas não são da família.
Dra. Viviane: Mas, isto é feio em qualquer lugar, independentemente de ser a empresa
familiar ou não. Pode até acontecer na empresa familiar, mas é mais difícil, pela confiança que eu falei.
09/11/2006 - Entrevista com Dr. Jaime Guedes
Entrevistadora: Hoje é dia 9 de novembro de 2006 e eu estou aqui no consultório do Dr.
Jaime Guedes para entrevistá-lo.
Dr. Jaime Guedes, qual o seu grau de parentesco com o fundador da clínica?
Dr. Jaime: Eu sou filho dele.
Entrevistadora: Foi o seu pai que iniciou a empresa? Você participou da fundação? Dr. Jaime: Foi ele que fundou. Eu não era nem formado.
Entrevistadora: Qual o seu cargo? Dr. Jaime: Sócio.
Entrevistadora: Há quanto tempo trabalha aqui na Clínica? Dr. Jaime: Quatro anos.
Entrevistadora: Você teve outras experiências profissionais antes de trabalhar aqui? Dr. Jaime: Não.
Entrevistadora: Qual o seu grau de instrução? Dr. Jaime: Mestrado.
Entrevistadora: A seguir, eu farei algumas perguntas em que não há respostas certas ou
erradas.O objetivo é saber apenas a sua opinião sobre o assunto.
Como você define empresa familiar?
Dr. Jaime: Caramba.
Entrevistadora: O que é diferente na empresa familiar das demais empresas?
Dr. Jaime: A empresa familiar é aquela em que você divide o seu ambiente de trabalho
com os seus familiares. Existe confiança, interação.
Entrevistadora: Trabalhar numa empresa é melhor ou pior do que em outras empresas
para você? As pessoas do seu meio social dão mais valor para quem trabalha em família?
Dr. Jaime: Acredito que sim, que dêem mais valor. Há coisas boas, mas também há coisas
Agora, na área médica especificamente, não faz sentido eu ter seguido a mesma profissão do meu pai, por admiração, ter estudado medicina e a mesma especialidade dele, e não trabalhar junto.
Entrevistadora: Você acredita que a classe médica e os próprios pacientes dão mais valor
à uma família de médicos, assim como acontece com os advogados?
Dr. Jaime: Acredito que sim. Para falar a verdade, eu nem sabia que no meio jurídico
também era assim.
Entrevistadora: Além de trabalhar com a sua família, você teve outras experiências
profissionais?
Dr. Jaime: Sim, eu tenho um vínculo público, fiz um concurso. Entrevistadora: E o que é diferente lá e cá?
Dr. Jaime: Hospital público no Brasil é bastante diferente. Eu não digo entre lá e aqui, por
ser uma empresa familiar, mas entre um hospital público e uma clínica privada. No hospital público falta bastante coisa, não tem os recursos.
Entrevistadora: E para você é a mesma coisa trabalhar lá e aqui?
Dr. Jaime: O que muda é que lá não tem compromissos de pagamentos, funcionários. Entrevistadora: Menos responsabilidade?
Dr. Jaime: Pode-se dizer que sim. Menos responsabilidade enquanto patrão, mas a
responsabilidade médica é a mesma.
Entrevistadora: E essa responsabilidade aqui é sua, né? Dr. Jaime: É.
Entrevistadora: Ontem, entrevistando sua irmã, ela me disse que você é que cuidava da
parte administrativa e contábil.
Pegando este gancho, na sua opinião, qual o papel da empresa familiar na sociedade?
Dr. Jaime: Um papel importante, sem dúvida.
Entrevistadora: A empresa tem uma rede de relações com outras empresas familiares?
Vocês costumam trocar idéias com pessoas que também trabalham em empresas familiares?
Dr. Jaime: Costumo. E todas passam pelas mesmas dificuldades. É interessante isso. Todo
Então, eu acho que isso é uma coisa mais ou menos parecida para todo mundo. Pelo menos, para o pessoal da área oftalmológica.
Entrevistadora: Certo. E essa empresa foi construída pelo seu pai e, pelo visto, ele
pretende deixá-la para você e para a sua irmã. Esta foi a herança que você esperou receber?
Dr. Jaime: Não.
Entrevistadora: Foi mais do que você esperava? Você espera deixar esta empresa para os
seus filhos? O que você espera deixar pra eles?
Dr. Jaime: A vara de pescar. Eu não acho que o pai e a mãe têm que dar o peixe, mas a
vara, a ferramenta, a educação. Com a educação que eu recebi, aqui ou em qualquer outro local, eu teria oportunidades, as portas iriam se abrir.
Entrevistadora: Para você, então, a educação foi muito importante na sua formação. Se os
seus pais tivessem lhe deixado dinheiro e não tivessem dado a oportunidade de estudar, você não ficaria satisfeito?
Dr. Jaime: Com certeza. É preferível ganhar educação, a ferramenta. Você faz um negócio
que você gosta e acaba desenvolvendo o negócio. Vira a noite até de madrugada, porque gosta daquilo e o dinheiro é conseqüência.
Entrevistadora: Você viraria a noite num outro lugar?
Dr. Jaime: A questão não é se é aqui ou em outro lugar. Se eu fosse dono, eu faria,
independentemente de ser em família ou não.
Entrevistadora: Você faria sacrifício de ficar sem receber salário para investir na
empresa?
Dr. Jaime: Se eu fosse empregado, não. Mas, sendo o dono, se eu tivesse uma perspectiva
e vislumbrasse ali uma oportunidade, eu ficaria sim, independentemente de ser em família ou não.
Entrevistadora: Uma crítica que se faz à empresa familiar é a mistura entre o que se refere
à família e o que se refere à empresa. Isto realmente acontece? Os problemas da família influenciam na empresa e vice-versa?
Dr. Jaime: Eu acho que influencia. É misturado, até porque lá moramos os três juntos.
Então, eu acho que este fator influencia ainda mais.
Entrevistadora: Fora da empresa, vocês mantêm relações pessoais com os funcionários?
Freqüentam a casa ou vão a festas?
Entrevistadora: Como você avalia a postura do Estado em relação à empresa familiar? Dr. Jaime: Eu acho que é indiferente.
Entrevistadora: E na escola, seus professores e colegas como encaravam o fato de seu pai
ter uma empresa?
Dr. Jaime: Eu acho que no país em que a gente vive, eles encaram de uma forma positiva,
como tendo um lugar para trabalhar quando se formar, ao passo que tanta gente tem dificuldade de se inserir no mercado. Se inserir já é difícil, ainda mais ter uma remuneração