5. MALİ TABLOLAR
5.1. Mali Tabloların Tanımı
O PA Emiliano Zapata – MST está localizado no município de Uberlândia e foi criado em 2004 com capacidade para 24 famílias. Para sua criação foi desapropriada pelo INCRA a fazenda Santa Luzia, de aproximadamente 645, 2164 hectares.
Para a análise de suas histórias e lutas, esta tese parte da concepção de que as narrativas dos(as) assentados(as) são memórias que atribuem significação às experiências sociais no momento em que são forjadas (Cf. FENELON et al., 2004; KHOURY, 2001). Com base nisso, é possível compreender os sentidos da luta pela reforma agrária na região em análise, começando com Maria Eleusa Mota, que narra o seguinte: “Em 1999 existiu esse grupo, né, que resolveu fundar o acampamento Emiliano Zapata, pessoas militantes oriundas de vários lugares, Santa Vitória, Ituiutaba, Sacramento. Enfim, juntou toda a militância mais a coordenação [MST] que estava aqui no Triângulo, e resolveu fundar então o acampamento Emiliano Zapata”.76
Maria Eleusa Mota, nesse trecho de sua narrativa, refere-se ao início da luta pela reforma agrária no Triângulo Mineiro por meio das práticas sociais de famílias que passaram a identificar-se como grupo do Emiliano Zapata do MST.
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Quando Maria Eleusa diz que o grupo resolveu fundar o acampamento Emiliano Zapata, aponta para, entre tantas formas de luta relacionadas à questão agrária do país, a ocupação de terra. Essa ação é uma das primeiras e aquela que constitui a identificação do Sem Terra e que, ao mesmo tempo, dá evidência ao conflito agrário (Cf. FERNANDES, 1998b). Compreende-se que essa atitude é uma prática social e política que possibilita à sociedade brasileira conhecer a situação em que se encontram a distribuição e a posse da terra no Brasil. Sobretudo, sob qual relação de forças essas posses se constituem. Isto é, o ato de os trabalhadores ocuparem latifúndios descortina a questão das desigualdades sociais. Assim se obriga, se não toda, mas pelo menos parte da sociedade, ao debate sobre o crescente e histórico mecanismo de enriquecimento da minoria, seja ela nacional ou internacional, detentora da posse da terra nesse país.
Dessa maneira, esses(as) trabalhadores(as), entre outras questões, minimamente cobram e questionam se aquela minoria social detentora da posse da terra cumpre a Constituição brasileira no que se refere aos Artigos 184 e 186 do Capítulo III
Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária, artigos esses resultantes do
enfrentamento de classes no período da Constituinte de 1988. O primeiro artigo citado rege que toda propriedade rural tem que cumprir sua função social, do contrário estará sujeita a desapropriação para fins de reforma agrária. E o segundo rege e ordena os requisitos para que a terra cumpra sua função social.77
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Como analisado por Stedile e Fernandes (1999), há que se considerar que a Constituinte de 1988 não garantiu a vitória dos trabalhadores rurais nas suas reivindicações referentes à questão agrária e à reforma agrária. A Constituição Brasileira rege que, para cumprir a sua função social, a propriedade rural deverá preencher os seguintes requisitos: “I – aproveitamento racional e adequado; II – utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; III – observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV – exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores”. (BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Do Capítulo III Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária). Vale ressaltar que o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA), formado por 54 organizações sociais, luta pela criação do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) para a inclusão de um novo inciso no Artigo 186 da Constituição Federal para limitar o tamanho da propriedade rural. O FNRA criou a Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade de Terra, que visa pressionar o Congresso Nacional para que seja incluído o V inciso no Artigo 186 limitando o tamanho da propriedade da terra em até 35 módulos fiscais, somando-se aos quatro atuais incisos que definem a função social da terra. O módulo fiscal varia de região para região, sendo definido para cada município e respeitando os critérios de proximidade da capital e infraestrutura urbana, qualidade do solo, relevo e condições de acesso. O estado de Minas Gerais possui o maior número de municípios e em alguns deles o módulo fiscal pode atingir 70 hectares. É considerada pequena propriedade o imóvel rural de 1 a 4 módulos fiscais e média propriedade a superior a 4 até 15 módulos fiscais. Entre os dias 01 e 12 de setembro de 2010 foi realizado um Plebiscito Popular organizado pelo FNRA sobre o Limite da Propriedade e votaram 519.623 pessoas. Dessas 95,52% votaram respondendo sim à primeira pergunta: “Você concorda que as grandes propriedades de terra no Brasil, devem ter um limite máximo de tamanho?”. E 94,39% das 519.623 pessoas votaram sim para a segunda pergunta do Plebiscito: “Você concorda que o limite das grandes propriedades de terra no Brasil possibilita aumentar a produção de alimentos
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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 1111:A CONSTITUIÇÃO DOS SEM TERRA NO TRIÂNGULO MINEIRO 60 Sobre a história da luta pela terra no Triângulo Mineiro, torna-se relevante o estudo sobre o PA Emiliano Zapata – MST, porque nele estão assentadas famílias articuladoras desse movimento social do campo a partir de 1999 e que ajudaram a consolidar definitivamente o MST na região. Esse grupo foi composto também, para além do que indica Maria Eleusa, conforme a última transcrição de trecho de sua entrevista, por famílias originárias de várias cidades da região, como Coromandel, Monte Carmelo, Uberlândia, Uberaba e Araguari, e que tinham experiência de trabalho tanto no meio urbano como no rural.
Maria Eleusa interpreta os momentos iniciais dessa luta, ampliando o seu campo de possibilidades históricas:
Agrupando as famílias no, então, pré-assentamento Zumbi dos Palmares [área do MST] aqui em Uberlândia. A primeira ocupação [do grupo Emiliano Zapata] foi na fazenda [...] ah! não estou lembrada agora, mas assim, aqui em Uberlândia, é [...] (pensativa) a primeira ocupação foi na fazenda São Domingos, foi despejado, né! Despejo violento. Depois voltou pro Zumbi. Depois a outra ocupação foi na fazenda Douradinho, teve [...] por volta de três meses, resistimos, com muita pressão da polícia, tinha muito infiltrado lá. E foi, aí na negociação com o INCRA, polícia e fazendeiro, a gente resolveu sair pra aguardar o assentamento definitivo em outra área, que o INCRA prometeu. [...] Nós fomos pro Rio Uberabinha lá na ponte, ficamos acampados na beira do rio, passamos por várias dificuldades, porque lá era impróprio pra ficar com o tanto de criança, [...] presenciamos cena até de assassinato, que era um lugar de banho, que os banhistas iam, de consumo de drogas, muito mosquito, água poluída. Então, assim foi um começo muito difícil! Até que o INCRA com morosidade, que era em assentar no máximo em três meses, isso já estava quase um ano lá, aí resolvemos ocupar a Fazenda Garupa, que
já tinha sido desapropriada pra tal fim [reforma agrária].78
Fica evidente que esses(as) trabalhadores(as) assumiram muitos desafios em prol de uma decisão que era a de conquistar o próprio chão para poder forjar uma vida diferente. O grupo Emiliano Zapata construiu uma experiência de acampamento do MST entre as mais longas da região. Isso significa trabalhadores(as) que viveram mais de seis anos acampados debaixo da lona preta. Sofreram com inúmeros despejos devido à liminar de reintegração de posse concedida ao proprietário pela justiça. E nesse
saudáveis e melhorar as condições de vida no campo e na cidade?”. (BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil -1988). E informações sobre módulos fiscais de pequena e média propriedade disponíveis em: <www.incra.gov.br>. Acesso em: 13 jul. 2011. Consultadas também informações no site: <http://www.limitedaterra.org.br/>. Acesso em: 13 jul. 2011.
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embate fizeram várias outras ocupações de terras que se tornaram necessárias em busca do que almejavam. Despejos, como lembrou Maria Eleusa, seguidos de todo tipo de violência cometida pelas forças contrárias à presença de Sem Terra na região.
Dessa forma, o grupo foi construindo e consolidando as bandeiras de luta do MST na região, sendo as principais delas a democratização do acesso à terra e contra o modelo agrícola do agronegócio. Após a ocupação de terras de outro grupo de famílias do MST conhecido por Zumbi dos Palmares em 1998, a primeira grande ocupação do MST no município de Uberlândia em 1999 foi realizada pelas famílias do grupo Emiliano Zapata.
Na experiência de fundação do grupo Emiliano Zapata, encontram-se trabalhadores(as) que fizeram a ocupação da fazenda Colorado, que originou o acampamento Zumbi dos Palmares. É o caso de João Moura dos Santos, que narra sua experiência expressando interessantes questões:
[...] eu fiquei acampado lá, é, seis meses acampado [Zumbi dos Palmares], mas estava demorando demais, a gente que num tinha assim bem costume, assim, ficou [...] daí também estava apurado lá em casa [Uberlândia] e num estava dando certo não, falei: assim [...] não! Eu vou largar, [...] o Movimento aqui, o Movimento não! Largar esse acampamento aqui, voltar pra casa, vou embora. Fui embora aí que cheguei em casa, [...] quando foi uns oito meses saiu a desapropriação da fazenda [Colorado] lá, né? Saiu e o pessoal ganharam a fazenda, aí quando eles ganhou a fazenda eu falei: Não! Mais puxa! Foi rápido, foi rápido e eu perdi por pouco eu perdi, ué! Num está certo não! Aí ficava na cama, deitava na cama, virava pra lá, virava pra cá, já era pra eu ter ganho meu lote, aí, agora, esquentei a cabeça e larguei e agora saiu a fazenda, e fiquei naquela. Foi quando, completou um ano o pessoal [MST] tornou a sair pro Frente de Massa, que era pra fazer juntar outra turma pra fazer outra ocupação, aí eu falei: Opa! Agora eu num vou [perder] [...] perdi essa, agora essa
segunda eu num vou perder não!79
João Moura dos Santos, após deixar a luta pela fazenda de nome Colorado, no município de Uberlândia, ingressou novamente no MST, encantado com a nova possibilidade e a expectativa criada com os resultados das lutas na fazenda Colorado – o assentamento Zumbi dos Palmares.
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João Moura dos Santos, 63 anos de idade, natural de Itaberaba, estado da Bahia, casado com Eva Lima dos Santos, assentado no PA Emiliano Zapata/MST, integrante do MST desde 1998. Entrevista concedida à autora em 2005, no assentamento Emiliano Zapata.
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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 1111:A CONSTITUIÇÃO DOS SEM TERRA NO TRIÂNGULO MINEIRO 62 Nas narrativas dos assentados foi possível perceber sempre a referência à área Zumbi dos Palmares. São memórias sobre um tempo e espaço cheios de significados:
[...] Zumbi dos Palmares, que na verdade era o primeiro acampamento aqui do Triângulo, então ali, pra nós, era nossa casa, né? [...] terra nossa, terra do MST. Então eles acolhiam nós assim que fosse necessário, por isso nós voltava pra lá e ali ficamos ali uns quatro meses, organizamos outra vez, aí nessa época [final de 1999] tornou o povo [do Emiliano Zapata] tornou ir embora, quase tudo foi embora, aí pronto, desanimaram mesmo, aí quase acabou, virou a zero. Nós voltamos pro Zumbi dos Palmares, voltamos lá em seis famílias [...]
foi de cento e pouco, virou pra seis famílias [...].80
João Moura indica como ele e seus pares organizam-se e como compreendem os significados de cada assentamento conquistado na luta pelo país afora, ou seja, “terra nossa, terra do MST”. As conquistas abrem a possibilidade de novas lutas, já que os militantes Sem Terra organizam os trabalhadores para a ocupação tendo como prática a ajuda de outros assentados ou de outros acampados. Isto é, no princípio da cooperação, as famílias já assentadas ou acampadas permitem que as famílias conquistadas por meio do trabalho de base fiquem nos seus lotes ou, no caso de acampamento, em suas moradias “barracos de lona preta” para, a partir disso, prepararem-se organizando recursos para a alimentação, transporte e outras estratégias do dia da ocupação da terra. Preparam-se assim para organizar a vida e a luta no coletivo no acampamento que irão constituir até a terra sair para assentamento. As narrativas também evidenciam as dificuldades de organização, as tensões nas frentes de trabalho entre os acampados, a desistência de muitos diante as duras condições impostas pelas ocupações de terra e acampamentos.
A prática e costume realizados pelas famílias no então pré-assentamento Zumbi dos Palmares do MST ofereceram a oportunidade de, em março de 1999, iniciar-se o acampamento Emiliano Zapata. E no dia 06 de abril do mesmo ano aproximadamente 150 famílias ocuparam a fazenda de nome São Domingos, no município de Tupaciguara.81
Juarez Moura dos Santos lembra-se desse início da luta e diz: “[...] nós perdemos tanto a [fazenda] São Domingos como a Douradinho que nós passamos. Nós
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João Moura dos Santos, entrevista concedida à autora em 2005, no PA Emiliano Zapata.
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ocupamos e levou um pau danado [...] o primeiro grupo a ocupar [a fazenda São Domingos] foi o MST [...] fomos pra São Domingos e levou um pau da polícia”.82
Importante perceber os apontamentos que Juarez Moura dos Santos, na época com aproximadamente 19 anos de idade, faz sobre o processo de ocupação de uma fazenda. O “pau danado” foi motivado pela ação da Polícia Militar durante a reintegração de posse conseguida pelo proprietário, sujeitando os trabalhadores à violência física e emocional.
Diante o despejo dos trabalhadores, como indicou o senhor João Moura dos Santos (Cf. página anterior), os acampados voltaram para o pré-assentamento Zumbi dos Palmares e, dentro de vinte dias, ocuparam a fazenda de nome Douradinho. Nessa fazenda as famílias conseguiram resistir e permanecer dentro da área por um período de três meses. A partir disso, gerou-se um processo de negociação entre elas e os representantes do Estado, o INCRA/MG e a polícia militar. O acordo feito e não cumprido foi que as oitenta famílias saíssem da fazenda para serem assentadas em outro lugar dentro dos seis meses seguintes.
O assentado Francisco Jubiano de Freitas tratou também desse momento ao narrar como foi a sua ida para o MST:
[...] na verdade eu conheci [o MST] mais através do Bob e o Chico, aí foi que eles fizeram esse convite. Nesse tempo [eu] tinha vindo, estava trabalhando na fazenda, da fazenda saí pra uma padaria, eu conheci ele lá. Aí, pelo convite, eu fui pra lá, de lá nós fez uma ocupação na São Domingo, da São Domingo a polícia tirou mais jagunço [nós] de lá, nós voltou pra Zumbi, foi [ocupação da fazenda] Palma da Babilônia, saímos novamente, aí viemos pra beira do rio, da beira do rio aí foi
seguindo de ocupação a ocupação [...].83
Por meio das narrativas é possível compor o enredo das histórias de muitas ocupações e despejos. Por vezes há alguns desencontros das lembranças sobre a ordem das ocupações entre tantas idas e vindas, mas o importante é que deixaram marcas profundas em suas memórias.
82
Juarez Moura dos Santos, 31 anos de idade, natural de Santo André – São Paulo, casado, duas filhas, assentado no PA Emiliano Zapata. Filho de João Moura dos Santos e Eva Moura dos Santos, está no MST desde 1999. Entrevista concedida à autora em fevereiro de 2012.
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Francisco Jubiano de Freitas, 34 anos de idade, natural de Currais Novos (RN), casado, pai de um filho, deslocou-se para Uberlândia em 1995. Antes de entrar para o MST em 1999, atuou no Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Currais Novos. É assentado no PA Emiliano Zapata. Entrevista concedida à autora em 2011 no assentamento.
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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 1111:A CONSTITUIÇÃO DOS SEM TERRA NO TRIÂNGULO MINEIRO 64 Após serem expulsos, retornaram para o pré-assentamento Zumbi dos Palmares e prepararam-se durante um mês para nova ocupação na fazenda conhecida como “Palma da Babilônia parte 01”. Essa fazenda era dividida em duas partes, estando a segunda já ocupada pelo Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST). Tal fato gerou um novo confronto, agora entre os próprios acampados de movimentos sociais diferentes, já que o MLST não concordou com a ocupação da parte 01 pelo MST – Emiliano Zapata e forçou a saída do grupo do Emiliano Zapata da fazenda.
Maria Eleusa, conforme a última transcrição de trecho de sua entrevista, refere- se à negociação entre os trabalhadores e seus opositores: “E foi, aí na negociação com o INCRA, polícia e fazendeiro, a gente resolveu sair pra aguardar o assentamento definitivo em outra área, que o INCRA prometeu”. Tal negociação na constituição da luta pela terra significa como o Estado tenta liberar fazendas ocupadas para seus pretensos proprietários. No caso dos trabalhadores do Emiliano Zapata, a proposta do poder público foi um acordo entre as partes com promessa de assentamento das famílias em outra fazenda. Assim, elas decidiram retirar-se e esperar acampadas na beira do rio Uberabinha no município de Uberlândia.
A promessa não foi cumprida e, vivendo sob condições desumanas, as famílias do Emiliano Zapata – MST resolveram fazer a sua 4ª ocupação na fazenda Garupa, município de Uberlândia, segundo os entrevistados, cientes da sua improdutividade. Esse processo histórico traz como evidência a persistência e a resistência dos trabalhadores do grupo Emiliano Zapata, já que o proprietário da fazenda fez de tudo para comprovar a produtividade da terra ao pedir à justiça um segundo laudo de vistoria do INCRA.
Importante analisar que esse processo significou de forma emblemática a força do agronegócio nesse município e região como todo. De acordo com Mota (2010) e os entrevistados do PA Emiliano Zapata – MST, o dono da fazenda Garupa conseguiu o apoio do Sindicato Rural de Uberlândia (SRU) e, junto aos outros fazendeiros da região, conseguiu uma grande quantidade de cabeças de gado para colocar na fazenda durante a noite antes que os técnicos do INCRA fizessem a segunda vistoria. Numa evidente disputa de poder com os acampados, os ruralistas da região fizeram da fazenda Garupa o símbolo de sua força.
A propriedade rural Garupa tornou-se uma questão de honra para os fazendeiros da região do Triângulo Mineiro, que não admitiam (e ainda não admitem)
ameaças a suas propriedades rurais, e cujo proprietário usou, segundo entrevistados, de meios duvidosos para derrubar o primeiro laudo de improdutividade.
Sobre esse momento da luta pelas terras da Garupa, Jonas Batista Nunes analisa que:
[...] lá Garupa foi o judiciário [...] contra nós pela influência da fazendeirama da redondeza e eu acho que mais pelo fato do fazendeiro ser maçônico, aí o pessoal maçônico ajunta todo mundo pra causa deles. Nesse caso aí, eu sei que no meio desse processo o maçônico tem muita força na sociedade, principalmente no meio dos ricos, né? E aqueles fazendeiros da região ali da redondeza dizem que num queria pobre no meio deles, era o boato que eles num [...] queria, eles eram contra essa desapropriação da fazenda [Garupa], porque num queria essa pobreza no meio deles lá [...] outros problemas foi o INCRA também era um dos culpados, porque lá chegou sair decreto de desapropriação, estava em negociação, nós passamos lá onze meses [...] só que o fazendeiro falou muitas vezes pra nós: ‘quem está enrolando vocês é o INCRA, não sou eu, porque se o INCRA me pagar eu desocupo a fazenda amanhã pra vocês, assim que o INCRA me pagar o que foi negociado Mas o INCRA não me paga, como que eu vou entregar?’. Como o tempo foi passando, o INCRA enrolando, enrolando, o fazendeiro nunca que recebia as tal das TDA’s [Títulos da Dívida Agrária] não eram liberadas, o fazendeiro mudou de ideia e entrou com ação, aí o judiciário deu causa a favor [...] foi na época do governo do Fernando Henrique, isso foi [em] 2000 e deu ganho de causa pro fazendeiro, o Helito Militão, lá de Belo Horizonte. Ele assinou e como a PM [Polícia Militar] não podia, que naquela época tinha o problema que o Itamar [Itamar Franco governador de Minas Gerais na época] [...] não permitia que a PM fizesse o despejo, aí eles puseram a Polícia Federal, quem despejou nós da Garupa foi a Polícia
Federal.84
Maria Eleusa Mota também narrou sobre esse período, destacando o seguinte:
[...] Mas foi mais doloroso no sentido da perda emocional dos trabalhadores, que ali [fazenda Garupa] eles sentiam que a terra era nossa, né? Porque laudo improdutivo, desapropriada. Então uma expectativa assim, a terra é nossa, tinha esse sentimento de posse. Então quando isso se quebrou, os trabalhadores não aceitaram. A gente nota muita mágoa! Até depois mesmo, nós já estávamos aqui [PA Emiliano Zapata], a gente sentia esse sentimento de mágoa nas pessoas, né? Eu sei que o meu pai morreu com essa mágoa, não era